José Ilson Silva de Lima (conhecido como Ilso - filho, 22 anos) Sebastião Silva de Lima (filho, 21anos)
José Silva de Lima (filho, 18 anos) Reis Silva de Lima (filho, 15 anos) Zenaidia Silva de Lima (filha, 25 anos) Sebastião Lima da Rocha (genro, 34 anos) Tiago Silva de Lima: (neto, 3 anos)
62 Os regatões compram produtos agroextrativistas dos moradores das margens do rio Purus e vendem
mercadorias. As transações podem ser feitas em dinheiro ou através dos produtos oferecidos por cada parte. É comum o adiantamento de mercadorias pelos regatões aos seus fregueses, que contraem dívidas com os primeiros.
Da esquerda para a direita: Sebastião, Ilso, Reis, Diva, Dico e José.
Raimundo Evaristo de Lima (Dico) nasceu em 10 de maio de 1965 no seringal São José. É filho de Seu Arlindo, e casado com Diva Rodrigues da Silva. Os dois brincavam juntos quando eram crianças e, segundo Dico, “um dia a brincadeira ficou
séria”. São casados há mais de 25 anos. Moraram com os pais de Dico até que
puderam construir a própria casa. Viveram sempre junto dos Rocha. Dico foi seringueiro, e conta que quando pegou as estradas de seringa que o pai passou para ele ninguém mais pagava renda. Quando perguntei a ele “você nunca teve aquele tipo
de patrão, de pagar renda?”; Dico respondeu: “não, nosso patrão era o Raimundo Rocha, porque ele negociava no rio e a gente comprava mercadoria dele.”
Diva Rodrigues da Silva nasceu em 28 de março de 1972, no seringal Manitiã. Mudou-se para o seringal Liége junto dos pais quando era criança. Seus pais nasceram em seringais do Purus que ficam no território da atual Reserva Extrativista Arapixi. Diva não sabe onde seus avós nasceram, mas sabe que eles eram seringueiros e trabalharam nos seringais Capana e Liége.
Zenaidia Silva de Lima nasceu em 26 de novembro de 1986, na colocação São José. Mora com o marido na casa dos pais, mas planeja mudar-se, quando puder, para um local ao lado da casa paterna.
Sebastião Lima da Rocha nasceu em 14 de maio de 1977, no seringal São José. É filho de Luiz Lima da Rocha. Morou com o pai até casar-se com Zenaidia. Mora com a esposa na casa dos sogros, mas planeja construir uma casa própria.
A seguir transcrevo algumas memórias de Diva:
Sempre teve confusão com os procuradores da terra, no Liége sempre foi assim, o Liége nunca foi livre. Levaram o pai do Assis, algemaram ele, judiaram dele. Primeiro quem trabalhava era o finado Góes, depois veio o finado Evanã que era contra o pessoal do padrinho Raimundo, não gostava muito deles não. Aí o pai do Assis fazia muita questão com eles aí, aí eles pararam de mexer com seringa, sempre o Evanã botava gente de fora pra trabalhar no seringal. Agora meu pai não, meu pai sempre trabalhava com ele mesmo, ele sempre era amigo dele, cortava seringa, quebrava castanha e sempre vendia pra ele mesmo, desde que a gente veio morar no Liége. O patrão sempre judiava do freguês, sempre foi aquela briga deles, o pessoal
falava que até mandava matar aquelas pessoas que tiravam saldo. Ele não queria pagar, né, mandava matar a pessoa. Porque eu nasci mesmo ali no Manitiã. Meu avô e minha avó da parte de pai moravam no Capana. Agora da parte da minha mãe morava no Liége. Quando meu pai e minha mãe casaram eles moravam no Manitiã.
Aí depois que eles casaram eles vieram pro Liége. Por que as pessoas mudavam
tanto assim? Mudava porque não tava bom de trabalho num canto aí passava a morar em outro lugar pra ver se melhorava. Aí meu pai veio morar aí no Liége
quando eu era pequena, ele trabalhava com castanha, com seringa. Quando a pessoa
queria mudar pra outro seringal o patrão brigava? Não, ele só achava ruim se a pessoa saísse e estivesse devendo, aí não podia sair, tinha de pagar tudo pra poder
sair mesmo, porque senão não saía não. E você acha que eles trabalhavam tipo
escravos, tipo cativo? É quase que sim né, imitando que era porque a pessoa só podia sair se deixasse livre o pagamento, senão não saía não, tinha que pagar pra poder... E tinha gente que desconfiava que a conta tava errada? Desconfiava, muita gente desconfiava porque às vezes aumentava sem a gente saber o que tinha entrado dentro
de casa. Quase ninguém sabia ler? Quase ninguém sabia ler, na casa do meu pai
ninguém sabia ler. Aí tinha que ir com as outras pessoas amigas, os amigos que a gente tinha que sabia ler aí ia vendo a conta da gente... Às vezes a pessoa voltava com o caderno e o patrão dizia que tava certo, que não tinha erro, mas a gente via que tinha erro. Aí brigava com o patrão. Não brigava, só falava com ele né, aí também pra não haver briga deixava... Eu nasci no Manitiã e quando eu vim pra cá
eu tinha uns 5 anos. Aí a gente morava no Liége, desse lado mesmo (da atual
comunidade São José) que a gente morava. Aí quando eu casei que eu passei pro outro lado. Quando eu era criança tinha muita casa perto. Tinha o barracão, tinha a casa da minha avó, a casa do meu tio, a casa do Raimundo Chicó, vixi era um bocado de casa nesse tempo. Tipo uma vila, só que não tinha casa dum lado e do outro, tudo era do mesmo lado. Começava da Batatarana as casas, até perto daqui. Tinha o caminho da gente ir, a gente ia por dentro da mata mesmo. Hoje ainda tem o
caminho da gente ir! Chamava de colocação ou de vila esse lugar? Falava vila,
colocação que a gente falava era no centro. O nome que sempre as pessoas deram era Líége mesmo. No centro não, os nomes das outras colocações tinha né, era
Morada Nova, Água Preta, tinha gente que morava lá cortando seringa lá. Mas tinha
vila ou eram as casas separadas? Era casa separada, cada um no seu local. Meu pai cortava seringa na margem, ele ia e voltava todo dia. Meus tios que cortavam lá no
centro. Meu pai também chegou a cortar no centro. Aí ia e ficava um mês, mais de um mês, aí de vez em quando vinha aqui na margem. Quando juntava quilo, aí ficava
mais dois mês pra juntar de novo. Tinha uma casa lá dentro e outra na beira. E as
mulheres ficavam todas na beira? Ficavam. Minha tia chegou ir, a mãe do compadre Dinho chegou, várias pessoas chegou ir, mas eu mesmo nunca fui não. Meu pai sempre quando ele ia nós ficava com a nossa mãe na beira.
Aí quando eu juntei com o Dico a gente foi quebrar castanha, eu fui também. Era no verão a seringa e no inverno a castanha?63 Era. E dava pra tirar uma renda
boa? (Nesse tempo eles juntaram dinheiro para fazer a casa onde moram) A castanha
dava uma renda boa como da seringa. Dava menos, a seringa dava mais. Qual
trabalho era mais pesado? Eu acho que é castanha, porque a gente vai carregar
peso. Você carregava aquele peso todo? Carregava. Aí depois de uns quatro anos
vocês foram morar na vila? Foi, aí a gente fez nossa casa lá, encostada da casa do pai dele. Aí morava lá perto a madrinha Cantilha e o Chico Rocha que é avô do Dico, o Zé meu irmão, a comadre Zena, o seu Lulu, o pai do João, o compadre Divaldo que é irmão do padrinho Raimundo e hoje mora em Rio Branco, o Nonato filho do padrinho Raimundo, um tanto de gente, sempre a gente morou tudo junto. As casas que tinha aqui são as mesmas que tinha lá do outro lado. Só que muita gente foi pra
cidade né, a Rosa irmã do Seu Raimundo hoje mora em Boca do Acre. E esse pessoal
foi embora porque a seringa não estava dando mais dinheiro? Foi, porque não tinha mais como viver no seringal. A gente ficou porque não queria sair mesmo, se fosse pensar a gente ia embora porque não dava pra viver, depois que acabou a seringa
ficou difícil. Quando o negócio da seringa começou a ficar ruim? Acho que foi
quando eu só tinha a Vanessa e a Zenaidia. (aproximadamente vinte anos atrás) Foi
nessa época que o Seu Raimundo foi pra Boca do Acre? Foi um pouco antes de eu ter a Zenaidia. Quando ele pegou o Tonho ele ainda tava andando de barco, aí ele ficou uns dois anos na cidade e depois voltou pra cá, pra morar. Ele era regatão, ele vendia as coisas pra gente, quem comprava borracha era ele... mas logo que ele deixou de comprar ia aparecendo umas outras pessoas pra comprar mas logo parou. E era melhor comprar dele que de outros? Tanto fazia né, tudo a mesma coisa.
63 Na sul do Amazonas, chama-se verão os meses de seca (julho a novembro, aproximadamente) e
Por que Seu Raimundo resolveu voltar? Porque a mãe dele morava aí, os irmãos, a família dele quase toda, e aí ele conheceu o daime e através do daime ele
voltou a morar aí, que era pra poder trazer pra nós. Quem não foi pra cidade ficou
por causa do daime? O daime que ajudou a gente a ficar aqui, porque a gente foi tomando daime, foi tendo mais esperança que uma hora a gente ia ter uma melhora né, que ia ter como a gente morar aqui, a esperança da gente era de formar uma
igreja, todo mundo reunido, a família. E você acha que ta começando a acontecer
coisas boas? Eu acho que sim, que depois que a gente conheceu o daime a gente já
teve uma esperança melhor. Você acha que mudou o jeito das pessoas conviverem,
de cuidar da vila? Acho que mudou, assim, a gente nunca teve briga, mas cada vez a gente procurou se unir mais, trabalhar sempre junto, não se separar um do outro. Se um fala que vai embora o outro já fala não, se sair já é ruim, tem que acompanhar,
por isso a gente foi ficando. Quando ficou ruim da seringa como vocês faziam pra
viver? Quando ficou ruim a seringa e a castanha também deu baixa a gente vendia galinha, vendia pato, vendia banana, pra ir comprando um açúcar, um sabão, as
coisas que a gente mais precisava. E comprava do regatão? É, comprava do regatão,
ele ia subindo o Purus, aí a gente comprava aquelas coisinhas mesmo, aí quando ele
baixava a gente já dava aquele pagamento pra ele. Ir na cidade era mais difícil?
Vixi, ir na cidade era muito difícil, porque não tinha como a gente ir. Do tempo que eu fiquei na casa do meu pai até eu casar eu fui em Boca do Acre uma vez. Quase ninguém tinha motor, de remo ninguém num ia.
Casa 7: Raimundo Rocha de Lima (70 anos) e Crecilda Evaristo Bezerra (59 anos)