PRISÃO: INTRAMUROS
2.3. Raio-x do sistema prisional
A proposta desse subitem é fazer um "raio-x" do sistema carcerário brasileiro, entender qual objetivo e o papel social das prisões. Nessa perspectiva compartilhamos o pensamento da autora Torres (2005) que discorre que as prisões são: instituições sociais que servem para causar sofrimento e degradação humana, pelo confinamento e pela punição daqueles que não corresponderam às normas morais e às leis e, por isso foram isolados dos que seguem os padrões da ordem social dominante. Para garantir o controle da “ordem-disciplina-vigilância- segurança”, o princípio da recuperação e de ser "reabilitadora”, “recuperadora”, “ressocializadora”, “reintegradora”, “regeneradora" poderá ser colocada em segundo plano, havendo, portanto uma contradição entre a responsabilidade da punição- intimidação-vigilância e a recuperação, sendo esse um conflito constante no trabalho dos servidores prisionais (TORRES, 2005).
A autora Melo (2014) destaca muito bem um dos objetivos das prisões:
As transformações nas instituições prisionais e no próprio Sistema Penal mudaram e mudam de acordo com a situação econômica da sociedade capitalista, no entanto, apesar dessas, há continuidade que mostra as prisões como um dos pilares de sustentação da sociedade de classes por controlar sempre os indivíduos das camadas populares. Por isso, diferente do que fora disseminado pelas autoridades políticas e de poder, as prisões nunca serviram em vista dos programas de benefício à sociedade e ao preso. Elas demonstram que desde seu surgimento foram ineficazes em garantir os objetivos esperados pelo discurso de proteção da sociedade e fim da criminalidade, ocasionando, ao contrário, cada vez mais injustiças e violências (MELO, 2014, p.44-45).
A prisão e o sistema penitenciário representam uma forma de controle social perverso, que passa pela “criminalização da marginalidade” e da pobreza, ao mesmo tempo em que é uma vitrine para toda a sociedade, com todo o medo e pavor que causa na população.
Nosso recorte de pesquisa é no estado de São Paulo que tem 215 mil presos, em 160 prisões, que comportam no máximo 126 mil pessoas, segundo capacidade
construída18. Mas no Brasil atualmente temos 715 mil19pessoas presas de acordo com Conselho Nacional de Justiça – CNJ, ou seja compomos o ranking da 3ª maior população carcerária do mundo.
Os autores Caiaffo & Torres (2012) fazem uma analise do perfil em comum das pessoas presas no Brasil:
O perfil dos presos não apresenta surpresas para esse período: o censo geral continua apontando a existência prioritária de presos com idades entre 18 e 24 anos, negros e pardos, com ensino fundamental incompleto e sujeito a penas cuja atribuição de tempo é prioritariamente de 4 a 8 anos. O principal grupo segue sendo o dos crimes contra o patrimônio, ainda tendo o crime de Roubo Qualificado uma incidência primeira. Em se tratando de rubricas isoladas, o Tráfico de Entorpecentes segue como o tipo de crime que mais gerou condenações em âmbito nacional. O Roubo Qualificado teve um acréscimo de 18.858 indivíduos e o grupo geral dos crimes contra o patrimônio um acréscimo de 43.379 indivíduos, ou seja, aumentos percentuais de 28,71% e 21,99%, respectivamente. O Tráfico de Entorpecentes, em contrapartida, teve um aumento de 47.940 indivíduos, representando um aumento percentual de 66,95% do total anterior. No grupo destinado à legislação específica de entorpecentes, este aumento foi de 48.373 indivíduos, representando um aumento percentual de 62,52% em relação aos números anteriores. No geral, todos os demais grupos tiveram aumentos mais ou menos significativos. Seguimos com uma esmagadora maioria de brasileiros natos, provenientes especialmente de zonas urbanas do interior ou de grandes regiões metropolitanas (Caiaffo & Torres, 2012, p. 14-15).
Outro dado extremamente relevante para pesquisa foi a denuncia realizada pela Pastoral Carcerária e outros movimentos que são as pessoas presas no Brasil, quais são os crimes que cometeram:
Como se sabe, o Brasil ostenta o nada honroso terceiro lugar no ranking dos países com maior população carcerária no mundo (atrás apenas de Estados Unidos e China), com mais de 700 mil pessoas presas. Entre 1992 e 2012, a população carcerária brasileira
saltou de 114 mil para aproximadamente 550 mil pessoas presas: recrudescimento de 380% (DEPEN). No mesmo intervalo de tempo, a população brasileira cresceu 30% (IBGE). Ao caráter
18 Ver mais em: <http://carceraria.org.br/quando-as-familias-de-detentos-pagam-a-pena.html>. Acessado em: 30. Jan. 2015
19 Ver mais em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-06/populacao- carceraria-passa-de-700-mil-e-deixa-brasil-em-3deg-no>. Acessado em: 22. Maio. 2015.
massivo do encarceramento no Brasil soma-se o caráter seletivo do
sistema penal, expresso na discriminação de bens protegidos e de
pessoas alvejadas: de um lado, apesar das centenas de tipos penais constantes da legislação, cerca de 80% da população prisional
está presa por crimes contra o patrimônio (e congêneres) ou pequeno tráfico de drogas; de outro, apesar da multiplicidade
étnica e social da população brasileira, as pessoas submetidas ao
sistema prisional têm quase sempre a mesma cor e provêm da mesma classe social e territórios daquelas submetidas, historicamente, às margens do processo civilizatório brasileiro:
são pessoas jovens, pobres, periféricas e pretas. A seletividade penal tem ainda outro viés, mais grave e violento: a criminalização
das mulheres. Apesar de o número de mulheres presas
corresponder a cerca de 8% do total da população carcerária, sabe- se que, nos últimos dez anos, houve aumento de cerca de 260%
de mulheres presas contra aumento de aproximadamente 105% de homens presos (PASTORAL CARCERÁRIA, p.3-4, 2014, grifos
dos autores).
Outra questão que a Pastoral Carcerária denuncia é o fato de no Brasil acontecer a punição antecipada, onde as pessoas são presas sem ter sido julgadas:
A todas essas mazelas, adiciona-se ainda mais uma: a violação sistemática do direito fundamental à presunção de inocência. Ninguém ignora que, juridicamente, somente é considerada culpada aquela pessoa que, acusada pelo cometimento de determinado crime, teve direito a um processo justo e a todas as vias defensivas e recursais até que a condenação se torne definitiva. Na prática, todavia, prevalece a punição antecipada, configurada na verdadeira farra das prisões cautelares: cerca de 43% da
população prisional brasileira ainda não tem condenação definitiva! Em outros termos, quase metade da população prisional brasileira é juridicamente inocente! (PASTORAL
CARCERÁRIA, 2014, p.3-5, grifos dos autores).
O percentual de indivíduos encarcerados que não cometeram crimes considerados graves é bastante significativo, o que demonstra um dos lados mais perversos do sistema judiciário brasileiro: a utilização da prisão como (praticamente) o único recurso de penalização e controle social das classes subalternas, apenas 1,2% dos condenados brasileiros cumprem penas alternativas, enquanto 75,8% dos presos cumprem pena em regime fechado, aproximadamente 13% em regime semi- aberto e 2,7% em regime aberto. Nesse sentido, entre os artigos de maior condenação encontramos o Artigo 157 – roubo; o Artigo 12 – tráfico de entorpecentes; o Artigo 155 – furto; e o Artigo 121 – homicídio, o que corrobora a
noção de que o sistema prisional gera apenas ilegalidades de classes subalternas (TEXEIRA, 2007, p.70).
Os pobres são a maioria confinada dentro dos muros das prisões, muitas vezes com o consenso da sociedade, da imprensa, submetidos à desigualdade e a consequente segregação espacial da diferença, tudo em função da segurança das classes privilegiadas, ameaçada, sobretudo, diante da ineficácia do sistema de segurança e da desigualdade social (SERON, 2009).
O regime inicial de cumprimento da pena varia de acordo com o número de anos de reclusão a que o criminoso é condenado (CP, art. 33, § 2°) e com o seu grau de periculosidade, verificado discricionariamente pelo juiz. O requisito objetivo consiste no cumprimento de determinada parcela da pena no regime anterior para possibilitar a progressão. Regra geral: é necessário o cumprimento de um sexto da pena (LEP, art. 112). No caso de crime hediondo ou equiparado, o condenado primário deve cumprir dois quintos da pena, enquanto que o reincidente deve cumprir três quintos (Lei 8.072/90, art. 2°, § 2°, com a redação dada pela Lei 11.464/2007) (MOREIRA, 2007, p.2).
Após analisar objetivo e finalidade da pena e posteriormente, quantos são, quais são os crimes e quem são os clientes favoritos desse sistema, temos que fazer a analise per capita por preso, segundo Silva (2012): a questão financeira decorrente desse aprisionamento em massa de pessoas também merece atenção, no sentido de demonstrar a quantidade de recursos e esforços despendidos segundo a (equivocada) lógica de prender para readequar ao convívio social, que tem como estratégia o ingresso e manutenção de pessoas em estabelecimentos penais:
Custa em média R$ 1.600,00 por mês para manter um preso em estabelecimento penal estadual e R$ 3.200,11 para manter um preso em estabelecimento penal federal. Quando multiplicamos tais valores pela quantidade de presos, se atinge valor verdadeiramente considerável de gasto público e, sobretudo se torna, até mesmo a partir da perspectiva econômica, ainda mais atrativa o desenvolvimento de programas alternativos à prisão, que se têm mostrado mais barato e convivido com índices de reincidência mais reduzidos. (...) O custo de todo o aparato estatal para aprisionar pessoas que incluiria não só as instituições penais, mas também os filtros anteriores (polícia, justiça, p. ex.), corresponde a um montante
desconhecido, mas seguramente significante no orçamento nacional (SILVA, 2012, p. 32).
Retomando ao autor Julião (2012) que também discorre sobre os gastos de cada preso: o custo médio mensal dos apenados no Brasil computando e calculando despesas com alimentação, salários de funcionários, material de limpeza e higiene, água, luz, gás, telefone, combustível, medicamentos, manutenção predial e de equipamentos e manutenção de viaturas, é de R$ 750,00 em alguns estados, alcançando em outros até R$ 1.200,0020 (JULIÃO, 2012, p.143).
Entretanto, segundo alguns estudiosos, como cita Julião (2012) apoiado em Lemgruber, estima-se que esses gastos estão subestimados, pois de acordo com autora:
Não inclui, por exemplo, todos os gastos com os policiais militares empenhados na guarda externa dos estabelecimentos prisionais e na escolta de presos para apresentação ao juiz e encaminhamento a hospitais; à rede de saúde pública no caso em que presos são deslocados para atendimento fora dos muros; os repasses do SUS para hospitais penitenciários; nos estados que recebem tal verba; pessoal, equipamento e demais itens necessários para fazer funcionar as varas de execução penal dos estados e os conselhos penitenciários incumbidos de produzir parecer sobre livramentos condicionais; defensores públicos que atuam nas unidades prisionais; aposentados do sistema penitenciário; compras de material permanente/equipamento; aquisição de viaturas e novas obras (JULIÃO, 2012, p.144).
O artigo 12 da Lei de Execução Penal afirma que a assistência material ao preso e ao internado consistirá no fornecimento de alimentação, vestuário e instalações higiênicas. Segundo o orçamento do estado de São Paulo, de 2014, o valor destinado a esses gastos com cada detento varia de R$ 150 à R$ 41721, mas alguns presos relataram à reportagem que muitos destes itens não são fornecidos pelo Estado e nas entrevistas realizada nessa pesquisa demonstramos também essa perspectiva da falta de assistência material.
20 Os dados apresentados são valores estimados divulgados pelo MJ/Depen em 2008 no Seminário “Sistemas penitenciários e direitos fundamentais” realizados nos dias 16 e 17 abr. 2008 (JULIÃO, 2012, p.143, nota de rodapé do autor).
21 Ver mais em: < http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-06/populacao- carceraria-passa-de-700-mil-e-deixa-brasil-em-3deg-no>. Acessado em: 22. Maio. 2015.
Em 2013, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo levantou os gastos com assistência material que a Secretaria de Administração Penitenciária realizava, obtendo o gasto médio anual por preso de R$18,0022, chegando a casos que beiravam ao valor de R$2,00 em cadeias públicas da Grande São Paulo, sendo aberta ação civil pública contra o estado de São Paulo em fevereiro de 201323 (MELO, 2014, p.132-133). A ação se deu por conta do detalhamento de gastos feito pela Defensoria em 2012-2013. Sobre essa situação, Padre Valdir (coordenador nacional da Pastoral Carcerária) comentou que antes da ação conjunta da Pastoral com a Defensoria, existiam presídios onde a média era de um sabonete e um rolo de papel higiênico por semestre para cada preso.
Os estabelecimentos penitenciários brasileiros variam quanto ao tamanho, forma e desenho. O problema é que assim como nos estabelecimento penais ou em celas de cadeias o numero de detentos que ocupam seus lugares chega a ser cinco vezes mais que a capacidade. Uma pesquisa feita no antigo complexo penitenciário do Carandiru relata que a Casa de Detenção mantinha 6.508 detentos em sete pavilhões diferentes sendo que a capacidade era de 500 detentos. Tamanha irresponsabilidade por parte dos governantes gerou em 1992 a explosão de uma rebelião que terminou na morte de 111 detentos e muitos feridos (CAMARGO, 2006, p.3). No início de 2012, o Estado de São Paulo apresentava um déficit de cerca de 84.000 vagas no sistema prisional24.
Entretanto, por mais que diversos autores abordem um elevado custo destinado a cada preso, nota-se que esses recursos são insuficientes ou não chegam aos presídios. Outro ponto relevante é a escassa quantidade de funcionários nas Defensorias Públicas, nas Varas de Execução e nas unidades prisionais. De acordo com Silva (2010):
A Defensoria Pública de São Paulo, conta com poucos recursos: cerca de 500 defensores públicos para atender a toda a demanda de
22 Disponível em: <http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2013/10/governo-alckmin-deixa- presidios-sem-papel-higienico-absorventes-e-sabonetes-1055.html>. Acessado em: 24/01/2014.
23 A ação civil pública está disponível em:
<http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Default.aspx?idPagina=3016. Acessado em 24/01/2014 24 Ver em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5624192-EI5030,00- Jornal+deficit+no+sistema+prisional+passa+de+mil+vagas+em+SP.html> . Acesso em fevereiro de 2012.
assistência jurídica em todas as áreas de Direito num estado com mais de 41 milhões de habitantes. Apenas para exemplificar, no interior do estado, em 2010, havia um defensor público para administrar o processo de cerca de 15 mil pessoas presas” (SILVA, 2010, p. 3).
Constatamos que uma das causas da superlotação no sistema prisional do país é a escassa assistência judiciária onde os presos não possuem advogado para sua defesa, dependem de um defensor público oferecido pelo Estado onde em alguns casos o “cliente” e o defensor público se conhecem somente no dia do julgamento, não tendo tempo suficiente para o defensor público estudar a defesa do “cliente”. Outros presos conseguem advogado particular, mas não tem condição financeira para pagá-lo e se atrela em outra dívida, como destaca Carvalho Filho (2006):
A desatenção com a liberdade do apenado se inicia pela precariedade quanto ao acompanhamento dos processos judiciais. Por saber que não podem contar com a agilidade e com a eficiência do Estado na sua defesa, muitos presos, mesmo sem dinheiro, contratam advogados particulares, pagando-lhes de diversas formas: seja com a verba conseguida através do crime que o levou a prisão, seja por meio da venda ou doações aos advogados de bens da família como os móveis de suas casas ou as suas próprias casas e ainda através de acordo de pagamentos futuros, em até trinta dias após a soltura. Essa última modalidade de acordo geralmente faz com que eles tenham que reincidir para saldar uma dívida que consideram moral (CARVALHO FILHO, 2006, p.71).
A crítica que tecemos aqui não é só pela quantidade de verba que o Estado disponibiliza com cada preso (R$ 750 a R$ 3.200) ou se essas verbas chegam aos presídios, e sim porque esse montante de dinheiro só é disponibilizado somente no período em que as pessoas se encontram encarcerado. Nossa critica é pelo fato do Estado não disponibilizar uma quantidade equivalente de verba para assistência ao egresso prisional, por esse motivo perguntamos para Assistente Social da CAEF se ela sabe quanto de verba é destinado ao egresso prisional:
CAEF/AS-3: Eu também não sei dizer. Houve uma época que a
diretora "X" tentou fazer o levantamento, me parece que custam apenas 75 reais, é revoltante. Na prisão custam 3.600 reais com cada preso.
Como iremos ver mais a frente o egresso prisional encontra mais dificuldade de se restabelecer, seja por fragilidade nos vínculos familiares rompidos após o encarceramento, seja pela escassa oportunidade para obter emprego; dificuldade em conseguir alugar uma casa; dificuldade para pagar a multa processual; regularizar seus documentos; cumprir com as exigências impostas pela LEP; dificuldades para conseguir vaga em albergues, entre outras dificuldades. Temos que compreender que anteriormente da prisão a pessoa que estava presa tinha dificuldade de se estabelecer financeiramente e por esse motivo pode ter acontecido o ato infracional, após o término do encarceramento ou cumprimento de pena, a dificuldade é mais crítica, tendo muitas vezes que recomeçar do zero e com pouco apoio institucional/público, e muitas vezes sem apoio familiar.
No Brasil, o sistema prisional se organiza em nível estadual, de maneira que o governo de cada estado tem autonomia na realização de reformas sobre a manutenção de cadeias, pessoal e investigação de possíveis abusos, entre outras medidas. Nesse sentido, a implementação de políticas públicas de execução penal fica a cargo de cada estado, sendo importante salientar que a realidade dos internos é homogênea. Como veremos, em sua grande maioria são pobres, com pouca formação escolar, que se encontravam desempregados no momento da prisão, vivendo nos bolsões de miséria das cidades (TEXEIRA, 2007, p.65).