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O dentro mais do que fora

3.4. Ralfo, o anti-super-heró

O romance de Sérgio Sant’Anna foi concluído em julho de 1974; portanto, no auge da repressão política do regime militar. É uma coincidência eloqüente que naquele mesmo ano se estivesse iniciando a peregrinação do estudante secundário Austregésilo Carrano Bueno por diversos hospícios, experiência narrada no livro Canto dos Malditos, que em pleno ano de 2003 foi objeto de uma sentença judicial proibindo sua circulação.220 A trajetória de Ralfo é puramente ficcional, mas as vicissitudes que transformaram o adolescente paranaense, um simples consumidor de maconha, em paciente crônico de instituições psiquiátricas atestam o substrato realista da ficção que denuncia o hospício como microcosmo perverso de uma sociedade autoritária: Austry (como era conhecido pelos amigos) realiza em seu depoimento uma descrição da estrutura manicomial que lhe revela grande lucidez e até certo talento literário. Sua inteligência teimosa, sobrevivente a inúmeras doses de calmantes e às temidas sessões de eletrochoque, serve como ponto de referência para que se afira o conteúdo de realidade por trás da desabusada sátira do hospício contida no Livro VI de Confissões de

Ralfo. O mesmo se diga em relação às memórias de Maura Lopes Cançado (Hospício é Deus)221.

O Livro VI enuncia-se abertamente alegórico. É o Dr. Silvana, diretor do hospício onde se internara o protagonista, quem o declara: “mesmo dentro de um asilo os pacientes acabam por se organizar socialmente em classes ou mesmo em castas”.222 Seria apenas óbvio que aquela “gente segregada da sociedade” formasse uma “sociedade própria e à margem”: o estudo da instituição psiquiátrica (e também da prisões, dos conventos de de outras instituições totais) tem demonstrado sempre isso. Mas o que interessa, no caso, é a reprodução em escala das relações de poder exteriores

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“‘Bicho de 7 Cabeças’ está na Justiça”. Folha de S. Paulo, 18/5/2003, C-1, p. 1.

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Entre os autores dos romances discutidos neste capítulo, Sant’Anna é o único que não viveu a experiência da internação.

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Informam os psiquiatras encarregados de elaborar um relatório a respeito do baile que culmina com a fuga do protagonista do Laboratório Existencial do Dr. Silvana. O relatório especula que a tese “possivelmente seria

ao manicômio, expressa, por exemplo, na diferenciação, mesmo no ambiente de um baile, entre os internos fantasiados de garçons e seus colegas que faziam o papel de convidados de uma “classe mais elevada”, pois os “humildes empregados”, mesmo na teatralidade característica da situação, “não podiam ser tratados como iguais sem que toda a base em que se funda nossa sociedade fosse estremecida”.223 Ou seja, mesmo no baile a fantasia se mantém intacta a divisão de classes.

Como quem fala são os psiquiatras depoentes a respeito do que acontecera no baile, trata-se de um discurso contaminado pela intencionalidade paródica: o escritor quer evidenciar um juízo de classe introjetado na consciência dos internos. Em Confissões de Ralfo, os aspectos especificamente políticos da alegoria são ainda mais marcados do que em Quatro-Olhos. A complexidade da rede de relações fica em segundo plano em favor da oposição entre oprimido e opressor. Mas isso não quer dizer que aquelas relações não sejam postas em cena.

A fragmentação e a heterogeneidade de técnicas narrativas torna óbvia, a princípio, a grande dívida de Confissões de Ralfo com o “não-livro” de Oswald de Andrade, Serafim Ponte Grande. Mais importante, no entanto, é o disfarce assumido pelo ficcionista na criação dessa “autobiografia imaginária”. Informando-se a princípio vitimado por uma espécie de “peste dentro da alma”, o narrador acrescenta que um dia resolvera “exorcizar-se” tornando-se escritor, a fim de “expulsar os morcegos que habitavam meu cérebro”, tendo começado já a produzir um romance quando, alertado por uma frase de Jack Kerouac224, decidira-se a “viver intencionalmente uma história que mereça ser escrita, ainda que incongruente, imaginária e até fantasista”. O narrador, enfim, “cuja identidade não interessa”, resolvera transformar-se em outra pessoa: Ralfo, que com sua existência ficcional viria cancelar a existência real por trás da autobiografia inventada. O embaralhamento de ficção e realidade que isso implica é justificado como a própria essência do livro, pois “não só esta, mas todas as autobiografias são sempre imaginárias e reais”, já que “a realidade é de certo modo uma criação imaginária”. A partir dessa constatação, o narrador defende que “a imaginação e a fantasia são realidades contundentes que revelam integralmente o ser e o mundo concretos em que se apoiaram”.

demonstrada, não fosse o caos espalhado com premeditação por alguém que, podemos supor, forma nas fileiras

anarquistas”. CR, p. 151-152.

223

CR, p. 150.

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“Histórias fabricadas e romances a respeito do que aconteceria SE são para crianças ou adultos cretinos, que têm medo de ler a si próprios num livro, do mesmo modo que temem olhar-se no espelho quando estão doentes ou machucados ou de ressaca ou loucos.” CR, p. 1.

Assim, o romance “trata da vida real de um homem imaginário ou da vida imaginária de um homem real”.225

Lida apressadamente, essa espécie de autoteorização pode parecer fútil. Mas ela se refere diretamente à problematização das articulações do mundo real, considerada por João Alexandre Barbosa como característica comum de toda a ficção brasileira significativa a partir de Machado de Assis.226 Mais ainda, revela a lúcida percepção de que a aparência da realidade não corresponde à essência do real, problema fulcral da representação literária sobretudo depois do embaralhamento produzido pela indústria cultural e pela conseqüente reflexão teórica convergente no conceito de pós-

modernismo.

Como em Quatro-Olhos, a forma literária problematiza aqui as possibilidades do simples

realismo, desdobrando-se em vários ângulos de apreensão da realidade (“aparência do real”, segundo Fabio Herrmann227), a fim de captá-la de maneira mais completa e convincente. O que, no caso de

Confissões de Ralfo, significa também debicar toda e qualquer pretensão ao conhecimento privilegiado

do real; daí o freqüente recurso à paródia. Ralfo sabe que a realidade é polifônica, por isso trata de estilhaçar sua biografia e apresentar-nos “fragmentos selecionados”, admitindo desde o princípio que tal seleção já é “uma forma de deturpar a verdade”. Sendo assim, não promete o que não pode cumprir, contentando-se em “rosnar e arreganhar os dentes, como a fera que se esconde em todos nós”.228

A forma do romance justifica-se, assim, numa intencionalidade crítica. A divisão em nove “livros”, por sua vez subdivididos em 32 segmentos narrativos ou para-narrativos, só é convincente até o limite em que o próprio narrador acredita na possibilidade de ser realista. Ou seja, é uma forma que reflete o ceticismo já expresso no prólogo. O que não significa que o livro não contenha mecanismos voltados para a verossimilhança. Por exemplo, em certa passagem, a interna do “Laboratório Existencial” autodenominada Madame X declara ter resolvido entregar a Ralfo uma parte de seu diário íntimo, o que explica a inclusão dessas notas no romance. Procedimento semelhante é o acréscimo de um pós-escrito à carta de Ralfo a sua mãe, informando que a missiva será incluída no livro que está escrevendo.229

225 CR, p. 1-2. 226 BARBOSA, J. A. (1983). 227 HERRMANN, F. (1997). 228 CR, pp. 1-2. 229 Idem, p. 142.

Assim como os fragmentos do diário de Madame X, a “Carta à Mamãe” é um dos “documentos” que compõem o Livro VI. O terceiro deles é o já mencionado relatório da comissão de psiquiatras a respeito do baile no hospício.

Passemos a uma leitura mais detida do Livro VI. Os fragmentos do diário de Madame X, “Hóspede no. 215 da Ala Feminina do Laboratório Existencial Dr. Silvana”, começam pela notícia da internação do protagonista. A data indica “Dia 151 (aprox.) do ano 27 (aprox.)” de permanência da interna no manicômio. Ela demonstra-se excitada com a presença daquele “homem belo e sensível e de fina educação, embora um pouco maltratado pelas conjunturas da vida”. No dia seguinte, Madame X informa ter tocado para Ralfo uma “valsinha de Debussy”, acompanhada pelo novo interno com “olhar vago e distante”; nessa segunda nota, já figuram elementos do estilo de vida no hospício:

Foi, no entanto, um final lírico para a tarde e que nos fez esquecer o incidente desagradável da hora do almoço: o 94 e o 127 se batendo, como cães, por um reles pedaço de bife. Camisa de força para os dois, é o que o Dr. Silvana prometeu, com muita justiça e propriedade.230

No terceiro dia, Madame X revela a extensão de sua condição de reclusa, refletindo sobre como os costumes do mundo exterior ao hospício devem ter mudado nos 27 anos que calcula ter passado lá dentro. Ralfo é descrito quase como um hippie (ela, naturalmente, desconhece tal palavra):

(...) barba e bigode muito crescidos, além dos cabelos caindo sobre os ombros, o que lhe dá uma aparência mística. (...) O mais estranho, porém, é o vestuário: sandálias franciscanas, uma calça vermelha (um pouco gasta, é verdade) e uma camisa de brim, sem mangas e botões, deixando ver o peito nu coberto de colares e enfeites, como se fosse um índio. Será que todo mundo se traja desse modo informal atualmente? Ou será uma peculiaridade do novo hóspede − peculiaridade esta que pode ter contribuído para o seu confinamento? 231

O protagonista é, pois, um representante da contracultura. Ou seja (remetendo-o ao contexto histórico ao qual se relaciona sua criação), um daqueles milhares de jovens brasileiros rebeldes, muitos dos quais acabaram envolvendo-se na luta contra o regime militar. Suas roupas, naquele contexto, seriam tomadas pelo aparelho repressor como indício seguro de atividades suspeitas, e não por acaso Madame X pergunta se o vestuário poderia ter sido um dos motivos do “confinamento”.

Toda a trajetória de Ralfo, anterior e posterior à temporada no hospício, está a confirmar seu comportamento transgressivo. Ele personifica a revolução permanente; sua rebeldia não se deixa aprisionar por um lugar ou um projeto. Por isso ele não se fixa em nenhuma das situações conquistadas: a partir de seu primeiro embarque “num trem qualquer”, suas aventuras seguem o sabor

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do acaso, dispersando-lhe a vida ao longo de muitos lugares, respeitando apenas o vetor temporal − ainda assim, com sobressaltos no que se refere à continuidade entre os episódios. Seus devaneios subversivos são favorecidos pelo acaso: no vagão-restaurante do trem, já conhece as irmãs Sofia e Rosângela, que o convidam para morar com elas; depois, repórter de guerra, acaba no meio de uma revolução latino-americana; torna-se líder revolucionário e é assassinado, mas sua morte é revertida por uma fantástica ressurreição. Metamorfose ambulante, Macunaíma pós-moderno: o caráter vertiginoso das transformações na vida do protagonista é ditado pelo ritmo da indústria cultural; e o ritmo de suas aventuras vai fazendo-o mais e mais parecido com uma criação do cinema ou das histórias em quadrinhos. Não por acaso, Ralfo acaba em Goddamn City, depois num hospício dirigido pelo Dr. Silvana. A indústria cultural explicita o caráter fictício da realidade, invadindo-a; instrumentos notórios de uma americanização do imaginário brasileiro, o cinema e as histórias em quadrinhos contaminam a “autobiografia imaginária”. E já que se apropria dos signos da indústria cultural, Ralfo também instrumentaliza o lado contestatório da cultura americana: até a utopia revolucionária dos anos 70 aparece filtrada pela contracultura, sendo a aventura de Sierra Maestra, revivida pelos revolucionários de Eldorado, traduzida em termos de um discurso cinematográfico na cena em que o protagonista morre:

E foi uma queda lenta, dramática, expressivamente dramática, como nos dramalhões. Com uma das mãos sobre o peito e o sangue jorrando da boca em golfadas, Ralfo, o Canastrão, foi desabando lentamente, tendo o cuidado de atirar seu corpo sobre o peitoril da sacada, de modo que o cadáver do Guia Provisório de Eldorado, voando os vinte metros que o separavam do solo, caísse nos braços de seu tão amado povo.232

Assim, Ralfo assimila na sua figura o revolucionário cultural e o político, embora sem levar nada disso a sério, o que significaria imobilizar-se numa imagem coerente e, portanto, falsa.

Não se pode esquecer que o protagonista é antes de tudo um escritor, e em sua passagem pelo hospício o caráter revolucionário de seu comportamento está embutido nessa condição. Por isso, logo Madame X fica sabendo que Ralfo está escrevendo uma autobiografia e se enche da expectativa de vir a participar da obra como personagem, pois “Ser personagem é ainda mais emocionante do que ser autor. A menos que se unam as duas coisas numa pessoa só, como no caso de Ralfo.”233 231 Idem, p. 132. 232 Idem, p. 49. 233 Idem, p. 134.

No mesmo trecho de seu diário, Madame X observa que os escritores “são gente muito sofrida e sensível e por isso muitos deles vão parar nos hospícios”, para logo emendar: “Perdão, nos sanatórios”. Mais do que louca, Madame X é uma velha senhora ingênua; o discurso dessa ingenuidade revela paulatinamente ao leitor tanto o protagonista (tal como ela pode vê-lo e interpretá-lo) como detalhes da vida no hospício. Assim é que informa, ao confessar sua vontade de ver-se ao espelho, que eles são proibidos no Laboratório Existencial, pois algum interno poderia quebrá-lo e usar os cacos para cortar os pulsos. É interessante notar que Madame X se trai, chamando os colegas de “pacientes”.234 Parece tratar-se de uma distração do escritor.

Nessa linha do retrato “sociológico” também se inscreve a informação de que, na tarde do terceiro dia como interno, Ralfo já se apresentava despojado da aparência “mística”, revolucionária ou contracultural (ou tudo isso junto, tal como sintetizado no famoso retrato de Che Guevara): tosquiado e uniformizado, ele ficava ainda mais bonito aos olhos de Madame X. Mas a primeira conversa entre ambos, na qual o protagonista questiona o conceito de loucura (“diz-se que um homem é louco em relação a determinados comportamentos referenciais”), leva-a perguntar-se:

Será o Sr. Ralfo um desses subversivos políticos? Ou quem sabe um toxicômano? Pois dizem que os governos de agora trancam os dissidentes nas clínicas psiquiátricas, para sua recuperação ao convívio social. Fala-se, inclusive, em casos de lobotomia não consentida e métodos de recondicionamento. Espero que o sr. Ralfo se comporte direitinho para que não o submetam a tais tratamentos. (...) O caso é que a liberdade não é tema apropriado para um hospício (perdão, para uma clínica).235

É por demais transparente a alusão aos métodos da ditadura militar. Essa metodologia da repressão, de resto constitutiva da psiquiatria desde meados do século XIX, é justificada pelo Dr. Silvana em suas palestras, segundo depõe Madame X, com o argumento de que

(...) mais importante do que a liberdade são a ordem e integridade do corpo social. E que, por outro lado, a liberdade é um fenômeno que se manifesta dentro das pessoas e não nas circunstâncias externas. E o Dr. Silvana afirmou ainda mais: que as circunstâncias são totalmente circunstanciais. O que estará ele querendo dizer com isso? (...)236

O argumento tautológico de que “as circunstâncias são totalmente circunstanciais” lembra o autofechamento do discurso psiquiátrico, o qual só permite que sua ciência seja discutida em seus próprios termos. E, para não se dizer que o escritor falseou o discurso dos médicos, basta

234

E os defeitos de acabamento são uma característica muito comum na literatura contemporânea. Erros de gramática, por exemplo, acontecem tanto em Quatro Olhos como em Armadilha para Lamartine.

235

CR, p. 135.

236

transcrever esta frase do famoso Franco da Rocha, pioneiro da psiquiatria brasileira: “A orientação que domina o Hospício de São Paulo é completamente científica. E basta.”237

Que Ralfo é um herói problemático, não se nega. Mas seu argumento contra o discurso psiquiátrico é muito mais aceitável que os do médico. Madame X anota que o protagonista argumentara neste sentido: se a loucura é definida em função de “determinados comportamentos referenciais” e se “no mundo de hoje não há mais pontos seguros de referência em coisa alguma”, logo “não pode haver loucos”. O silogismo irrefutável é típico dos escritores “loucos” que protestaram contra o autoritarismo psiquiátrico, como Lima Barreto, Austregésilo Carrano Bueno e Maura Lopes Cançado; o discurso dos médicos, ao contrário, costuma ser falacioso ou meramente especulativo. Assim, nesse caso mais uma vez a loucura é posta em questão, do que decorre que Ralfo, conquanto herói discutível, segue sendo inegavelmente herói.

A concepção do hospício como espaço de repressão será claramente enunciada pelos psiquiatras signatários do relatório a respeito do baile no Laboratório Existencial. Segundo eles, “é sabido que nas clínicas os médicos simbolizam a autoridade, os enfermeiros representam o papel da polícia”. Nada mais claro como representação ficcional do que Franco Basaglia chamou “mandato social” da psiquiatria.238 O relatório confirma também o caráter binário da opressão ao tomar como positiva a escolha de muitos internos de se fantasiar de médicos para o baile: “Uma passagem do extremo onde se localiza a loucura para o extremo onde se encontra o setor mais representativo do corpo social, ou seja a autoridade que guarda as instituições.”239

Se o médico é “autoridade que guarda as instituições”, a psiquiatria é a própria figuração reduzida de uma sociedade autoritária, como o Simão Bacamarte de O Alienista. Afirmam os médicos que o Dr. Silvana, por ser a “autoridade máxima no Laboratório”, também é “representante comissionado (...) daquele que tão sabiamente nos governa, que Deus o tenha sempre sob sua guarda”. O relatório parodia certa retórica eufemística típica do regime militar, assumida também, como vimos, por Madame X. Assim é que seus signatários se referem ao discurso contestatório como “certas teorias alienígenas, atualmente em voga, que procuram identificar a própria autoridade à loucura”. Nesse sentido, a fala antipsiquiátrica de Ralfo corresponde à negação do projeto ditatorial pela esquerda. Numa chave mais abrangente, à denúncia do caráter autoritário das

237

Em artigo a respeito do trabalho nos manicômios, citado por CUNHA, M.C. P. (1988), p. 71.

238

“Aceitando nosso mandato social garantimos, portanto, o desempenho de um ato terapêutico que não passa de um ato de violência em relação ao excluído, que nos foi confiado para que controlássemos tecnicamente as suas reações diante do excludente.” BASAGLIA. F. (1985), p. 103.

instituições burguesas, pois, segundo diagnosticou Basaglia, as ações violentas praticadas pela instituição psiquiátrica “remetem à violência global do nosso sistema social”.240

É a Madame X que cabe a maior parte da narrativa neste Livro VI. Da sua segunda conversa com Ralfo, a personagem reproduz uma espécie de teorização, feita por ele, a respeito da criação da loucura pelo próprio ambiente do hospício:

“Mas o que estou falando é que na maior parte do tempo esses loucos se comportam muito mais normalmente do que as pessoas normais. Porque ninguém é tão normal assim. Talvez um sintoma de loucura seja este: a extrema normalidade, proveniente do medo de denunciar-se. Uma normalidade rígida e obsessiva e que é, portanto, anormal. Gestos muito contidos; cuidados exagerados com a higiente; trabalhos compulsivos, como a feitura de romances; moralidade excessiva etc.” 241

Enquanto dinamita o discurso psiquiátrico aos olhos da colega, Ralfo torna-se popular no hospício, onde já “se encontra bem mais à vontade”, gostando de contar aos outros internos as “tremendas aventuras em que esteve envolvido, em lugares distantes” parecendo que “inventava tudo na hora”. Entrementes, as notas de Madame X vão-na revelando cada vez mais fascinada pelo novo interno. Refletindo sobre a lúcida observação deste a respeito do comportamento compulsivo, se pergunta se deveria abandonar o tricô: “Talvez seja isso que eles esperam para me dar alta.” Mas logo se dá conta de que não tem mais tanta vontade de deixar o hospício, pos tem medo de não se readaptar ao mundo exterior. Portanto, o hospício cria uma dependência no paciente e, ao contrário do que seria de esperar, sua “terapêutica” incapacita os internos para o convívio social. É ainda Madame X que explica o motivo dessa dependência:

Isto aqui é tão protegido e seguro, com o Dr. Silvana decidindo por nós aquilo que é bom e o que é mau; o que se pode fazer ou não, e o resto todo. É muito reconfortante e acho que não saberia o que fazer de uma liberdade.242

A interna relata que, sentindo-se culpada por estar apaixonada por Ralfo, resolvera “confessar-se” com o Dr. Silvana, o qual “costuma dizer que este simulacro do sacramento católico (...) é muito eficaz como método de catarse e alívio, além de se tornar um bom ponto de apoio para suas conclusões sobre os pacientes”. Mas o Dr. Silvana ficara furioso e dissera que “uma pessoa da