5.2 Enunciado e enunciação: o caminho percorrido
5.2.1 Rapazes alegres e travestis: um pilar enunciativo
Neste tópico, mostramos como o enunciado sobre o homossexual se apresentou no material coletado. Iremos seguir a ordem cronológica a fim de abordar a forma como a nomeação dos homossexuais se deu, sempre apontado como o jornal os descrevia e quais efeitos de sentido e memórias emergiam com cada forma de tratamento.
Começando pelos anos de 1901 com o termo rapazes alegres, o enunciado nos leva aos estudos de Green (2000), que apontou o termo semelhante utilizado no Rio de Janeiro e São Paulo: moços alegres. Foi recorrente apenas no jornal Folha do Norte e que sofre alteração em 1921, rapazes chics. A semelhança entre esses enunciados estava sempre na ambientação e descrição que o enunciado proporcionava. Podemos resumir que o rapaz alegre ou os rapazes
chics eram sujeitos que, vestidos de mulher, ganhavam as ruas para festejar na época do
carnaval. Esses rapazes eram descritos como brincalhões, como aqueles que zombavam das pessoas, criticando costumes, e que causavam um certo desconforto às instituições, como família e igreja.
A Folha do Norte relata que havia em Belém, em 1921, um bloco chamado “Olha a onça”, que era composto por esses homens. Eles saíam pela cidade fazendo algazarra e debochando de quem eles encontrassem pela rua. O jornal aproveita o nome do bloco e, a partir da enunciação, podemos estabelecer uma relação entre o humor ácido e perigoso dos rapazes
chics, ao perigo das garras da onça. Ao final do texto, o jornal afirma: “Não tenha medo da
onça, nem da pinta que ela tem”, fazendo um jogo de palavras, apontando para os sentidos em torno do coloquial e do cotidiano, em que se emprega o termo “pinta” para comportamento feminino de alguns homossexuais.
Percebemos que nesse enunciado emergem memórias que parecem circular no momento histórico em que ele é produzido. O enunciado constitui um enlace entre a memória do sujeito homossexual com um ser que parece não ser civilizado, cujo comportamento é composto por elementos que são caricatos e que têm essa ligação com o animalesco. O jornal se utiliza da memória sobre os homossexuais para elaborar um enunciado que faz circular ideias do cotidiano a respeito desses homossexuais, usando como estratégia enunciativa o jogo de palavras e a coloquialidade para causar um efeito jocoso.
Seguindo nas constituições dos enunciados encontrados no ano de 1931, há o termo
travesti, que apareceu em nosso material em um texto que mesclava assuntos relacionados com
homossexualidade, informação e publicidade a respeito das festas de Carnaval. O enunciador elabora a enunciação fazendo comparações entre as festas carnavalescas e eventos bíblicos.
O texto começa apresentando o Pará Clube83 como uma das casas mais festivas da cidade, dizendo que o local é tradicional nas festas de Carnaval. Segue relatando que a festa terá músicas “tão retumbantes” como as trombetas de Jericó, numa alusão ao trecho bíblico que narra sobre a conquista dessa cidade pelos hebreus, quando o som da trombeta foi tão forte que fez os muros da cidade caírem. Afirma que até mesmo a Amazônia será pequena para tanta festa, assim como as salas do Pará Clube, para acolher o número de brincantes. Entre os brincantes figuram as “fantasias bizarras” e os “travestis delirantes”.
O modo como o periódico enuncia apresenta o espaço como um local onde acontecem os eventos mais estranhos e diferentes – logo, bizarros – e onde encontramos os homens vestidos de mulher, as travestis, que aparentam estar em êxtase pelo que o carnaval possibilita: um espaço em que os costumes são suspensos, no qual é possível extravasar aquilo que durante o ano é reprimido, o que nos leva aos apontamentos teóricos de Bakhtin (1993) a respeito da carnavalização e da suspensão dos costumes.
Ou seja, nesse enunciado, a travesti é o sujeito delirante, com o ato de se vestir de mulher sendo um ato que remete à loucura de Carnaval, atos em homenagem ao rei Momo, ou deus momo, deus da luxúria e da loucura, como o próprio jornal enuncia. Essa estratégia nos leva a perceber uma proposta de sentido que liga a festa carnavalesca, por consequência, os próprios homossexuais, aos eventos considerados pagãos pela Igreja Católica.
A imagem da travesti é algo que perdura com mais força nas memórias do jornal, pois se tornou o símbolo dos homossexuais, a ponto de a primeira fotografia da Folha o Norte sobre homossexuais dentro do nosso recorte ser a de um homem travestido com muitos adornos, em 1971 (Figura 5). O texto do jornal que estamos destacando fala que, naquele ano, estava proibido que homens travestidos estivessem nas ruas durante o carnaval, só podendo se apresentar em clubes e boates, somente depois de passarem pelos censores, que podiam vetar a apresentação. Era uma portaria baixada pelo regime militar e que seria fiscalizada pela Delegacia de Costumes. No entanto, ao trazer a portaria e, ao mesmo tempo, mostrar uma foto de um homem travestido na rua, o jornal constitui um enunciado irônico a respeito das leis, não correspondendo à realidade da festa de Carnaval. Assim, percebemos que o enunciado reforça a ideia de contravenção a respeito dos homossexuais.
Figura 5 - Folha do Norte, 21 fev. 1971, p. 9.
Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna.
A imagem da travesti perdurará até os dias atuais, sendo a mais forte em boa parte dos enunciados, parecendo representar, na maioria dos textos, os homossexuais. Mesmo quando se fala das paradas do Orgulho Gay, já em 2002, a foto que simboliza o evento foi a de uma drag
queen, que não foi nomeada ou referida como tal, oferecendo ao destinatário apenas a imagem
de um homossexual com maquiagem pesada, travestido de mulher, a memória da travesti (Figura 6). A travesti assume a postura de um símbolo imposta pelos jornais, que pode mudar alguns detalhes, mas que sempre está presente e que representa todo o conjunto, até mesmo com fotos nas quais somente a travesti está sozinha no meio da multidão e fica em primeiro plano.
Figura 6 - O Liberal, 29 out. 2002, p. 10.
Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna.
A imagem da travesti, então, para os jornais pesquisados, é a imagem do homossexual que se estabeleceu na memória, o exótico, o diferente, o sempre mais colorido e fantasiado possível. A diferença entre as imagens apresentadas pode ser estabelecida a partir dos enunciados que as descrevem. Em 1971, a travesti foi descrita como “falso baiano...”, fazendo emergir as memórias do homossexual como o falso, a mulher falsa, o homem falso, aquilo que não é o que parece. Em 2002, a drag queen foi o rosto que representava as 500 pessoas que participaram da parada LGBT. No entanto, essas memórias se cruzam e alimentam o jornal, possibilitando percebermos sobre o sujeito homossexual uma memória cristalizada (HALBWACHS, 1990). Em outras palavras, podemos perceber que a imagem da travesti e dos rapazes alegres são semelhantes, pois ambos estão na rua, travestidos e, de certa forma, causam um desconforto. No entanto, pelo momento, seja o carnaval, seja a parada do Orgulho Gay, é dada a eles uma tolerância para o convívio social.
O texto que melhor ajuda a entender esse enunciado a respeito das travestis foi publicado no dia 10 de janeiro de 1991 no jornal O Liberal. Fala do espetáculo “Selvagens da Madrugada”, que tem como personagem principal Rogéria (Figura 7).
Figura 7 - O Liberal, 10 jan. 1991, p. 5.
Fonte: Biblioteca Pública Arthur Vianna.
O enunciador constitui a imagem de Rogéria descrevendo por meio de adjetivos as características que a diferenciam das demais travestis, dando ênfase a essas características como o motivo do sucesso na carreira. O texto se encontra no caderno de cultura de O Liberal, no canto inferior esquerdo, sem muitos adereços ou atrativos. A foto mostra Rogéria no centro, com elementos que sugerem sensualidade: a posição do corpo, a roupa caída, o cabelo solto e o batom que parece ser de cor forte e chamativa. Ao seu redor, há vários rapazes que vestem roupas de couro com adereços de metal, uma espécie de elemento sexual que remonta à ideia de fetiche pelo couro.
Com o título do texto, “Selvagens da Madrugada: de bom gosto e sem apelação”, o enunciador mostra duas facetas do show: o que tem, o bom gosto, e o que não tem, a apelação.
Esses enunciados são diretamente ligados, pela enunciação, com a própria história de vida de Rogéria. Nesse momento, o enunciador separa a “boa travesti” da “mau travesti”, um efeito de sentido que se posiciona de forma maniqueísta ao descrever o homossexual.
Para descrever Rogéria, o enunciador afirma que ela pode ser definida pelos adjetivos “Debochado. Irreverente. Sarcástico. Alegre”. Adjetivos que poderiam muito bem ser usados para os rapazes alegres do início do século. Ou seja, mesmo o enunciador afirmando que ela era diferente, ele se apoia em memórias coletivas sobre os homossexuais que remontam ao início do século XX.
O enunciado se refere a Rogéria utilizando o artigo “o”, “o travesti”, reforçando o sexo biológico da artista. Esse é um dos poucos textos do século XX a ter uma fala entre aspas, que permite que o homossexual possa falar. O enunciador utiliza o recurso enunciativo de rememorar a trajetória de Rogéria, falando sobre o “nome que nasceu” e a cidade em que mora. Chama ainda o nome de Rogéria de apelido, referindo-se a ela com o adjetivo “travesti-ator”, o que novamente demarca o esforço enunciativo de diferenciar Rogéria das demais travestis.
A ideia de apelo que é expressa no título também foi retomada ao longo do texto. Para o enunciador, apelativo é o nu masculino, que será apresentado no espetáculo de uma forma que, de acordo com ele, faz sentido, daí a chamar de “bom gosto”. O enunciador se coloca numa posição conservadora quanto à ideia de nu, dessa forma posicionando seus destinatários como um público também conservador, culto, que gosta de apreciar a arte e não simplesmente tê-la como artifício para uma desnecessária exposição de sexualidade.
Por fim, podemos perceber que as ofertas de sentidos em tono da imagem da travesti configuram semelhanças com as imagens dos homossexuais que eram descritos como rapazes alegres no início do século. Um enunciado não anulou o outro no final do século XX, já que eles circularam na sociedade e compuseram a memória da época sobre os homossexuais. No entanto, na primeira década do século XXI, a travesti se consolidou como a principal imagem homossexual nos jornais analisados.