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RASTREABILIDADE NA INDÚTRIA DE ALIMENTOS COMPOSTOS

José Paulo Lobo A. Santos

Progado – Sociedade. Produtora de Rações SA - 2005

O regulamento (CE) N.º 178/2002 do Parlamento Europeu de 28 de Janeiro de 2002, que entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2005, também conhecido como General Food

Law, tem como objectivo regulamentar a produção e comercialização de todos os

produtos alimentares independentemente de se destinarem a consumo humano ou animal.

Esta lei rege as questões ligadas à saúde e segurança alimentar e aplica-se a todos os operadores do sector agro-alimentar, incluindo os produtores de alimentos para animais com excepção dos produtores primários de matérias-primas vegetais. No seu artigo n.º 18 são definidas exigências claras sobre a obrigatoriedade da rastreabilidade.

Artigo 18.º Rastreabilidade

1. Será assegurada em todas as fases da produção, transformação e distribuição a rastreabilidade dos géneros alimentícios, dos alimentos para animais, dos animais produtores de géneros alimentícios e de qualquer outra substância destinada a ser incorporada num género alimentício ou num alimento para animais, ou com probabilidades de o ser.

2. Os operadores das empresas do sector alimentar e do sector dos alimentos para animais devem estar em condições de identificar o fornecedor de um género alimentício, de um alimento para animais, de um animal produtor de géneros

alimentícios, ou de qualquer outra substância destinada a ser incorporada num género alimentício ou num alimento para animais, ou com probabilidades de o ser.

Para o efeito, devem dispor de sistemas e procedimentos que permitam que essa informação seja colocada à disposição das autoridades competentes, a seu pedido. 3. Os operadores das empresas do sector alimentar e do sector dos alimentos para animais devem dispor de sistemas e procedimentos para identificar outros operadores a quem tenham sido fornecidos os seus produtos. Essa informação será facultada às autoridades competentes, a seu pedido.

4. Os géneros alimentícios e os alimentos para animais que sejam colocados no mercado, ou susceptíveis de o ser, na Comunidade devem ser adequadamente rotulados ou identificados por forma a facilitar a sua rastreabilidade, através de documentação ou informação cabal de acordo com os requisitos pertinentes de disposições mais específicas.

5. Para efeitos da aplicação dos requisitos do presente artigo no que se refere a

sectores específicos, poderão ser adoptadas disposições de acordo com o procedimento previsto no n.o 2 do artigo 58.º.

54 Mestrado em Engenharia Zootécnica / Julho 2014 Numa cadeia de produção é possível identificar pelo menos dois níveis de

rastreabilidade:

- Rastreabilidade interna i.e. rastreabilidade dentro de determinado processo produtivo. Envolve o registo dos dados relevantes sobre as matérias-primas usadas e processos, de forma a poderem ser ligados com o produto processado em cada fase do processo ou distribuição.

- Rastreabilidade externa i.e. rastreabilidade entre os vários agentes da cadeia alimentar. Incide sobre a transmissão de informação que acompanha o produto entre os vários agentes até ao consumidor.

Os sistemas de rastreabilidade são do interesse do consumidor pois:

 Asseguram maior segurança alimentar permitindo a recolha de produtos em caso de emergência.

 Permitem evidenciar alimentos e suas características relacionadas nomeadamente com factores alérgicos, intolerância alimentar ou estilos de alimentação, permitindo uma real escolha entre os mais variados produtos.

De forma análoga estes sistemas são úteis à indústria agro-alimentar, pois permitem:  Evidenciar a qualidade e legalidade dos seus procedimentos.

 Actuar rapidamente no bloqueio e ou recolha de produtos do mercado em caso de acidente, protegendo desta forma o bom nome dos seus produtos.

 Minimizar o número de produtos a recolher, assim como os respectivos custos.

 Diagnosticar melhor os seus problemas produtivos, reduzindo a produção e distribuição de produtos não conformes.

 Aumentar a confiança do consumidor, permitindo evidenciar produtos por diferenciação do processo produtivo.

A rastreabilidade interna aplicável na indústria de processo é algo diferente da aplicada à indústria discreta.

Enquanto na indústria discreta, por exemplo a montagem de veículos automóveis, a unidade é o componente susceptível de identificação física única através de código de barras, na indústria de processo, de que a indústria de alimentos compostos é um exemplo, tal não acontece já que a unidade física é o lote.

Por outro lado a indústria de processo recorre muitas vezes a fórmulas diferentes para elaborar o mesmo produto, por força da sazonalidade das matérias-primas, variação de preços locais, imposições legais ou variação de equipamentos. Pelo contrário na indústria discreta normalmente só há uma forma de elaborar um produto.

Na indústria de processo a mesma matéria-prima muda no tempo, pode ser mais ou menos concentrada (ex. variação do amido ou de proteína), tem um prazo de validade. Na indústria discreta os materiais não mudam com o tempo. Na indústria de processo

Mestrado em Engenharia Zootécnica / Julho 2014 55 misturamos, homogeneizamos materiais diferentes de forma a dar um novo produto, não podendo este ser novamente decomposto nos seus componentes originais. Esta diferenciação implica que as metodologias de aplicação e implementação dos sistemas de rastreabilidade interna sejam diferenciadas.

No caso da indústria de processo, a dificuldade do sistema reside na utilização de grandes volumes de produto a granel, sendo a base dos sistemas de rastreabilidade a genealogia do lote.

O processo industrial começa com o fornecimento de matérias-primas, em lotes, necessárias à produção. O processo produtivo cria novos lotes de produtos

intermédios a granel que mais tarde darão origem a outros lotes de produto acabado. Cada um destes lotes é constituído por matérias-primas com os respectivos lotes e por sublotes, tendo sofrido todos eles diferentes processos industriais.

A implementação de um sistema deste tipo passa pelo registo e controlo permanente de todos os lotes e das respectivas entradas e saídas de cada silo.

A capacidade de registar a genealogia do lote, ou seja como é que ele se decompõe nos seus vários sublotes, processos industriais e matérias-primas, permite a melhor ou pior rastreabilidade interna.

A rastreabilidade interna efectiva permite responder rapidamente a questões deste tipo:

Que produtos foram expedidos e para que clientes?

Qual o resultado do controlo de qualidade relativo a para este lote ou aos ingredientes que o constituem?

Quais dos lotes de matéria-prima fornecida contêm determinada contaminação? Que outros lotes de matéria-prima, produto semiacabado ou acabado estiveram em contacto com determinado produto contaminado?

Que produtos foram processados em determinado equipamento?

Em relação à rastreabilidade externa as maiores dificuldades advêm de possíveis falhas na identificação dos lotes de matérias-primas recepcionadas, bem como a melhor ou pior qualidade da informação referente aos processos de produção vegetal na origem, assim como o loteamento de produtos de origens distintas.

Só o maior envolvimento e responsabilização dos agentes intermediários no comércio de matérias-primas, muitos deles operando fora da Comunidade Europeia, pode assegurar que estes sistemas funcionam a montante e a jusante da Indústria de Alimentos Compostos.

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