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Capítulo IX Madera Quemada

4 LES RÉCITS DE LA NUIT ET DE L´AUBE (198): A COLETÂNEA FRANCESA

4.3 RASTROS E RUÍNAS: “EL BALDÍO” E “A CASPA”

Os dejetos e os restos que figuram no conto “A Caspa” propõem uma relação intertextual com o conto “El Baldío” (1966) da coleção homônima. Em “El baldío”, os restos e as ruínas são físicos, exalam fortes odores: “hediendo a herrumbre” (p. 7) e correspondem ao local da capital portenha, braço do rio da Prata, habitado por operários e imigrantes, cenário do conto.

Assim como em “A Caspa”, os personagens em “El baldio” são desconhecidos, não têm nome, são apenas “cuerpos reabsorvidos en su sombras” (p.7). Um deles age “encurvado”, empurra um corpo inerte, procurando liberar-se dele. Em “El baldío”, o desconhecido procura liberar-se, precisa livrar-se dos dejetos, da memória dos sobreviventes. Ao contrário do que ocorre com o desconhecido em “A Caspa”, que junta obsessivamente as películas de pele morta sem querer livrar-se delas. Como um colecionador, no sentido proposto por Benjamin, o indivíduo buscar organizar sua coleção, mas o gesto perde sentido.

Essa concepção ilustra o que sugere Agamben em O que resta de Auschwitz (2008): as caspas, os restos não servem como memória, representam vazios inclassificáveis, opostos aos arquivos. O que não pode ser arquivado é a própria língua pela qual a testemunha revela sua inabilidade de articulação, extinguindo os limites do relato.

Não há como descartar impunemente a memória coletiva composta por violência, dor, desigualdade, exílios, tortura e opressão.

O corpo do desconhecido em “Squame” pode representar o corpo da nação paraguaia, ou melhor, o que resta dela depois de trinta anos de ditadura de Stroessner. A caspa, produto do corpo físico, remonta à existência de um passado que atormenta, que teima em retornar e não desaparecer, antecipando o futuro atrelado a essa anormalidade.

O desconhecido em “El baldio” ouve um ruído e não consegue resistir ao apelo da voz humana, “del vagido”, decidindo sair rapidamente dali “‘con el vagido en la oscuridad” (ROA BASTOS, 1966, p.9). Apesar de incerto, o ruído está vivo e pode sugerir um novo começo. Em “A Caspa”, o homem “inclina um pouco a cabeça como se escutasse alguma coisa que não consegue entender”. Quando percebe que não vai mais conseguir elaborar as lembranças, decide desesperadamente retirar todos os fragmentos de caspa que havia colocado no saco e desenhar: ‘”desenhos, croquis, tolices”. Não há mais a necessidade de continuar “se arranhando e coçando a cabeça para caçar as partículas enraizadas no seu couro cabeludo”. Ao abandonar a pele morta, abandona-se o corpo de uma escritura que já não lhe serve mais para encontrar o leitor.

No conto do exílio bonaerense, “El baldío”, há uma rápida alusão ao lugar onde o enredo se desenvolve. O lugar em “Squame” é apenas um aí. “El olor del água del Riachuelo” estabelece a descrição do espaço em “El baldío”. Em “A Caspa” não há como estabelecer qualquer tipo de relação com o lugar em que está o desconhecido: pode ser

relacionado com a definição de espaço, segundo Augé (2012, p.73)183, o desconhecido está sozinho em um não-lugar. A repetição do advérbio “aí”, diversas vezes ao longo do conto, sugere ser o não-lugar do desconhecido ”um espaço que não se pode definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico” (AUGÉ, 2013, p.73).

O não-lugar da escritura expatriada é ainda o lugar do poema que brota silenciosamente sob os escombros. Este não-lugar que é ausência, lugar do escritor expatriado, como sugere o poema Apátrida, de Silenciario (1983).

Apátrida

Augusto Roa Bastos

Por mucho que oprima tus manos tu harapiento fulgor

Te vas de mí te fuiste

No vendrás en mi seguimiento Partido de ti huyendo hacia ti

Deidad quimera ser cuyo nombre se escribe Com p de páramo en clave de agua Com ay de piélago

Ahora mismo te siento Aullar a mis espaldas

Seguidora implacable en tu irte Sacudiendo en la sombra Tu enjambre del sol Mis llagas como pulgas En este instante aquí Tu ausencia soy Tu fuiste mi posteridad Tu antepasado seré

De noche cuando pasean los gatos Entre los vidrios rotos de las estrellas Cuando arde en el vacío

La lágrima seminal del solitario Me aferro a tus cabellos Largos como la angustia Calva deidad distante esfinge

183 AUGÉ, M. Não Lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Trad. Maria Lúcia Pereira. Campinas: Papirus, 2012.

Gemela de la luna llena El humo allá a los lejos

Mansamente llovizna su heredero rocío Hacia los cielos de arena de tus ojos

No existo para ti

Tus miradas no recuerdan Lo que no ven

No contexto de enunciação teórica, desenvolvido nos anos iniciais do exílio francês, o retorno ao poema, como lembra Leminski (1987),184 assinala “um ato de amor entre o poeta e a linguagem”. Marcada pela perda do espaço, a voz que sobrevive quase inaudível da escritura expatriada mostra uma situação de solidão: “Cuando arde en el vacío/La lágrima seminal del solitário.” O eu-lírico expatriado, assim como o sujeito desconhecido do conto, expressa um sentimento de existência injustificada, nua como personagens do teatro do absurdo, no qual toda finalidade se ausenta e a linguagem, privada de fins comunicativos e significantes, consome-se e desfaz-se. A existência é uma fatalidade da qual ninguém pode escapar. Ou, como lembra Agamben (2005):

O lugar – ou melhor, o ter lugar – do poema não está pois, nem no texto nem no autor (ou no leitor): está no gesto no qual autor e leitor se põem em jogo no texto e, ao mesmo tempo, infinitamente fogem disso (AGAMBEN, 2005, p.63).

184

LEMINSKI, Paulo. Poesia: A paixão da linguagem. In: Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 283-306.