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Rastros na poeira do Se rtão

No documento Veredas da lembrança no Vale do Açu (páginas 78-85)

Para al é m do aparato soci al col eti vo ou i ndi vi dual em que se ci rcunscreve a me móri a, é rel evante fri sar que o externar de uma me móri a se dará por mei o de um rel ato, ou seja, de u ma narrati va de u ma e xperi ênci a, de um fato, que impri me às re me morações certa concretude por e pel a li nguagem. No que concerne a essa concretude que a l i nguagem pos si bil i ta ao fato etéreo da me móri a, ao se e xternar, por mei o de uma narrati va de um epi sódi o na voz de um narrador, val e sal i entar as refl exões de W a l ter Benja mi m sobre li nguagem, me móri a e hi stori ci dade. Isso me re mete à noção etérea que Benja mi n desenvol veu sobre rastro, que co mpreendo co mo as ci nzas que restar a m do passado , co mo poei ra sobre o percurso da e xi s tênci a reme morada, co mo marca i ndel ével da atuação dos i ndi víduos no decorrer da hi stóri a de seu l ugar e de seu te mpo. Esse rastro é u ma marca de u m pas sado fugi di o, esfu maçado pel a passage m do te mpo, co mo presença de uma ausênc ia , nas pal avras de Gagnebi n (2012, p.8).

Esse concei to de rastro aponta tanto para u m paradi gma fi l osófi co – uma vez que aponta para as reflexões do homem sobre sua exi stênci a – como para um paradigma histórico – uma vez que converge para as rel ações do home m co m as marcas dei xadas pel o passado no presente. Daí a parado xal idade do termo: presença de uma au sênc ia e

ausência de uma presença , o que investe o termo rastro de certa

contra as tentati vas de seu apagamento ou de seu esqueci mento, vol untári o ou i mposto pel as l utas soci ai s.

De acordo co m Gagnebi n (2012, p. 27), ao anal i sar o concei to de rastro em Ben ja mi n, essa paradoxal idade i nerente a essa noção conduz à questão do apaga mento ou da perpetuação de um passado, à i ntenção de o ho me m a pagar ou dei xar marcas de su a exi stênci a. A hi stóri a di ta ofi ci al , por conta de i nteresses di versos dos grupos soci ai s que representa, tende a el eger justa mente o rastro que merece e necessi ta ser preservado e aquel e rastro que deve ser apagado. Nas narrati vas que encontrei , os narradores procuraram recorrer a rastros específi cos de seu l ugar soci al , de sua residênci a , para subsi di ar sua me móri a e de marca r sua exi stênci a na hi stóri a.

A fotografi a no porta -retratos na estante, a pedra que desenha u ma fi gura no mei o da pai sag e m l ongínqua – a Pedra do Sapo e a Pedra do Frei , e m La jes –, a ruína da Igreja de São Rafael, su bmersa pel a barragem e depoi s ressurgi da, a so mbra do Pi co do Cabugi na marge m da estrada, entre outros, são r astros que subsi ste m e sustenta m a recorrênci a de mui tas das narrati vas que encontrei , como tri l has de re me morações cu jos rastros, co mo contornos de u ma estrada, os narradores percorrem para edi fi car suas narrati vas. Trata -se de u ma construção por mei o da l i nguagem que retoma esse s rastros e focal i za a conservação do passado, mes mo di ante de sua pereci bi li dade, transfor mando as me móri as e m na rrati va s, que conferem senti do coerente aos eventos a que estava m v i ncul ados àquel e rastro.

Ben ja mi n (2006, p.490), de modo mai s her méti co, i nsere a noção de rastro como “a aparição de uma proxi midade, por mais longínquo que esteja aquilo que o deixou”, sem apre sentar uma unidade concei tual defi ni ti va, de modo não si stemati zado e se m con cl usões total i zadoras. Gi nzburg (2012, p.125), ao anal i sar a refl exão benjaminiana, refere que o “rastro ocupa um ponto intermediário entre

concei to e i mage m, proposi ção e metáf or a, e essa posi ção acentua a sua pertinência”. A foto, o Pico, a ruína faze m lembrar alguém do passado, u m ca so anti go, o que i medi ata mente r e mete o narrador a narrar u m fato passado, i ntroduzi do na l i nguagem por al go co mo isso me fa z lembra r de

um caso que a conteceu em tal lugar, em tal tempo... O rastro i mpel e a

me móri a que i mpel e o trabal ho da li nguagem que materi ali za a re me moração e m u ma narrati va.

Rel aci onando esse concei to de rastro rel ati vamente a o concei to de me móri a, que é tratado po r Ben ja mi n, é p ossível consi derar que a percepção de rastro nas narrati vas anali sadas nesta pesqui sa per mi te i denti fi car o que está ausent e, i sto é, o el e mento que é mai s si gni fi cati vo de ser reme morado e expl i ci tado pel a li nguagem, e m detri mento de outros. Por e xe mpl o, por que l embrar da i da a certa vaquejada e não da parti ci pação e m u ma proci ssão, no mes mo di a? É que na vaque jada, houve u ma bri ga generali zada da qual o narrador foi expectador ou partíci pe; já na proci ssã o, nada que susci te u m rastro be m deli mi tado na me móri a ocorreu. Assi m, quando i ncorporado à narrati va co mo ci fra de u ma hi stóri a, o rastro pode defi nir quem o dei xou, para que assi m, pel o trabal ho da l i nguage m narrati va, construa -se u ma conexão entre presente e passado.

Por vezes, o rastro não está no ce rne do ato de narrar, não é mol a propul sora que i mpel e a narrati va, mas está na consti tui ção del a, co mo u m rastro de marcado, u m fato hi stóri co pouco conheci do, pouco referi do, por exe mpl o, o que, segundo Gi nzburg (2012, p. 126), torna o rastro como el e ment o í mpar na constitui ção de uma me móri a hi stóri a, e m especi al na perspecti va daquel es que não ti veram voz na hi stóri a di ta ofi ci al , a qual , por vezes, dei xa proposi tal mente mui ta névoa sobre i mportantes epi sódi os da Hi stóri a.

O rastro que por vezes percorri , co mo pi sta de uma narrati va que poderi a fruti fi car, por vezes se encontrava recoberto por

u ma espéci e de poei ra, que chamei de poeira de memória . O rastro, a parti r da noção de Benja mi n, é aquil o que restou do passado, como o objeto de l e mbrança; para Ha l bwach s (2003) , como regi stro táctil da presença e das ações dos i ndi víduos e grupos soci ai s em deter mi nado espaço-te mpo, por si só, as si nal a a presença de u m te mpo desvaneci do, o que é a presença de uma ausência (GAGNEBI N, 2012). A poeira de

memória que r ecobri a u ma l e mbranç a, que por vezes preci sava ser

soprada e al i mentada para susci tar uma narrati va, co mo provocação à i mersão na l i nguage m, apro xi ma -se n a noção de aura e vestíg io a que Ben ja mi n referi u ao afi rmar que

O v est í gi o é apar ec i m ent o de um a pr ox im i dade, por m ai s di st ant e qu e est ej a aq ui l o que o deix ou. A aur a é o apar ec i m ent o de um a di st â nc i a, por m ai s pr óx im o que est ej a aqui l o que a s u sc i t a. No v est í gi o, apos sam o - no s da c oi s a; n a aur a, el a s e apo der a de nó s. ( B E NJ A M I N, 19 94, p. 226) .

Nessa persp ecti va, quando um i ndi víduo recontava -me u m fato de suas vi vênci as, denunci ava -me si mul tanea mente o rastro de u ma presença del e mes mo ou de outros i ndi víduos, de acordo com o ator central da cena narrada, ausente naquel e i nstante pel o di stanci amento espaci al e/ou temporal , mas que, por mei o de fragmentos dei xados, co mo pegadas, possi bili ta va produzi r um rel ato, servi ndo -se das marcas de me móri as nel es i mpressas. Os vest í gi os, como marcas mui to mai s etéreas, co mo re mi ni scênci as enevoadas, co mo poeiras de mem ória, são essenci al mente l acunares; co mo i mage ns do passado, as re mi ni scênci as evoca m a presença daquel e passado di stante rei fi cado no mo mento e m que se verbal i za o rel ato. Recontar, portanto, requer u m esforço de reconstrução no corpo da narrati va, i das e vi ndas susci tad as na l i nguagem, mai s ou menos cons ci entes, no i ntui to de l ançar l uz para a

auto-compreensão e auto- ident if icaçã o do narrador sobre o conte xt o

A i mportânci a de verbali zar a narrati va e regi strá -l a, como proponho, rel aci ona -se com a fragi li dade presente no concei to de rastro, por ser el e co mpos to por ve stígi os, frag mentos de u ma l e mbranç a co mpl eta e m ruína e i rrecuperável no seu todo, mas que se materi al i za, ganha substânci a, em sua reco nsti tui ção possível , no rel ato de u m epi sódi o. Isso porque, como afi rma Gagnebi n (2012, p.27) sobre a fragil i dade de uma l embrança, o despertar de uma re mi ni scênci a se evidencia como rastro, “presença de uma ausência e a usência de uma presença”, “sempre ameaçado de ser apagado ou de não ser reconhecido como signo de algo que assinala”.

Todas as narrati vas orai s de me móri a co m as quai s manti v e contato tê m e m co mu m u m caráter s o ci al e hi stóri co, cuja hi stori ci dade está de marcada, de al gum modo, no espaço e no tempo. Sua anál i se, então, deve ta mbé m estar al i cerçada e m refl exões acerca da hi stóri a i ndi vi dual e dos grupos soci ai s referi dos nos rel atos. Na concepção de Ben ja mi n,

No i nt er i or de gr andes per í odo s hi st ór i c os, a f orm a de per c epç ão d a s c ol et iv i dade s hum ana s se t r a n sf or m a ao m esm o t em po que seu m odo d e ex i st ênc i a. O m odo p el o qual s e or gani z a a per c e pç ão h um ana, o m ei o em que el a s e dá, nã o é apen a s c on di c i onado nat ur al m ent e, m as t am bém hi st or i c am ent e. ( 1994, p. 16 9) .

Em geral , as narrati vas orai s que rec onta m os epi sódi os das rel ações soci ai s de grupos mai s i sol ados, como al guns daquel es co m os quai s ti ve contato nesta pesqui sa, a propri am -se de “rastros em terras sem memória” e “políticas do esquecimento”, como tantos povos sem voz sufocados pel a barbári e da col oni zação, o que re me te à neces si dade de dar voz aos excl uídos do contexto hi stóri co e cul tuar uma me móri a histórica por meio de “perspectivas não conservadoras do passado”. (GINZBURG, 2012, p.127).

No que di z respei to à noção de aura, ao se referi r a aura das obras de arte, Benja mi n (1994) ta mbé m ve m denunci ar a possível

exti nção do ato de narrar decorrente d o decl íni o da tradi ção e do avanço da técni ca capi tal i sta, do enfraquecimento de u ma noção de me móri a co mu m e de u ma e xperi ênci a col eti va, e m vi rtude, dentre tantos fatores soci ai s e hi stóri cos, da transfor maç ão das for ma s de trabal ho, da l i nguagem e das for mas de co muni cação e i nteração soci al . Essa refl exão sobre a recepção da arte ao l ongo da hi stóri a, recortada do pensa mento de Ben ja mi n sobre a perda da aura da obra de arte, por conta de sua reproduti bil i dade, pode ser aproxi mada da noção de aura que ci rcunda as narrati vas co m as qua i s manti ve contato.

Quanto às narrati vas orai s que recolhi , a aura não está confi gurada no narrado em si , co mo e m u ma obra de arte li terári a – um ro mance, u m poe ma, u m conto – mas é detectável nessa santificação do própri o processo de reme morar e e xte rnar a me móri a e m narrati vas. Se a obra de arte apresenta essa a ura de uni ci dade, i nedi ti smo e excl usi vi dade, n essa perspecti va, as narrati vas orai s de reme moração desses epi sódi os i ndi vi duai s e col etivos são hi stóri as recheadas de outras hi stóri as, as quai s, em cada nov o contar, ganham novas nuances , novas peri péci as, fugi ndo do paradig ma estéti co i nerente às obra s l i terári as. A me móri a não l i mi ta a consti tui ção do rel ato, porque cada nova re me moração susci ta outra nova , mai s a mpl a ou adaptada a cad a ci rcunstânci a narrati va, comparati vamente ao concei to de hi stóri a aberta, referi da por Jeanne Mari e Gagnebi n no pref áci o Walter Benja min ou a história abe rta , à publ i cação das Obras Escolhidas de Ben ja mi n. Daí a aura estar no proces s o narrati vo, mui to mai s do que na narrati va em si . Apro xi mo - me, de modo avesso, por certo, mas di l i gente, da concepção de aura em Ben ja mi n, que l ança o questi onamento e o el uci da metafori camente :

E m sum a, o que é a aur a ? É um a f i gur a si ng ul ar , c om post a d e el em ent os e sp ac i ai s e t em por ai s: a apar i ç ão úni c a d e um a c oi sa di st ant e, por m ai s per t o qu e el a e st ej a. O bser v ar , em r epou s o, num a t ar de de v er ão, um a c adei a de m ont anha s n o hor i z ont e, ou um gal ho, que pr oj et a s ua s o m br a sobr e nó s ,

si gni f i c a r espi r ar a aur a de s s a s m ont anha s, d es s e gal h o. ( 19 94 , p. 170) .

Então, se o rastro é tácti l , a aura é a apari ção de al go l ongínquo, por mai s próxi mo que es te j a aqui l o que a evoca; enquanto o rastro de uma l embrança é materi al i zado em al go rel ati vamente concreto, a aura é al go mui to mai s i ntrínsec o e p resente no ínti mo de que m narra, co mo u ma espéci e de santi fi cação da p al avra narrada. Co mo quando u m narrador se aproxi ma mui to do ouvi nte, co mo se fosse l he confessar u m segredo tão ínti mo que merece u m coc hi cho.

Por fi m, tudo que é me móri a extern ada se edi fi ca pel a l i nguagem e m u ma narrati va, e m u m rel ato, no caso desta pe squi sa, pel a orali dade dos narradores. Co mpreender a que esse fenô meno d e l i nguagem pode se referi r é condi ção para co mpreender o al cance do at o de narrar. O concei to de li nguagem e m Ben ja mi n te m a especi fi ci dade de se referi r a el a como i ncapaz de co muni car o mundo e m sua pl eni tude. De certo modo, a l i nguagem, co mo forç a co muni cadora, te m presente e m si o caractere do i nco muni cável e, mes mo o ho me m sendo u m ser so ci al cri vado e consti tuído pel a l i nguagem, a co mpl etude dessa li nguagem é fugi dia e escorregadi a. Isso evi denci a que a li nguagem, e m especi al a narrati va – mesmo o homem estando imerso, desde o nasci mento, no uni verso das pal avras –, não pode ser reduzida a uma ferramenta de co muni cação e trans mi ssão de mensa gens prontas, acabadas.

De acordo com Ginzburg (2012, p.126), “Fragmentos faze m parte de um e sforço para el aborar um passado que nunca poderá ser configurado como uma unidade perfeita”. Então, a constituição dessa l i nguagem narrati va desses sertanejos e merge das condi ções de percepção dos si gni fi cados di versos e si tuaci onai s que têm os ob jetos , espaços, pessoas, enfi m, o mundo que os cerca. Para recuperar o passado, i ndi vi dual ou col eti vo, por mei o de rel atos orai s, cada ser hu mano recorre a recursos li nguísti cos para operar com a me móri a de

modo arti cul ado e i nteli gível para trans mi ti r e pereni zar um rastro de me móri a. Para Gi nzburg, (2012, p. 108), trata‐se de uma perspectiva favor ável à val ori zação da i mport ânci a de um rastro co mo el e ment o resi dual que pode ser l i do co mo ci fra d e u ma tra jetóri a que o ul trapassa: a hi stóri a de um i ndi víduo, de uma famíl i a, de uma soci edade. Tal co mpreensão pl urali sta do ato de l ei tura se arti cul a com u ma percepçã o de poli sse mi a na li nguagem.

No documento Veredas da lembrança no Vale do Açu (páginas 78-85)