Rauer Ribeiro Rodrigues
Kelcilene Grácia-Rodrigues
Resumo: O poeta Lobivar Matos (Corumbá, 1915-Rio de Janeiro, 1947) publicou em vida duas obras, Areôtorare (1935) e Sarobá (1936). Nos prefácios, apresenta sua visão da arte poética, defendendo o engajamento consciente da poesia nas causas sociais. Essas reflexões constituem prefácios-profecia que instauram uma espécie de comício-poesia. Tal postura é antecipatória entre os poetas brasileiros, o que não foi, até o momento, reconhecido pelos manuais de literatura existentes no País.
Palavras-chave: Arte engajada. Crítica Literária. Modernismo.
Abstract: The poet Lobivar Matos (Corumbá, 1915-Rio de Janeiro, 1947) published two books, Areôtorare (1935) and Sarobá (1936). In the forewords, he presents his vision on poetic art, defending a conscious engagement of poetry in the social causes. These reflections constitute prophecy-forewords that institute a kind of political speech-poetry. Such position is anticipatory, among Brazilian poets, what it was not, until the moment, recognized for existing literature manuals in the country.
Rauer R. Rodrigues/Kelcilene Grácia-Rodrigues [87-99] ... O poeta Lobivar Matos nasceu em Corumbá, MS, em 11 de janeiro de 1915, e faleceu no Rio de Janeiro, então capital da república, em 27
de outubro de 1947. Lançou, aos vinte anos, Areôtorare (1935), com o
subtítulo “poemas boróros”, e, aos vinte e um, Sarobá (1936).1 Os dois
livros nunca foram relançados. Ao falecer, aos trinta e dois anos, procurava editor para um livro de contos, que permanece inédito. O volume, confiado pela família de Lobivar ao poeta Manoel de Barros (cf. entrevista – ainda inédita – que realizamos com o poeta em 21 set. 2006), esteve em posse do professor José Pereira Lins (cf. LINS, 2000, p. 104), que o repassou (cf. relato verbal que nos chegou) para a professora Susylene Dias de Araújo, estudiosa do escritor.
As duas obras poéticas de Lobivar Matos mantêm traços comuns. Publicadas com o poeta no alvorecer dos seus vinte anos, têm prefácios que enunciam as intenções do artista, mapeiam os corixos pelos quais a sua ars poetica pretende enveredar e dialogam com a produção poética que lhe é contemporânea, quando não se mostra precursora no que se refere ao engajamento social.
Nesse sentido, Lobivar tem algo de Bertolt Brecht (1898-1956)2 e
de Vladímir Maiakóvsky (1894-1930),3 é estuário de Castro Alves
(1847-1871), dialoga com Oswald de Andrade (1890-1954) e anuncia uma faceta de poetas maiores como Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).4
Os poemas lobivarianos, escritos em versos livres, com linguagem simples, direta e objetiva, na qual o efeito narrativo e prosaico sobressai, acompanham tendências do momento, a primeira fase do Modernismo,
como a liberdade expressiva dos poemas de Pau-Brasil (1925), de
Oswald de Andrade, e a coloquialidade de Alguma poesia (1930), obra
de estréia de Carlos Drummond de Andrade. Traz para o discurso poético
1Nas citações de Lobivar, sintaxe, acentuação, pontuação e ortografia ficaram cf. nas obras originais.
2Em Brecht (1977, p. 7-12), ver o prefácio de Edmundo Moniz.
3Ver, em Maiakóvsky (1997, p. 13-26), o artigo de Bóris Schnaiderman.
4Datas biobibliográficas dos autores brasileiros, aqui e na seqüência, cf. Coutinho e Sousa (2001).
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a denúncia social e descreve com realismo as classes populares, apresentando vigor de indignação que os estudiosos têm atribuído, de maneira geral, somente aos romancistas do período.
Além da linguagem, poética próxima às proposições e às realiza-ções do primeiro momento modernista, Lobivar antecipa postura críti-ca de denúncia políticríti-ca da desigualdade econômicríti-ca que a poesia brasi-leira experimentará em poucos momentos, com destaque para os livros
de Drummond dos anos 40 (em especial Sentimento do mundo, 1940,
José, 1942, e A rosa do povo, 1945) e para Morte e vida severina
(1966), de João Cabral de Melo Neto.
Embora precursor, sob o ângulo exposto, Lobivar segue a vertente de defender mudanças sociais que já se manifestara de modo contundente na literatura brasileira, por exemplo, com a voz condoreira de Castro Alves, cujo clamor em prol dos escravos e na defesa do abolicionismo produziu obras-primas poéticas como “Vozes d´África”
e “O navio negreiro”, do volume póstumo Os escravos (1883).
Poetas anteriores, que colocaram sua arte a favor de uma causa humanitária, não faltam; a novidade é a consciência engajada do poeta e do eu-lírico. Quanto a esse aspecto, Lobivar antecede poéticas vigorosas do século XX, da qual a mais representativa talvez seja a ficção
filosófica e política de Jean-Paul Sartre (1905-1980),5 teorizada no volume
Que é a literatura? (SARTRE, 2004; a obra é de 1947).
Lobivar Matos, como poeta, torna-se arauto de uma causa, produz uma obra de denúncia de uma chaga social, faz a defesa dos injustiçados, se compadece dos molambos, clama contra a dor dos que passam fome e engendra em cada página que escreve uma poesia-comício. Consideramos como poesia-comício a poesia que, com autoconsciência, posicione-se a favor de movimentos sociais, faça-se porta-voz dos excluídos, pretenda-se fator de conscientização revolucionária e se instrumentalize como agente da cena política. Lobivar, nos prefácios de seus livros, justifica o seu engajamento e expressa a necessidade do poeta intervir no mundo.
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Em “A minha gente”, prefácio de Areôtorare (MATOS, 1935, p. 7-8),
afirma que “a época atual [é] de renovações e de revoluções sociais”. Lobivar explica que o volume colige poemas escritos quando dos seus dezoito anos, no término do curso ginasial, ressumando sabor regional e “cheirando a cogitações íntimas, extáticas, introspectivas”. O poeta ressalva que, desse modo, os poemas são, na maioria, “muito simples” e “muito humanos”. Entretanto, em seu entendimento, refletem um “pessimismo crônico bebido às pressas nas coisas, nos sêres e no mundo” e se voltam para um eu íntimo que se manifesta “com um pouco de vaidade, de orgulho e de altivez”, constituem uma “calamidade”, uma vez que caberia aos poetas, nessa época “não [...] muito favoravel nem à poesia nem aos poetas”, “um papel mais importante na comédia-dramática da vida”. Papel, esse, de reflexão, denúncia e revolta.
Voltando-se para a realidade social de seu tempo, Lobivar examina a atividade e a postura dos poetas e percebe a existência de duas épocas: uma, anterior, na qual a arte, “em fôrmas apropriadas, nos quartetos de rimas ricas ou nos sonetos metrificados a rigor”, era “divertimento espiritual” de “egoístas” mergulhados em tristezas, mágoas, amores e emoções; no tempo presente, Lobivar afirma que “os poetas refletem os anseios, as revoltas, as durezas amargas da época e do meio em que vivem”.
O papel do poeta no mundo, defendido no prefácio de Areôtorare,
se revela pela quebra dos “velhos moldes” e o abandono dos “temas irrisorios” (MATOS, 1935, p. 7-8). A partir dessa visão do que deveria ser a lírica naqueles dias, e em que pesem as ressalvas que faz ao seu livro, Lobivar supõe que contribui “de algum modo para a Poética nacional”, uma vez que incorpora, como matéria da poesia, as “coisas humildes” e os “dramas cruciantes dos desgraçados, dos miseráveis, dos párias sem pão, sem amor e sem trabalho” (MATOS, 1935, p. 8). O bororo – o índio guerreiro, a tribo de passado mítico, a nação esbulhada e de presente aculturado – representa o “povo oprimido” que o poeta tem dentro de si (cf. MATOS, 1935, p. 10).
Já o prefácio de Sarobá volta-se para questões de etimologia e de
linguagem. Informa que o vocábulo “saróba”, na Nhecolândia (uma das macro-regiões em que se subdivide a região do Pantanal brasileiro), designa um lugar sujo, perigoso e traiçoeiro, e que “sarobá”, na cidade,
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refere-se a um “bairro de negros de Corumbá”, no qual “os infelizes continuam a vegetar em completo abandono, como se não fossem creaturas humanas”. Trata-se de um “templo eterno da Miséria, [...] mancha negra bulindo na cidade mais branca do mundo” (MATOS, 1936, p. 6-7).
O poeta se irmana a esses homens e mulheres, cuja pobreza repugna aos homens brancos da cidade, e informa que fez diversas “fotografias [...] de Sarobá”, mas que o sol não foi “suficiente para fotografias nítidas e artísticas” pois, ao invés de luz, o que havia – “tortura do artista”, representação espacial do seu sentimento íntimo – não passava de “treva, relâmpagos violentos e chuva, muita chuva...” (MATOS, 1936, p. 7). Desse modo, o prefácio do segundo livro de Lobivar amplifica a identificação do poeta com a metáfora do bororo da primeira obra.
É preciso verificar, nas minúcias, o raciocínio de Lobivar. No final do prefácio de seu primeiro livro, o poeta – quase que como um verbete de dicionário – explica o significado da palavra “areôtorare”. Trata-se do índio profeta, que reúne em si as experiências e as tradições de seu povo e as narra “em volta de fogueira assanhada ou á luz do luar” (MATOS, 1935, p. 8).
Ao publicar o livro e explicar – no prefácio dirigido “a minha gente” – o título da obra, o poeta diz se sentir “como Areôtorare, feliz, rodeado por boróros que me escutem...” (MATOS, 1935, p. 8). Entre a obra
inicial e o volume Sarobá, o eu-poético, investido como
profeta-areôtorare, incorpora ao seu universo de representação estética todos os desvalidos pela “Miséria” (MATOS, 1936, p. 6). O poeta é, pois, o areôtorare bororo, o “irmão privilegiado” cujo “verbo profético” (MATOS, 1935, p. 8) ganha corpo por meio dos poemas. Os dois livros de Lobivar narram, sob esse aspecto, o drama dos párias para os quais o poeta aspira à redenção.
Assim, os prefácios fazem-se prefácios-profecia, anunciam uma poesia que tratará da miséria, denunciará o abandono, se revestirá da dor dos espoliados: trata-se de uma poesia-comício, defensora dos irmãos-bororo, “homens rudes de minha terra”, “povo oprimido” do qual o eu-poético traz consigo “o grito aterrorizante”, mas cuja coragem, diz o poeta, “lateja em mim, / palpita no meu sangue / e vibra, voluptuosa,
Rauer R. Rodrigues/Kelcilene Grácia-Rodrigues [87-99] ... em todo o meu ser” (MATOS, 1935, p. 10). Essa citação – do poema
“Destino do poeta desconhecido...”, que abre Areôtorare –
constitui-se em um preito de identificação do eu-lírico com os bororos, definidos como uma tribo “forte e guerreira” (MATOS, 1935, p. 9), uma raça de grandeza (MATOS, 1935, p. 10), bondade (MATOS, 1935, p. 11), heroísmo (MATOS, 1935, p. 9).
Entretanto, uma sombra, com um quê de melancólica, turva a voz do poeta, que tem em sua alma “a inútil esperança da vitória”, de redenção para o seu “povo oprimido” (MATOS, 1935, p. 10) – ou seja, se houver vitória, ela se apresenta como “inútil”, despicienda, infeliz esperança que se efetiva tão-só no eterno retorno das decepções (cf. MATOS, 1935, p. 10-11): em Lobivar, a utopia redentora parece pertencer ao mundo do sonho, uma vez que a realidade malogra todas as expectativas.
Verifiquemos de que modo a recepção comenta Areôtorare e
Sarobá.
Para Antônio Miranda (2007), Lobivar Matos
[p]oeta quase desconhecido mas em fase de redescobrimento e estudo em seu estado de origem – o Mato Grosso do Sul, foi um fenômeno. Escreveu seus livros Areôtare [sic] e Sarobá, antes dos 20 anos de idade, na vanguarda de nosso Modernismo. É possível ver nele as influências de Manuel Bandeira e de Raul Bopp mas sua lavra é muito original. Usa o coloquialismo brasileiro com naturalidade. Seu versilibrismo é original, com acentuada cor telúrica, regional, às vezes de forma ingênua, mas militante pela denúncia das mazelas e das precariedades da vida das populações ribeirinha na zona fronteiriça de Corumbá.
Para Alceste de Castro (1981, p. 70), a miséria proletária é incorporada como matéria da poesia de Lobivar: “a elegância do estilo abafa a náusea do ressentimento social quando ele [o poeta] abre as chagas do monturo pondo a nu a podridão que a sociedade encobre por conveniência. [...] Matos tem a crueza satânica de um Baudelaire e a vigorosa descrição de um Zola”. Considera, ainda, que, ao lermos as obras de Lobivar, “sentimos esse repugnante odor que se exala de um perfume de rosas jogado num estrume” (CASTRO, 1981, p. 69).
Otávio Gomes ([198-], p. 111) enfatiza o mesmo aspecto: “Sua poética [de Lobivar] é sempre voltada para o povo e as questões sociais, excessivamente realista, às vezes”.
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Hilda Magalhães (2002), no essencial Literatura e poder em Mato
Grosso, anota que Lobivar “absorveu com rapidez e excelência a estética modernista” (MAGALHÃES, 2002, p. 37) e discorre sobre a crítica social empreendida pelo poeta (MAGALHÃES, 2002, p. 37-43), para concluir que Lobivar “é não apenas o mais lúcido dos poetas [mato-grossenses] da primeira metade do século XX, como também o mais expressivo deles” (MAGALHÃES, 2002, p. 43).
Para Rosa, Menegazzo e Rodrigues (1992, p. 21), Lobivar Matos (assim como Manoel de Barros) é poeta que foge “aos padrões estéticos
de sua geração”, uma vez que o autor de Areôtorare e Sarobá utiliza
“uma linguagem própria, que surpreende o leitor pela novidade das imagens”.
Formado em direito na Faculdade Nacional, no Rio de Janeiro, segundo informa Lins (2000, p. 109), Lobivar “[n]a realidade nunca fora
advogado, a não ser do ‘grito aterrorizador de um povo oprimido dentro
de si mesmo...’” (LINS, 2000, p. 110, grifo no original).
Susylene Dias de Araújo (2005, p. 214) vê em Lobivar a busca da “efetivação de uma arte literária universal”, por meio de “uma atuação poética traçada pela chamada estética regionalista”.
Para Rubens de Mendonça (2005, p. 166-167), a poesia de Lobivar tem “um sentimento realista” de “inspiração revolucionária”, que se traduz em uma “generosa simpatia para com os pobres, os esmolambados”.
Em sua História da literatura sul-mato-grossense, José Couto
Vieira Pontes (1981, p. 123) afirma que Lobivar desprezou “os modelos arcaicos e os temas surrados”, uma vez que sabia da necessidade de ter “sede de renovação” e de dar importância a inquieto “fogo criador” para produzir a sua “arte literária”.
Professora universitária, com vasta pesquisa sobre a arte e a literatura regionais, Maria Adélia Menegazzo (2001) conclui que “[n]a escritura de uma História da literatura sul-mato-grossensse apresentam-se Lobivar Matos como a primeira voz da modernidade e Manoel de Barros como a sua superação”.
E o ficcionista Augusto César Proença, em sensível texto lírico, enumera, a propósito de Lobivar:
Rauer R. Rodrigues/Kelcilene Grácia-Rodrigues [87-99] ... foi poeta de uma Corumbá já meio decadente, foi direto à alma do povo e de cada qual arrancou o eco para o seu grito poético, foi poeta das lavadeiras, foi poeta dos que mendigavam, foi poeta da devoção irreverente, foi poeta do Pantanal, foi porta-voz dos desesperados, grito de angústia dos necessitados. Aprendeu, desde cedo, o importante papel da poesia e sentiu que a beleza da arte não podia ser inútil, tinha que ter uma função social. Expôs criaturas reduzidas a andrajos, vidas excluídas que lhe causavam uma infinita dor e latejavam no seu sangue bororo (PROENÇA, 2006).6
Nos excertos dos comentaristas e estudiosos, notamos que a poesia de Lobivar transita entre ser desconhecida, embora em processo de revalorização, e ser considerada como instauradora da estética modernista e da voz da modernidade em Mato Grosso do Sul. Quanto à estética, absorveu a linguagem de embate do primeiro momento do Modernismo e instaurou reflexão engajada no cerne do poético; da modernidade, representou em seus versos a cidade (mesmo sendo ela um centro urbano perdido no meio do pantanal), na qual figurou personagens marginalizados pelo progresso, pela riqueza e pelo utilitarismo das elites. Símile do romance de cunho regionalista e social dos anos 1930, a obra de Lobivar antecipa, nos prefácios e nos poemas, a postura de engajamento que será teorizada nos decênios seguintes – e, principalmente, realiza de forma poética tal engajamento, em postura que constituirá, pouco depois, com Drummond e com Cabral, momentos altos da poesia brasileira do século XX.
Diante do universo lírico de Lobivar Matos, os manuais de literatura brasileira e os compêndios literários, por omissão ou por se manterem
no mero registro, se equivocam. Em sua História concisa da literatura
brasileira, Alfredo Bosi (1994) não menciona Lobivar. O mesmo ocorre na História da literatura brasileira de Stegagno-Picchio (1997). Consultamos outras duas dezenas de obras, entre livros de referências
6A citação de Proença aqui feita apresenta-se com elipses quanto ao texto original, elipses essas não indicadas e que são de inteira responsabilidade dos autores do presente artigo.
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e manuais didáticos, e nada sobre Lobivar foi encontrado.7 A exceção
foi Coutinho e Sousa (2001), com um verbete protocolar, que se restringe aos dados biobibliográficos mínimos.
Em que pese Lobivar Matos ter refletido com acuidade, para o
momento, sobre a função do poeta e da poesia no Brasil e no mundo,8
o que expressa nos prefácios de Areôtorare e Sarobá, nos quais
apresenta uma visão da arte poética como compromisso engajado e consciente do poeta e da poesia nas causas sociais, pode-se dizer que a obra do poeta – apesar desse seu movimento precursor na poesia nacional – não tem sido reconhecida, sequer citada, nos manuais de literatura existentes no País.
As reflexões, registradas na abertura dos livros de Lobivar, constituem-se em prefácios-profecias do comício-poesia que efetivamente realiza. Imbuído da missão profética que se atribui, bororo se propondo, poeta-areôtorare que se sente, o eu-lírico dos poemas transita pela solidão dos “pantanais imensos” (MATOS, 1935, p. 9), nos quais as pessoas se miram “no espelho embaçado dos rios” (MATOS, 1935, p. 12) e de onde os bororos foram arrastados para se perderem “nos rigores da Civilização” (MATOS, 1935, p. 73). Assim, o eu-poético chega à cidade, ao bairro de “Sarobá” (MATOS, 1936, p. 9-10), ao “Beco sujo” (MATOS, 1936, p. 11-13) e à descrição do abismo social e econômico entre os ricos e os espoliados.
Exemplo modelar de engajamento social do poeta é o poema “Cartaz de sensação” (MATOS, 1936, p. 69-70), que nos serve de exemplo: nele, a madame dá aos seus animais de estimação alimento
7Consultamos as seguintes obras: Alambert (1994), Ávila (2002), Brasil (1976), Brito (1997), Bueno (2006), Castello (1999), Coelho (1994), Costa et alli (1982), Coutinho (1997), Fabris (org.) (1994), Faraco e Moura (1998), Kothe (2003-2004), Martins (1973), Moisés (2004), Nicola (1998), Platão e Fiorin (1997), Sodré (1969), Tersariol ([199-]), Tufano (1996) e Veríssimo (1995).
8Pound (1970, p. 77; ver ainda a p. 13, no prefácio de Augusto de Campos) afirma que os poetas são a antena da raça humana – e Lobivar parece que soube captar a época com rara acuidade, muito embora se possa discutir que a realização literária ficou aquém da proposição, o que também não é de se estranhar, dada a juventude com que o poeta lançou suas obras.
Rauer R. Rodrigues/Kelcilene Grácia-Rodrigues [87-99] ... “do bom e do melhor” enquanto os vizinhos, “esmolambados”, sem pão, “comem terra” e, sem roupa, “andam nus”. O eu-poético discorre sobre o “‘Bungalow’ moderno”, a madame “virtuosa” e sem filhos que organiza festas de caridade e cuida “de periquitos / e de cachorros de sangue azul” para, em oposição, descrever o “barracão escuro”, do preto desempregado. Explicitada a antítese social, a última estrofe destaca: “– Fé em Deus, viva a Pátria e... chova arroz!” (MATOS, 1936, p. 70).
Emerge do discurso lírico, marcada graficamente pelo travessão, ressaltada por ser uma estrofe com um único verso que fecha o poema, uma voz que, posta em relevo, surge como se clamor do próprio poeta. Ao manifestar-se desse modo algo grandiloqüente, em que mescla ironia e voluntarismo político, o eu-poético compartilha com o leitor a moral da sua “fábula” e realiza o que propôs nos prefácios: o poeta que verbera diante da desigualdade econômica também satiriza as idéias de religião e de pátria, que não evitaram o lancinante desnível social entre os homens, pois o que importa de verdade para os desvalidos é o arroz que lhes mate a fome que os mata.
Denunciar, refletir, engajar-se: do prefácio-profecia o poeta de
Areôtorare e de Sarobá faz comício-poesia. Antena da raça e do seu tempo, tanto estética quanto ideologicamente, essa é – nascida do grande mar de Xaraés que constituiu o Pantanal em isolada planície no
centro da periférica América do Sul – a ars poetica de Lobivar.
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