2 A GENEALOGIA DO PODER DE MICHEL FOUCAULT
2.5 A GOVERNAMENTALIDADE
2.5.2 Razão de Estado e Governamentalidade Policial
2.5.2 Razão de Estado e Governamentalidade Policial
Com a crescente preocupação do soberano para com as maneiras de governar, deu-se início a uma razão de Estado específica. Castro-Gómez (2010, p.
111) afirma que não se tratava puramente de uma razão política, mas uma arte de governar dotada de uma ratio específica, uma forma de atuar, racionalizar e calcular inteiramente nova. Gerou-se, então, uma arte que estabeleceu racionalmente uma ordem, uma taxonomia das coisas que devem ser governadas.
15 De acordo com Schumpeter (1994, p. 159), a polícia, ou a polizeiwissenschaft se tornou uma prática comum na Alemanha e na Itália, principalmente no século XVIII, envolvendo os princípios de administração econômica e de polícia. Sua origem está na burocracia das carreiras do serviço público, em que, neste período, as práticas começaram a ser investigadas no âmbito teórico e prático, institucionalizando-as.
A evolução tomada pelas tecnologias de poder político chegou, ao fim do século XVII, com a caracterização que Foucault (2008c, p. 421) denominou de
“polícia”16, no sentido de representar o cálculo e a técnica que possibilitou estabelecer relações entre o crescimento e a ordem do Estado dentro da nova razão governamental. Nela, a polícia vigiava não os homens como indivíduos, mas por suas relações e pela maneira como viviam e produziam, tornando o homem um objeto-alvo da polícia.
De acordo com Foucault:
Como forma de intervenção racional exercendo o poder político sobre os homens, o papel da polícia é de lhes dar um pequeno suplemento de vida;
e, assim fazendo, de dar ao Estado um pouco mais de força. Isso se faz através do controle da “comunicação”, quer dizer, das atividades comuns dos indivíduos (trabalho, produção, troca, comodidades). (FOUCAULT, 2010a, p. 379)
Para Foucault (2010a, p. 380), as teorias presentes nos séculos XVII e XVIII sobre o domínio da polícia incluíam várias esferas da vida: a religião, a moralidade, a saúde, as provisões, as edificações públicas, a segurança pública, as artes, o comércio, as fábricas, os empregados domésticos e os pobres, velando todas as regulamentações da sociedade, e, de maneira geral, a vida e a felicidade dos homens, de forma que seu desenvolvimento também garantisse a potência do Estado ao consolidar a arte moderna de governar.
A partir desta razão de Estado, a população emergiu como uma das principais finalidades do Estado, mas ainda de forma precária nesta conjuntura instaurada no século XVII, em que a principal preocupação do soberano não era a “felicidade da população”, mas a riqueza e prosperidade do Estado, tornando a razão de Estado uma relação do Estado consigo mesmo em seus meios e fins (FOUCAULT, 2008c).
O pensamento acerca do funcionamento do Estado de polícia foi proposto inicialmente por Turquet no século XVII, que considerava a polícia como um conjunto de meios pelos quais é possível fazer que as forças do Estado cresçam (FOUCAULT, 2008c). Segundo a tese de Turquet, as principais funções da polícia a colocavam como reguladora e administradora, dirigindo o Estado ao mesmo tempo de maneira geral e particular, na medida em que deveria, também, cuidar dos
16 Segundo Smith (1978, p. 331), a palavra polícia (em inglês, police) é derivada do francês, mas de origem primária grega, e que indica, no inglês, o mesmo que policy ou politicks [sic].
homens a partir de suas relações, vidas e produção, enfatizando de maneira contínua a elevação da potência estatal (FOUCAULT, 2010a).
Foucault argumentou:
O que caracteriza o Estado de polícia é aquilo que lhe interessa [sic] é o que os homens fazem, é a sua atividade, é sua “ocupação”. O objetivo da polícia é, portanto, o controle e a responsabilidade pela atividade dos homens na medida em que essa atividade possa constituir um elemento diferencial no desenvolvimento das forças do Estado. [...] É a atividade do homem como elemento constitutivo da força do Estado. (FOUCAULT, 2008c, p. 433)
Neste contexto, coube ao soberano tomar sob sua responsabilidade a ocupação dos homens, fazendo desta um elemento-chave da força do Estado.
Criou-se uma utilidade estatal a partir das atividades humanas, em que a polícia se ocupou com a população e suas características: seu número absoluto, suas condições de saúde, suas atividades e a circulação de mercadorias provenientes de suas atividades (FOUCAULT, 2008c).
Sendo assim, governar passou a significar, a partir do século XVII, o desdobramento de um aparato de saber articulado a um aparato governamental. O ato de governar abandonou o fundamento essencialmente jurídico da soberania e se voltou para o conjunto de fenômenos próprios que deveriam ser regrados por um tipo de conhecimento específico, o político (CASTRO-GÓMEZ, 2010).
No início do século XVIII, com Delamare e Von Justi, a caracterização da polícia e suas funções foram remodeladas de forma a abranger um conjunto de leis e regulamentos que diziam respeito ao interior do Estado (FOUCAULT, 2008c). A arte de governar que se instaurou, portanto, deveria se ocupar com a felicidade dos homens e velar por todas as coisas que regulamentavam a sociedade e que influenciavam na vida dos homens, ou, como define Foucault (2010a, p. 381), “(...) cabe à polícia permitir aos homens sobreviver, viver, e fazer melhor ainda.”, abrangendo áreas como a moral, a religião, o conforto do corpo e a riqueza.
Esta concepção de polícia do século XVIII ampliou, com Von Justi, o foco de suas políticas quando aplicadas não apenas sobre o indivíduo, mas sobre uma população. Uma vez que a polícia velava pelo conjunto vivo inserido no território, coube a ela preservar e ampliar a vida, a produtividade e a reprodução do povo com a finalidade de ampliar a força e opulência estatal (FOUCAULT, 2010a). Poderia-se
afirmar a partir desta perspectiva que, com as técnicas de governamento policiais, o povo adquiriu um caráter de riqueza nacional, indo além de modelos tradicionais de soberania territorial.
Assim, cabe argumentar que a governamentalidade ampliou o escopo político-filosófico da investigação de Foucault. Uma vez que o estudo sobre o conjunto das técnicas de governamento sobre os homens adquiriu relevância após a construção e consolidação do conceito de biopolítica, caberia uma análise crítica conjunta de ambos os deslocamentos teóricos no esforço de verificar como os dois elementos se complementam positivamente ou negativamente.