3 CONCILIAÇÃO: mito da proteção na Justiça do Trabalho
3.1 Razões para conciliar
3.1.1 Razões dos trabalhadores
No primeiro capítulo dessa pesquisa, foi apresentada uma compreensão histórica acerca do trabalhador livre no Brasil, desde a sua condição marginal no período escravocrata até sua elevação a símbolo nacional na Era Vargas.
Como já foi anteriormente discorrido, o trabalhador brasileiro foi aquele que, surgido das sombras da escravidão, lutou para que seu trabalho em nada se assemelhasse à condição de escravo. O patrão, por sua vez, ainda que o percebesse como um elemento importante, não dispensava a ele um tratamento digno ou igualitário. Afinal, tratava-se apenas de um trabalhador.
Não é novidade dizer que o trabalhador, na esmagadora maioria das lides, é a parte mais vulnerável da relação. Não por acaso o Direito Processual do Trabalho tem consagrado o princípio da proteção.
Sérgio Pinto Martins entende:
O verdadeiro princípio do processo do trabalho é o da proteção. Assim como no Direito do Trabalho, as regras são interpretadas mais favoravelmente ao empregado. Em caso de dúvida, no processo do trabalho também vale o princípio protecionista, porém analisado sob o aspecto do direito instrumental. O empregador sempre tem melhores meios de conseguir mais facilmente sua prova, escolhendo testemunhas entre seus subordinados,
podendo suportar economicamente a demora na solução do processo. Já o empregado não tem essa facilidade, ao ter que convidar a testemunha e não saber se esta comparecerá, com medo de represálias do empregador e, muitas vezes, de não ter prova a produzir por esses motivos (2010, p. 41).
O princípio da proteção visa a tornar mais equilibrada a relação entre o trabalhador e o empregador, a fim de que o maior poder econômico do empregador seja minimizado em relação à proteção da Justiça do Trabalho.
Com base no questionário, é importante destacar que foram escolhidos os juízes do trabalho da 16ª região devido ao fato de eles possuírem um papel de destaque na prática conciliatória da justiça trabalhista do Maranhão. A eles foi dirigida a seguinte pergunta: A “pressão econômica”, o desejo de receber mais rapidamente as verbas trabalhistas influencia na decisão do reclamante (trabalhador) de querer conciliar?
Os entrevistados ao responderem esse questionário não tiveram dúvidas ao reconhecer, em uma escala de variação de 1 a 6 – sendo que o 6 representa uma maior influência e o 1, uma menor –, que a “pressão econômica” e o desejo de receber as verbas trabalhistas o mais rapidamente possível são decisivos no momento de se optar pela conciliação.
Não há surpresa nisso, pois a celeridade é também um dos argumentos mais fortes em prol da conciliação. Ainda assim, quando se analisa que as respostas são somente dos juízes do trabalho é possível concluir que a posição afastada – em tese, imparcial – empresta aparente legitimidade, ao se ter como verdadeira a pressão econômica sofrida pelo trabalhador em favor da conciliação. A presença do estado-juiz não é capaz de afastar a coação econômica que, tal constatação emerge da interpretação dos dados coletados no instrumental aplicado. É a visão da maioria da maioria dos juízes do trabalho.
Gráfico 6: Opinião dos juízes do trabalho sobre a pressão econômica exercida sobre o
trabalhador no momento da conciliação.
Fonte: Questionário de pesquisa de autoria própria
O trabalhador deseja ver sua demanda solucionada o mais rapidamente possível. Desse modo, a celeridade é forte em favor da conciliação. Elaine Nassif afirma que o trabalhador, como todo litigante, tem pressa de receber qualquer valor rapidamente e é especialmente seduzido pelo recebimento do seguro-desemprego, quando existe tal possibilidade (2005, p. 179).
Fonte: Questionário de pesquisa de autoria própria
Os dados do gráfico acima são, no mínimo, reveladores: 45% dos juízes do trabalho acreditam que os empregadores pagam bem menos do deveriam, se observassem a lei; outros 20%, que pagam somente a metade do que era devido. Importante ressaltar que 65% dos juízes do trabalho que responderam ao questionário acreditam que o trabalhador recebe menos do que deveria quando realiza a conciliação trabalhista.
No curso da argumentação, é possível demonstrar dois interesses do trabalhador que estão em jogo durante a conciliação trabalhista: a rapidez da lide e o valor recebido.
Não resta dúvidas de que um acordo, quanto à celeridade, quando cumprido, permite ao trabalhador dispor mais rapidamente das verbas salariais, assim como ter acesso aos recursos disponíveis do sistema estatal de proteção ao emprego, tais como o seguro- desemprego ou o FGTS.
Por que o trabalhador optaria pela conciliação para receber menos do que deveria? Não seria irracional?
Uma hipótese secundária plausível, capaz de responder a indagação seria que o trabalhador erra ao aceitar a conciliação. Contudo, devem-se averiguar outras circunstâncias que levam o trabalhador a conciliar. As incertezas sobre o resultado da reclamação, a necessidade econômica, a possibilidade de retaliação do empregador e de outras empresas são fatores que também influenciam na escolha pela conciliação.
Segundo Elaine Nassif:
Nesse sentido, muitos são os fatores externos influentes: o baixo sentimento de classe, de encorajamento à luta por direitos, a impotência da resistência ante a rotatividade de mão de obra, a possibilidade da existência de “listas negras”, a pequena duração dos contratos, a precarização, a fragilização sindical, o sistema judiciário - este também impotente, não se apresentando claro o suficiente para dar-lhe garantias de que a justiça será feita e de que ele receberá tudo que diz a lei, a convenção coletiva, o contrato individual (2005, p. 179).
Para o trabalhador, a proposta de acordo feita pelo empregador constitui uma escolha do tipo “isso” ou “nada”, o que na verdade não permite escolha. Para o trabalhador, a escolha racional é apenas uma: receber algum valor. A conciliação, infelizmente, nesses termos, é a medida mais racional a ser tomada.