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RBV no conjunto das teorias econômicas e da firma

Capítulo I A visão baseada em recursos e o conceito de capacidades dinâmicas como base para

1.2.2 RBV no conjunto das teorias econômicas e da firma

O nível de análise da RBV é a firma. Assim, trata de suas estratégias inovativas, recursos, competências, investimentos em diferenciação, busca por vantagens competitivas, entre outros aspectos. No entanto, como mencionado anteriormente, ela pode ser analisada sob a perspectiva de diferentes teorias econômicas e de gestão estratégica que compartilhem os pressupostos de que algumas firmas apresentam desempenho superior ao de outras, de que recursos e competências podem ser diferentemente distribuídos entre as firmas e de que essas diferenças podem ter longa duração (Barney, 1991; 2001a).

Schulze (1994), Mahoney (1995), Foss (1998) e Lado et al. (2006) destacam a existência de duas perspectivas dentro da RBV. A primeira assume um estado de equilíbrio e foca em como as firmas ganham e sustentam seus ganhos lançando mão de seus recursos únicos, valiosos e difíceis de imitar, posicionando-os como uma espécie de barreira à entrada. Os principais autores desta perspectiva seriam Barney (1991) e Wernerfelt (1984). Já a segunda perspectiva, mais recente, assume um processo dinâmico e foca em como estoques de ativos são acumulados, mobilizados, e desenvolvidos ao longo do tempo para gerar vantagem competitiva sustentável, abordando fenômenos evolucionários como inovação, aprendizagem, desenvolvimento de competências, etc. (Dierickx & Cool, 1989; Prahalad & Hamel, 1990; Teece et al., 1997). Estas perspectivas evoluíram sem que houvesse conflito entre seus autores, mas a perspectiva evolucionista vem predominando. Alguns autores chegaram até a discutir a RBV sob diferentes perspectivas

simultaneamente, como Conner (1991), Coombs et al. (1992) e Barney (2001a). Nesta subseção ilustramos sucintamente a discussão realizada por estes autores.

RBV e a abordagem estrutura-conduta-desempenho

Na abordagem estrutura-conduta-desempenho (E-C-D) – cujo principal precursor é Joe Bain (1959) -, as firmas estão sempre buscando manter ganhos extras persistentes por meio do fortalecimento de barreiras à entrada, alcance de monopólio ou acordos do tipo cartel. O ambiente externo tem grande relevância e a estratégia deve sempre ser desenhada a partir da relação que a firma tem com este. Sendo que a idéia de ambiente, na verdade, se restringe ao setor a que a firma pertence. Assim, a conduta da firma é determinada pela estrutura da indústria em que ela está inserida, em uma relação linear.

Para Porter (1980), que se baseia na E-C-D, este ambiente em que a firma se insere pode ser caracterizado por cinco forças competitivas básicas: ameaça de novos entrantes, ameaça de produtos substitutos, poder de barganha dos clientes, poder de barganha dos fornecedores, e a rivalidade entre os concorrentes estabelecidos. Dentre essas forças, apenas uma - a rivalidade entre os concorrentes – considera a existência de competências específicas e diferenciadas entre as firmas. Ainda assim, estas diferenças são altamente estilizadas e relacionadas principalmente à escala (Coombs et al., 1992).

Em 1984, Wernefelt se baseou nas cinco forças de Porter (1980) para desenvolver seu argumento sobre a RBV. Por meio da identificação dos diversos tipos de recursos específicos de cada firma, Wernefelt (1984) atribuiu às diferenças entre as firmas – e não ao poder de mercado ou à estrutura da indústria - a determinação de vantagens competitivas. Posteriormente, Barney (1991) também relacionou seu argumento à abordagem de E-C-D a fim de definir as características necessárias aos recursos para que possam trazer vantagens competitivas sustentáveis. O mesmo posicionamento foi adotado por Conner (1991), Rumelt (1991), Peteraf (1993), entre outros. De modo geral, estes trabalhos investigaram o impacto de atributos da indústria e da firma (e de seus recursos) no desempenho das firmas e chegaram à conclusão de que os efeitos ao nível da firma tendem a ser maiores que os efeitos ao nível da indústria (Barney, 2001a). Além disso, segundo estes trabalhos, os ganhos extras persistentes alcançados pelas firmas se devem aos seus ativos específicos e difíceis de imitar, e não apenas ao alcance de monopólio, como defende a abordagem E-C-D (Conner, 1991). De todo modo, atualmente os estudos em E-C-D foram

absorvidos pela economia neoclássica (Barney 2002 apud Barney 2001a) e a relação desta com a RBV é detalhada logo adiante.

RBV e a microeconomia neoclássica

Apesar de tanto a microeconomia neoclássica como a RBV considerarem as firmas “input-

combiners” (Conner, 1991), estas abordagens não consideram os mesmos pressupostos. Mesmo

que vertentes mais modernas da microeconomia neoclássica admitam alguns pressupostos compatíveis com a RBV – ex.: os atores econômicos são maximizadores de racionalidade limitada, os mercados podem variar com relação à competitividade, e a informação pode estar difundida de forma heterogênea no mercado (Barney 2001a) -, uma diferença relevante entre as abordagens é com relação à elasticidade do fornecimento dos fatores de produção (i.e. recursos e competências).

Para os neoclássicos, a maioria destes fatores obedece à lei de oferta e demanda e seus preços/valores são regulados pelo mercado. Já para a RBV, grande parte destes fatores é escassa no mercado e, principalmente, muitas vezes imóvel, inimitável e insubstituível, não seguindo a lei de mercado e sendo fontes de vantagem competitiva (Barney 1991; Conner, 1991; Peteraf, 1993). Em 1986, Barney chegou a escrever um artigo em que discutia a RBV sob a perspectiva da microeconomia neoclássica. No entanto, na visão do autor, este posicionamento não atendia a muitos aspectos relevantes para os estudos em estratégia.

Na década de 90, alguns autores como Peteraf (1993), Henderson e Cockburn (1994), Makadok (1999) se dedicaram à mensuração e caracterização dos atributos dos recursos e competências que fazem com que seu fornecimento seja inelástico sendo, portanto, geradores de diferencial competitivo entre as firmas (Barney, 2001a). Os resultados encontrados apontam que firmas que desenvolvem suas estratégias a partir de recursos ou ativos intangíveis, path dependent e socialmente complexos apresentam desempenho superior. Assim, parece plausível pensar que a RBV seja uma abordagem apropriada para o estudo dos ganhos gerados a partir da habilidade de desenvolver novas competências (Barney, 2001a).

RBV e a teoria de custos de transação

Um dos importantes aspectos levantados por Wernefelt em 1984 foi a importância da diversificação – ao invés de vendas ou lucros – para alavancar recursos. No entanto, ele não avançou com relação à estrutura de governança ideal para isso. Mas, já em 1982, Teece havia

aplicado a teoria de custos de transação (TCT) à diversificação em firmas intensivas em P&D e tecnologia. Assim, é possível vislumbrar alguma proximidade ou complementaridade entre as duas abordagens.

Em 1991, Conner identificou as principais semelhanças e diferenças entre a RBV e TCT e argumentou que, embora ambas abordagens reconheçam a importância da especificidade dos ativos das firmas, a grande diferença entre as duas é que a RBV foca na combinação e implantação de um conjunto de insumos ao passo que a TCT foca nos custo de transação, no oportunismo e em como evitá-los (Conner, 1991). Mahoney (2001) contra-argumenta que a RBV não pode ignorar a existência do comportamento oportunista e que são necessários à firma desenvolver meios de combatê-lo a fim de manter sua vantagem competitiva.

Mais recentemente, Madhok (2002) também fez uma análise detalhada dos pontos de divergência e convergência existentes entre a TCT – cujos principais teóricos foram Ronald Coase (1937) e Williamson (1975, 1985) – e a RBV. Tanto Coase (1937) quanto Williamson (1991) viam as firmas e mercados como meios alternativos de coordenação da produção, sendo a empresa caracterizada pela coordenação via relações de autoridade e o mercado caracterizado por coordenação via mecanismos de preço (Conner, 1991).

Já a RBV, ainda segundo Madhok (2002), traz a argumentação de que a razão pela qual uma atividade é conduzida dentro de uma firma não é falha de mercado (ou seja, o alto custo de transação de conduzi-la no mercado) e sim o sucesso da firma. Mais claramente, a firma como instituição apresenta uma vantagem organizacional que a permite organizar atividades econômicas de tal maneira que o mercado não é capaz de desempenhar ou o faz inferiormente. Além disso, a função de produção, na RBV, não é vista meramente como uma função técnica de transformação com entradas e saídas, disponível para todas as firmas e tida como dada, mas como uma função sofisticada e cheia de nuances, em que o componente técnico está intimamente ligado ao componente organizacional. É devido a isso que itens como o portfólio de atividades de uma firma, experiências passadas, inércia, aprendizado, path dependence, fluxo e armazenamento de conhecimento são centrais (Dosi et al., 1992).

Madhok (2002) destaca a importância do trabalho de Teece neste sentido. Vários de seus trabalhos (Teece, 1982, 1986, 1990, entre outros) vão além dos custos de transação e contratos eficientes de Williamson e discutem as diferentes formas pelas quais as atividades são realizadas

no interior das firmas (Teece et al., 1997:528) como resultado de suas rotinas (Nelson & Winter, 1982). E são exatamente estas diferentes maneiras pelas quais as firmas gerenciam seus recursos e competências que resultam – ou podem resultar – em desempenho superior e funcionam como fonte de vantagem competitiva (Barney, 1991; Peteraf, 1993).

Assim, a TCT foca essencialmente no papel da estrutura de governança eficiente num dado momento do tempo para explicar as firmas como instituições que organizam atividades econômicas. Já a RBV tende a enfatizar o papel da vantagem competitiva (Barney, 1991; Conner, 1991; Peteraf, 1993). No entanto, Madhok (2002), assim como Mahoney (2001), também visualiza certa complementaridade entre as duas abordagens. Numa tentativa de integrá-las, Madhok (2002) desenvolve o argumento de como a identidade e estratégia de uma determinada firma influencia o modo como seus recursos interagem com a transação e de que forma a firma decide governá-la.

Mais ainda, Madhok aponta outros pontos de convergência entre as duas abordagens, baseado na literatura. Primeiramente, o autor argumenta que a firma pode ser vista tanto como uma coleção de transações (Ulrich & Barney, 1984; Winter, 1988) quanto como um conjunto de recursos. As habilidades de governança, tanto no interior como através dos limites da firma, podem resultar em desempenho diferenciado e vantagem competitiva (Dyer & Singh, 1998; Adler et al., 1999). Quando as firmas interagem por meio de trocas, elas transacionam recursos (Madhok & Tallman, 1998; Chi, 1994). Neste caso, os atributos dos recursos, como intangibilidade, aumentam o problema de dimensionamento e assim impactam os custos de transação (Chi, 1994; Silverman, 1999). Se as firmas são superiores ao mercado por razões de eficiência - ou de adoção da estrutura de governança apropriada -, isto pode bem ser devido não apenas à redução destes custos, mas a fatores de melhoria da produtividade associados à capacidade/habilidade e conhecimento da firma (Madhok, 2002).

Assim, é possível assumir que os custos de transação embutidos na troca de recursos produtivos não são independentes da natureza dos recursos a serem transacionados, assim como os retornos obtidos destes recursos não são independentes dos custos de transação embutidos (Madhok & Tallman, 1998).

RBV e a economia evolucionária

Finalmente, neste último tópico, a RBV é discutida sob a perspectiva da economia evolucionária, sendo esta perspectiva considerada a mais adequada para o foco deste trabalho. No entanto, é importante destacar que os primeiros trabalhos sobre RBV não a relacionaram diretamente à economia evolucionária (Foss, 1998). A RBV é voltada para estudos de gestão e estratégia e muitos dos aspectos relevantes para esta área do conhecimento não eram tratados pelos autores evolucionistas na década de 80. Além disso, àquela época, a vertente evolucionista tendia a se voltar muito para a ecologia de populações (Hannan & Freeman, 1984)8 e darwinismo social, que em muitos aspectos contradizia não só a economia evolucionária de Nelson e Winter (1982), como também a RBV e os estudos em estratégia de um modo geral (Barney, 2001a).

Embora a RBV também reconheça a inovação como forma de obter ganhos extras, assim como a importância da visão empreendedora e a ameaça constante de potenciais imitadores, é possível identificar algumas divergências entre esta abordagem e a economia evolucionária, como argumentado por Conner (1991). Primeiramente, segundo a RBV, a busca e geração de inovação não dependem de vantagens monopolísticas previamente alcançadas, como argumentado por Schumpeter. Além disso, os imitadores podem ser barrados por recursos difíceis de imitar. Em terceiro lugar, choques exógenos podem ser críticos para a “destruição criadora”. Finalmente, bons ganhos podem resultar de inovações não necessariamente revolucionárias, desde que haja outras barreiras baseadas em recursos diferenciados (Conner, 1991). De todo modo, é importante lembrar que Conner contrasta a RBV especificamente com Schumpeter, não chegando a analisar trabalhos mais recentes neo-schumpeterianos.

Já Barney (1991) e Peteraf (1993) destacaram fortemente a importância do aspecto histórico das firmas e da idéia de path dependence para a construção da RBV. Peteraf (1993), inclusive, destaca Nelson e Winter (1982) como grandes contribuidores para o desenvolvimento da RBV. Além disso, como já mencionado um pouco acima, uma vez sendo rotinas9 mais eficientes capazes de trazer vantagens competitivas para a firma, podemos considerá-las recursos e competências sob a ótica da RBV (Barney, 2001a). Há ainda outros pontos de convergências

8 Embora Hannan e Carroll (1995) tenham esclarecido muitos pontos que geraram controvérsia em Hannan e Freeman (1984).

entre estas duas abordagens, como por exemplo, a idéia de vantagem competitiva sustentável, a qual permeia tanto a RBV quanto a economia evolucionária.

De todo modo – e a partir do avanço dos estudos em economia evolucionária -, muitos autores têm trabalhado no desenvolvimento de uma versão evolucionista da RBV, como Nelson (1991), Barnett, Greve e Park (1994), Levinthal e Myatt (1994), Teece, Pisano e Shuen (1997), Karim & Mitchell (2000), e o próprio Barney (2001b). De modo geral, estes trabalhos focam no processo de evolução das competências das firmas e nas implicações deste para o desempenho das mesmas (Barney, 2001a), foco este que vai ao encontro da análise que se pretende realizar neste trabalho. Barney (2001b) reconhece a importância do posicionamento da RBV sob a perspectiva da economia evolucionária a fim de conferir maior dinamismo à abordagem. Afinal, a capacidade de determinados recursos de geraram vantagens competitivas sustentáveis pode ser melhor entendida se analisada ao longo do tempo. Os trabalhos de Teece e de outros autores sobre capacidades dinâmicas também têm ido nesta direção e adotando um viés totalmente evolucionário em sua análise, como veremos na próxima seção. Neste trabalho, iremos considerar a RBV a partir da perspectiva da economia evolucionária, uma vez que as construções teóricas mais recentes da RBV têm-se apoiado fortemente em três pilares principais: intangibilidade, especificidade e path dependence (Dierickx & Cool, 1989; Reed & De-Fillippi, 1990; Schoemaker, 1990; Teece et al., 1997).