3. RFA e RDA: os contrastes na hora da união 95
3.1. A RDA a «milhas» da prosperidade e do bem-estar que se respira a ocidente 95
A tabela comparativa «1+1=1»,96 publicada no jornal O Independente, apresenta as principais diferenças de carácter económico e social, bem como, por extensão, as diferenças entre os sistemas políticos que até então imperavam nos dois Estados alemães (cf. [Anónimo] [Ind], 28.09.1990: 32-III). Esta tabela demonstra claramente a supremacia económica da RFA em relação à RDA, no âmbito do PIB e do progresso tecnológico. A face obsoleta da República Democrática Alemã é denunciada pelas percentagens referentes ao número de motociclos existentes neste Estado alemão, bem como por aquelas que revelam o difícil acesso dos alemães de Leste a aparelhos de comunicação e electrodomésticos sofisticados. Se, por um lado, a tabela em análise intensifica a imagem de uma RDA economicamente atrasada, por outro, evidencia a aposta do Estado socialista na cultura e na formação dos cidadãos. É de sublinhar a igual taxa de alfabetização em ambos os Estados (99%), bem como o facto de o número de jornais diários em circulação ser, segundo esta tabela, superior na RDA ([Anónimo] [Ind], 28.09.1990: 32-III). Este é, na verdade, um facto ainda mais significativo se considerarmos que a população total deste Estado (16,73 milhões) era muito inferior à da República Federal (60,162 milhões). Vale a pena, contudo, referir a censura política a que os media na RDA eram submetidos pelo regime da SED, que considerava que os meios de comunicação deveriam ser uma fonte activa na construção de uma «sociedade socialista avançada». Lembremos que na ex-República Democrática Alemã havia uma única agência noticiosa com monopólio da TV, rádio e imprensa.97
Os dados avançados na tabela em apreço transmitem imagens distintas dos dois Estados alemães: uma RDA socialista obsoleta e uma RFA capitalista que é espelho do sucesso da economia de mercado e do progresso técnico. A disparidade entre os dois países parece ser dificilmente dissociável da imagem da Alemanha unificada. A informação contida na tabela aponta precisamente para o papel preponderante que a economia da RFA iria assumir numa
96 Vd. infra Fig.15. 97 Vd. supra Cronologia.
Alemanha unificada e, implicitamente, para as dificuldades de índole económica, política e social com que se iria deparar todo o processo de Unificação.
RFA RDA Área em Km2 249 108 População (1989) 60,162 16,73 milhões Densidade Populacional 626 400 m2 População Urbana (1986) 86 % 76,6 % Religiões Católica 45 % 7 % Protestante 44 % 47 % Nenhuma 1 % 45 % Taxa de Alfabetização 99 % 99 %
Escolaridade Obrigatória 10 10 anos
Esperança de vida (anos) (1988)
Homens 70 69
Mulheres 77 75
Camas de Hospital (1987) 674 169 milhares
Médicos (1987) 165 39
Habit. / camas de Hospital (1983) 89 97
Habit. médico (1983) 431 472
Força de trabalho incluindo militares (1988) 29,7 8,6 milhões
Emprego
Agricultura 5 % 12 %
Indústria 41 % 48 %
Serviços 54 % 40 %
Produto Interno Bruto (PIB) (1988) 1200 155 109
US$
PIB por pessoa 19500 9300 US$
Principais Produtos
Industriais Aço Aço
Químicos Químicos Máquinas Máquinas Automóveis Têxteis Carvão Produtos Construção Naval Eléctricos
Agrícolas Cereais Cereais
Batatas Batatas Beterraba Beterraba
Minérios Carvão Carvão
Ferro Urânio Lenhite Lenhite Potassa Potassa
Terra Arável 30 % 47%
Produção de electricidade (1987) 118 406 kwl
Produção Bruta de carvão (1986) 36,2 8,2 milhões
de toneladas
Casas de Família com carro (1988) 97 % 52 %
Motociclo 8 % 18 % Arca Congeladora 77 % 43 % Máquina de Lavar (M.L.) 99 % 99 % M.L. automática 76 % 10 % Televisão (TV) 98 % 96 % TV a cores 94 % 52 % Telefone 98 % 7 %
Jornais diários em circulação (1986) 417 559 1000
hab.
Fig. 15 – «1+1 =1» Os números como prova. De primeira potência económica europeia, no terceiro lugar do mundo. As Alemanhas Zusammen.» ([Anónimo] [Ind], 28.09.1990: 32-III).
João Viegas Soares, presentemente membro do Conselho de Administração do Diário de Notícias, trouxe a lume neste mesmo semanário, num artigo intitulado «Dieta milagrosa», a temática da superioridade da economia da Alemanha Federal sobre o modelo económico da RDA, aludindo às dificuldades que se previam para a primeira fase da Unificação:
«[…] A RDA precisa de tudo. De novas redes viárias e ferroviárias e de novos portos e aeroportos. As suas indústrias, mesmo as que hoje dispõem de alguma capacidade concorrencial a nível internacional, necessitam urgentemente de investimentos em maquinaria moderna, já que os últimos equipamentos foram adquiridos, na melhor das hipóteses, há 20 ou 30 anos. Como a indústria, também a exploração do sector agrícola é efectuada segundo métodos e técnicas ultrapassados. Para além disto, os níveis de produtividade dos trabalhadores são lamentáveis quando comparados com os federais (cerca de um terço) e os métodos de gestão das empresas estão viciados por anos e anos de aplicação da cartilha leninista.» (Soares [Ind], 06.07.1990: 27)
João Amaral,98 no artigo «Até amanhã, Herr Kohl», publicado sintomaticamente também n’ O Independente, analisa os resultados das eleições alemãs realizadas a 2 de Dezembro de 1990, tecendo igualmente algumas considerações acerca das dificuldades que pareciam ameaçar o sucesso da Unificação. Contrariando as expectativas dos leitores que conheciam bem a sua orientação político-partidária, o então destacado militante do Partido Comunista Português (PCP) dá uma imagem predominantemente disfórica da República Democrática Alemã, enfatizando o esforço titânico que teria de ser levado a cabo pelo governo de Bona para superar os problemas decorrentes do atraso da economia do Estado socialista:
«[…] agora é que a reunificação vai de facto começar. Para a levar a bom porto, o novo Governo precisa de tempo, gente e, sobretudo, muito dinheiro. Não será fácil conseguir nada disto, por muita saúde que actualmente respire a economia e muita esperança se acalente num «segundo milagre alemão». […] Um ano depois do Muro ter caído, fronteiras várias continuam a dividir a Alemanha. A leste, vive-se a milhas da prosperidade e do bem-estar que se respira a ocidente. O desemprego cresce a cada dia que passa. Empresas envelhecidas e cansadas, sem nenhuma perspectiva de futuro, são obrigadas a fechar as suas portas.
Faltam equipamentos essenciais. Os telefones, por exemplo, não funcionam. Os transportes, substancialmente mais baratos do que no ocidente, precisam de ser revistos e substancialmente melhorados. As casas estão velhas, tal como as escolas ou os hospitais. O ambiente está degradado, a poluição é quem mais ordena.99 […] Os técnicos que há não chegam para as encomendas, os funcionários públicos, nados e criados no antigo regime, não são de confiança e precisam de ser substituídos. Os salários são baixos, os níveis de produtividade não são melhores. Os subsídios de desemprego estão abaixo dos que se pagam no ocidente; as pensões de reforma também.» (Amaral [Ind], 07.12.1990: 18).
Ainda neste mesmo número, de 7 de Dezembro, João Amaral publica um outro artigo, intitulado «Berlim de vermelho e negro»,100 que apresenta os resultados das eleições de 2 de Dezembro de 1990 na Alemanha unificada. O articulista sublinha a importância dos «novos ventos» que então se levantavam, com a vitória de Kohl nas eleições gerais para o 12º Governo Federal:
«[…] os sinais exteriores de pobreza persistem a leste – nas pessoas, nas casas, nos restaurantes, um pouco por toda a parte. Pôr termo a esta situação vai ser uma das tarefas prioritárias do novo burgomestre, que não poderá deixar de se preocupar também com a harmonização dos usos e costumes, apesar de tudo diversos, que prevalecem numa e noutra parte.»101 (Amaral [Ind], 07.12.1990: 19).
Note-se que a publicação, no mesmo número, de dois artigos assinados por um militante do PCP e que evidenciavam a falência inequívoca do regime da SED indicia uma tendência n’ O Independente para inferiorizar o modelo socialista da RDA em relação ao modelo capitalista da RFA.
99 Vd. infra ponto 3.2.
100 A corrida às urnas seria dividida entre os sociais-democratas (SPD) – «vermelhos» – e democratas-cristãos (CDU) – «negros». Os vencedores foram os «negros» com 48,3% dos votos. Vd. supra Cronologia. Note-se que este valor difere daquele referido no artigo em causa. De facto, João Amaral registou 40, 3% e não 48,3%, como consta nas cronologias de referências usadas neste trabalho.
A jornalista do jornal Público Lurdes Ferreira102 compara o «estado de saúde» das duas Alemanhas, referindo um estudo realizado pela McKinsey, uma empresa internacional de prestação de serviços na área de consultoria, com um dos seus escritórios em Lisboa:
«Herbert Henzler, responsável da empresa, defende com base «em números concretos e não em impressões» que não há uma única empresa que, imediatamente após a união monetária escape a uma situação deficitária. […] Segundo dados oficiais, prevê-se que pelo menos 20 por cento das empresas tenham de encerrar e mais de 50 por cento necessitam de ajuda financeira para sobreviverem. […]. Hoje, na indústria automóvel da RDA são necessários 65 mil trabalhadores para fazer o mesmo que a RFA faz com três mil operários, com o apoio da tecnologia e organização de trabalho.» (cf. Ferreira [Púb], 01.07.1990: 8).
Lurdes Ferreira sublinha o definhamento da RDA nos sectores industrial e tecnológico, reiterando esta ideia através da publicação, neste mesmo artigo, de um quadro ilustrativo desta realidade. Com efeito, os dados que constam deste quadro revelam que, em cem lares da Alemanha de Leste, se encontravam apenas quarenta e oito com automóvel, trinta e seis com televisão a cores e sete com telefone, dados que claramente contrastavam com os referentes à RFA. Note-se que neste Estado, em cem habitações, noventa e sete tinham automóvel, noventa e quatro possuíam televisão a cores e noventa e duas tinham telefone (cf. Ferreira [Púb], 01.07.1990: 8). As percentagens apresentadas nesta tabela não coincidem, na totalidade, com aquelas lançadas na tabela «1+1», publicada no jornal O Independente. Interessa, contudo, sublinhar que, apesar das ligeiras diferenças, permanece clara, em ambas as tabelas, a imagem de uma RFA próspera e moderna e de uma RDA falida e obsoleta. Lurdes Ferreira demonstra ainda que o salário médio de professores e enfermeiros na Alemanha ocidental era de 3000 DM, três vezes superior ao atribuído na oriental. No sector da habitação, destaca-se o facto de o aluguer médio por casa com 200m2 ser de 6000 DM em Berlim ocidental e de apenas 80 DM em Berlim Leste. O mesmo se verificava no aluguer de um apartamento que custava em média 1200 DM na RFA e 60 DM na RDA. Esta notória discrepância mantém-se, mesmo quando temos em conta as diferenças salariais entre as duas Alemanhas. Vejamos, por exemplo, que o
aluguer de um apartamento na RDA custava cerca de 6% do salário médio de um cidadão, enquanto na RFA representava cerca de 40%. Sublinhe-se, no entanto, que a maioria das casas na Alemanha oriental estava claramente degradada, distinguindo-se daquelas da República Federal Alemã.103 Teresa de Sousa104 salienta igualmente as diferenças entre os dois Estados alemães, publicando também uma tabela que evidencia o facto de na RDA os sectores da alimentação, transportes públicos, habitação, vestuário e electricidade, considerados bens essenciais, terem custos bastante inferiores em relação aos da RFA. Teresa de Sousa demonstra que o mesmo não se verificava nas novas tecnologias: o preço de bens como televisão a cores, máquina de lavar ou frigorífico era gritantemente mais elevado na Alemanha de Leste, realidade que, podemos afirmar, espelhava a filosofia de um regime avesso a qualquer sinal do progresso capitalista. Lina de Lonet Delgado105, num outro artigo intitulado «Agricultores invadem Berlim», reitera o carácter obsoleto da economia da quase extinta RDA:
«Em Bruxelas, as palavras foram muito claras: só os produtos que respeitarem as normas internas poderão ser exportados. Um exame chumbado à partida. A produção da RDA não atinge os níveis exigidos, quer em higiene […] quer ao nível do tamanho e embalagem, já para não falar nos níveis de pesticidas e adubos utilizados na agricultura.106 […] Aos olhos da CEE, as unidades agrícolas alemãs orientais, verdadeiros mamutes se comparadas com as congéneres ocidentais, são improdutivas: empregam demasiada mão-de-obra e a tecnologia é digna de museu, os preços de produção são demasiado elevados e a qualidade encontra-se abaixo das normas.» (Delgado [Púb], 29.07.1990: 10).
103 Vd. infra ponto 3.2.
104 Teresa de Sousa iniciou a sua carreira jornalística em 1976, no Jornal Novo e trabalhou na redacção do Expresso entre 1982 e 1989. É no Público, jornal que integrou desde a sua fundação, que tem desempenhado funções de colunista e redactora principal em assuntos europeus e internacionais. Faz também parte da sua carreira jornalística a colaboração com cadeias de rádio e televisão, bem como em revistas nacionais e europeias. Foi autora de obras como Mário Soares - uma biografia (1988), Portugal no Centro da Europa (1996) e Euro - para além da moeda (2002) (cf. http://www.gulbenkian.org/microsite_FCG_v1_0_2/oradores/teresa_sousa.htm [em 01.02.2008]).
105 Não foi possível recolher qualquer informação acerca da biografia profissional desta articulista. 106 Vd. infra ponto 3.2.
Fig. 16 - «Berlim já não está a Leste» (Sousa [Púb], 02.07.1990: 12).
Ambos os periódicos mencionados deixam vir à tona uma imagem disfórica da República Democrática Alemã, enquanto Estado incontestavelmente obsoleto e falido nos mais diversos domínios. Por oposição, é esboçada uma imagem bastante positiva da RFA, soberana em termos económicos e tecnológicos, sendo aludido o seu papel preponderante na Alemanha unificada.
3.2. A ilusão e a realidade – a «poluição catastrófica» do meio ambiente e a degradação