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III. Uma geografia das práticas para o estudo da governação da pobreza?

1.4. Re-ligar jovens, profissionais e tecnologias de controlo

conotando-os com referências simbólicas intimamente associadas a essas práticas. Esses espaços de que se apropriam (…) funcionam como suportes de identidades sociais tipicamente juvenis. É também através da apropriação de natureza espacial que os jovens se diferenciam e opõem uns aos outros” (Pais, 2003 [1993], p. 189).

A partir deste esquema interpretativo Machado Pais propõe que o menor controlo e o constrangimento e disposição para a re-invenção das práticas induzem ao desempenho de práticas expressivas. Esta é uma das bases explicativas para o que usualmente se toma como “culturas de rua”.

De uma forma ou de outra, a fixação ao bairro parece, de facto, responder à necessidade de evitar o controlo, mas não o controlo social genérico ou inter geracional, mas um controlo específico, aquele que se enfrenta perante a polícia.

O social, como parte integrante do objecto de estudo, reúne um conjunto diversificado de profissionais que não é passível de uma correspondência directa quando se compara Portugal e França. Desde logo porque neste último país a acção social orientada para os jovens remonta ao pós-guerra tendo sido amplamente desenvolvida nos anos 1960 e 1970, décadas em que se institui, por exemplo, os clubes de prevenção que enformam a acção dos educadores da prevenção especializada. Diferentemente de Portugal, em França a anterioridade no investimento na formação de profissionais especializados e na publicação dos estatutos que enquadram a sua intervenção propiciou a consolidação de uma forte identidade profissional interna e externamente sustentada. Consequentemente, naquele país, apesar de nos últimos anos se assistir a uma forte pressão para uma reorientação mais constritora e repressiva das práticas dos profissionais voltados para a juventude, os discursos contemporâneos revelam a persistência do princípio psicológico em articulação com o princípio democrático (Dubet, 1987).

Em contraste com a França, em Portugal a formação para a intervenção social esteve durante largas décadas ligada a formas de percepção e de intervenção muito conservadoras e tendencialmente caritativas (Rodrigues e Figueira, 2003), o que tem mudado nos últimos anos, mas de forma lenta e ainda insuficientemente direccionada para a juventude. Por outro lado, o facto de grande parte destes profissionais não se reger por estatutos claramente definidos fragiliza a sua intervenção e o seu reconhecimento social. Um caso flagrante é o do mediador, mas podem referir-se outros como sejam o do técnico psicossocial, cujo perfil se prefigura no domínio da formação, mas que, uma vez no terreno, se depara com indefinições e incertezas semelhantes às vividas pelos mediadores.

É interessante verificar no discurso dos novos técnicos do social (educadores sociais vindos do Instituto Superior de Ciências da Educação na Ramada, entre outros) o peso dos “bairros” como destino profissional, e dos jovens de bairro como destinatários centrais, mas ainda assim entre estes recém licenciados o conhecimento sobre o mundo dos jovens revela-se ténue. Também aqui a abordagem no terreno privilegia o “problema social”, visto na óptica do défice cultural e marginalidade. Por outro lado, há um longo percurso a fazer até que estes profissionais, tal como outros envolvidos nos programas de combate à pobreza e exclusão (que envolvam jovens e muito particularmente jovens de “segunda geração”), revelem níveis de compleição política face às suas funções, semelhantes aos detectados em França.

A grande diversidade de profissionais envolvidos (trabalhadores de ATL ou de Centros de Juventude, professores, agentes de segurança, técnicos da reinserção social, técnicos locais para estabelecer a ponte entre a escola e a casa, assistentes sociais, técnicos das comissões sociais, entre outros) não permite, no quadro desta pesquisa, um aprofundamento de todas as tecnologias envolvidas nas práticas.

Porém, a centralidade da acção social como domínio transversal a um crescente conjunto de actividades, incluindo a polícia, e a crispação da relação jovens / polícia, levou-me a procurar aprofundar as categorizações e as tecnologias de intervenção inerentes à “cultura do trabalho social” e à “cultura da polícia”. Lembremos que a definição de cultura adoptada nos remete para as manifestações performativas de um saber social em uso (Thrift, 1996). O objectivo é compreender a partir da abordagem

performativa que cruza diferentes escalas discursivas os processos que explicam a frequente amálgama128 que tende a produzir-se no terreno entre vulnerabilidade e delinquência juvenil.

Vimos no segundo capítulo que as “novas políticas sociais” pressupõem uma “intervenção à medida” o que levou à criação de novas tecnologias de intervenção social distintas das políticas integrativas de cariz universalista, mas também das formas de actuação particularistas próprias das políticas assistencialistas de orientação reparadora e correctiva (Rodrigues e Figueira, 2003). Para reflectir sobre a problemática partiu-se da proposta de Soulet (2007) exclusivamente centrada na relação entre profissionais de acção social e sujeitos distinguidos em duas modalidades-tipo de exclusão.

Mas não tenhamos ilusões, aos trabalhadores sociais, como a um conjunto de profissionais cada vez mais vasto – educadores de infância, professores e mesmo agentes policiais - é de facto pedido um trabalho muito difícil de realizar. A sua função, teoricamente voltada para a criação de condições de contexto, é muito difícil de realizar porque o combate à exclusão é “apenas” uma das múltiplas competências a cumprir que frequentemente entram em choque com outras. Pierre Bourdieu (1993) aborda esta questão nos artigos da obra La misére du monde intitulados “La démission de l’État” e “Une mission impossible”. Na sua perspectiva os trabalhadores sociais são colocados numa situação de extrema fragilidade. Independentemente das modalidades de intervenção, os recursos de que dispõem pertencem sobretudo ao domínio simbólico, mantendo-se as “saídas” para os problemas fora do alcance das suas competências.

Nas suas palavras (Bourdieu, 1993, p.222):

“On comprend que les petits foncionnaires, et tout spécialment ceux d’entre eux qui sont chargés de remplir les fonctions dites « sociales », c’est a dire de compenser les carences les plus intolerábles de la lógique du marché, policiers et magistrats subalternes, assistentes sociales, éducateurs et même, de plus en plus, instituteurs et professeurs, aient le sentiment d’être abandonnés, sinon désaoués, dans leur effort pour affronter la misére matérialle et morale qui est la seule conséquence de la Realpolitik économiquement légitimée".

Esta ruptura entre diagnósticos e possibilidades de acção é ainda mais clara em Portugal onde o trabalho com os jovens em risco pós 16 não encontrou ainda espaços de reflexão e modalidades de intervenção

“à medida”. Como explicá-lo face ao reforço de meios? A resposta poderia estar nos constrangimentos da precariedade laboral, mas também na inspiração em modelos de actuação desenhados para a realização de uma missão, assim como na entrada dos trabalhadores sociais nos “jogos de manipulação de aparências” que obscurecem as limitações da intervenção pública. Tornava-se necessário aprofundá-lo129.

128 “Entendemos por amálgama enunciados que, referindo-se a um discurso, não são detectáveis por limites claros ou estáveis”

(Mouillard e Têtu, 1997, p.141 in Cádima et al 2003), ou seja na amálgama recorre-se a uma argumentação cuja relação com o objecto a explicar não está demonstrada, mas é ainda assim aceite porque se naturalizou (Breton, 2002).

129 No caso-estudo acompanhado em Portugal, o modelo assente na liderança – que remete para um modelo de reparação e correcção que se julgava na teoria ultrapassado - favorece a interiorização do espírito de missão.

Como demonstrar as dificuldades em realizar a árdua tarefa de analisar criticamente a intervenção territorializada, e as implicações do atravessamento da lógica das “boas práticas” como móbil para

“resolver” as rupturas percepcionadas na experiência? O aparatus da política tem a propriedade de favorecer o auto-convencimento, mesmo quando no discurso co-construído em entrevista (Mandada, 2000; Mondada & Pekarek, 1999) uma simples observação de particularidades específicas observadas nos contextos de intervenção se revela suficiente para destabilizar a conciliação com a “boa prática”.

No social bem como na polícia à categoria de “jovens dos bairros”, (expressão usada predominantemente no plural), sobrepõem-se outras categorias mais específicas, incluindo “jovem negro” ou os “pretos”, que são substituídas muitas vezes por “jovem de raça negra” em conversas mais formais ou em situação de entrevista. A categoria bollycao130, mais recente, é utilizada pela polícia para designar um jovem branco com “comportamento” de negro, reafirmando o entendimento do “outro suspeito” assente na sobreposição raça – idade – género. Como no caso dos bairros, as categorias mobilizadas para descrever o “outro”

assentam em distinções construídas fora da polícia, mas internamente reproduzidas na organização.

De facto, como recorda Durão (2008b) diversos autores revelaram que a polícia, enquanto organização específica, estabelece ligações a pré-noções hegemónicas associadas à delinquência que são parte integrante da sua produção (Becker 1991; Chaves 1999, 2000; Durão, Gonçalves e Cordeiro 2005;

Durão, 2008a; 2008b). À semelhança da categoria de “mitra” para designar o suspeito de rua (Durão, Gonçalves e Cordeiro 2005), ou da designação de “carocho” para o consumidor degradado (Chaves 1999, 2000; Durão, 2008a), a designação de “preto” (Durão, 2008a) e de bollycau, generaliza-se e incorpora um sentido extremamente radicalizado, porque violento.

O facto de, ao longo da investigação, a polícia estar presente na quase totalidade dos meus encontros com os jovens, seja porque passa em jipe ou em carro “zebra”131, seja porque entra nas conversas a propósito das histórias de vida de cada um, ou das narrativas que se constroem sobre o bairro, orientou-me para a necessidade de aprofundar a análise das práticas da intervenção policial já anteriororientou-mente interrogadas a propósito das “categorias de território” (Pato, 2006a).

Perante os inúmeros relatos das interpelações e perseguições policiais dirigidas aos jovens luso-africanos dentro e fora dos bairros que, como veremos, sustentam questionamentos sobre a forma de intervenção da polícia na intervenção de rua, a questão que se colocou, e à qual o trabalho empírico apenas permitiu aceder parcialmente é a seguinte: como se sustenta esta selectividade pela raça, género e idade que parece caracterizar o patrulhamento e o policiamento?

O poder performativo do preto e do bollycao é enorme, não só entre a polícia como entre os trabalhadores sociais e professores. Trata-se de um “duplo sistema de entendimento da actividade [que]

surge a evidenciar algumas particularidades do funcionamento e mecanismos dos poderes na actividade policial [mas também social e educativa] – que na antropologia tendemos a considerar […] culturais, na medida em que os léxicos atravessam gerações de polícias e com estes, enformam entendimentos da

130 Esta designação tem por referência um pão branco recheado de chocolate.

131 No léxico dos jovens as zebras são os carros de patrulhamento listados em azul e branco.

actividade no país – tais classificações da acção representam mais um eixo que de certa maneira aponta para separações entre as dimensões fora e dentro.” (Durão, 2008b, p.197).

O trabalho de Susana Durão nesta pesquisa revelou-se ainda fundamental por permitir ver “do outro lado” as percepções e experiências expressas nos discursos dos jovens. Segundo a autora,

“[…] os pretos tendem a ser encarados como suspeitos ou, pelo menos, a sua situação é mais vulnerável. Quando os agentes avistam um preto numa esquina, comentam imediatamente o facto e tomam a pessoa como suspeita. Se for jovem e estiver num local referenciado, este tem mais probabilidades de ser interpelado, revistado e conduzido à esquadra. […] Em unidades consideradas mais “operacionais” e de controlo da ordem, nos piquetes de intervenção rápida, não é pouco comum dizer-se: “Vamos à caça dos pretos!” (Durão, 2008a, p.251).

Deste modo se cumpre, o que diversos autores sublinham como uma tendência das polícias metropolitanas: o jovem negro é um alvo preferencial da intervenção policial de rua (Anderson, 1990, 1999; Kelley, 1997; Davis, 1990; Wacquant, 2001, 2004, 2005).

Evidentemente que, também no trabalho da polícia, não se pode generalizar a incriminação do preto.

Como refere a autora, este sistema de entendimento pode ser ligado ao modo como os polícias se posicionam em relação aos demais actores. Não é possível desligar as categorias classificatórias associadas à delinquência das categorias classificatórias construídas internamente pelos polícias a respeito de si próprios, fortemente baseadas nas valorizações das formas de desempenho do mandato policial (Durão, 2008a). Ou como refere o agente policial presente na Quinta da Fonte até ao final de 2008, “há bons e maus profissionais em todas as profissões”, muitos polícias cometem excessos e entram em disputas com jovens que “sabem” ser os autores de desordens, mas que não conseguem apanhar.

Na base das práticas de intervenção policial e do modo como a polícia gere e subverte o poder dentro da instituição e fora dela, não estão somente os aspectos de ordem intersubjectiva substantivados numa cultura profissional em prática. A empiria mostra como os papéis inerentes à apresentação da polícia como mega-organização interferem também na forma de actuação, designadamente por via dos novos modelos de policiamento e concretamente do Contrato Local de Segurança. Um último questionamento colocou-se a partir da observação do aparatus policial presente no bairro na sequência do “tiroteio” que retrataremos no último capítulo.

Por seu lado, a reconstituição da legenda da intervenção pública em Bacalan permitiu detectar que a anterioridade da repressão policial em França não pode ser desligada do esvaziamento do espaço público. Mas mesmo esta repressão deixa margens de manobra aos jovens, mais silenciosas ou também elas mais aparatosas, como no caso dos motins. Do lado dos jovens o esvaziamento alterna com a aplicação de tácticas de neutralização e de invisibilização132e à preparação de tácticas de fuga perante a

132 o não andar em grupo na rua, criando uma distância de 100 a 200 metros a alternância de passeios, o fazer-se acompanhar de livros ou de um jornal debaixo do braço, ou o abandono do uniforme de rua e porte de uma indumentária mais clássica com a qual não se sentem de todo identificados.

chegada da polícia. Para os poucos que astuciam, contestam ou prevaricam, o esvaziamento aponta para: o reforço da intervenção do sistema judicial e penal designadamente na proibição de fruição de espaços e de companhias que muitas sentenças integram; noutro plano, aponta para a criação de condições judiciais específicas para a detenção, que não podem ser dissociados dos processos de pacificação dos bairros, à semelhança do que defende Wacquant (1999, 2004, 2005, 2008).