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“São só dois lados Da mesma viagem O trem que chega

É o mesmo trem da partida A hora do encontro É também despedida A plataforma dessa estação É a vida desse meu lugar É a vida desse meu lugar É a vida”

(Milton Nascimento; Fernando Brant)

Nesta estação de viagem pela pesquisa assumo um “entre-lugar”, colocando-me ao mesmo tempo como “guia turístico” e como “turista”. No lugar de “guia turístico”, pretendo apresentar o PEAS, seu funcionamento, sua organização, falando do lugar de alguém que tem uma convivência com o programa. Ao contrário do que pode ser “tradicionalmente” dito de um “guia turístico”, não serei aquele que domina tudo o que há para saber sobre o PEAS. Por isso, nessa viagem pelo programa, me coloco também no lugar de “turista”: aquele que, ao “visitar” os lugares, se admira, se espanta, observa, conhece novas/outras histórias e pessoas, o que me permite ver o PEAS sob ângulos antes desconhecidos, despercebidos. Novos encontros, novas despedidas: encontro com o PEAS sob a forma de pesquisador, despedidas de olhares e impressões anteriores. Acredito que venho sendo “turista” pelo programa há algum tempo, pois meu envolvimento com ele antecede à pesquisa que me permite escrever este texto. Então, não serei um “turista novato”, porque trago comigo algumas recordações, algumas histórias e experiências que acabaram funcionando como as fotografias que tiramos em viagens: o que achamos “interessante”, “curioso”, “importante”, enfim, que deixa marcas e faz do “viajante” uma pessoa “diferente” a cada nova viagem, mesmo que seja aos mesmos lugares. O lugar de “turista” me permite também assumir o olhar de um “estrangeiro”, “capaz de exercitar o estranhamento, a perplexidade e a descoberta diante do próprio saber-fazer” (MEYER e SOARES, 2005, p.37). Esse olhar carrega consigo um tanto de “curiosidade”, do tipo que permite “separar-se de si mesmo”, pensando e percebendo as coisas diferentemente do que havia pensando/visto (FOUCAULT, 2001).

É deste lugar, de “guia-turista”, que construo meu olhar sobre o PEAS, o qual, reafirmo, não pretende ser um lugar de “saber-poder-verdade”. O Programa de Educação

Afetivo-Sexual pode ser visto como uma ação, inicialmente do Estado e mais tarde também de empresas, cujo propósito, em longo prazo, é provocar mudanças políticas e sociais, vendo o(a) adolescente como um “projeto do futuro” ao mesmo tempo em que um “cidadão64

de hoje”. Ao tentar promover uma maior participação e envolvimento dos(as) adolescentes na vida política e social, os instituidores e parceiros do programa podem estar preocupados com a formação de adultos igualmente envolvidos e participativos, capazes de mudar a situação social e econômica em que o país se encontra. Talvez por isso o contexto de ação do PEAS seja fundamentalmente o espaço escolar: já se tornou “lugar-comum” para muitos afirmar que “o futuro do país depende da educação”, ou “se o país tivesse uma educação de qualidade, as coisas não estariam assim”. Sinto-me instigado a pensar se esses discursos, que apresentam ideais de uma educação “salvacionista”, não estariam se materializando através de ações como o PEAS.

Faz-se importante destacar, no entanto, que não há nada de “essencialmente” negativo nessas proposições. Desse modo, não estou me colocando contra elas, nem mesmo a favor, mas talvez tentando achar um caminho alternativo, pelas fronteiras desses ideais, procurando vê-los como discursos produtores de sentidos e representações sobre a “realidade” da qual fazemos parte. Quando se pensa que os(as) adolescentes de hoje serão os(as) adultos(as) do futuro, ou que os(as) adolescentes de hoje devem exercer plenamente sua cidadania, podem estar sendo atribuídos a eles(as) alguns “lugares”: “adolescente-solução”, “adolescente-salvação”, “adolescente-esperança”. A atribuição dessas “posições-de-sujeito” se baseia na idéia de adolescência como um “tempo” de formação, através do qual estaríamos nos formando “plenamente”, no que diz respeito à consolidação dos nossos valores, do nosso “projeto de vida”, enfim, constituindo a “base fundamental” sobre a qual se edificaria a idade adulta. Em se tratando do PEAS, essas concepções podem ser observadas no seu objetivo65 principal: “promover o desenvolvimento pessoal, social e produtivo de adolescentes por meio de ações integradas de caráter educativo e participativo focalizadas na sexualidade e na saúde sexual e reprodutiva, implementadas nas escolas participantes do PEAS em Juiz de Fora”

64 O conceito de “cidadania” no PEAS parece estar relacionado diretamente à participação social, através do

pleno exercício de direitos e deveres, tendo em vista possíveis mudanças no âmbito político-social das comunidades. “Para que os direitos e deveres, reconhecidos socialmente e gravados em lei, se transformem em ação, é preciso viver a dialética direito-dever e refletir sobre ela. Direitos e deveres constituem uma via de mão- dupla. É importante aprender a lutar, como cidadãos, por nossos direitos, mas é também imprescindível compreender que os direitos só se tornam realidade na medida em que cada pessoa cumpre seus deveres com os outros” (BALEEIRO et al, 1999, p.135).

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Quando não estiver especificado, as referências ao PEAS dirão respeito ao “PEAS Belgo-Arcelor Brasil”, ou seja, aquele que é desenvolvido na rede municipal de ensino de Juiz de Fora pelo Comitê Técnico PEAS/JF e que, portanto, é a referência da pesquisa que dá origem a essa dissertação.

(grifos meus). As bases do programa se estruturam em ações de “caráter educativo”, que permitiriam ao(à) adolescente desenvolver-se enquanto pessoa, na relação consigo e com os contextos sociais e na relação com o “mundo do trabalho”. A sexualidade e a saúde sexual e reprodutiva seriam as “portas de entrada” para esse processo. Esses e outros princípios estão organizados nos “marcos de referência” do programa, concebidos para orientar as ações do programa e uniformizar sua “linguagem”.

MARCOS DE REFERÊNCIA DO PEAS