Uma epistemologia do Sul assenta em três orientações: aprender que existe o Sul;
aprender a ir para o Sul;
aprender a partir do Sul e com o Sul.
(BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 2010)
O mundo é um complexo mosaico multicultural. Todavia, ao longo da modernidade, a produção do conhecimento científico foi configurada por um único modelo epistemológico, como se o mundo fosse monocultural, que descontextualizou o conhecimento e impediu a emergência de outras formas de saber não redutíveis a esse paradigma. Assistiu-se, assim, a uma espécie de epistemicídio, ou seja, à destruição de algumas formas de saber locais, à inferiorização de outros, desperdiçando-se, em nome dos desígnios do colonialismo, a riqueza de perspectivas presente na diversidade cultural e nas multifacetadas visões do mundo por elas protagonizadas (SANTOS, 2010).
Nesse sentido, a teoria decolonial aliada ao feminismo, vez que concebidas como teorizações que desestabilizam as bases consolidadas de construção de saber e conhecimento, podem ter um papel decisivo de reflexão teórica e prática efetiva por meio de uma crítica intrinsecamente articulada. Dessa forma, verifica-se que essas duas correntes teóricas comungam de princípios e crenças que trazem a possibilidade latente de um profícuo diálogo entre esses campos de análise crítica, uma vez que compartilham uma epistemologia da alteridade, promovendo, assim, o resgate ou a releitura de experiências invisibilizadas, silenciadas ou construídas como um Outro da modernidade ocidental.
Partindo-se dessas premissas, esse capítulo divide-se em duas partes. A primeira tem por objetivo abordar a teoria decolonial, seus principais autores e os conceitos por eles trabalhados, relacionando-a ao feminismo. Na segunda parte o objetivo é demonstrar as especificidades históricas e políticas do movimento e do pensamento feminista latino-americano, demarcando as principais autoras sobre o tema na atualidade, bem como os seus argumentos para justificar a necessidade de construir um feminismo latino-americano, ou seja, “para” e “a partir” do Sul Global.
2.1- A emancipação do pensamento latino-americano na atualidade: conexões entre a teoria decolonial, o pensamento e o movimento feminista.
Ao longo das últimas três décadas, o projeto da epistemologia veio a ser objeto de crítica e de uma transformação que culminou, recentemente, no aparecimento de propostas de rejeição desse projeto e da reivindicação a ele associada da capacidade de definição dos critérios que permitem estabelecer o que é e não é conhecimento e como este pode ser validado. Essa transformação passou, sucessivamente, pela transferência da soberania epistémica para o “social”, pela redescoberta da ontologia e pela atenção à normatividade constitutiva e às implicações políticas do conhecimento.
Para alguns, estaríamos perante uma “crise final” da epistemologia ou, pelo menos, perante a sua “naturalização” ou historicização definitiva, libertando-a da pretensão de se estabelecer como o lugar de determinação do que conta e não conta como conhecimento e da definição dos critérios que permitem distinguir e adjudicar a verdade e o erro. Ao mesmo tempo, contudo, foi ganhando contornos uma constelação de posições críticas da epistemologia que, mais do que promover e celebrar a sua dissolução, viria a reivindicar a necessidade de uma epistemologia radicada nas experiências do Sul global.
Nesse sentido, verifica-se que para além do legado de desigualdade e injustiças sociais profundos do colonialismo e do imperialismo, já assinalados no capítulo anterior, há um legado epistemológico do eurocentrismo que nos impede de compreender o mundo a partir do próprio mundo em que vivemos e das epistemes que lhes são próprias. Como nos disse Mignolo (2005), o fato de os gregos terem inventado o pensamento filosófico, não quer dizer que tenham inventado “O Pensamento”. O pensamento está em todos os lugares onde os diferentes povos e suas culturas se desenvolveram e, assim, são múltiplas as epistemes com vários desdobramentos.
Este desaparecimento ou subalternização de outros saberes e interpretações do mundo significa, de fato, que estes saberes e experiências não são considerados formas compreensíveis ou relevantes de ser e estar no mundo; sendo estas epistemologias “outras” declaradas não existentes, ou descritas como reminiscências do passado, condenadas a um esquecimento inevitável. Como Boaventura de Sousa Santos tem vindo a argumentar, no campo do conhecimento esta divisão radical entre
saberes atribuiu à ciência moderna o monopólio universal de distinção entre o verdadeiro e o falso, gerando as profundas contradições que hoje persistem no centro dos debates epistemológicos.
Inicialmente, cabe ser feita uma distinção sucinta acerca da teoria pós-colonial e da teoria decolonial. O pós-colonialismo e o pensamento decolonial envolvem a investigação da experiência do colonialismo e seus efeitos passados e presentes, tanto a nível local das ex-colônias, como nas relações globais. Ambos falam tanto sobre as condições sob as quais se fortaleceram o imperialismo e o colonialismo, quanto sobre as condições que se seguem ao final do colonialismo. Pós-colonial designa não apenas um período que sucedeu ao outro, mas toda a cultura condicionada pelo processo colonial desde o momento da colonização até o presente, uma vez que existe uma continuidade nos temas e nas preocupações durante todo o processo iniciado com a expansão imperial europeia. Os estudos pós-coloniais têm levantado questões fundamentais e provocativas sobre a estrutura epistemológica do poder e os fundamentos culturais de resistência, sobre a relação porosa entre sociedades coloniais e as metropolitanas, sobre a construção de identidade de grupos no contexto da formação do Estado, e mesmo sobre a natureza e os usos das evidências históricas.
Para Costa (2014), as questões que se referem à colonização da Ásia e África pelas potências do Norte europeu marcaram a genealogia dos estudos pós-coloniais. Assim sendo, para Restrepo e Rojas (2010), os estudos pós-coloniais, por suas imbricações com o pós-marxismo, pós-estruturalismo e pós-modernismo (sem os quais não seriam possíveis), são vistos como distantes das preocupações da abordagem descolonial. Apesar de algumas afinidades entre ambos, a opção descolonial se diferencia dos estudos pós-coloniais por vários motivos: primeiro, a descolonialidade está ligada à história das Américas desde os anos 1500 até o presente.
Restrepo e Rojas (2010) alegam que o lugar de enunciação da inflexão descolonial é a diferença colonial, efeito da colonização da América Latina e do Caribe pela Espanha e Portugal entre os séculos XVI e XIX; segundo, a abordagem descolonial enfatiza a continuidade das relações coloniais de poder (colonialidade do poder) através das categorias de gênero, raça e classe (como será demonstrado a seguir); terceiro, a descolonialidade busca em seu projeto um desligamento das epistemologias eurocêntricas ao salientar a importância dos diferentes saberes (e
paradigmas outros) sendo produzidos em diversos contextos geopolíticos, questionando assim cânones e métodos. A opção descolonial, partindo das epistemologias geopolíticas e biográficas/corpo-políticas (seus dois pilares) privilegia o saber fronteiriço, ou seja, aquele que “surge da exterioridade estruturada pela modernidade/colonialidade quando esta última se constituiu como interioridade.”
A exterioridade é o lugar de residência daquela população mundial que não pertence à casa da civilização e da democracia. Assim, a modernidade é um discurso que define a sua interioridade ao criar a diferença a ser marginalizada e eliminada. A retórica da modernidade tem um vocabulário abundante para marcar a diferença, para criar exterioridade espacial e temporalmente: pagãos, bárbaros, primitivos, mulheres, gays, lésbicas, negros, índios, subdesenvolvidos, as economias emergentes, comunistas, terroristas, amarelos, etc. Todos estes serão incorporados na modernidade ou deixado de fora quando necessário. (RESTEPO e ROJAS, 2010, p. 45)
Restrepo e Rojas (2010, p. 46) nos oferecem a seguinte definição da inflexão/opção descolonial:
É um conjunto de pensamentos críticos sobre o lado escuro da modernidadae, articulados pelos condenados da terra e que busca entender as condições de reprodução do eurocentrismo e da colonialidade do sistema-mundo. Estes, por sua vez, inferiorizam seres humanos (colonialidade do ser), dominam o mundo natural (colonialidade da natureza), constroem hierarquias de gênero (colonialidade do gênero) e hierarquizam seres e lugares a partir de uma matriz de poder global com o objetivo de melhor explorá-los para a acumulação de capital.
O que distingue os estudos decoloniais do pós-colonialismo é um engajamento com um projeto de pesquisa chamado modernidade-colonialidade, que é levado a cabo por pensadores da América Latina e que aponta um modelo de pensamento que enxerga a modernidade a partir das lentes da colonialidade.
Suas principais premissas são: 1) ênfase na localização da origem da modernidade na Conquista da América e no controle do Atlântico em 1492, ao invés de situar essa origem a partir do Renascimento, ou do fim do século XVIII; 2) atenção ao colonialismo e à construção do sistema capitalista mundial como constitutivos da modernidade; 3) a adoção de uma perspectiva mundial de modernidade, ao invés de uma visão de modernidade como um fenômeno intra-Europeu; 4) a identificação da dominação dos outros povos fora da Europa como uma dimensão necessária da
modernidade, com a consequente subalternização do conhecimento e da cultura desses outros grupos; 5) a concepção do eurocentrismo como uma forma de conhecimento da modernidade/colonialidade, a qual confunde universalidade com hegemonia europeia.
Entre os autores (com distintos posicionamentos e orientações teóricas) que vêm trabalhado e/ou trabalharam a questão decolonial, pode-se citar o antropólogo e teórico literário e cultural argentino Walter Mignolo, o sociólogo peruano Aníbal Quijano, o filósofo argentino Enrique Dussel, o filósofo colombiano Santiago Castro- Gómez, o sociólogo porto-riquenho Ramón Grosfoguel, o antropólogo colombiano Arturo Escobar, o sociólogo venezuelano Edgardo Lander, o filósofo porto-riquenho Nelson Maldonado Torres, o jurista português Boaventura de Sousa Santos, entre vários outros.
As reflexões dos autores acima citados se dão a partir das heranças coloniais do Império espanhol e português na América durante os séculos XVI ao XX. Abordam as heranças de larga duração que se inscrevem sobre o corpo social deste continente no século XVI com a conquista da América e que perduram, embora se transformando, introduzidas naquilo que a teoria social contemporânea denomina como “modernidade” (INSTITUTO DE ESTUDIOS SOCIALES CONTEMPORÁNEOS, p. 4, 2007).
Um dos objetivos dos estudos decoloniais é estabelecer uma noção ampliada de colonialismo: a colonialidade. Além disso, buscam traçar uma genealogia da decolonialidade e desenvolver um acervo conceitual decolonial. Trata-se de uma perspectiva de estudos heterogênea que prioriza os estudos transdisciplinares, isto é, estudos que utilizam conhecimentos provindos de várias áreas para a análise de um objeto particular. Significa, portanto não a exclusão, mas a inclusão de distintos saberes em cada investigação.
Os estudos decoloniais utilizam um amplo número de fontes, entre elas, as teorias europeias e norte-americanas críticas da modernidade, os estudos chamados propriamente de pós-coloniais, a teoria feminista chicana, a filosofia africana... A principal força orientadora dos estudos decoloniais é, entretanto, uma reflexão continuada sobre a realidade cultural e política latino-americana, sendo influenciados decisivamente pelo pensamento filosófico e político desenvolvido no nosso continente. De acordo com Bragatto (2014, p. 205), o pensamento decolonial é um projeto epistemológico fundado no reconhecimento da existência de um conhecimento
hegemônico, mas, sobretudo, na possibilidade de contestá-lo a partir de suas próprias inconsistências e na consideração de conhecimentos, histórias e racionalidades tornadas invisíveis pela lógica da colonialidade moderna. O pensamento descolonial insere-se, portanto, na trilha das formas de pensamento contra-hegemônicas da modernidade e inspira-se nos movimentos sociais de resistência gerados no contexto colonial. Momentos estes que foram velados pela retórica da modernidade, que provocou o ocultamento da colonialidade e, em consequência, a invisibilidade do pensamento decolonial em desenvolvimento.
Categorias como colonialidade, modernidade, decolonialidade, sistema-mundo moderno/colonial, matriz colonial de poder (colonialidade do poder), colonialidade do saber, diferença colonial, ocidentalismo, eurocentrismo, lócus de enunciação privilegiado e a noção de imaginário do “ponto zero”, são grandes contribuições dos estudos decoloniais para se pensar a questão colonial (COLAÇO; DAMAZIO, 2012). Colonialidade é um conceito utilizado inicialmente por Quijano (2005). A palavra colonialidade (e não colonialismo) é utilizada para chamar atenção sobre as continuidades históricas entre os tempos coloniais e o tempo presente e também para assinalar que as relações coloniais de poder estão atravessadas pela dimensão epistêmica. Colonialidade, pois, é um conceito complexo (atua em vários níveis).
Em um primeiro momento busca tornar visível o lado obscuro da modernidade. A retórica da modernidade vem sempre acompanhada pela lógica da colonialidade, de modo que não pode haver modernidade sem colonialidade. Sob a retórica da modernidade e seus projetos universais (cristianização, civilização, modernização, desenvolvimento, democracia, mercado etc.) perpetua-se a lógica da colonialidade (dominação, controle, exploração, dispensabilidade de vidas humanas, subalternização do saberes dos povos colonizados etc.) (MIGNOLO, 2008, p. 293).
Além disso, colonialidade também é uma expressão abreviada de matriz de poder colonial que Quijano (2005) batizou com o nome “padrão de poder colonial” ou “colonialidade do poder”. Em terceiro lugar, colonialidade designa histórias, subjetividades, formas de vida, saberes pluriversais e subjetividades colonizadas a partir dos quais surgem respostas decoloniais. Se por um lado a colonialidade é a cara invisível de modernidade; é também, por outro lado, a energia que gera a decolonialidade (MIGNOLO, 2008b, p. 9-10).
Deste modo, quando falamos em “decolonialidade”, para Grosfoguel e Mignolo (2008, p. 34) estamos nos remetendo necessariamente a uma tríade de conceitos, a
“modernidade/colonialidade/decolonialidade”. A “/” (barra) que une as categorias “modernidade/colonialidade/ decolonialidade” e ao mesmo tempo as separa significa, por um lado, que uma não pode ser pensada sem as outras e que, historicamente, surgem conjuntamente no mesmo processo histórico. Cada uma delas é constitutiva das outras duas. O último conceito da tríade, a “decolonialidade”, significa um tipo de atividade (pensamento, giro, opção) de enfrentamento à retórica da modernidade e à lógica da colonialidade.
Já o colonialismo, segundo Mignolo (2007, p. 33), refere-se a períodos históricos específicos e a lugares de domínio imperial (português, espanhol, britânico e desde o início do século XX, estadunidense). O termo colonialidade diz respeito a uma estrutura lógica de domínio colonial (independente de sua manifestação histórica, por exemplo, o colonialismo espanhol, português) que impõe o controle, a dominação e a exploração e produz certa classificação racial da humanidade.
No imaginário moderno tudo deve principiar pela Grécia. Entretanto, os estudos decoloniais se direcionam temporalmente para o século XVI, a partir do surgimento e consolidação do sistema-mundo moderno/colonial. Os marcos da macronarrativa do sistema-mundo moderno/colonial não possuem, deste modo, suas origens na Grécia, mas no século XVI e na produção das diferenças coloniais. Ou seja, na vitória final do cristianismo sobre o Islã em 1492, na conversão dos indígenas ao cristianismo após a vitória de Cortez sobre Montezuma, na chegada de Vasco da Gama na Índia em 1498 e dos jesuítas na China em 1580, no contingente enorme de escravos africanos trazidos para as Américas (COLAÇO; DAMAZIO, 2012).
Para os estudos decoloniais a modernidade nasce junto com a colonialidade; ambas constituem-se um só processo, são dois lados da mesma moeda. Embora usualmente entendamos a modernidade como um projeto definido por seu espírito libertador e por sua retórica salvacionista, os autores decoloniais assinalam seu “lado oculto”, que é a colonialidade. Nesse sentido, trabalha-se com a noção de sistema mundo moderno/colonial para enfatizar como a colonialidade é constitutiva da modernidade e como ambas devem ser pensadas a partir de uma perspectiva de sistema-mundo.
O sistema-mundo moderno/colonial tem sua origem, conforme explica Mignolo (2005, p. 73-75), no “circuito comercial do Atlântico” quer dizer, na articulação dos mercados regionais da Europa e Ásia com os mercados regionais da América Latina. Esta articulação permite a emergência do capitalismo mundial com base em centros
e periferias. A relação básica entre os centros e as periferias foi o saque e a exploração, tanto da mão de obra, indígena e posteriormente africana, como também de recursos naturais.
Até a “invenção” da América, a Europa tinha um papel marginal nos grandes circuitos mercantis que tinham em Constantinopla um dos seus lugares centrais. A tomada dessa cidade pelos turcos, em 1453, engendrou a busca de caminhos alternativos, sobretudo por parte dos grandes negociantes genoveses que encontraram apoio político entre as monarquias ibéricas e na Igreja Católica Romana (COLAÇO; DAMAZIO, 2012).
Mignolo (2005, p. 73) diz que a emergência do circuito comercial do Atlântico possibilitou uma confluência entre o controle econômico na expansão do Ocidente e também o controle epistêmico ou do pensamento. Esta é a principal explicação ao fato de que uma casualidade se transformou no paradigma dominante até hoje. Ou seja, aí está o início de uma história na qual uma perspectiva “local” de saber começa a instaurar-se como conhecimento universal. É neste cenário que podemos localizar historicamente o começo da construção de um saber jurídico pretensamente universal.
A partir deste momento não é possível conceber a modernidade sem a colonialidade, o lado silenciado pela imagem reflexiva que a modernidade (por exemplo, os intelectuais, o discurso oficial do estado) construiu de si mesma (MIGNOLO, 2005, p. 75). Desta maneira, para se falar em modernidade também é necessário considerar a colonialidade e a decolonialidade como categorias interdependentes no interior do sistema-mundo moderno/colonial.
A perspectiva eurocêntrica, segundo Quijano (2005, p. 4-5) foi “imposta e admitida nos séculos seguintes, como a única racionalidade legítima. Em todo caso, como a racionalidade hegemônica, o modo dominante de produção de conhecimento”. Para Quijano (2005, p. 4-5):
Entre os elementos principais da modernidade é pertinente destacar, sobretudo, o dualismo radical entre “razão” e “corpo” e entre “sujeito” e “objeto” na produção do conhecimento; tal dualismo radical está associado à propensão reducionista e homogeneizante de seu modo de definir e identificar, sobretudo na percepção da experiência social, seja em sua versão a-histórica, que percebe isolados ou separados os fenômenos ou os objetos e não requer por consequência nenhuma ideia de totalidade, seja na que admite uma ideia de totalidade evolucionista, orgânica ou sistêmica, inclusive a que pressupõe um
macrossujeito histórico. Essa perspectiva de conhecimento está atualmente em um de seus mais abertos períodos de crise, como o está toda a versão eurocêntrica da modernidade.
Dussel (1993; 2005) propõe um modelo alternativo à visão tradicional e eurocêntrica de modernidade, o que chama de “paradigma planetário”. Afirma que a modernidade é um fenômeno do sistema-mundo moderno/colonial. A modernidade não é fruto de uma Europa independente, mas de uma Europa concebida como centro. Essa centralidade da Europa no sistema-mundo não é fruto de uma superioridade interna acumulada, mas é um efeito do descobrimento, conquista e colonização da América. Esse fato vai lhe dar vantagem frente ao mundo otomano-islâmico, Índia e China. A modernidade é o resultado desses eventos. Não há, portanto, modernidade sem colonialidade.
Deste modo, fica evidente como modernidade e colonialidade estão necessariamente relacionadas uma com a outra. Não é com os pressupostos da modernidade que a colonialidade será superada, pois é precisamente a modernidade que necessita e produz a colonialidade. Pode-se dizer, deste modo, que o primeiro passo para se pensar decolonialmente é partir da premissa de que a modernidade não existe sem a colonialidade. No âmbito dos direitos humanos, não é possível pensar o “direito moderno” sem analisar sua face em relação com a colonialidade.
Para muitos teóricos da modernidade todas as culturas e sociedades do mundo são reduzidas a uma manifestação da história e cultura europeia. Entretanto, para os autores decoloniais as histórias são “outras”. Enquanto que para os representantes da história universal a modernidade tem uma só face, para os estudos decoloniais latino-americanos, tem duas. O chamado progresso da modernidade é construído a partir da violência da colonialidade.
Além disso, tais estudos se constituem em uma alternativa que se contrapõe às grandes narrativas universalistas e assim representam uma nova perspectiva de pensamento não apenas para a América Latina, mas para o mundo das ciências sociais e humanas como um todo. Porém, para Escobar (2003, p. 51):
Isso não significa que o trabalho deste grupo é apenas de interesse para as supostamente universais ciências sociais e humanas, mas que o grupo pretende intervir de forma decisiva nos discursos da ciência moderna para criar outro espaço para a produção de conhecimento, uma forma distinta de pensamento, “um paradigma outro”, a própria
possibilidade de falar sobre “mundos e conhecimentos de outra maneira”.
Os estudos decoloniais possibilitam, portanto, compreender os discursos jurídicos pretensamente universais como construções que surgem e perduram a partir das relações coloniais. Trata-se, desta maneira, de uma perspectiva diferente de se entender as relações sociais, pois permite que este seja pensado a partir de diferentes categorias e formas de conhecimento, inimagináveis para o direito ocidental.
Defendendo o que se convencionou chamar de “epistemologias do Sul”, Boaventura de Sousa Santos (2010, p. 31), aduz que o pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal. O autor aborda a questão do pensamento moderno, pautado por um hiato; com dois polos de sociedade cada qual vivendo “deste” e “do outro lado da linha”. Do outro lado da linha encontram-se os sujeitos sem personificação, cuja desqualificação pela sociedade (legitimada e, portanto, deste lado da linha) os impede de existir para além do nicho social em que habitam.