Deregulation. O bordão da modernização conservadora ecoa pelo planeta, no vácuo do desmantelamento da macroeconomia keynesiana. A estagflação se torna sinônimo de intervenção do estado na economia. Hayek e Friedman saem das prateleiras das viúvas da ordem liberal. Liberdade para o capital é o grito em voga. A livre iniciativa busca oxigênio para exercer suas escolhas. O preço formado exclusivamente pelas forças do mercado volta a ser o farol da eficiência, da alocação dos recursos escassos. O preço natural é ressuscitado das catacumbas da teoria e volta aos lábios do vulgo282. Liberdade para o fluxo de
capitais, de mercadorias, de serviços. O retorno da múmia assombrando a pós- modernidade.
O euromercado nasce para reciclar as reservas das grandes corporações e para dar vazão aos bilhões de petrodólares empoçados nas arábias, após os choques de petróleo da guerra do Yon Kippur -1973 e da Guerra Irã – Iraque- 1979. Inicialmente as massas de liquidez internacional chegavam a umas poucas centenas de bilhões de dólares e foram motivo de admiração para todos os analistas do sistema monetário mundial, que se desmanchavam em expressões como, fabulosas, gigantescas, extraordinárias, magníficas, quantias de dinheiro.
282 Conceito criado por Adam Smith. O preço natural representava a soma da remuneração dos
fatores produtivos. O preço de mercado se formava no processo de troca e poderia ser maior ou menor do que aquele, dependendo da procura, mas tenderia a longo prazo para o preço natural, como consequência da mobilidade dos fatores produtivos, que se deslocariam em função da taxa de lucro gerada pelo excedente ou défict em relação ao preço natural.
Mas, nunca poderiam imaginar que as reservas de periféricos como a China e Coréia, em 2005, seriam três vezes superiores às inimagináveis quantias movimentadas pelo nascente e desregulamentado euromercado e fonte de financiamento do deficitário Tesouro americano. US$ 50 trilhões é o volume do capital andarilho dos anos 90 do século passado, 100 vezes maior que as monumentais quantias do início dos anos 80.
Os neoliberais Ronald Reagan e Margareth Thatcher lutam bravamente para demonstrar a superioridade de suas políticas283. Defendem o estado mínimo,
a liberdade para os capitais financeiros, a diminuição da regulação sobre os investimentos produtivos, a redução dos gastos com a seguridade social e a destruição das instituições de regulação social do mercado de trabalho. Um banho de liberdade seria o caminho para recuperar a anemia crescente da economia284. O desenvolvimento retornaria através da saudável recompensa do
esforço do livre empreendedor capitalista. Não retornou.
283 “Mas, ao final da década, em 1979, surgiu a oportunidade. Na Inglaterra, foi eleito o governo
Thatcher, o primeiro regime de um país de capitalismo avançado publicamente empenhado em pôr em prática o programa neoliberal. Um ano depois, em 1980, Reagan chegou à presidência dos Estados Unidos. Em 1982, Khol derrotou o regime social liberal de Helmut Schmidt, na Alemanha. Em 1983, a Dinamarca, Estado do modelo de bem-estar escandinavo, caiu sob o controle de uma coalizão clara de direita, o governo Schluter [...]. A partir daí, a onda de direitização desses anos tinha um fundo político para além da crise econômica do período.” (ANDERSON. In: SADER; GENTILI, 1995, p. 11).
284 “O que fizeram, na prática, os governos neoliberais deste período? O modelo inglês foi, ao mesmo
tempo, o pioneiro e o mais puro. Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária, elevaram as taxas de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos, aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de desemprego massivos, aplastaram greves,
A queda das taxas de crescimento da produtividade do sistema econômico, as pressões inflacionárias geradas pelos sucessivos choques do petróleo, a política monetária de Paul Volcker, mais rigorosa do que a de taxas constantes de crescimento dos agregados monetários proposta pelo ultra-ortodoxo Milton Friedman, pois que de metas nominais de oferta de moeda, certamente não contribuíram para que as políticas neoliberais entregassem o prometido. A inflação certamente caiu, mas o crescimento econômico tornou-se pífio e as taxas de desemprego escalaram285. O teorema do Nairu - non accelerating inflation rate
of unemployment foi amplamente adotado até ser enterrado por Alan Greenspan, em meados dos anos 90286. Longo reinado das diversas modalidades da curva de
Phillips, até hoje presentes nos modelos de política monetária com base em metas de (des)inflação287.
Os sindicatos, que no padrão de acumulação fordista, integravam o núcleo institucional do modo de regulação, foram fortemente atacados pelo Reagan- Thatcherismo. Quebrar sua coluna vertebral era objetivo explícito do ator cowboy californiano e da dama de ferro. Em 1982, Reagan destruiu o sindicato dos controladores federais de vôo e, em 1984, Thatcher repetiu a dose sobre os impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. E [...] se lançaram num amplo programa de privatização [...].”(ANDERSON. In: SADER; GENTILI, 1995, p. 12).
285 “Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica
do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muito dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria.” (ANDERSON. In: SADER; GENTILI, 1995, p. 23).
286 Sobre o padrão Greenspan ver BLINDER (2001). 287 Ver EICHENGREEN (2002, p. 10-21).
heróicos trabalhadores do carvão. O recado foi direto e inequívoco, os sindicatos seriam jogados às traças pela nova ordem liberal288. Republicanos nos EUA e
conservadores na Inglaterra enfrentavam as instituições que tiveram seu apogeu nos trinta anos gloriosos. O horror se espalhou por toda a Europa nos anos seguintes, à medida que sucessivas eleições desalojavam socialistas, sociais- democratas e trabalhistas dos governos.
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