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REAL E VIRTUAL: FRONTEIRAS MOVEDIÇAS

6 AMBIENTE VIRTUAL

6.1 REAL E VIRTUAL: FRONTEIRAS MOVEDIÇAS

A correlação entre os chamados mundo real e virtual ocasiona intriga e posicionamentos distintos. De acordo com Lévy (2000) existe uma tendência em conceber o que é virtual como tudo aquilo que é irreal, falso, ilusório e imaginário. Esse ponto de vista corresponde ao senso comum e tende a ser a acepção mais utilizada no cotidiano. Não obstante, o referido autor adverte que, no sentido filosófico, o virtual é aquilo que existe em potência e não em ato; existe sem estar presente. Assim, o fato de existir sem estar presente, ou seja, sem ter uma presença tangível, frequentemente é associado ao que não existe, o que resulta em uma dissociação corriqueira entre ambos os mundos.

Deleuze (1996, p. 49), por sua vez, salienta que o virtual não se opõe ao real, mas, sim, ao atual. Nesta perspectiva, o virtual é entendido como aquilo que coexiste e responde ao atual, estático e definido: “Todo atual rodeia-se de círculos sempre renovados de virtualidades, cada um deles emitindo um outro, e todos rodeando e reagindo sobre o atual”. Com esta definição, Deleuze demonstra que o chamado mundo virtual permeia o que concebemos como real, constituindo-se como condição de possibilidade para o atual, estático e definido. Neste sentido, o real não se reduz ao que é palpável, tangível, mas amplia-se, na medida em que se relaciona com o virtual definido como potência, como o que existe sem estar presente. Com efeito, infere-se que a suposta dicotomia entre real e virtual está condicionada também pela relação entre o que se concebe como objetivo (o que é papável, evidente) e subjetivo (que, frequentemente, é associado ao impalpável, ao imaterial). Nesta relação, percebe-se que, comumente, o real é entendido como objetivo, enquanto o virtual é compreendido como subjetivo, exaltando a existência de uma suposta dicotomia.

De fato, como explicitam Lévy e Deleuze, há dificuldades para definir e delimitar fronteiras entre o chamado mundo real e virtual. A distinção mais sobressalente e comumente utilizada refere-se à presença física, tangível, evidente e objetiva do que se concebe como real. Apesar de a dita presença estar de certa forma vinculada à virtualidade inerente à vida dos seres humanos, como elucida Deleuze (1996), o comparecimento físico é o critério mais utilizado para entender o que é real e também o que existe. Desta forma, o advento da internete acarreta receios e inseguranças no que diz respeito ao mundo real por ser, o mundo virtual, um âmbito no qual as transações prescindem da presença física, palpável e objetiva

dos participantes. Consequentemente, embora existam suportes (por exemplo, os sites, os textos e as imagens) que possibilitam a evidência do que ocorre no âmbito da web, ainda existem medo e desconfiança em relação ao que é real nesse meio. Com efeito, a problemática entre real e virtual ampliou-se com o advento do ambiente virtual da internete e precisa ser analisada de acordo com suas especificidades.

Atualmente, embora o ambiente virtual da internete tenha surgido há décadas, o debate concernente ao real e ao virtual ainda é marcado por teorizações que divergem e seguem caminhos opostos, como explicitamos no decorrer do presente trabalho. Para compreender esse tema, retomamos Lévy (1996), o qual assinala que existe uma dificuldade no contexto deste debate devido a que, previamente à invenção da informatização e dos ambientes virtuais (como o Facebook), já havia um mundo virtual representado, por exemplo, pela memória, pelo conhecimento e pela religião. Deste modo, infere-se que a dicotomia entre real e virtual, fomentada pela distinção entre a presença física (geralmente associada ao real) e a ausência dela (comummente relacionada ao plano do virtual), existe antes mesmo do surgimento da internete, o que pode ocasionar certa equiparação entre o âmbito virtual, considerado prévio, e o virtual dos ambientes da internete. Sendo assim, procuramos entender como esse fenômeno se manifesta na utilização do Facebook, principalmente no Processo de Negociação de Identidades.

Ante o desafio proposto, optamos por considerar esse paralelismo entre esses dois mundos com base na concepção de fronteiras movediças; ou seja, se as interações no Facebook se realizam por intermédio de imagens e de textos reproduzidos nos perfis do site e se dão entre pessoas que existem, mas que não estão presentes fisicamente, então, esse mundo virtual existe sem estar presente, ou seja, existe em potência e não em ato. Apesar da existência de pessoas por detrás do Facebook, as quais realizam transações ditas reais e interagem em situações, em acontecimentos e em fatos que dizem respeito à chamada vida real, frequentemente, o que ocorre no Facebook pode ser associado a algo irreal, falso, ilusório e imaginário, bem como a um mundo paralelo ao conhecido como mundo real.

Diante desse fenômeno, optamos por considerar que as fronteiras entre ambos os mundos são movediças na medida em que se fundem, interseccionam-se, colidem e se afastam, gerando a suposta existência de dois mundos. Essa particularidade que consideramos paradoxal nos induziu a escolher, como ponto de partida, a questão da presença física para analisar a correlação entre o mundo real e o virtual no Facebook.

Na presente pesquisa, observamos que, para os entrevistados, existe uma demarcação territorial evidente entre as redes sociais virtuais como o Facebook e o chamado mundo real,

porém, a existência da rede social virtual ainda gera receios e desconfiança a respeito do que é real nesse ambiente, entrelaçando a fronteira existente entre ambos, como explicita Roberto: “Olha, reforçando o que eu disse, a rede não reflete a vida real, mas a vida real está dentro da rede. Ou seja, a rede não é a vida real, mas a vida real está dentro dela” (informação verbal).

Embora apresente sutis incongruências, neste relato evidencia-se a alusão direta a uma possível separação entre o virtual (a rede) e o real (a vida). Esta opinião assemelha-se à maioria das opiniões obtidas na presente investigação, o que pode estar relacionado à pressuposição de que a presença física é a especificidade do que é concebido como real, como vida ou como existente. Roberto enfatiza que a vida real encontra-se dentro da rede apesar de não considerar o Facebook como vida ou como parte dela. Assim, infere-se a existência de uma tendência cética em relação ao chamado mundo virtual, que, geralmente, é concebido como um âmbito distinto ou paralelo ao mundo conhecido como real, o qual é reconhecido como a vida, como o que existe.

Para os críticos, o advento da internete instaurou dispositivos que funcionam como próteses interativas em sua própria vivacidade, as quais exaltam as ferramentas e os recursos existentes no meio virtual, em detrimento do corpo locomotor, como localidade representável do ser no mundo (VIRILIO, 1993). Nesta mesma linha de raciocínio, a concepção ontológica da vida transfigura-se em simulacros que são admitidos como reais e tendem a fomentar a concepção de que a vida é uma simulação, quitando-lhe, assim, a verdadeira essência que nos acomete a todos como seres vivos (BAUDRILLARD, 1991).

Sob esta ótica, vale ressaltar a opinião de Wunenburger (2006), o qual considera que o corpo biológico é defraudado pelo paradigma científico-tecnológico, sendo esse paradigma o responsável por promulgar práticas que se guiam por um desejo de metamorfose de si, de escape da finitude do ser e de acesso a estados ontológicos distintos. Ainda na concepção de Baudrillard ocorre, então, uma sobrematerialização do corpo (tatuagens, próteses, dopagens) e uma desmaterialização desse mesmo corpo (corpo glorioso, imagem e síntese). Neste sentido, o ambiente virtual funciona como meio para que as pessoas simulem e criem o que poderíamos chamar de uma relação imaginária consigo mesmo, com o corpo, com o mundo circundante e com a alteridade.

Os participantes da presente investigação opinaram que existe uma grande diferença em relação às interações procedentes do mundo real e do Facebook pelo fato de não estarem interagindo presencialmente com os demais, o que gera, a nosso ver, a concepção de que há uma suposta relação imaginária entre os usuários. Nesse sentido, os entrevistados relataram que as interações mediadas por esse site de rede social carecem do chamado olho no olho, da

escuta da voz, das expressões faciais, das reações gestuais, do ritmo de cada um e, principalmente, do envolvimento emocional que, supostamente, estaria ancorado nos encontros presenciais. Por consequência, os usuários opinaram que as interações no Facebook tendem a serem mais frias, mais superficiais e até mais levianas. Com efeito, ratifica-se que a ausência da presença física é substituída nessas interações por imagens e textos que representam os indivíduos, os quais, frequentemente, são considerados como simulação do que é concebido como real (BAUDRILLARD, 1991), como explicita novamente Roberto:

Muita gente leva a rede muito a sério, principalmente a geração que já nasceu dentro da rede e está se construindo dentro da rede e não dentro da sociedade real, sincera, da carne e tudo. A sociedade da relação mais viva, mais intensa. Às vezes, se constrói a vida dentro do Facebook e a partir do Facebook se constrói a vida externa, enquanto não deve ser assim...a vida real é a do sentimento; o Facebook é uma consequência; o Facebook vem da vida real e não ao contrário (informação verbal).

Neste relato, o entrevistado se refere à suposta possibilidade de se construir a vida pelo Facebook. A nosso ver, o que ele revela é o receio de que a substituição da presença física por imagens e textos possa acarretar a ilusão33 de que a vida é o Facebook ou o que se desenrola nele. Parece-nos, pois, que existe um receio generalizado da possibilidade de que a negociação que se desenrola nesse site de rede social possa vir a substituir o que o corre na chamada vida real. No entanto, o que observamos é que, nas interações mediadas pelo site, sobrevém, realmente, uma substituição da presença física imediata e do corpo biológico por imagens e textos, mas não uma substituição dos indivíduos que interagem pelo Facebook, nem tampouco da chamada vida real pela virtual. Portanto, afirmamos que há receio de que a emergência do mundo virtual possa desmaterializar a vida, as relações e as pessoas, gerando, como consequência, uma grande ilusão.

Em nossa opinião, esse receio procede do medo humano na era contemporânea (SOARES; SANTANA, 2010; ARAÚJO, 2002), ampliado pelo ceticismo em relação ao potencial transformador das novas tecnologias (NICOLACI-DA-COSTA, 2002b). Como resultado, o Processo de Negociação de Identidades em sites como o Facebook tende a ser considerado algo apartado da realidade, da chamada vida real, ou mais superficial e até ilusório.

Frente ao receio de que as negociações contidas no Facebook possam originar o que consideramos uma grande ilusão generalizada com respeito à vida ou ao mundo conhecido

33 Maturana (1997) define ilusão como uma experiência que se vive como se fosse uma percepção procedente da realidade concebida como objetiva, mas com uma inadequada correlação com a realidade externa.

como real, asseveramos que as distinções e as especificidades da relação entre mundo virtual e real não se reduzem aos receios apocalípticos explicitados e precisam ser analisados em suas especificidades. Nesse sentido, além da presença física, constatamos que são poucas as distinções entre ambos os mundos, como se observa no relato de Francisco:

É ligeiramente diferente, mas eu começo a achar que é uma realidade tão forte que eu não divido mais tanto; eu enxergo cada vez menos essa diferença porque hoje a gente tem, no celular, a internete, e para saber, por exemplo, se tem ‘blitz’ na rua, as pessoas se comunicam pelo Twitter. Ou seja, as pessoas passam por ali na hora e colocam isso nas redes. Dessa forma, as pessoas andam na rua e consumem internete caminhando. Nas lan houses, então, eu acho que tá cada vez mais influente. Mesmo assim, acho que nada pode substituir o encontro, a boa e velha conversa, e quando temos de resolver questões muito grandes que precisam ser ao vivo, outras que têm de ser por e-mail. Então, eu me sinto diferente quando estou em um e em outro, posso te dizer que sim (informação verbal).

Na opinião de Francisco, as fronteiras entre real e virtual são cada vez menos definidas, o que chama a atenção por demonstrar a interconexão entre ambos os mundos, na qual acontecimentos reais podem ser evidenciados também por intermédio do mundo virtual. Infere-se, pois, que o fato de pessoas andarem nas ruas e postarem no Twitter ou no Facebook o que ocorre no mundo conhecido como real, tal como relatou o referido entrevistado, denota que, paulatinamente, o chamado mundo real permeia o mundo virtual e vice-versa. Deste modo, sugerimos que a suposta dicotomia entre ambos os mundos tende a relativizar-se gradualmente, dissolvendo o critério de que o real é definido unicamente pela presença física, porém, sem invalidá-lo.

Com respeito ao sentir, mencionado por Francisco ao final de sua explanação, ressalta- se uma especificidade entre o que se sente nos contatos presenciais ou face a face (que envolvem a presença física) e os contatos virtuais (caracterizados pela mediação de textos e de imagens). Nesta perspectiva, os participantes da presente investigação opinaram que existe uma suposta proteção proporcionada pelos artefatos presentes no mundo virtual, a qual possibilita ocultar, criar e até dissimular sentimentos e emoções devido à ausência da presença física. Neste caso, encontramos convergências nas opiniões em relação ao plano físico- corporal como referência para identificar o que se sente nas interações. Sendo assim, é preciso analisar como a ausência corporal pode repercutir nas negociações de identidades e nos sentimentos dos usuários do Facebook, de modo que isso possa ser considerado um fator de diferenciação entre o mundo real e virtual.