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5.2 Caracterização sociodemográfica, educacional e profissional dos aprendizes

5.2.2. Realidade escolar dos adolescentes aprendizes

Em relação à realidade escolar dos aprendizes, foram investigados a situação escolar atual e aspectos relacionados ao desempenho acadêmico, mais especificamente a autoavaliação do aproveitamento em relação a sua turma, suas notas escolares mais frequentes no último ano e o histórico de aprovação escolar. Considera-se que essa investigação é relevante não apenas para caracterizar a vivência dos adolescentes na escola, mas especialmente para identificar possíveis indícios da dificuldade de se conciliar trabalho e estudos, como mencionado em estudos de Bressan, Godoy e Lunardelli (2004), Oliveira, Fischer, Amaral, Teixeira e Sá (2005), dentre outros. A Tabela 25 apresenta os resultados referentes a essas variáveis acadêmicas, obtidas por meio do questionário inicial de caracterização dos aprendizes.

Quanto à situação escolar, a maior parte da amostra cursa o Ensino Médio (86%), como previsto, dado que o programa se direciona especificamente a esse público. No entanto, observa-se que 7,8% dos adolescentes o haviam concluído e não estavam estudando no momento da pesquisa, enquanto 3% já cursavam o Ensino Superior. Em ambos os casos, são adolescentes em fase de conclusão da aprendizagem profissional, tendo sido cabível mantê- los vinculados aos programas em razão dos contratos de estágio, ainda em vigor, lembrando que os mesmos têm duração de até dois anos. Esses dados são coerentes com as tendências nacionais e também do Estado de São Paulo, divulgadas pelo Observatório do Mercado de Trabalho Nacional do Ministério do Trabalho e Emprego nos boletins de indicadores da aprendizagem profissional (MTE/OMTN, 2011), bem como pelo Mirante da Aprendizagem Profissional do Estado de São Paulo nos boletins da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Estado de São Paulo (MTE/SRTE-SP, 2011). Segundo eles, a imensa maioria dos aprendizes está situada na população adolescente, considerando-se a faixa etária de até 17 anos, idade compatível com o Ensino Médio, em contraponto com os mais velhos (de 18 a 25 anos): 77,8% dos contratos nacionais e 87% dos estaduais. E tem crescido ano a ano a

contratação de aprendizes com essas características. Em São Paulo, 91,15% dos aprendizes cursam o Ensino Médio ou já o concluíram.

Tabela 25 - Distribuição das respostas relativas à realidade escolar recente e pregressa dos

adolescentes aprendizes.

Variável Dimensões N Frequência

Situação escolar

Concluiu Ensino Médio 37 7,8%

Cursando Ensino Médio 404 86,0%

Cursando Ensino Superior 14 3,0%

Não responderam 15 3,2%

Total: 470 100%

Autoavaliação do aproveitamento escolar

Abaixo da média da turma 6 1,3%

Na média da turma 384 81,7%

Acima da média da turma 71 15,1%

Não responderam 9 1,9%

Total: 470 100%

Desempenho escolar – notas mais frequentes De 3,1 a 5,0 8 1,7% De 5,1 a 7,0 203 43,2% De 7,1 a 9,0 228 48,5% De 9,1 a 10,0 27 5,7% Não responderam 4 0,8% Total: 470 100% Histórico de aprovação escolar Já reprovou na escola 50 10,6%

Nunca reprovou na escola 415 88,3%

Não responderam 5 1,1%

Total: 470 100%

Cabe uma avaliação positiva do acesso dos aprendizes a cursos superiores, algo raro de se observar no contexto das instituições, embora as equipes das mesmas afirmem que esse quadro tem aumentado gradativamente. É possível que isso tenha sido potencializado pelas ações de incentivo à continuidade dos estudos adotadas pelas mesmas, incluindo parcerias com instituições de ensino superior privadas para bolsas de estudos e descontos a seus egressos, mas certamente é também fruto dos programas governamentais de facilitação do acesso a esse nível de ensino, especialmente o Programa Universidade para Todos – PROUNI, criado pela Lei No 10.891 e institucionalizado pela Lei No 11.096, e o Fundo de Financiamento Estudantil – FIES, existente desde 2001, mas revitalizado em 2011 pela Lei no 12.513. Tais medidas ganharam evidência junto à população de baixa renda e têm crescido em importância no que diz respeito à acessibilidade desses jovens ao Ensino Superior. No entanto, observa-se que, no contexto da aprendizagem profissional investigado, dentre os

jovens que concluíram o Ensino Médio ainda predominam aqueles que se mantêm fora da universidade, tal qual a população de um modo geral, conforme evidenciam as estatísticas nacionais (IBGE, 2010).

Partindo para a autoavaliação do aproveitamento escolar, o mesmo foi investigado a partir de uma questão objetiva que visava a apreciação do próprio desempenho pelos adolescentes em comparação aos colegas de sala. Para tanto, o aprendiz poderia assinalar uma das seguintes alternativas: “acima da média da classe”, “na média da classe” ou “abaixo da

média da classe”. Vale ressaltar que aqui não estava posta em questão a nota média para

aprovação, mas sim o desempenho médio da turma e a percepção do próprio desempenho na comparação com o mesmo. Observou-se que 81,7% da amostra se apresenta como “na média

da turma”, sendo que 15,1% autoavalia seu desempenho como superior à média. Apenas 1,3%

dos participantes declararam que seu aproveitamento está inferior à média da turma.

Uma visão mais detalhada dessa realidade, no entanto, foi possibilitada pela investigação das notas escolares. A maioria dos adolescentes (48,5%) registrou a predominância de notas entre 7,1 e 9,0 em seu boletim do ano letivo anterior à pesquisa, seguidos por aqueles que registraram notas de 5,1 a 7,0 (43,2%). Notas mais elevadas (acima de 9,1) parecem ser a realidade de 5,7% da amostra, enquanto 1,7% dela indicou a opção referente a notas de 3,1 a 5,0.

Apesar de seguirem a mesma tendência, os resultados anteriores surpreendem. Ao se considerar esses dados em conjunto, tem-se que, se 81,7% dos aprendizes se avaliam como

“na média da turma” e 48,5% deles apontam que suas notas ficam entre 7,1 e 9,0, uma

primeira observação deve ser a hipótese de que as notas apontadas pelos alunos podem estar inflacionadas. Por outro lado, há a possibilidade de que o desempenho médio das turmas seja relativamente elevado, tendo em conta que a nota média para aprovação na maioria das escolas é 5,0. No entanto, na prática profissional junto a esses jovens é comum a observação de defasagens significativas de aprendizagem, especialmente no tocante à língua portuguesa. Dificuldades com a leitura e a escrita, principalmente no que compete à interpretação de textos e à grafia correta das palavras, são evidentes a muitos desses jovens, realidade parecida com a observada em outros estudos com alunos de escolas públicas e periféricas, a exemplo de Bianchetti (1996).

No geral, os resultados evidenciam uma prática vigente no sistema de aprendizagem profissional: o acompanhamento do desempenho escolar dos aprendizes pelas instituições. Prevista nas leis que regulamentam a Aprendizagem Profissional no Brasil, essa medida é obrigatória e representa a tentativa de se garantir que a inserção profissional precoce não

prejudique os estudos, em atenção aos direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei no 8069/1990). Desse modo, só devem ser mantidos nos programas de aprendizagem (principalmente nos estágios profissionalizantes), aqueles adolescentes que demonstrarem desempenho suficiente para aprovação na escola, sendo as instituições formadoras as responsáveis por averiguar periodicamente essa questão e documentá-la para possíveis fiscalizações, além de oferecer apoio escolar aos alunos que dele precisarem.

Sendo assim, merecem destaque os casos de desempenho escolar insuficiente. Embora pequeno, o percentual de alunos que se declara abaixo da média (1,3%) e dos que apontaram notas de 3,1 a 5,0 (1,7%) não deixa de ser preocupante, pois evidencia a necessidade de reforço escolar, em geral oferecido pelas instituições formadoras, e a possível desvinculação desses adolescentes do estágio profissionalizante caso o desempenho escolar não seja recuperado. É certo que o direito à educação deve ser prioridade básica, mas o desligamento desses adolescentes dos programas de aprendizagem na maioria das vezes agravam o problema, ao invés de representarem uma solução. Sem o acompanhamento e a cobrança das instituições formadoras nesse sentido e sem a renda do trabalho protegido como aprendiz, muitos desses adolescentes acabam abandonando os estudos e se submetendo a trabalho precário, ficando privados de seus direitos à educação, à qualificação profissional e ao trabalho decente, previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), na Constituição Brasileira (Brasil, 1988) e na Declaração da OIT sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho (OIT, 1998). E essa situação nem pode ser considada a mais grave, se for levado em conta que existem caminhos piores para a sobrevivência desses adolescentes, como o trabalho relacionado a práticas ilícitas, o tráfico de drogas, por exemplo. Mas esse é um fato observado na prática que ainda não foi mapeado sistematicamente. São relevantes e urgentes estudos que se dediquem a essa realidade, para que algumas regras sejam revistas e sociedade e governos aperfeiçoem os mecanismos de fiscalização com vistas à proteção ao jovem.

Finalizando o retrato da vida acadêmica dos aprendizes, foi investigado seu histórico de reprovação escolar. Apenas 10,6% dos adolescentes vivenciou essa experiência, mostrando que chega aos programas de aprendizagem um grupo seleto de alunos da escola pública. Os próprios sistemas de seleção para ingresso nas instituições têm garantido isso, com justificativas relacionadas à educabilidade para o trabalho nas áreas específicas de formação e às exigências do mercado de trabalho. Ficam algumas questões: que espaços de inserção profissional têm encontrado aqueles cujas defasagens escolares impedem a qualificação, mesmo que básica, como a aprendizagem profissional? E que soluções têm sido pensadas para

essa população? Que serviços têm sido a ela oferecidos? Como a escola pode contribuir? Sabe-se que o fracasso escolar37 acaba por desencadear a evasão e a baixa escolaridade, que fomentam e são fomentadas pela exploração do trabalho infantil. E o resultado dessa relação é a baixa qualificação, a dificuldade de inserção profissional e o provável trabalho precário ou desemprego no futuro. Sendo assim, pensar ações preventivas em atenção a esses jovens e suas carreiras deve ser um compromisso social e político, cabendo aos órgãos competentes e a profissionais de áreas afins.

A seguir, serão apresentados os resultados que caracterizam a trajetória de carreira dos adolescentes aprendizes.