5. RESULTADOS DISCUSSÃO
5.2 Resultados obtidos na pesquisa e entrevistas
5.2.3 Reaproveitamento do lixo e coleta seletiva
Abaixo, são apresentados os resultados da pesquisa e das entrevistas referentes à composição do lixo domiciliar e aos dados sobre coleta seletiva na ZEIS Mangueira e em áreas de baixa renda.
5.2.3.1 Composição do lixo domiciliar
Com referência ao reaproveitamento do lixo e coleta seletiva, buscou-se, inicialmente, a identificação dos resíduos sólidos gerados em cada domicílio, observando-se que 55,5% dos entrevistados indicaram que o lixo de suas residências era todo misturado e composto de resto de comidas, papel, vidro, plástico e metal, conforme verificado na Figura 13, sendo esta a mesma indicação da maioria das representações sociais entrevistadas.
2,0% 15,5% 27,0% 55,5% 0 10 20 30 40 50 60 Percentual Outros Restos de alimento Materiais recicláveis Tudo misturado Composição do lixo
Figura 13: Composição do lixo por domicílio pesquisado
Entre os entrevistados, 15,5% indicaram que o lixo só é composto de restos de alimento e 27,0% indicaram que o lixo era composto só de material reciclável, além de 2,0% indicar que o lixo era composto de outros materiais como folhagens e materiais sanitários.
O resultado obtido indica que há a potencialidade de materiais serem separados e coletados seletivamente no interior da ZEIS para utilização em processo de reciclagem, evitando o descarte dos mesmos no Aterro da Muribeca.
5.2.3.2 Dados sobre coleta seletiva na Mangueira
Conforme resultado demonstrado na Tabela 12, pouco mais da metade dos pesquisados já possuem noção da existência de materiais recicláveis entre os
resíduos gerados em suas residências. Entre aqueles que apontaram materiais reaproveitáveis no lixo, citou-se papel, papelão, latinhas e metais diversos, garrafas e outros produtos plásticos, vidros, além de resto de comidas, sendo mais um indicador da potencialidade da realização de um trabalho de coleta seletiva na área.
Apesar do resultado citado anteriormente, a Tabela 12 indica, também, que 80,5% dos pesquisados não souberam apresentar uma definição para coleta seletiva, diferentemente do resultado obtido na entrevista com as lideranças da ZEIS, que na totalidade definiu o termo coleta seletiva.
A referida tabela apresenta, ainda, que 93,5% dos entrevistados informaram nunca ter participado de ação de coleta seletiva na comunidade, apesar de já ter havido uma ação de troca de materiais recicláveis por tubos para os ramais internos do sistema de esgoto condominial, no período de 1994 a 1996, que, inclusive, foi citada nas entrevistas efetuadas com as lideranças da ZEIS, demonstrando que aquela ação não foi assimilada como coleta seletiva pela maioria da população.
Tabela 12: Informações sobre coleta seletiva
Dados pesquisados Sim (%) Não (%) Existência de material reaproveitável no lixo 51,5 48,5 Conhecimento da definição de coleta seletiva 18,5 80,5 Participação em ação anterior de coleta seletiva 6,5 93,5
O processo implantado de coleta seletiva na Mangueira atendia os princípios do Programa de Coleta Seletiva Comunitária da EMLURB, descrito no item 3.6.2 e desenvolvido até 2001 em áreas de baixa renda na Cidade do Recife, através da troca de materiais recicláveis por bens de consumo, seja tickets alimentação ou no caso específico da ZEIS da Mangueira por tubos para os ramais internos do sistema de esgoto condominial.
Diante do resultado da pesquisa, observa-se que a ação de troca de materiais recicláveis por tubos, não é reconhecida pela população como uma
prática de coleta seletiva ou não teve o envolvimento da maior parte da população, ficando restrita a atuação das representações sociais da área.
Conforme o engenheiro Geraldo Miranda, Diretor de Limpeza Urbana da EMLURB na época do lançamento do Programa e atual Diretor de Controle Ambiental da CPRH, a coleta seletiva comunitária foi implantada devido à municipalidade não ter condições de remover o lixo de algumas comunidades, passando a estimular a população que trocasse seus recicláveis em postos de troca, o que possibilitaria um ganho econômico para os envolvidos no processo, existindo a idéia da organização de grupos de catadores em cada área. A assistente social Fátima Cintra, Chefe da Assessoria Sócio-Ambiental da EMLURB, aponta que a coleta seletiva comunitária foi implantada no Recife como um meio de operação de limpeza urbana, devido às dificuldades operacionais da época e não com uma visão sócio-ambiental, com a população só sendo comunicada do dia e do processo de troca.
Esta prática de troca de materiais recicláveis por bens de consumo possui um caráter assistencialista, com geração de uma pequena renda para os envolvidos, sendo questionada pelo engenheiro Bertrand Sampaio, ao afirmar que foi criada uma idéia errônea e equivocada sobre coleta seletiva.
A abordagem dos participantes em reuniões comunitárias sobre coleta seletiva na ZEIS da Mangueira é voltada para a geração de emprego e renda, sendo observada percepção reduzida sobre a questão ambiental e conforme o arquiteto Alexandre Ramos, as representações sociais têm uma visão de ganho sócio-econômico com o processo de coleta seletiva, devido ao índice de desemprego e a necessidade de sobrevivência da população, só havendo a inclusão da visão ambiental quando ocorre a discussão dos problemas da limpeza urbana de cada área.
O Coordenador do Fórum do PREZEIS, estudante João José da Silva, ressalta a necessidade de que qualquer processo de coleta seletiva busque trabalhar a temática ambiental e em paralelo fazer a inserção da geração de renda, pois caso contrário a população só dará importância a questão da renda. O referido Coordenador afirma que o processo de troca implantado em Recife criou um círculo vicioso, onde as pessoas traziam os recicláveis de fora da comunidade, já que nas comunidades não existem materiais suficientes para
garantir a sustentabilidade da permuta, lembrando o risco da coleta de materiais recicláveis sujos, dispostos nos canais e canaletas para ampliação da renda dos envolvidos numa ação de troca.
O Diretor de Limpeza Urbana da EMLURB, Roberto Gusmão, entende ser necessário realizar ações educativas junto à população residente em áreas de baixa renda, buscando evitar o lançamento de materiais recicláveis, como garrafas plásticas nos canais e canaletas, pois tal procedimento ocasiona o lançamento destes materiais nos rios e no mar, salientando, que mensalmente são removidas 170 toneladas de resíduos em operação de limpeza dos rios do Recife.
O citado Diretor salienta que a municipalidade implantou o processo de coleta seletiva em 13 bairros de classe média, citados no item 5.2.2, utilizando caminhão compactador, havendo a proposta que as indústrias comprem diretamente os materiais recicláveis dos catadores nas áreas de baixa renda. O engenheiro Bertrand Sampaio ressalta que o modelo de coleta seletiva com a utilização de veículos mecanizados representa um custo alto, e ao contrário, deveria ser incentivada a participação dos catadores no processo, que além de ser mais econômico, traz ganhos sociais, salientando que coleta seletiva entre entes privados, como cooperativas de catadores e empresas, apresenta melhores resultados, devendo o poder público só ficar estimulando a ação.
O Programa Coleta Seletiva Comunitária foi desenvolvido com a utilização da infra-estrutura do poder público, com a EMLURB efetuando a aquisição dos materiais recicláveis junto aos catadores e comercializando-os diretamente com as empresas recicladoras, sem o envolvimento dos referidos catadores nesta comercialização.
A prática de troca de materiais recicláveis por bens de consumo não proporcionou avanços para coleta seletiva do Recife e para a própria organização dos catadores, já que os envolvidos no Programa não possuíam intenção de se organizar entre si, havendo só a necessidade da sobrevivência através da catação de materiais recicláveis no interior e exterior das comunidades envolvidas e seu acúmulo nas residências até o momento da troca, o que podia ocasionar riscos para a saúde dos próprios catadores e da circunvizinhança.