Apesar da regulamentação apresentada no capítulo 2, ainda chegam às prateleiras dos supermercados itens que não foram produzidos como deveriam e que podem prejudicar o consumidor. Por esse motivo, o Código de Defesa do Consumidor rege, também, o recall: o que deve ser feito quando a indústria só percebe tardiamente um erro cometido na linha de produção (Brasil, 1990). No recall, o fornecedor deve comunicar a seus consumidores sobre o produto defeituoso, recolher os itens, esclarecer o que aconteceu e oferecer soluções para potenciais problemas criados pela venda negligente.
A situação que exige um recall pode trazer má fama ao alimento industrializado. Na última década, escândalos no Brasil e no exterior envolvendo essa intervenção na cadeia produtiva geraram muita polêmica e insegurança.
Entre os casos de adulteração, destaca-se o da carne de cavalo, crise que assustou a Europa no início de 2013. Em janeiro, autoridades irlandesas detectaram que alguns produtos industrializados com carne bovina continham excesso de DNA de carne de cavalo – o limite definido pela Agência de Segurança Alimentar no Reino Unido para indicar adulteração ou negligência grave é de 1% de DNA estranho aos ingredientes declarados no rótulo do produto (BBC Brasil, 2013). Ainda que o consumo dos produtos adulterados não causasse risco à saúde, o fato causou grande indignação na Europa e todos os pratos sofreram recall (Ibidem).
Uma das amostras de hambúrguer congelado tinha 29% de carne equina, e iscas de carne rotulada como bovina traziam, na verdade, 75% de carne de cavalo. Entre os produtos analisados, havia, ainda, DNA suíno, chegando a 30% em uma almôndega “bovina” testada pelas autoridades. Hambúrgueres, tortas de carne, lasanhas, ravioli e molho de tomate à bolonhesa usavam carne de matadouros da Polônia, da Letônia e da República Checa, entre outros países do leste europeu, e eram comercializados por lojas das redes de supermercados Tesco, Iceland, Aldi e Lidl na Irlanda e na Inglaterra (Lawrence, 2013). Nas semanas seguintes, os produtos adulterados foram encontrados em
mais 13 países europeus. Testes retroativos mostraram que produtos com carne adulterada eram comercializados desde junho de 2012, em função de rotulagem errônea e falta de fiscalização (Ibidem).
Situação semelhante aconteceu na China: em maio de 2013, autoridades do país desmantelaram uma quadrilha que supostamente usava produtos químicos ilegais para deixar carnes de rato, doninha e raposa parecidas visualmente com a carne de carneiro, mais valorizada (Kaiman, 2013). A polícia da província de Zhejiang chegou a publicar um guia ilustrado que ensinava a população a reconhecer a falsificação.
No mesmo mês, aqui no Brasil, as empresas produtoras de leite Italac, Mumu, Líder e Latvida foram interditadas pela Secretaria Estadual da Agricultura do Rio Grande do Sul e notificadas pela Secretaria Nacional do Consumidor, do Ministério da Justiça, para prestarem esclarecimentos sobre alguns lotes de leite que estavam sendo comercializados misturados com formol (Veja, 2013). A adulteração acontecia no transporte do leite cru, antes da chegada a essas empresas, com o objetivo de aumentar o volume e os lucros no frete.
O recall pode ainda ser causado por um erro no processo produtivo. Em 2011, a Pepsico enganou-se na limpeza dos equipamentos de uma fábrica no Brasil e acabou comercializando lotes do achocolatado Toddynho misturado a água e detergente (Veja, 2012). Quase 40 consumidores do Rio Grande do Sul relataram irritação na mucosa da boca, e a Pepsico teve que assinar termo de conduta no Ministério Público do Estado e pagar uma indenização de R$ 420 mil.
Nessa categoria, o caso recente de maior repercussão no país envolveu a bebida à base de soja Ades, da Unilever Brasil. Em fevereiro de 2013, durante a limpeza das embalagens de Ades sabor maçã, uma fábrica encheu 96 delas com soda cáustica e água (Moreira, 2013). O produto causou mal-estar e queimadura em 14 consumidores do Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. A Unilever Brasil teve que fazer um recall da bebida e, por um breve período, a Anvisa chegou a proibir a comercializacão de todos os produtos Ades.
Para Allain e Guivant (2010:79, grifo das autoras), “as crises alimentares tornaram visíveis também um ‘desencantamento’ do público com as políticas reguladoras e a eficiência dos órgãos fiscalizadores e seus instrumentos, o que mostra a necessidade de um gerenciamento democrático do risco”. A sequência de casos agilizou uma discussão, que se
arrastava desde 2010, a respeito das regras relativas ao recolhimento de alimentos contaminados (Veja, 2013). A Anvisa publicou, no Diário Oficial da União de 10 de junho de 2013, uma consulta pública que estabelece regras para o recall de alimentos, acelerando a retirada dos produtos do mercado e a comunicação aos órgãos de vigilância sanitária (Anvisa, 2013).
Outra consequência foi um grande enfraquecimento da confiança do consumidor, que viu o medo de incorporação negativa (Fischler, 1995) se tornar realidade na frente de seus olhos. Como visto no primeiro capítulo, comer, que, para Fischler, é o ato mais vital e íntimo, abre as portas para a contaminação física e simbólica de forma irreversível, e o quadro se agrava quando o acordo moral firmado entre indústria alimentícia e consumidor não é cumprido.
Fazendo milagres atualmente, a tecnologia permite que a indústria engane (ou quase) os critérios dos sentidos, fazendo com que proteína de soja texturada passe por carne moída de vaca de primeira. Corantes, aromas artificiais, intensificadores de sabor, agentes de textura e sal, todo um arsenal de truques e cosméticos se combinam para desarranjar a percepção do comensal (Fischler, 1995:211, tradução nossa).
A relação entre indústria e consumidor precisa ser baseada na confiança, principalmente quando o alimento OCNI, ou objeto comestível não identificado (Ibidem), fica escondido sob uma embalagem que nem sempre entrega ao consumidor sua origem ou sua composição. A percepção aparece na fala do artista plástico Fernando (2013):
Não é que você tá comprando um ingrediente, você tá comprando uma caixa. E além de tudo ela nem deixa você ver o que tá dentro. Quando você vai tomar um Toddynho, você coloca um canudo que vai puxar diretamente pra sua boca, sabe, você não vê em nenhum momento o negócio. É cada vez mais estranho. [...] Acho que a gente perdeu o contato [...] com a produção, com os produtores, porque cada vez são empresas maiores que fazem, que produzem comida de um modo geral, seja ela pronta ou ingredientes. Quando a gente compra coisas – mesmo quando são orgânicos e coisas assim –, vai estar num mercado, numa caixa, numa embalagem.
Para Fernando (Op. cit.), o desconhecimento do processo produtivo e o pouco contato com o produto que será incorporado assusta. Ele chega a afirmar que os casos Toddynho e Ades funcionaram como “um alerta dessa alimentação meio cifrada”.
Esse tipo de distanciamento implica em uma confiança ainda maior, e quando a embalagem traz algo diferente do que está expresso no rótulo, o consumidor sente-se surpreso e traído. No caso dos pratos elaborados com carne de cavalo, não havia risco à
saúde: a carne não estava estragada e é perfeitamente digerível. Mas Alan Reilly, diretor- executivo da Autoridade de Segurança dos Alimentos da Irlanda (FSAI), explica: “na Irlanda, não faz parte de nossa cultura comer carne de cavalo e, portanto, não esperamos encontrá-la em um hambúrguer” (BBC Brasil, 2013, s/p).
A gastróloga Gabriela (2014) se lembra de sua reação a um boato sobre a adulteração da carne bovina:
Eu devia ter uns sete anos mais ou menos, ele [pai] chegou e falou assim “é, tem um boato aí de que estão vendendo carne de cavalo”. Eu passei um ano sem comer carne de nojo porque eu não imaginava comer carne de cavalo. [...] É você não reconhecer aquilo como comida. Cavalo não é pra se comer, é pra andar em cima do cavalo, entendeu? Então eu não reconhecia carne de cavalo como carne pra ser comida. Aí fiquei meio apavorada, já que estava acontecendo sem o nosso consentimento, então não vou comer, porque vai que é...
Dória reforça que o ser humano não está disposto a ingerir por engano o que não inclui voluntariamente em sua dieta, e que o caso implica em violação do direito de escolha do consumidor. Para o autor (2013:s/p), “a descoberta da carne de cavalo em produtos da indústria mostra a quebra de confiança nos padrões atuais de rastreabilidade, construídos a duras penas”.
Gabriela não foi a única a reagir dessa forma à uma possível adulteração. Alguns números mostram as consequências do enfraquecimento da promessa moral da indústria: na semana em que carne de cavalo foi detectada na Grã-Bretanha, quase um terço da população adulta parou de consumir os alimentos prontos com amostras contaminadas, e 7% pararam de comer qualquer tipo de carne (Agência Estado, 2013). Em um mês, o consumo de pratos prontos à base de carne bovina diminuiu 13%, enquanto a venda de hambúrgueres congelados despencou em 43% (Neville, 2013).
Outro produto que sofreu impacto foi o Ades. O caso foi considerado mais surpreendente pela imagem saudável que a publicidade do produto buscava estabelecer: o fabricante garantia que Ades era 100% natural e que não continha conservantes. Pesquisa netnográfica20 realizada por Galindo e Portilho (2013), logo após a crise, mostra consumidores assíduos que se declaram dependentes do produto justamente por esse apelo “saudável”. Se não o fossem, dificilmente se dariam ao trabalho de entrar na rede social da
20 A pesquisa netnográfica consiste na transposição do tradicional método etnográfico para o
empresa para registar sua indignação, chateação e dar “puxões de orelha” no fabricante. O produto é utilizado como substituto do leite por pessoas com intolerância à lactose e outras restrições alimentares, e faz parte até mesmo da dieta de crianças. Alecsandra Zapparoli, diretora de redação da revista Veja São Paulo, autora do blog Cidade das Crianças e mãe de três crianças, explica:
[...] o fato é que nós, pais-consumidores, ficamos assustados com as notícias recentes. Nos últimos anos, o suco de soja ganhou status de “saudável” — um de seus slogans, aliás, é “sinta a energia saudável”. Sei que em muitas casas, como na minha, esse suco industrializado virou uma opção ao refrigerante (Zapparoli, 2013:s/p, grifos da autora).
Enquanto o refrigerante é visto como uma opção pouco saudável, a bebida à base de soja conquistou o rótulo de inofensiva, a ponto de frequentar mamadeiras. Os pais entenderam, inspirados pela publicidade da marca, que se tratava de uma opção não apenas menos danosa à saúde, mas recomendável para garantir o bem-estar físico. Galindo e Portilho reproduzem a declaração de uma mãe que mostra o vínculo emocional desenvolvido com o produto:
Realmente estou muito preocupada com essa situação... Tenho uma criança de 4 anos que, desde que saiu do peito, com 1 ano e meio, só mama Suco Ades de maçã....E agora vive chorando porque quer mamar o seu suquinho e não tenho coragem de dar para ela... a ainda por cima ela está doentinha e meu coração chora ao negar o seu suquinho preferido...Tentei outras marcas, outros sabores e ela não quis...diz que é muito ruim e quer seu mamazinho de Ades....Parece ridículo eu falando isso aqui, mas é que esse tipo de coisa, sei lá qual interesse há por trás desse carnaval que se montou, acaba repercutindo e causando sofrimento até numa criança tão pequenina quanto ela, que nunca vai entender tal situação....Sempre comprei muuuuito suco Ades, caixas e mais caixas, e ela sempre mamou à vontade....agora, por causa de tudo isso, paro de uma hora para outra de dar Ades para ela...pense na tristeza dela...Tentei explicar pra ela que era proibido, que não podia e ela me disse: Mãe, fala pro chefe deles fazer meu mamazinho de novo, só que não fique ruim e não dê dodói....eu amo meu mamazinho...” Só quem é mãe entnede, portanto antes de qualquer engraçadinho fazer piada com a minha situação, ponha a mão no coração e pense duas vezes e respeite as dificuldades alheias... [sic] (Galindo; Portilho, 2013:12).
A mãe chega a sugerir que a reação ao caso é exagerada e mal-intencionada, mas se mostra com medo de continuar oferecendo a bebida “contaminada” à filha pequena. Ainda que o problema enfrentado pelo fabricante possa ser considerado uma exceção, percebe-se que a relação de confiança desenvolvida com o produto por esse público foi abalada de forma potencialmente irreversível.
A insegurança é presente também entre os entrevistados para esta dissertação: a família de Heitor (2014) passou quase um ano sem comprar Ades.
Eu nunca gostei muito de Ades na verdade, não gosto nada que tem muita soja, mas as crianças adoram. Não sei por que eles gostam disso, mas eles gostam do Ades. E a minha mulher também gosta do Ades. Mas aí ela ficou com um pouco de receio, parou de comprar. [...] Agora é que está começando a voltar.
O professor universitário Carlos (2013) chegou a mudar consideravelmente seus hábitos de compra e consumo de alimentos após esses casos: “Toddynho não [compro] depois daquelas histórias de que queimou a boca não sei de quem. [...] Tomava de vez em quando antes da história lá da soda cáustica. [...] As embalagens tetra pak também eu fui tirando por causa dessa questão do Ades”. É interessante perceber que não apenas os produtos, mas a embalagem em si passou a ser evitada. Os erros que arriscaram a saúde de consumidores de Ades e Toddynho deram-se justamente na etapa de limpeza dos invólucros, mas também há aí a insegurança causada pelo OCNI que a indústria esconde com alumínio, plástico fosco e papel.
Para os demais entrevistados, denúncias de que determinado fabricante colocaria a saúde do consumidor em risco também não passaram despercebidas, prejudicando a imagem do mesmo e influenciando as escolhas de compra. “Lá em Santa Catarina deu problema com um [...] queijo tipo minas de uma marca de lá. E aí, lógico, eu via no supermercado e preferia comprar o da outra marca”, conta Adriana (2013). Bianca (2013), que ficou sabendo do caso do leite contaminado por uma amiga, também evitou a marca “defeituosa”: “O leite Italac eu tinha na minha geladeira quando a minha amiga ligou falando isso, mas da outra vez que eu fui [ao supermercado] não comprei não, comprei outra marca”. Vale perceber que ambas permanecem consumindo queijo e leite processados pela indústria, mas entenderam que estariam mais seguras ao evitar marcas que já cometeram erros em suas cadeias produtivas.
Para Fischler (1995), isso acontece porque as marcas também funcionam como mediadores nas decisões alimentares dos comensais. “Dada esta incerteza radical, uma das respostas características consiste em ‘reidentificar’ o alimento por todos os meios. Daí, sem dúvida, a obsessão do label, da etiqueta, da garantia das origens e da pureza original” (Ibidem, 1995:212, grifos do autor, tradução nossa). A marca é a carteira de identidade do produto, seu selo de qualidade, sua garantia de procedência e saudabilidade.
Bianca (Op. cit.) chega a afirmar: “Se em algum momento me bate [essa preocupação], eu pego numa marca conhecida. É uma forma de me garantir um pouco mais. Ao invés de eu comprar essa que eu nunca ouvi falar vou comprar da Sadia que, gente, não é possível que vai ter só o meu processo [risos]”. Isabela (2014) também prefere “um fabricante que eu conheço, que é grande e que parece confiável”. Para a administradora, o produto de limpeza pode ser qualquer um, mas, diante de um produto alimentício, “uma marca totalmente desconhecida, eu fico meio com o pé atrás”, diz.
Gabriela (2014) levanta ainda outra hipótese envolvendo marcas conhecidas, e reafirma a confiança nelas:
A gente sempre também pensa um pouco que pode ser notícia plantada pelos concorrentes, tudo mais, porque também sempre teve isso, né? “Encontraram um bicho de sete asas dentro da Coca-cola, não sei o quê”. Mas aí: “ah, isso aí foi o concorrente que falou, é impossível isso aí”, e aparecem quinhentas histórias de que seria altamente inviável por isso e por aquilo, mil processos. [...] Tem umas [marcas] que você confia mais, porque aquelas meio desconhecidas você fica com o pé atrás, né? Mas entre as muito conhecidas, sempre tem aquelas bem grandes, e o fato de ser grande já dá meio que um respaldo, né?
Mesmo a percepção de risco em relação à marca tem gradações que variam na proporção da simpatia e de quão presente ela está nos hábitos de consumo. Adriana (Op. cit.), por exemplo, diz não se preocupar com o caso Ades por seu padrão de consumo ocasional: “Esses dias eu comprei um Ades de maçã [...] só que nem me liguei. Acho que, como eu não consumo isso muito, eu acabo não relacionando com meu hábito de alimentação. Se fosse uma coisa que eu tomasse todo dia talvez eu ficasse apavorada”, conta. Para a estilista, beber Ades “de vez em quando” a isenta de um risco que supostamente afeta apenas o consumidor assíduo.
Para Bianca (2013), a insegurança que surgiu com o caso Toddynho forçou-a a experimentar outras marcas, mas ela acabou voltando para o “original”: “dei uma chance pro Nescau, dei uma chance pra outra marca, mas o Toddynho é mais gostoso”. Fischler (1995) lembra que o valor simbólico do alimento ajuda na criação de laços afetivos com quem o fornece, incluindo a marca adotada por uma indústria alimentícia.
Heitor (2014) revela sua conexão com a marca produtora do Toddyinho: “Pra mim foi uma grande decepção porque a Quaker sempre tive em alto nível. A Unilever nem
tanto, mas a Quaker eu sempre tive em alta reputação mesmo”21. E o que ele fez? “Eu parei de usar, mas aí dois meses depois eu voltei a usar. Eu gosto do Toddyinho! [...] Meus filhos não gostam muito, mas eu gosto de Toddyinho”. Vale relembrar que o Ades, consumido pelas crianças, ficou bem mais tempo fora da despensa do biólogo.
Ao analisar a bibliografia referente a crises alimentares no Brasil, Allain e Guivant (2010) mostram que o país tende a regir com certa tranquilidade, o que não acontece em outras nações na Europa e na América do Norte. Isso ocorre apesar da situação incerta da cadeia produtiva nacional: para as autoras, o Brasil conta com uma legislação em acordo com as normas internacionais de segurança alimentar, mas não está livre de crises reincidentes por “falha no sistema de fiscalização, esquema de denúncias, implementação de políticas públicas e espaço dedicado a essas questões na mídia”. As autoras levantam duas possibilidades para a reação branda do consumidor: uma possível confiança que a população teria no controle de riscos, ou o desconhecimento da dimensão do perigo, acompanhado por indiferença ou resignação.
Esses comportamentos aparecem nas entrevistas realizadas para esta dissertação: muitas falas reforçam a confiança nas marcas grandes e mesmo a possibilidade de que tudo seja “intriga da oposição”, ou boatos plantados pelos concorrentes. Mas a resignação talvez seja o mais presente. É possível perceber que a tentativa de remendar a rachadura na confiança depositada na indústria deve-se também à inevitabilidade de se consumir alimentos oriundos desse modo de produção: a consciência de que “não tem outro jeito” está presente em muitas das falas.
“Se eu não tenho opção alguma, eu não vou passar fome. Eu realmente como e tomo e beleza. E paciência!”, diz Carlos (2013). Eliana (2013) também assume que “aquele negocinho de legume, tipo Meu Arroz, essas coisas, eu uso quando vou fazer arroz. Aquilo lá é horrível, mas paciência, [...] não vou ficar fazendo o tempero”.
“Eu sou meio refém da coisa, como eu prezo pela praticidade”, afirma Bianca (2013). Ela conta:
Exemplo: alguns anos atrás aconteceu isso [a venda de leite contaminado] com sei lá que marca em Minas. Minha mãe desde então voltou pro leite de saquinho. Ela ferve o leite de saquinho! Ou compra o em pó. Esse é o leite consumido na casa dela. E eu
21 A Quaker, antiga produtora do Toddyinho, foi adquirida pela Pepsico em 2001. A comparação é feita com a Unilever Brasil, que produz o Ades.
não vou comprar o leite em pó nem muito menos ferver o leite, nenhum dos dois eu acho prático. E então eu sou refém dos produtos industrializados porque eu continuo com sede, continuo querendo beber leite.
Há até aqueles que confiam cegamente, como conta Adriana (Op. cit.): “Conheço muita gente que dá preferência para o industrializado do que para o manuseado de uma maneira mais caseira [...]. Eu tenho um amigo que, se tiver um monte de restaurante pé- sujo na rua, ele vai comer um Cheetos porque confia mais que aquilo industrializado é, tipo, melhor”.
Essa confiança é compartilhada por Isabela (2014). Sobre os erros registrados nos últimos anos, afirma:
É coisa que pode acontecer porque você tem humanos fazendo controle de qualidade, né, uma coisa ou outra pode acontecer. Eu acho que são coisas isoladas [...]. É uma coisa que eu acho que afeta o consumo na hora mas também não mantém. [...] Eu acho que são coisas que podem acontecer com qualquer categoria em qualquer lugar, não