• Nenhum resultado encontrado

3. GÊNERO NO BANHEIRO

3.1. Recapitulando: o gênero como corrente de pensamento

Durante a chamada segunda onda do feminismo, muitas acadêmicas, pesquisadoras e ativistas lésbicas feministas, como Gayle Rubin (1975), Monique Wittig (1978) e Adrienne Rich (1980), indagaram sobre as categorias simbólicas, normativas, políticas e subjetivas que se instaurariam como elementos constitutivos da categoria “gênero”.

Em 1975, Gayle Rubin escreveu o ensaio O Tráfico de Mulheres: Notas sobre a “Economia Política do Sexo” no qual desenvolveu uma reflexão sobre questões pouco aprofundadas na época, como a “diferença de gênero, opressão de gênero e sexualidade” (RUBIN; BUTLER, 2003). Nesse ensaio, Rubin dá nome ao que ela interpreta como um novo sistema de elementos que viriam organizar as relações sociais entre os indivíduos, o chamado “sistema sexo/gênero” que é definido pela antropóloga como “el conjunto de disposiciones por el que una sociedad transforma la sexualidad biológica en productos de la actividad humana, y en el cual se satisfacen esas necesidades humanas transformadas” (RUBIN, 1986, p. 97)25. Em sua análise, Rubin mostra como as relações sexuais são organizadas hierarquicamente, e que nessa organização as mulheres estão sempre abaixo, em uma situação de opressão com relação aos homens.

Ampliando o debate e à reflexão sobre as relações históricas de opressão do significante “mulher”, Monique Wittig publica O pensamento Heterossexual e outros ensaios (2006), difundido pela primeva vez em 1978. Nesta obra, Wittig apresenta um conjunto de escritos nos quais configura e define algumas das suas reflexões mais relevantes, como no caso da categoria de “sexo” enquanto categoria política, a ideia de “mulher” enquanto conceito essencialista, e a definição que deu nome à sua publicação mais célebre “O pensamento heterossexual”, no qual apresenta a heterossexualidade como um “régimen de dominación”26 (WITTIG, 2006, p. 25).

No que diz respeito à chamada “diferença sexual”, Wittig a passa a explicar por meio de uma metáfora: “La continua presencia de los sexos y la de los esclavos y los amos provienen de la misma creencia. Como no existen esclavos sin amos, no existen mujeres sin hombres”

25 O conjunto de disposições pelas quais a sociedade transforma a sexualidade biológica em produto da atividade

humana e no qual as necessidades sexuais transformadas são atendidas (RUBIN, 1986, p. 97 tradução minha).

(WITTIG, 2006, p. 22)27. Assim, consegue dizer que a diferença entre os sexos atua na cultura como um mecanismo de censura, dado que aliena a percepção das diferenças, como se fossem naturais e não no plano da construção social:

La ideología de la diferencia sexual opera en nuestra cultura como una censura, en la medida en que oculta la oposición que existe en el plano social entre los hombres y las mujeres poniendo a la naturaleza como su causa. Masculino/femenino, macho/hembra son categorías que sirven para disimular el hecho de que las diferencias sociales implican siempre un orden económico, político e ideológico (Ibidem. 2006, p. 22)28.

Desta forma, Wittig mostra que a sociedade é percebida como naturalmente heterossexual, pois a categoria de sexo é uma categoria política e assim a constituiu: “La categoría de sexo es una categoría política que funda la sociedad en cuanto heterosexual” (WITTIG, 2006, p. 26)29.

Wittig explicitou os elementos que constituem esse pensamento dominante em Modem Language Association Convention, em 1978 afirmando:

Las categorías de las que se trata funcionan como conceptos primitivos en un conglomerado de toda suerte de disciplinas, teorías, ideas preconcebidas, que yo llamaría ‘el pensamiento heterosexual’. Se trata de ‘mujer’, ‘hombre’, ‘sexo’, ‘diferencia’ y de toda la serie de conceptos que están afectados por este mareaje, incluidos algunos tales como ‘historia’, ‘cultura’ y ‘real’ (Ibidem. 2006, p. 51)30.

E conclui com a seguinte afirmação:

No puedo sino subrayar aquí el carácter opresivo que reviste el pensamiento heterosexual en su tendencia a universalizar inmediatamente su producción de conceptos, a formular leyes generales que valen para todas las sociedades, todas las épocas, todos los individuos. Esta tendencia a la universalidad tiene como consecuencia que el pensamiento heterosexual es incapaz de concebir una cultura, una sociedad, en la que la heterosexualidad no ordenara no sólo todas las relaciones humanas, sino su producción de conceptos al mismo tiempo que todos los procesos que escapan a la conciencia (Ibidem. 2006, p. 52)31.

27 “[a] presença contínua dos sexos e a dos escravos e amos provêm da mesma crença. Como não há escravos sem

amos, não há mulheres sem homens” (Ibidem, p. 22, tradução minha).

28 “A ideologia da diferença sexual opera em nossa cultura como uma censura, na medida em que esconde a

oposição que existe no nível social entre homens e mulheres, colocando a natureza como sua causa. Masculino / feminino, macho / fêmea são categorias que servem para disfarçar o fato de que as diferenças sociais sempre implicam uma ordem econômica, política e ideológica” (Ibidem, p. 22, tradução minha).

29“[a] categoria de sexo é uma categoria política que cria a sociedade como heterossexual”. (Ibidem, p. 26, tradução minha).

30“As categorias em questão funcionam como conceitos primitivos em um conglomerado de todo tipo de disciplinas, teorias, ideias preconcebidas, que chamaria de ‘pensamento heterossexual’. É sobre ‘mulher, ‘homem’, ‘sexo’, ‘diferença’ e de toda uma série de conceitos que são afetados por esta mensagem, incluindo alguns como ‘história’, ‘cultura’ e ‘real’”. (Ibidem, p. 51, tradução minha).

31Não posso deixar de enfatizar aqui o caráter opressivo do pensamento heterossexual na sua tendência a universalizar imediatamente a produção de conceitos, a formular leis gerais que se apliquem a todas as sociedades, todos os tempos, a todos os indivíduos. Essa tendência à universalidade tem como consequência que o pensamento heterossexual é incapaz de conceber uma cultura, uma sociedade, na qual a heterossexualidade não ordene não apenas todas as relações humanas, mas também sua produção de conceitos, ao mesmo tempo em que todos os processos que escapam à consciência (Ibidem, p. 52, tradução minha).

Cabe aqui também mencionar que, quando Wittig passa a analisar as relações sociais em termos heteronormativos, também aponta na sua obra uma ruptura da norma heterossexual, ao separar o conceito “mulher” e “lésbica”. Wittig compreende que a base do regime heterossexual está nas categorias sexuais “homem” e “mulher”, e nas práticas sociais e sexuais de opressão que estas categorias fixam para cada sujeito, e declara: “las lesbianas no son mujeres” (Ibidem. 2006, p. 57).

Lesbiana es el único concepto que conozco que está más allá de las categorías de sexo (mujer y hombre), puesto que el sujeto designado (lesbiana) no es una mujer, ni económica, ni política, ni ideológicamente. Lo que hace a la mujer es una relación social específica con el hombre, una relación a la que ya nos hemos referido como “servidumbre”, una relación que implica obligación personal y física, tanto como una obligación económica (residencia forzada, trabajo doméstico, deberes conyugales, producción ilimitada de niños, etc.) una relación de la que las lesbianas escapan al rechazar seguir siendo o convertirse en heterosexuales (Ibidem. 2006, p. 43)32.

Desse modo, Wittig transforma a figura da “lésbica” em um enclave privilegiado da dissidência do sistema heterocentrado. Esta reflexão e pensamento de Wittig irá auxiliar o desenvolvimento do Capítulo III, no qual se analisa o significante “lésbica”, entre o discurso e as representações.

Seguindo com a genealogia do gênero, em termos teóricos, políticos e sociais, em 1980 Adrienne Rich, na mesma perspectiva que Wittig, também fez uma importantíssima contribuição ao cunhar o termo “Heterossexualidade Compulsória”, assinalando a existência de uma obrigatoriedade nas relações sexuais, sendo estas exclusivamente entre um “homem” e uma “mulher”. Rich propôs pensar o caráter político da heterossexualidade, como “algo que teve que ser imposto, gerenciado, organizado, propagado e mantido pela força” (RICH, 2001, p. 65). A heterossexualidade se espalha assim como o pensamento dominante, como um sistema capaz de “universalizar conceitos e formular leis que valem para toda a sociedade, para todas as épocas e para todos os indivíduos” (RICH, 2010).