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3 FUNDAMENTOS

3.3 APROXIMAÇÕES PRELIMINARES

3.3.2 Receber e Dance

No Momento Receber, são as forças do donatário que permitem ou não, que o processo criativo tenha continuidade. Tais forças são, como sempre, de decisão e de escolha; mas também envolvem obrigação, segundo o conceito do Dance, pareado aqui ao Paradigma da Dádiva. De qualquer modo, abriga-se sob esse entendimento tudo aquilo, que, de cada um, está projetado sobre o meio, baseado em permissões. As normas e os julgamentos externos estabelecem o que, de cada um, poderá evidenciar-se ou não, definindo e definido por molduras estéticas e poéticas, que, ao mesmo tempo que anseiam por liberdade, carecem de limites para serem reconhecidas como tal; ao mesmo tempo que são libertadoras, antecipam respostas e conduzem soluções (NUNES, L., 2015).

A obrigação de receber não é menos constringente. Não se tem o direito de

recusar uma dádiva, de recusar o potlatch. Agir assim é manifestar que se teme ter de retribuir, é temer ter de "ficar calado" enquanto não se retribuiu. De fato, é já "ficar calado". É "perder o peso" de seu nome; é confessar-se vencido de antemão, ou, ao contrário, em certos casos, proclamar-se vencedor e invencível (MAUSS, 2003, p.247-248, grifos do autor).

No Paradigma da Dádiva, a obrigação de receber não é menor do que a de doar e a de retribuir. Mauss (2003) aponta as consequências da recusa e, portanto, o significado da recepção. O primeiro resultado desta recursa é “manifestar que se teme ter de retribuir”, conforme citação acima. Ou seja, teme-se ter de doar a si mesmo ao outro e se teme deixar-se ser conhecido. De acordo com Mauss, a segunda consequência da recusa é o calar-se. Entende- se que calar não é apenas se omitir da aceitação de uma doação e consequentemente da retribuição; é também anular a si mesmo, perdendo-se a oportunidade de criar laços e a de expressar a si mesmo. Calar-se pode indicar um sentimento de inferioridade, causado pela incapacidade de compreender, interpretar, comunicar-se na linguagem do outro. Do mesmo modo, sugere uma impossibilidade de ser compreendido. De uma sorte ou de outra, é azar, conforme pensamento de Mário Quintana (2006, p.137): “Quando guri, eu tinha de me calar à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem”.

Outra sentença que Mauss preconiza é a de “perder o peso do seu nome”. O nome remonta à história familiar, à reputação, à personificação do ser, ao pertencimento. Perder o peso do nome pode designar desprendimento, pelo livramento de vínculos herdados, e também denotar alívio, pelo abandono de sua personificação. Ambas, tolas esperanças de suposta liberdade, ao

ser desobrigado da carga herdada. Não ser conhecido em sua inteireza, nem pelos outros, nem por si mesmo insinua sofrimento, pois se deixa de gozar o legado da própria linhagem, desnorteando-se pela diminuição da força e da consistência daquilo, que lhe antecede, fundamenta, representa e da qual é representante por direito. Se, por um lado, a recusa provocada pela perda do peso no nome, conforme explicitado, pode sugerir liberdade; por outro, contudo, a aceitação da ascendência lhe é inerente. Logo, a liberdade perene nasce na obrigação da recepção do que desde sempre lhe pertence. Fazendo-se um paralelo com o funcionamento do CDG, o Dance se refere àquilo que é inerente, pré-determinado, condição sine qua non e tudo o mais, sobre o que nada nos é perguntado, cabendo-nos unicamente obedecer... ou desistir do que se é / de onde se está. É o caso da própria herança e das leis; é o caso das fatalidades. A habilidade e o conhecimento de causa, com os quais cada um se movimenta neste mundo incondicional, vai determinar o que se pode ou não produzir. Sobre tais produtos será falado, oportunamente; aqui, cabe compreender em que medida o determinismo do Receber e do Dance se aproximam.

Ainda segundo Mauss (2003), recusar a dádiva é confessar-se vencido, antecipadamente. Numa confissão, revelam-se sentimentos, pensamentos, ideias, culpas... Confessar-se vencido é revelar que se sucumbiu na luta entre sua natureza egoísta e individualista, e sua índole altruísta e coletiva. Por outro lado, proclamar-se vencedor ou invencível detona a aclamação da autossuficiência e da completude. Seja como vencido ou como invencível, pela incapacidade de compartilhar ou pela negação da necessidade de receber, a recusa afasta a possibilidade de laços. Por outro lado, quando se opta por aceitar a dádiva:

Deve-se apreciar em voz alta o alimento que nos preparam. Ao aceitá-lo, porém, a pessoa sabe que se compromete. Recebe-se uma dádiva como "um peso nas costas". Faz-se mais do que se beneficiar de uma coisa e de uma festa, aceitou-se um desafio; e pôde-se aceitá-lo porque se tem certeza de retribuir, de provar que não se é desigual. (MAUSS, 2003, p. 248)

Entende-se que receber exige anuência, consentimento e, logo, também envolvimento. Aceitar é mais do que responder assertivamente; é comprometer-se com o outro, acolhendo não apenas sua dádiva, mas a ele próprio. A palavra Receber se origina do latim recipere, recuperar, levar de volta, tomar a si mesmo30. Sendo assim, receber é também apropriar-se, tomando a dádiva e, consequentemente, a alma do outro como parte de si mesmo. Logo, vincular-se,

comprometer-se... com o que, “levado de volta”, desde sempre foi. E é então, que receber é recuperar o que foi perdido. Ao pegar a dádiva, o donatário sinaliza a disponibilidade para a aliança, reconquistando a possibilidade de interação, de aperfeiçoamento de sua humanidade. Desafiado a retribuir, ele anuncia que, assim como o doador, possui a centelha da vida e é capaz de compartilhá-la. Por isso, não é vencido, nem vencedor; lhe é igual.

Na Oferta de Repertório, o Momento Receber é próprio do Dance, pois nele se pune, assim como se elogia, realizando-se todos os movimentos do aceite ou da recusa da dádiva. O Dance “Se confronta com o Cante, porque lhe cerceia movimentos, exige explicações e impõe julgamentos” (NUNES, H., 2015). Ou seja, é o instante em que se coíbe a doação, ou se a estimula, suscitando-se propósitos, avaliando possibilidade, exigindo explicações. Quanto ao Repertório, o Dance se refere às Experiências Estéticas e Poéticas, pois é no experienciar disciplinado que são construídos e reconstruídos os Processos de Criação. Dessa forma, receber é aceitar e apropriar-se de tais processos, valendo-se de Experiências Estética e/ou Poética. No caso em estudo, os licenciandos experienciaram estética e poeticamente processos de criação, provocados por meio da doação do PROLICENMUS. Em um primeiro Ato, Intrapessoal, estes licenciandos necessitavam acolher tais processos e, consequentemente, os princípios neles contidos. Porque, conforme já foi explicitado, essa aceitação/recusa é resultado de um conflito pessoal, marcado pelo jogo de decisão entre liberdade versus obrigação, e entre interesse versus

amância. A Aceitação se caracteriza como a Condição Intrapessoal do Receber, pois é neste

Ato que se admite a aceitação de si mesmo e do outro, assumindo o compromisso de retribuição e a necessidade de vínculos. O outro Ato do Momento Receber é a Apropriação. Ao tomar para si os processos de criação e seus princípios, o licenciando incorpora-os aos processos e princípios que já possui, ajustando-os; e, ao ajustá-los, altera-se e a si mesmo. Ao tempo que ele se reconhece, na relação de enfrentamento com o outro, recria-se a partir das novas constatações feitas e estruturas construídas a partir dela. A Apropriação se qualifica como a Condição Interpessoal da recepção, porque carrega em seu âmago a Exposição. “Deve-se apreciar em voz alta o alimento que nos preparam” (MAUSS, 2003, p.248). Ao se recriar, o sujeito age sob novas perspectivas, externando não apenas a estima pelo alimento, mas os efeitos dessa nutrição.