1. Interesses do empregador
2.2. Recebimento da contrapartida da atividade prestada
O trabalhador tem direito, como contrapartida da prestação de trabalho, a uma retribuição (artigo 127.º, n.º 1, alínea b), do CT). A correspetividade entre retribuição e trabalho efetivamente prestado deve ser interpretada com nuances, abarcando a mera disponibilidade do trabalhador para o exercício da atividade e nos casos em que o trabalhador, embora não preste qualquer atividade, permaneça com direito a retribuição. Assim sucederá nos regimes de faltas justificadas (artigos 255.º, n.º 2, do CT) e da impossibilidade temporária da prestação de atividade (artigo 309.º, n.º 1, do CT).
No direito do trabalho recorre-se a uma noção restrita de retribuição que corresponde a retribuição base137, diuturnidades138 e qualquer outra prestação em dinheiro ou em espécie139,
135
Cfr. Pedro Romano Martinez, Direito…cit., p. 483. Como aponta Nascimento, Ricardo (2008), Da Cessação do Contrato de Trabalho: Em Especial por Iniciativa do Trabalhador, Coimbra, Coimbra Editora, p. 204, “o trabalho constitui não apenas um meio de subsistência, mas também um meio de exteriorização da personalidade existindo, pois, um direito do trabalhador à utilização, aperfeiçoamento e crescimento do seu próprio património profissional”.
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Num sentido diferente, António Menezes Cordeiro, Manual…cit., p. 657, fundamenta o direito à ocupação efetiva no regime da remissão de dívidas, que obriga sempre à aceitação da contraparte.
137
É aquela que, nos termos do contrato ou instrumento de regulamentação coletiva, corresponde ao exercício da atividade desempenhada pelo trabalhador de acordo com o período normal de trabalho que tenha sido definido (artigo 262.º, n.º 2, alínea a), do CT).
138
Corresponde à prestação retributiva devida ao trabalhador, nos termos do contrato ou do instrumento de regulamentação coletiva, com fundamento na antiguidade (artigo 262.º, n.º 2, alínea b), do CT).
139
Nos termos do artigo 276.º, n.º 1, do CT, a retribuição é satisfeita em dinheiro ou, estando acordado, em prestações não pecuniárias, nos termos do artigo 259.º do CT.A retribuição pode não corresponder a uma prestação pecuniária, mas tem de ter cariz patrimonial (deve destinar-se à satisfação de necessidades pessoais do trabalhador ou da sua família).
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desde que com caráter de regularidade e periodicidade140 e como contrapartida do trabalho prestado (artigo 258.º, n.os 1 e 2, do CT). Nos termos do artigo 258.º, n.º 3, do CT, considera- se, até prova em contrário141, retribuição qualquer prestação do empregador ao trabalhador. Competirá ao trabalhador provar que o empregador lhe paga uma determinada prestação, ficando o empregador com o ónus de provar que não se trata de uma prestação paga como contrapartida do trabalho e que a mesma não reveste caráter regular e periódico.
O interesse do trabalhador no pagamento da retribuição prende-se, desde logo, com a função desta, que é satisfazer as necessidades pessoais e familiares do trabalhador142. Pode dizer-se que o interesse do trabalhador não se circunscreve às quantias recebidas com caráter de retribuição. Está vedada ao empregador a diminuição das quantias qualificadas como retribuição, por força do chamado princípio da irredutibilidade da retribuição, previsto na alínea d) do n.º 1 do artigo 129.º do CT; não podendo igualmente deixar de pagar os complementos retributivos que não revistam o conceito de retribuição enquanto se verificarem os pressupostos da sua atribuição.
A fixação do montante da retribuição deve respeitar o valor da retribuição mínima mensal garantida, atualmente fixada em quinhentos e trinta euros (artigo 2.º do DL n.º 254- A/2015, de 31 de dezembro), e o princípio da igualdade previsto no artigo 270.º do CT, onde se estabelece que “Na determinação do valor da retribuição deve ter-se em conta a
quantidade, natureza e qualidade do trabalho, observando-se o princípio de que, para trabalho igual ou de valor igual, salário igual”. Este princípio gera dificuldades no que toca à
delimitação do seu sentido e alcance. A doutrina143 e a jurisprudência144 têm afirmado que a
140
Sobre a periodicidade e regularidade das prestações, veja-se António Monteiro Fernandes, ob…cit., p. 424, que afirma que ter característica um duplo sentido: a existência de uma vinculação prévia e a medida das expetativas de ganho do trabalhador (nexo existente entre a retribuição e as necessidades pessoais e familiares do trabalhador).
141
O legislador, no artigo 258.º, n.º 3, do CT, recorreu à figura da presunção legal; definindo o artigo 349.º, do CC, como uma ilação que a lei tira de um facto conhecido para firmar um facto desconhecido. Existem dois tipos de presunção – inilídivel (iuris et de iure) e ilidível (iuris tantum), sendo a primeira aquela que é estatuída sem possibilidade de prova em contrário (artigo 350.º, n.º 2, 2.ª parte, do CC), e caracterizando-se a segunda por permitir prova em contrário (artigo 350.º, n.º 2, 1.ª parte, do CC). O artigo 258.º, n.º 3, do CT, contém uma presunção iuris tantum.
142
Sobre a função do salário como meio de satisfação de necessidades, vd. António Monteiro Fernandes, ob…cit., pp. 408-412.
143
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retribuição deve ser conforme a quantidade (duração e intensidade), a natureza (dificuldade, penosidade ou perigosidade) e a qualidade (conhecimentos, prática e capacidade) do trabalho. Se as diferenças de remuneração assentarem em critérios objetivos, elas são materialmente fundadas e não discriminatórias. Como primeiro passo, temos a inadmissibilidade de o empregador conferir estatutos jurídicos diferenciados ou simplesmente um tratamento laboral desigual aos vários trabalhadores, sem um motivo justificativo. Mas diremos mais, só serão admissíveis distinções, se existir uma proporcionalidade entre o fundamento e o nível da distinção.
Em suma, o empregador deve colocar à disposição do trabalhador todas as quantias a que este tem direito, em virtude da atividade prestada, estando-lhe especificamente vedada a possibilidade de diminuição da retribuição do trabalhador fora dos casos previsto no CT145 ou em instrumento de regulamentação coletiva de trabalho (artigo 129.º, n.º 1, do CT).
144
Vd. Ac. do STJ de 01/03/1990 (Salviano de Sousa), disponível em www.dgsi.pt.
145
O CT prevê algumas situações em que a diminuição da retribuição é admissível. A título meramente exemplificativo, podemos elencar as seguintes factualidades: colocação do trabalhador em categoria inferior (artigo 119.º); regresso à primitiva atividade, em caso de exercício de outras funções ao abrigo do ius variandi (artigo 120.º); cessação da comissão de serviço com garantia de emprego (artigo 164.º, n.º 1, alínea a)); passagem do trabalhador do regime de trabalho a tempo integral para o regime do trabalho a tempo parcial, envolvendo uma redução proporcional da retribuição (artigo 154.º, n.º 3, alínea a)); sanção disciplinar de suspensão do contrato com perda de retribuição (artigo 328.º, n.º 1, alínea e)). Será admissível a minoração do valor da retribuição por mero acordo inter partes? A doutrina rejeita esta possibilidade. Neste sentido, vd. João Leal Amado, ob. cit., p. 263 e Maria do Rosário Palma Ramalho, ob…cit., II, p. 589. Quanto a nós, achamos que existe uma incoerência de regime entre o disposto no artigo 119.º do CT e o explanado no artigo 129.º, n.º 1, alínea d) do CT. O ponto sensível da matéria prende-se com a necessidade de existir uma declaração livre e esclarecida do trabalhador. Propomos, pois, de iure condendo a criação de um regime idêntico ao da diminuição de categoria, permitindo que a autonomia das partes prevaleça. Assim, para que as partes possam diminuir o valor da retribuição teriam de respeitar três requisitos: 1) existência de um acordo de vontades entre empregador e trabalhador; 2) autorização pelo serviço com competência inspetiva do ministério responsável pela área laboral; 3) necessidade premente da empresa ou do trabalhador para a diminuição.
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