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Recherche du Père : «Au-dessus de la carriole »

Capitulo III 1 Le Premier Homme (SÍNTESE)

III. 2 – "Moi et moi-même" : o mito pessoal

III. 3. Recherche du Père : «Au-dessus de la carriole »

O romance começa com o narrador, cheio de pormenores, em discurso figurado401, a descrever as más condições climatéricas em que quatro viajantes percorrem o caminho até à casa que os acolherá, a salvo, da intempérie. As riquezas pictóricas da descrição

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Jean Sarocchi, Le Dernier Camus ou Le Premier Homme, p. 2.

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Jean Sarrocchi, Le Dernier Camus ou Le premier Homme, p 23.

398

Jean Sarrocchi, Le Dernier Camus ou Le premier Homme, p 23.

399

Intenção manifestada a Jean Grenier, seu Mestre e amigo; cf. Jean Grenier, Camus, Souvenirs, p. 70

400

Jean Sarrocchi, Le Dernier Camus ou Le premier Homme, p. 23.

401

«(...) o discurso figurado, merece uma especial atenção por se consumar, ao nível da mensagem, por meio de uma elaboração retórica (significante) susceptível de ser encarada como resultado da produtivi- dade de um subcódigo específico, que é precisamente o retórico». (Carlos Reis, Técnicas de análise tex-

- 152 - remetem-nos para a visão bíblica: A História das Origens, A Criação do Universo, O Génesis.

No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas.402

É com um sentimento místico e mítico que somos transportados para um verosí- mil, vergados pela força da enunciação. A articulação tensa entre adjectivos, substanti- vos, e verbos imprime uma impressão sonora403e visual, e os fenómenos naturais exte- riores, assim descritos, criam a atmosfera emocional em que todos os significados devem ser apreendidos.

(...) de gros et épais nuages filaient vers l’est dans le crépuscule.

Trois jours auparavant, ils s’étaient gonflés au-dessus de l’Atlantique, avaient attendu le vent d’ouest, puis s’étaient ébranlés, lentement d’abord et de plus en plus vite, avaient survolé les eaux phosphorescentes de l’automne, droit vers le continent, s’étaient effi- lochés aux crêtes marocaines, reformés en troupeaux sur les hauts plateaux d’Algérie, et maintenant, aux approches de la frontière tu- nisienne, essayaient de gagner la mer Tyrrhénienne pour y se perdre.404

A hiperbolização adensa e amplia o sentido do discurso narrativo com um cenário enunciativo que metatextualiza o relato, preparando-nos para o maravilhoso, que é uma forma de sagrado.

Après une course de milliers de kilomètres au-dessus de cette sorte d’île immense, défendue par la mer mouvante au nord et au sud par les flots figés des sables, passant sur ce pays sans nom à peine plus vite que ne l’avaient fait pendant des millénaires les empires et des

402

Gn 1, (1-11). 403

Figura de estilo designada Onomatopeia.

404

peuples, leur élan s’exténuait et certains fondaient déjà en grosses et rares gouttes de pluie qui commençaient de résonner sur la capote de toile au-dessus des quatre voyageurs.405

O som penetra-nos os ouvidos, criando a fusão entre o universo temporal da narra- tiva e o universo por nós percepcionado. O recurso à onmatopeia e à metonimia inse- rem-nos naquele tempo e no mesmo lugar. Passamos a ser "companheiros" expectantes.

Nuvens negras adensam-se e agitam-se por cima da carroça onde vão os ocupan- tes. É a ida para casa, num caminho em terreno de vinhas com cheiro a mosto e a terra húmida, já perto da aldeia. Trajecto que acontece num código de sequência nocturna. Espaço que é descrito ao pormenor, numa cadência ritmada pela tensão entre as forças que jogam o destino daqueles seres, com "aquele tempo" e "naquele lugar". Este espaço, também tempo da narrativa, é o percurso406 de um casal: a mulher, Catherine Cormery, grávida e já em processo de parto; o marido, Henry Cormery; uma criança de quatro anos, o filho, sempre aconchegado à mãe; e um árabe. Deslocam-se na carroça, puxada por cavalos de trote nervosos e incertos, em caminho irregular de terra batida, com pedras que se soltam, batem nas rodas ou dispersam-se ao serem pisadas. A natureza envolvente é mal percebida no lusco-fusco de uma quase noite, ainda mais escurecida pelas nuvens negras, que ameaçam desabar toda a água do oceano, nelas contida. Paira uma atmosfera de sonho que o uso do imperfeito acentua. «Au-dessus de la carriole qui

roulait sur une route caillouteuse, De gros épais nuages filaient vers l’est dans le cré- puscule»407. Esse tempo verbal assume, neste contexto, a função durativa: uma acção que ainda não se realizou plenamente, no tempo a que se reporta. Os tempos verbais multifuncionais do imperfeito e pretérito perfeito jogam entre si. Contudo, o uso do imperfeito é dominante.

As personagens são referenciadas num tom impessoal pelos pronomes pessoais408: "Elle" (avait un visage); pelos artigos definidos "Le" (l’homme), "L"’(l’Arabe); pelos artigos indefinidos "un" (un petit garçon), (un Français), "une" (...); pelos substantivos comuns "homme", "femme", "arabe", "Français", "enfant", gente sem nome próprio.

405

Albert Camus, Le Premier Homme, p. 13.

406

Itálico nosso.

407

Albert Camus, Le Premier Homme, p. 13.

408

«(…) os pronomes pessoais não indicam uma personagem empírica ou um leitor empírico; são meras estratégias textuais, que se dispõem sob a forma de apelo, como num princípio de diálogo». Umberto Eco,

- 154 -

L’Arabe qui conduisait, (...). L’homme qui se trouvait sur la ban- quette (...), un Français d’une trentaine d’années, regardait, le vi- sage fermé, les deux (…) De bonne taille, trapu, le visage long, avec un front haut et carré, la mâchoire énergique, les yeux clairs, (…) une femme, habillé pauvrement, (…) Un petit garçon de quatre ans dormait contre elle. Elle avait un visage doux et régulier, les che- veux de l’Espagnole bien ondés et noirs, un petit nez droit, un beau et chaud regard marron. (…) Mais quelque chose frappait. (…) un air d’absence et de douce distraction, comme en portent perpétuel- lement certains innocents, (…) À la bonté si frappante du regard se mêlait (…) une lueur de crainte irraisonnée aussitôt éteinte.409

A descrição fisionómica de “Elle” assemelha-se à referência que Camus faz da mãe em frases soltas nos Carnets, como já referimos, e no Prefácio de L’Envers

et l’Endroit, numa pluralidade de sentidos, pela metonimia: «une mère silencieuse»410. É assim que, em textos e romances anteriores, o autor retrata a figura "mãe". Por exemplo, "Entre oui et non" de L’Envers et l’Endroit, a figura da mãe assume este contorno :

La mère de l’enfant restait aussi silencieuse. En certaines circons- tances, on lui posait une question : "à quoi tu penses ?" "À rien", ré- pondit- elle. Et c’est bien vrai. Tout est là donc, sa vie, ses intérêts, ses enfants se bornent à être là, d’une présence trop naturelle pour être sentie. (…) Elle se tasse alors sur une chaise et les yeux vagues, se perd dans la poursuite éperdue (…). 411

O tema da mãe é recorrente. Em quase todas as suas obras ou romanescas: La

Mort heureuse, l’Etranger; ou de género dramático Le Malentendu ou sob forma con-

fessional Carnets. A representação da mulher (mãe ou irmã) sofre o mesmo tratamento. A palavra-chave é "silêncio", nas diferentes funções gramaticais como substantivo, como adjectivo ou advérbio.

409

Albert Camus, Le Premier Homme, pp. 14 -15. (Sublinhado nosso).

410

Albert Camus, Préface de L’Envers et l’Endroit, p. 10.

411

Na primeira parte, «Au-dessus de la carriole...», o narrador descreve o nascimen- to de uma criança através de expressões de um discurso (a que a linguística chama dis- curso) modalizante, isto é: «les moyens par lesquels un locuteur manifeste la manière

dont il envisage son propre énoncé».412 Jacques nasceu num casebre, assistido por ára- bes, iluminado por um candeeiro de petróleo, numa noite lavada pela chuva, num bap- tismo celestial: «(…) l’eau venue de milliers de kilomètres tombait sans disconti-

nuer(…)».413

Camus utiliza uma metáfora414 estabelecendo, um paralelismo entre o seu (Jac- ques Cormery) nascimento415 e o nascimento do Menino Jesus. Esta transferência de significado é a figura estilística mais poética com que Camus se anuncia: "l’enfant".416

(…) pendant qu’un faible cri (…). Tard dans la nuit, Cormery éten- du (…) près de sa femme, regardait les flammes danser au plafond. De l’autre côté de sa femme, dans une corbeille à linge, l’enfant re- posait sans bruit, sauf, parfois de faibles gargouillis. (…). La pluie s’était arrêtée.417

Nascera Jacques Cormery/Camus. Como sonho ou como mito, o autor ilustrou a

sua vinda ao mundo.418 A pouca luz envolvente é como um manto de névoa que envolve o acontecimento num manto etéreo, singular e misterioso «sem distinguirmos claramen-

te os contornos das coisas. Mas não por se não distinguirem as coisas, pelo contrário, as descrições de paisagens e pessoas (…) são nítidas e precisas»,419 porque nos entro-

412

Carlos Reis, Técnicas de análise textual, p. 364.

413

Albert Camus, Le premier Homme, p. 27.

414

Cf. Sofia Minguens, A Filosofia da Linguagem, Uma Introdução, pp. 201 a 239.

415

«L’expérience prouve que telles impressions visionnaires – qu’elles se produisent en rêve ou en état de veille – sont liées à la condition d’une dissociation préalable entre l’état présent et celui passé. (…) C’est l’occasion la plus propice pour une confrontation violente avec la vérté initiale». (Carl Gustav Jung, Charles Kerényi, Inrtoduction à l’Essence de la Mythologie, p. 135).

416

Para explicar o sentido de "l’enfant", Carl G. Jung, Charles Kerényi dão uma leitura psicanalítica que se ajusta ao nosso tema: «Le thème de le l’enfant est représentatif de l’aspect infantile préconscient de l’âme collective". Il n’est peut-être pas superflu d’observer qu’un préjugé profane porte toujours à unir en un le thème de l’enfant et l’expérience concrète de l’enfant, comme si l’enfant réel était la cause première de l’existence de l’enfant ce du thème de l’enfant. Dans la réalité psychologique, l’image empirique enfant n’est qu’un mode d’expression (et même pas le seul !) pour rendre un état psychique donné, difficilement saisissable. C’est pourquoi aussi dans la représentation mythologique de l’enfant n’est textuellement pas une copie de l’enfant empirique, mais un symbole clairement reconnaissable comme tel : il s’agit d’un enfant divin, miraculeux (…)». (Carl Gustav Jung, Charles Kerényi, Inrtoduction à l’Essence de la My-

thologie, p. 134).

417

Albert Camus, Le Premier Homme, p. 28.

418

Itálico nosso.

419

- 156 - samos na estratégia narrativa e somos transportados ao mundo dos nossos sonhos e dos nossos arquétipos, também, alguns deles " déjà vu", em linguagem psicanalítica.

Citamos Jacqueline Lévi-Valensi com um testemunho interessante, que será abor- dado, em contraponto, no decorrer da nossa análise:

(...), ce roman est nourri de toute son expérience, vécue ou rêvée, il semble que Camus libère un flot de scènes, d’images, de souvenirs, de sentiments qui ne pouvaient être canalisés.420

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