3. Capítulo III: Análise das Redes Sociais do Kilombo Tenondé
3.1. Reciprocidade como elemento de medida do Capital Social
Antes de iniciar o processo de Análise das Redes Sociais do Kilombo Tenondé, é necessário definir o que será entendido por reciprocidade neste trabalho, pois seguindo os posicionamentos de Putnam, este será o elemento do Capital Social que será utilizado para a mensuração dentro das Redes Sociais estabelecidas a partir das relações de aprendizado recíprocas que foram detectadas durante os eventos Permangola e Permangolinha 2013. Desta forma, para a definição do conceito de reciprocidade será utilizado o pensamento de alguns autores ligados aos campos do conhecimento da Antropologia e da Sociologia como, por exemplo, Marcel Mauss, Lévi-Strauss e Dominique Temple. A importância central de Robert Putnam deve-se ao fato de que a leitura de seu livro “Bowling Alone” trouxe melhor compreensão da reciprocidade enquanto componente do capital social, sendo que para este autor a ativação do capital social se dá por meio das relações de indivíduos de uma dada comunidade.
Nas discussões teóricas pioneiras relativas à reciprocidade, a dádiva mostra-se como tendo um papel importante em sua origem. Na introdução à obra de Marcel Mauss “Sociologia e Antropologia” Lévi Strauss (1950), ao discutir as questões levantadas por este autor, afirma que a dádiva, diferentemente da troca, cria uma tríplice obrigação de "dar, receber e retribuir" sendo o tempo um fator importante que gera o vínculo entre as partes. Para explicar o que fora observado é utilizada a ideia de um elemento externo que realizaria a união entre as pessoas que realizam a dádiva. Este elemento seria o Mana67. Claude Lévi- Strauss, ao analisar a obra de Mauss e suas assertivas acerca das trocas do tipo dádiva, extrai o que fora nomeado “Princípio da Reciprocidade”. Nas palavras deste autor: “As conclusões de Mauss e Malinowski incitaria a considerar os próprios indígenas melanésios como os verdadeiros autores da teoria moderna da reciprocidade” (Lévi-Strauss, 1950, p. 30).
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Mana: Segundo Mauss, a palavra mana é comum a todas as línguas melanésias e à maior parte das línguas polinésias. O mana não é simplesmente uma força, um ser, é também uma ação, uma qualidade e um estado. A palavra é ao mesmo tempo um substantivo, um adjetivo e um verbo. A palavra compreende uma quantidade de ideias que remetem ao poder de feiticeiro, qualidade mágica de uma coisa, coisa mágica, ser mágico, ter poder mágico, estar encantado, agir magicamente (Mauss, 1950).
121 A coletividade e o tempo são elementos importantes neste processo. Em relação ao primeiro elemento, este processo ocorre com as coletividades sendo as responsáveis pela manutenção das obrigações da reciprocidade da prestação das dádivas, mediante os grupos familiares, comunitários ou mediantes seus chefes. Quanto ao segundo elemento, as dádivas são trocadas de tal forma que as partes têm plena consciência de que a relação entre ambas não se esgota em um único momento. Ambas participam de contextos comuns que proporcionam repetidos encontros e o estabelecimento de novos relacionamentos. O tempo é o elemento que permite a constituição de vínculos entre as pessoas ou grupos envolvidos com o processo da dádiva. Portanto mesmo que de forma não explícita, há certa compreensão de que o retorno da dádiva oferecida ocorrerá.
Com a realização do ato da dádiva existe a intenção de se obter prestígio. Assim, alguém que possui algo ao oferecê-lo em dádiva para quem não possui, busca reconhecimento em seu grupo criando um vínculo entre as partes. O que pode ser objeto da dádiva é a hospitalidade, alimentos, víveres ou proteção (Mauss, 1950).
A teoria da reciprocidade entende que a reciprocidade atua como um mecanismo de manutenção da estabilidade de grupos e comunidades (Gouldner, 1960). Trata-se, para este autor, de uma norma moral, generalizada e universal, essencial à manutenção de estruturas sociais e de sistemas sociais estáveis. Este autor defende a hipótese de que a reciprocidade seria um dos principais componentes universais dos códigos morais. Outros autores seguem esta mesma linha de pensamento, como por exemplo, Richard Thurnwald apud Gouldner (1960) ao concordar com a importância central do princípio da reciprocidade nas relações sociais.
Dentro da teoria da reciprocidade existem quatro elementos constituintes, quais sejam:
1. O princípio de reciprocidade não se limita a uma relação de dádiva/contra-dádiva entre pares ou grupos sociais simétricos. Do ponto de vista econômico, a reciprocidade constitui não somente uma categoria econômica diferente da troca mercantil, mas um princípio econômico oposto ao da troca ou mesmo antagônica a troca.
2. A reciprocidade pode assumir várias formas: Simétrica, assimétrica, positiva ou negativa;
3. As relações de reciprocidade podem ser analisadas em termos de estruturas: A relação de reciprocidade em uma estrutura bilateral simétrica gera um sentimento de amizade; a estrutura de divisão simétrica dos bens dentro de um grupos gera a
122 justiça. Assim, outros tipos de relação, em outras estruturas, podem produzir outros valores específicos.
4. Existem três planos ou níveis de reciprocidade: O real, o simbólico (a linguagem) e o imaginário (as representações).
Para explicar a interpretação da reciprocidade enquanto uma maquinaria social que garante a efetividade das normas sociais, Gouldner (1960, p. 169), a partir das etnografias realizadas por Malinowski, apresenta a tese de que as pessoas devem obrigações umas as outras e que, desta forma, a conformidade às normas sociais é algo que as pessoas devem umas às outras. Este autor interpreta a reciprocidade de forma que ela vá para além da prestação de favores ou trocas de bens materiais entre indivíduos. A reciprocidade implica uma “dependência mútua e realiza-se em arranjos equivalentes de serviços recíprocos”. Para este autor, a reciprocidade conota que cada parte em uma dada relação tem direitos e deveres (Gouldner, 1960).
A reciprocidade funciona por meio de indivíduos que interpretam uma norma e decidem tomar a atitude que de alguma forma acreditam poder ajudá-los a atingir seus objetivos. Desta forma Gouldner apresenta algumas possibilidades de crenças que levam os indivíduos a adotarem comportamentos recíprocos entre si. Assim para este autor as pessoas acreditam que:
Quadro 9 Motivações para a ação recíproca. Tabela elaborada a partir de (Gouldner, 1960) Em longo prazo as
trocas mútuas de bens e serviços serão
balanceadas; ou
Pode-se esperar que aquelas pessoas que elas
ajudaram as ajudarão no futuro. Se as pessoas não ajudarem aqueles que as ajudaram, logo certamente penalidades serão impostas a elas; ou
123 A forma de pensar exposta acima pode ser operacionalizada pelos indivíduos de maneira que estes passam a inserir em seus planos e estratégias possíveis resultados advindos da reciprocidade em suas relações. Desta forma, as pessoas irão ajudar aquelas pessoas que as ajudaram. Similarmente, a norma da reciprocidade sustenta que as pessoas devem ajudar aquelas que as ajudaram assim, desta forma, aquelas pessoas que você ajudou tem uma obrigação de ajudá-lo. A conclusão é clara: Se você quer ser ajudado por outras pessoas você deve ajudar as pessoas, de forma que a norma da reciprocidade torna- se um mecanismo concreto e especial que envolve a manutenção de um sistema social estável (Gouldner, 1960).
Porém para uma compreensão mais aprofundada da reciprocidade, é importante destacar que não existem apenas relações recíprocas positivas que geram confiança e fortalecimento das comunidades. De fato, apesar de os esforços das comunidades e da maioria dos indivíduos dirigirem-se no sentido da criação de relações de trocas recíprocas positivas. De modo que Temple (2012) apresenta três formas de reciprocidade: Positiva, negativa e simétrica.
A reciprocidade simétrica, embora complexa, é mais simples de ser entendida por possuir elementos de apreensão intuitiva. Este tipo de reciprocidade pode ser entendida como uma relação de troca pontual na qual as partes interagem, gerando valores afetivos e éticos. Gera sentimentos de amizade e justiça. Este tipo de reciprocidade não preexiste nas comunidades sendo necessários constantes esforços para a sua constituição e manutenção. É difícil de ser estabelecida por demandar ações de mesmo simbólico ou material semelhantes. Como explicação para o surgimento das outras duas formas de reciprocidade, Temple informa que é o desequilíbrio nas ações recíprocas pode causar a superioridade de um indivíduo sobre outro, criando formas de reciprocidade negativa. É feita de trocas centradas na defesa do interesse próprio e de forma impessoal. Ao se tornar sistemática, este tipo de relação pode gerar uma dinâmica como a dos ciclos de vingança. Diferentemente da troca, cujo desenvolvimento, para estes autores, associa-se à lógica da concorrência e do acúmulo pelo lucro, a lógica da vingança está ligada a uma dialética da honra (Temple & Chabal, 1995).
A literatura sobre este assunto é consensual ao afirmar que a reciprocidade negativa é motivada por um desejo de restabelecer o equilíbrio de um grupo, após uma agressão. No campo teórico, alguns autores explicam que cada grupo humano possui uma identidade imaginária que pode ser interpretada como capital-vida, e a própria vida como uma capital
124 espiritual e social que os membros do grupo têm o dever de defender e fazer- com que frutifique. A vingança protegeria este capital (Temple D. , 2012). Desta forma, este autor prossegue afirmando que não é alguma qualidade do agressor ou qualquer outra qualidade intrínseca que leva um indivíduo à vingança, mas sim a necessidade da reciprocidade.
Neste momento é interessante entender as formas que estas ações recíprocas entre indivíduos e grupos podem ser entendidas dentro de contextos socialmente importantes como a educação, pois este elemento é importante quando se pensa a metodologia de ensino utilizada no evento Permangola. Segundo Paulo Freire em livros como a Pedagogia do Oprimido (Freire, 1970) educar não se constitui apenas numa relação de dádiva assimétrica e unilateral: do educador que sabe para o educando que não sabe. O processo de aprendizagem seria a construção da autonomia, sendo que nasce e se fortalece na interação entre o educando, o educador, o meio, e até com os outros aprendizes. De forma que educar enquanto ação individual seria uma dádiva, porém a educação enquanto fenômeno social seria constituída por um conjunto de ações recíprocas.
Assim, na perspectiva educacional, pensando neste como sendo um processo duradouro que se desenvolve ao longo da vida dos indivíduos e ocorre por meio das relações entre pessoas que se educam umas às outras, a reciprocidade pode ser entendida como sendo o princípio pelo qual a produção do conhecimento ocorre em um espírito de solidariedade, no marco de uma relação entre pessoas tendo consciência de uma comunidade de interesses que leva a uma obrigação moral de apoio mútuo (Castel, 2006).
Desta forma, realizando o último passo para a compreensão do tratamento dado ao conceito de reciprocidade neste trabalho, é preciso demonstrar a ligação existente entre a reciprocidade e o capital social feita por Putnam (2001). Este autor afirma que a ideia central presente no conceito de capital social é o valor associado às redes de relacionamentos e às normas de reciprocidade. É nestas Redes Sociais onde o capital social pode facilmente se desenvolver e onde é possível obter ganhos por meio das relações entre os indivíduos. Porém é importante ter clareza de que este autor lida mais com a questão das virtudes cívicas do que com a busca da realização de objetivos individuais. Seu pensamento é mais do tipo “O que você pode fazer pela sua comunidade” do que do tipo “O que sua comunidade pode fazer por você”. Desta forma, ao lidar com as virtudes cívicas, Putnam afirma que este componente é mais poderoso quando está incorporado dentro de uma rede social densa de relações sociais recíprocas. Para este autor, uma sociedade com muitos indivíduos virtuosos, mas isolados não é necessariamente mais rica em capital social do que uma sociedade com poucos indivíduos virtuosos, mas densamente conectados (Putnam, 1995). Em suas palavras:
125 As redes sociais (pelo menos por definição) envolvem obrigações mútuas; não são apenas meros contatos. As redes sociais de comunidades lidam com a questão do fortalecimento do respeito às normas de reciprocidade: Eu farei isto por você agora, na expectativa de que você (ou talvez outra pessoa) retornará o favor. [...] “Se você não for ao funeral de alguém, ninguém irá ao seu funeral”
Neste caso, a reciprocidade é específica. Porém Putnam defende que uma norma de reciprocidade generalizada seja mais valiosa. “Eu farei isto por você sem a expectativa de receber algo de você, na confiança de que alguém irá fazer algo por mim futuramente.”. Desta forma, este autor defende que a mensuração de normas de reciprocidade generalizadas – altruísmo, voluntariado e filantropia, ou seja, nossa prontidão em ajudar outras pessoas – possa ser uma forma de mensuração do capital social. Porém para este autor, a reciprocidade possui um papel preponderante dentre estes três elementos. Em sua explicação Putnam utiliza o pensamento do filósofo John Dewey que enfatiza a distinção entre “fazer com” e “fazer para”. O Capital Social refere-se à rede de conexões entre indivíduos – fazer com – e não com a utilização do capital financeiro para a realização de ações filantrópicas – fazer para. Assim para este autor, o voluntariado e a filantropia, apesar de serem componentes importantes, não são bons fatores para mensurar o capital social, pois lidam mais com o ‘fazer para’.
Desta forma, a partir desta discussão que identifica a reciprocidade enquanto um importante componente para a mensuração do capital social, sem negar a existência de outros componentes, na seção subsequente, a rede social do Kilombo Tenondé será analisada em relação à reciprocidade nas trocas de conhecimento. A análise será feita a partir dos dados obtidos nos eventos Permangola e Permangolinha 2013. No capítulo II, a partir dos dados coletados na saída de campo, foi possível demonstrar que o Kilombo Tenondé utiliza suas Redes Sociais e seu Capital Social como componentes importantes em sua estratégia de funcionamento. Foi possível demonstrar que o Capital Financeiro não é o componente mais importante na tomada de decisões e nem o fator determinante da participação das pessoas no evento e consequente inserção nesta comunidade intencional internacional. Os resultados demonstram que a estratégia de funcionamento utilizado pelo Kilombo Tenondé vem obtendo sucesso. De modo que neste capítulo, será iniciado o processo de mensuração do Capital Social para determinar a importância deste componente dentro da estratégia de funcionamento do Kilombo Tenondé.