Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Neste momento, ela já era conhecida e reconhecida pelos agentes da instituição pelas suas habilidades com o piano, como noticiou o Jornal do Povo (1953), tendo, inclusive, participado, em 1954, do “I Concerto de Intercâmbio”, promovido pela referida Escola.
Outras estratégias familiares de educação foram lançadas neste momento de seu itinerário social. No Rio de Janeiro, acompanhada de sua mãe Victória Duailibe Cassas, elas moravam no “apartamento que era dos meus avós”53 (CASSAS, 2013). A conversão de capital econômico em capital cultural institucionalizado e objetivado em forma de diploma foi feita pelo seu tio Jorge, conforme mencionado, o que remete à Bourdieu (2007a, p. 46-47) quando diz que o destino social do agente tem origem no sistema de valores implícitos ou explícitos que se deve à posição social que a família ocupa em um espaço social. Acredita-se que o investimento familiar na sua formação como professora de piano pela Escola Nacional de Música foi uma tentativa de reprodução, tanto da “disposição estética” da família Duailibe para a música54 quanto da “condição de classe dominante” desta família, uma vez que “não há nada tão poderoso quanto o gosto musical para classificar os indivíduos”55 (BOURDIEU, 1979, p. 17).
A inserção de Maria José Cassas no espaço da Escola Nacional de Música contribuiu para moldar o seu perfil de professora de música, o que pode justificar algumas disposições externalizadas por este agente quando ocupou, por exemplo, a posição de professora de Educação Artística da Escola Técnica Federal do Maranhão. Com uma rotina de estudos de “7 a 8 horas de piano por dia, fora as outras matérias teóricas” (CASSAS, 2013) e um corpo docente formado por alguns dos mais importantes músicos e compositores brasileiros, como Francisco Mignone (1897- 1986) (regência), Lorenzo Fernandez (1897-1948) (harmonia), José Siqueira (1907-
responsável por formar alguns importantes músicos brasileiros, como Francisco Braga, autor do Hino à Bandeira. Logo após a Proclamação da República, o Decreto nº 143, de 1890, criou o Instituto Nacional de Música que, nas décadas de 1920 e 1930, foi incorporado à Universidade do Rio de Janeiro. O Instituto Nacional de Música formou a pianista ludovicense Lilah Lisboa de Araújo. Em 1937, o Instituto Nacional de Música da Universidade do Rio de Janeiro tornou-se Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, 2013).
53 Sobre isso, Maria José Cassas mencionou que, certa vez, a sua avó Linda Sady Duailibe disse que
somente se desfaria desse apartamento no Rio de Janeiro quando ela terminasse os seus estudos.
54 De acordo com Maria José Cassas (2013), “A família Duailibe é uma família musical por excelência,
mas todo mundo é amador. Profissional, só eu mesma”.
55 Para Bourdieu (1979), os esquemas de apreciação característicos da classe dominante, que são
necessários para usufruir elementos da cultura legítima, institucionalmente aceita como erudita, a exemplo da música tocada em salas de concerto, são internalizados durante o processo de socialização.
1985) (composição), Oscar Borgeth (violino), Iberê Gomes Grosso (violoncelo) e Arnaldo Estrela (1908-1980) (piano), foi possível perceber que o curso de Licenciatura em Piano da Escola Nacional de Música tinha uma característica peculiar: os discentes cursavam apenas disciplinas da linguagem artística Música, conforme mostrado a seguir:
Teoria Musical e Solfejo, Transposição e Acompanhamento ao Piano, Harmonia e Morfologia, Piano, História da Música, Acústica e Biologia aplicadas à Música, Canto Coral, Pedagogia aplicada à Música (ESCOLA TÉCNICA FEDERAL DO MARANHÃO, 1981b).
Durante a realização deste curso, Maria José Cassas consolidou ainda mais o seu prestígio entre os agentes da Escola Nacional de Música e, também, de São Luís, principalmente quando estes agiam de modo a reconhecer as suas habilidades com o piano (BOURDIEU, 2010, p. 134-135). Em dezembro de 1956, ela foi aplaudida em um “Concerto de Piano” realizado no Salão Leopoldo Miguez da Escola Nacional de Música. Neste ano, o jornalista maranhense Zuzú Nahuz publicou um texto no jornal O Combate intitulado “Mais uma estrela que rutila” onde reconhecia e vangloriava a habilidade de Maria José Cassas com as teclas do piano:
Os dêdos mágicos de Zezé Duailibe Cassas revolucionaram as teclas magistrais do piano e as notas harmoniosas e perfeitas comprovaram a cultura artística da mulher timbira que eleva, pouco a pouco, o nome da velha Atenas brasileira no estrelato da música nacional. (...) Disse certa vez, pelas colunas de “O Combate”, que a senhorita Maria José Duailibe Cassas seria, muito breve, uma das retumbantes glórias da cultura artística do Maranhão. E não profetizei porque sabia ser, ela, o condor de azas longas cortando a imensidão azul dos céus em busca do pináculo do triunfo. Vejo-a, hoje, simples e modesta, enchendo de orgulho a gleba que nasceu e coroando de loiros sua mãezinha adorada que sente, na alma envelhecida e no coração boníssimo, tanto júbilo e tanto prazer em contemplar sua querida filhinha subindo os degraus da fama (O COMBATE, 1956, Acervo de Maria José Cassas).
No ano de 1958, Maria José Cassas participou do “Concêrto de canto e piano de Theresinha Schiavo e Maria José Duailibe Cassas” que também aconteceu no Salão Leopoldo Miguez da Escola Nacional de Música. Como aluna da grande pianista Ilára Gomes Grosso, o repertório do concerto teve músicas de Haydn, Schütz, Brahms, Fauré, Chausson, Debussy, Nepomuceno, Batista Siqueira, Arnaldo Rebelo, Villa-Lobos, Bach-Silotti, Beethoven e Chopin.
O quadro apresentado a seguir sintetiza e permite visualizar as posições que este agente ocupou no espaço artístico na década de 1950.
Quadro III - Algumas posições de Maria José Cassas no espaço artístico na década
de 1950
POSIÇÕES NO ESPAÇO ARTÍSTICO NA DÉCADA DE 1950
Segundo lugar no Concurso de Piano promovido pela Sociedade de Cultura Artística do Maranhão (São Luís, 1950)
Recital a dois pianos no Teatro Arthur Azevedo (São Luís, 1951)
Recital Duo Pianístico realizado no Auditório da Associação Brasileira de Imprensa (Rio de Janeiro, 1953)
I Concerto de Intercâmbio promovido pela Escola Nacional de Música (Rio de Janeiro, 1954)
Concerto de Piano na Escola Nacional de Música (Rio de Janeiro, 1956)
Concerto de Canto e Piano na Escola Nacional de Música (Rio de Janeiro, 1958) FONTE: Acervo de Maria José Cassas
Ainda no ano de 1958, a Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil concedeu o diploma de “Professora de Piano” a Maria José Cassas. Na teoria bourdieusiana, este diploma é, na verdade, a objetivação do capital cultural incorporado por Maria José Cassas durante o seu itinerário social. O diploma é uma “certidão de competência
cultural que confere ao seu portador um valor convencional, constante e juridicamente garantido no que diz respeito à cultura (...)” (BOURDIEU, 2007c, p. 78).
A formação em “Professora de Piano” pela Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, as disposições sociais e culturais para o piano e o prestígio
Foto 6 – Colação de grau de Maria José Cassas na Escola