Primeira Fase: Pesquisa Documental
Esta técnica de recolha de dados “consiste na utilização de informação existente em documentos anteriormente elaborados, com o objectivo de obter dados relevantes para responder às questões de investigação. Neste âmbito, o investigador não precisa de recolher a informação original. Limita-se a consultar a informação que foi anteriormente organizada com finalidades específicas, em geral, diferentes dos objectivos da pesquisa.” (Afonso, 2005, p.88)
A pesquisa documental foi realizada com o intuito de construir um historial sobre o órgão de gestão de cada uma das escolas no período de tempo compreendido entre 1993 e 2008. Para tal, considerámos duas vertentes:
a) Caracterização dos processos formais de constituição dos vários Conselhos Directivos/ Executivos, com base nos seguintes indicadores:
• Modo de constituição – eleição ou nomeação • Nº de listas candidatas
• Projectos de candidatura • Resultados dos actos eleitorais
63 b) Caracterização do Perfil Pessoal e Profissional dos membros dos Conselhos Directivos/Executivos com base nos seguintes indicadores:
• Género • Idade
• Situação Profissional • Habilitações Académicas
• Formação Especializada para cargos de gestão • Tempo de Serviço nessa escola
• Tempo de Serviço total
• Experiência em cargos de Gestão (gestão de topo e/ou gestão intermédia)
O conjunto de todos os indicadores acima referenciados permitiram-nos delinear o “corpus” de informação a obter em cada escola, tendo sido elaborada para esse efeito uma “grelha de recolha de dados” para ser preenchida por cada escola (Anexo 2). Para a formação desse corpus de informação foi necessário efectuar pesquisas ao nível dos seguintes documentos oficiais: cadernos eleitorais e listas de candidaturas; actas de eleição dos Conselhos Directivos/ Executivos e registos biográficos de todos os professores que integraram Conselhos Directivos/ Executivos no período de tempo a que reporta esta investigação. A dimensão deste “corpus”, a variedade da documentação existente assim como a dispersão da localização da informação a recolher (verificada em algumas escolas) dificultaram bastante o trabalho de selecção e condensação da informação necessária para o preenchimento da grelha e, consequentemente, atrasaram esta fase do trabalho.
Quer a forma como foi dada (ou negada) a autorização quer o modo de fornecimento dos dados solicitados para a primeira fase da investigação foram variáveis e dependentes de alguns constrangimentos. Das 10 “Escolas Secundárias com 3º Ciclo”, que à partida constituiriam a nossa amostra por razões anteriormente fundamentadas, acabámos por ficar com 7 pela recusa de 3 PCE em aderirem à investigação.
De seguida, passamos então a descrever como ocorreu esta primeira fase de recolha de dados para cada uma das escolas. O nome das escolas surge omitido, tendo-lhes sido atribuída uma letra. A sequência das mesmas foi determinada pela ordem com que cada escola (que acedeu colaborar) foi sendo contactada. Por sua vez, em cada escola o nome
64 de cada professor encontra-se também omitido, tendo-lhe sido atribuída uma designação composta por uma letra (idêntica à atribuída à escola) e por um número.
Escola A – Foi-nos assegurado o acesso total aos documentos necessários, com colaboração de funcionárias dos serviços administrativo, assim como da chefe desses serviços. A pesquisa documental foi realizada durante dois dias inteiros – cerca de 16 horas de trabalho – na secretaria da escola, onde se encontravam arquivados os documentos necessários.
Escola B – O próprio Conselho Executivo decidiu-se responsabilizar-se pela recolha dos dados e preenchimento da grelha no prazo de duas semanas. Tendo esse prazo sido ultrapassado em mais de 4 semanas, por falta de tempo do Conselho Executivo, foi aceite a nossa colaboração para essa tarefa e procedeu-se, durante 2 dias inteiros, à consulta dos registos biográficos. Ficaram ainda por completar os dados referentes aos professores que já não se encontravam na escola, assim como a pesquisa das actas das eleições, tendo ficado incumbida dessa tarefa uma funcionária administrativa. Só cerca de 4 semanas depois é que a recolha ficou concluída nesta escola.
Escola C – Foi-nos negado o acesso directo aos tendo sido entregue essa tarefa aos serviços administrativos. A grelha foi entregue no espaço de 6 semanas, não tendo sido disponibilizados dados referentes aos actos eleitorais com a justificação de esses não estarem localizados e por não haver tempo para tal.
Escola D – A recolha dos dados e preenchimento da grelha foi efectuada por nós, durante 2 dias inteiros na secretaria da escola e com auxílio de uma funcionária administrativa para localização dos registos biográficos.
Escola E – O Conselho Executivo delegou na chefe dos serviços administrativos a recolha de dados e preenchimento da grelha. A recolha de informação foi realizada no espaço de oito semanas e entregue sem estar sistematizada numa tabela cabendo-nos a nós a realização dessa tarefa a partir da informação fornecida.
Escola F – Após uma longa ponderação, cerca de 4 semanas. O Conselho Executivo autorizou a recolha de dados na escola. Inicialmente, um dos seus elementos encarregou-se de realizar essa tarefa, delegando-a posteriormente na chefe dos serviços administrativos. Por fim, coube-nos a nós recolher e sistematizar os dados na grelha, durante um dia, com o apoio da chefe dos serviços administrativos. Todo o processo,
65 entre a entrega da grelha para preenchimento e o efectivo preenchimento da mesma, durou cerca de 16 semanas por motivo de obras na escola e mudanças nas arrumações dos arquivos.
Escola G – Autorização imediata por parte do Conselho Executivo com a condição de ser a escola a fazer o levantamento de dados e num prazo alargado, por motivo de excesso de trabalho justificada com a nova legislação referente à avaliação dos professores. A grelha de dados foi entregue preenchida cerca de 8 semanas depois. Todas as escolas que participaram acabaram por ficar com uma cópia da respectiva grelha, e grande parte dos PCE consideraram-na importante pois ficou sistematizado num único documento a informação mais relevante sobre os Conselhos Directivos/ Executivos dos últimos 15 anos. Por outro lado, o confronto com esses dados serviu de reflexão aos mesmos PCE, nomeadamente aos que se mantêm no cargo há vários mandatos consecutivos, pois permitiu-lhes visualizar, de forma objectiva e directa, as características dos elementos que têm escolhido para integrar as suas equipas, reconhecendo padrões que eles próprios nunca tinham identificado, pela menos de forma consciente.
Tal como já referimos, em 3 das 10 escolas inicialmente previstas não nos foi possível recolher os dados que pretendíamos, pelo que essas escolas ficaram excluídas da investigação:
Escola X e Escola Y – Autorização imediata por parte dos respectivos presidentes, responsabilizando-se os próprios pela recolha dos dados. Cerca de seis e dez semanas depois, respectivamente, escusaram-se, alegando a pressão de trabalho com que as escolas estão sujeitas devido à nova legislação referente à avaliação dos professores. O Presidente da Escola Y alegou ainda não ser possível localizar toda a informação pelo facto de ter havido recentemente mudança de instalações.
Escola Z – Após um longo período de ponderação – cerca de 6 semanas - sobre a autorização ou não para a recolha de dados o Conselho Executivo decidiu levar o assunto ao Conselho Pedagógico assim como pedir a opinião de todos os anteriores Presidentes, alegando que não podia decidir sobre a disponibilização de dados relativos a mandatos anteriores. Dois meses depois foi-nos comunicado não haver disponibilidade da escola em colaborar com a investigação.
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Segunda Fase: Entrevista Semi-Estruturada
“A realização de entrevistas constitui uma das técnicas de recolha de dados mais frequentes na investigação naturalista, e consiste numa interacção verbal entre o entrevistador e o respondente” (Afonso, 2005, p.97).
Podemos distinguir na entrevista três momentos distintos: (Bolívar et al, 2001, cit por Alves).
• Planificação da entrevista: - Decidir quem é o entrevistado.
- Estabelecer a primeira relação e explicar os objectivos do trabalho. - Construção do guião
- Legitimação da entrevista • Realização da entrevista • Interpretação da entrevista
Os dados obtidos a partir da pesquisa documental realizada na primeira fase da investigação foram mobilizados para a construção de guiões de entrevista (Anexo 3) específicos a serem aplicados nesta segunda fase da investigação. Um guião de entrevista pode ser definido como sendo “uma lista de questões a colocar ao sujeito em causa, sobre os seus modos de funcionamento, os seus contextos de acção” (Bertaux, 1997,p.58).
Se bem que os guiões das entrevistas aplicados tenham um esqueleto idêntico em termos de conteúdo – as grandes questões gerais são comuns para todas as escolas – eles foram especificamente adaptados, tendo em atenção o historial de equipas de gestão de cada escola, nos quais se verificaram alguns padrões e características particulares (indicadores) que importava explorar de modo a averiguar a sua importância no processo de constituição da última equipa.
O tipo de entrevista pelo qual optámos inclui-se no grupo das “entrevistas semi- estruturadas” pois embora tenha sido elaborado para cada um guião temático com perguntas chave, gerais e específicas, houve o cuidado de se manifestar sempre uma certa flexibilidade tanto em torno das questões a colocar como na fluidez do discurso do entrevistado, sem se perderem de vista os objectivos inicialmente estabelecidos. Não nos deixámos prender em nenhuma sequencialidade rígida, colocámos novas questões
67 que se nos surgiram no momento a partir do discurso dos entrevistados, assim como eliminámos outras que se revelaram, naquele momento, não serem relevantes.
Respeitando os eixos de análise que definimos para a investigação, usámos então uma entrevista semi-estruturada, cujo esqueleto geral, posteriormente adaptado a cada escola, é o que passamos a descrever.
Foram traçados para as entrevistas os seguintes objectivos:
• Identificar os factores que mobilizam um grupo de professores para a constituição de uma lista candidata ao Conselho. Executivo.
• Conhecer o processo de formação de uma lista candidata candidato ao Conselho Executivo – que racionalidades?
• Identificar no contexto especifico da organização escolar factores facilitadores e/ou constrangedores para a formação de uma lista candidata ao Conselho. Executivo.
Cada entrevista estruturou-se segundo três blocos temáticos.
• Bloco 0 - Legitimação da Entrevista e motivação do entrevistado
• Bloco I – Factores de Grupo - Compreender o processo de formação do grupo: - Como é que se formou o grupo?
- Bloco II – Factores de Contexto Organizacional - Conhecer o contexto específico da organização escolar na qual se formou a lista.
Como é que se caracterizava o “clima de escola” na altura em que decidem formar uma lista?
Apresentam-se em anexo os guiões de entrevistas aplicados, nos quais podem ser consultadas as questões específicas adaptadas à situação particular de cada escola (Anexo 3)
Aquando a recolha dos dados na primeira fase da investigação, os PCE foram informados de que seriam novamente contactados para a marcação da entrevista. Essa marcação foi feita via telefone ou via e-mail, tendo decorrido um período de tempo bastante variável entre esse contacto e a realização da entrevista. Na escola G, não foi possível obter a entrevista por parte da PCE, por terem surgido imprevistos em duas das datas para que estavam combinadas as entrevistas. Essa foi feita então a uma das Vice-
68 Presidentes (VPCE) indicada pela própria Presidente, e a quem reconheceu legitimidade para prestar declarações, na medida em que essa docente tinha o mesmo número de anos de Conselho Executivo do que ela, tendo sempre integrado as mesmas equipas.
Todas as entrevistas foram realizadas num gabinete de trabalho do Conselho Executivo, em ambiente calmo, sem a presença de outras pessoas e sem interrupções. Tiveram uma duração média de duas horas e foram todas, com autorização dos entrevistados, devidamente registadas em fita magnética para posterior transcrição. Antes do início da entrevista relembrámos aos entrevistados os objectivos e a problemática inerente à investigação, assim como objectivos específicos da entrevista garantindo o anonimato e confidencialidade dos dados. Em vista à qualidade do produto final, considerámos importante criar um clima empatia e de confiança, criando condições para os entrevistados sentirem-se estimulados a colaborar da melhor maneira possível, respondendo de forma rigorosa e detalhada às nossas questões e sem receios de qualquer tipo de juízos de valor da nossa parte. Efectivamente:
“… a entrevista deve obedecer alguns princípios éticos, que devem ser esclarecidos/ negociados no seu início: proteger e preservar a privacidade, direitos e interesses do narrador […]. O anonimato e os seus direitos sobre a gravação devem fazer, igualmente, parte do dito acordo. […] A função do entrevistador é realizar esta experiência e em nenhum caso avaliara ou julgar” (Bolívar et al, 2001, p.63).
A transcrição das entrevistas revelou-se uma tarefa morosa. Foram todas integralmente transcritas e, assim que concluída essa tarefa, enviadas por correio electrónico aos entrevistados para verificação. Não tendo sido feita nenhuma rectificação, procedeu-se então ao tratamento dos dados obtidos.