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RECOMPOSIÇÃO DA INTRIGA OU DO ACONTECIMENTO

Esta história começa em outubro de 2006, mas foi arquitetada antes disso, por um cineasta que aprecia literatura e jornalismo e dizia não encontrar no Brasil nenhum veículo de comunicação com tudo o que gosta de ler. Ele queria histórias em quadrinhos, mas também reportagens e textos de ficção. Almejava reunir jornalistas, ensaístas, contistas, fotógrafos e todos os que sabem contar uma boa história, seja de forma visual ou escrita.

Então João Moreira Salles, com a ajuda de alguns amigos, criou a própria revista: a piauí. Aliou um grupo tão plural quanto à miscelânea pretendida nos temas. Alguns começando a vida profissional e outros com a experiência de veículos de comunicação muito diferentes desta proposta. Hoje, mensalmente, aspira satisfazer seus anseios e os da equipe, acreditando agradar também mais pessoas.

Ao lermos as narrativas assinadas por Salles, especulamos se sua experiência como cineasta e o gosto pela literatura moldam a maneira peculiar de compreender as características da mídia. Isto também ocorre em textos assinados por outros repórteres e colaboradores, suscitando a necessidade de análise para desenhar respostas, pois os textos vão além de uma concepção pessoal, evidente, e alcançam a produção de sentidos através da construção de realidades distintas, aí sim chegando a uma percepção coletiva.

Neste aspecto, quando estruturou a piauí, Salles ambicionava mexer com o arcabouço do próprio acontecimento jornalístico. Isto não significa criar os fatos, mas registrar aqueles que fogem do convencional para o formato revista e cumprir o que parece vocação para o meio: atualizar e ampliar o relato já feito por outros, como a TV ou a internet, além de trazer novas abordagens.

Esta etapa da análise busca conectar as partes e identificar a serialidade temática e o encadeamento narrativo cronológico para compreender o tema como síntese. Como já enunciado na Introdução, por se tratar do mesmo veículo de comunicação e reportagens de assuntos diversos, a abordagem se deu sobre a estrutura do acontecimento formulada pela revista ao longo das narrativas. Afinidades e recorrências nas circunstâncias, personagens, cenários,

situações e encaixes, além de já inicialmente revelar aspectos interessantes das estratégias narrativas e dos efeitos de sentido aparentemente pretendidos. Esta forma de tecer a realidade orienta a análise vindoura.

Aqui, a teia sugerida é composta essencialmente pela análise do acontecimento nas reportagens, considerando também as imagens. Este gênero é o mais nobre para Vilas Boas (1996) e ocupa um lugar privilegiado no jornalismo conforme Sodré e Ferrari (1986). Para eles, como para Lage (2002), trata-se de um texto mais contextualizado e completo do que a notícia.

Entre outras características, a diferença está no caráter factual. “Embora a reportagem não prescinda de atualidade, esta não terá o mesmo caráter imediato que determina a notícia, na medida em que a função do texto é diversa: a reportagem oferece o detalhamento e contextualização àquilo que já foi anunciado” (SODRÉ E FERRARI, 1986, p. 18). Por sua vez, a estrutura da reportagem é composta pela narrativa que, para os mesmos autores, é todo e qualquer discurso capaz de evocar um mundo concebido como real, material e espiritual, situado em um espaço determinado. Além disso, propõe a aceitação do mundo suscetível de evocar um espaço humano real – verídico. Assim:

[...] a narrativa não é um privilégio da arte ficcional. Quando o jornal diário noticia um fato qualquer, como um atropelamento, já traz aí, em germe, uma narrativa. O desdobramento das clássicas perguntas a que a notícia pretende responder (quem, o quê, como, quando, onde, por quê) constituirá de pleno direito uma narrativa, não mais regida pelo imaginário, como na literatura de ficção, mas pelo dia-a-dia, pelos pontos rítmicos do cotidiano que, discursivamente trabalhados, tornam-se reportagens. (SODRÉ e FERRARI, 1986, p. 11). Segundo Olinto: “Num plano mais alto, notícia, mensagem, reportagem, é tudo o que, insuflando-se nas palavras, busca uma comunicação, desde a declaração de amor de um adolescente até a descrição da morte de Christmas feita por Faulkner.” (2008, p. 15).

Essas argumentações são elucidadas pela reportagem da piauí “De elefante à formiga”, da edição 2, de novembro de 2006, em que a jornalista Consuelo Dieguez relata a trajetória de Luiz César Fernandes. Em 2002, o personagem montou um banco e alguns meses depois

fechou as portas do empreendimento bilionário. O fato, já repercutido socialmente, é atualizado e o relato é ampliado, com a perspectiva do presente, ou seja, como vive o ex-banqueiro anos depois de o fato principal ter ocorrido.

Em piauí esse aprofundamento é preponderante nas reportagens, ancorado por facilidades no processo e pelo espaço destinado a cada narrativa. Bulhões (2007) constrói argumentações na mesma direção:

Ultrapassando o simples anunciar do acontecimento, a reportagem dedica-se a detalhar os fatos, situando-os no entorno de suas motivações e implicações. Possui variantes de formato, ora mais descritivos, narrativos, expositivos, dissertativos; e constrói-se com a apuração laboriosa das informações, por meio de entrevistas e da consulta a diferentes versões. (BULHÕES, 2007, p. 45).

Como versa o autor, a Guerra de Secessão ou Guerra Civil dos Estados Unidos mobilizou correspondentes no local do acontecimento e isso impulsionou a necessidade da presença do repórter:

A irrupção da reportagem na história do jornalismo, ocorrida no século XIX, se faz com a evidência a um aspecto que a acompanharia desde então, tornando-se um traço essencial do gênero: a necessidade do jornalista – o repórter – no palco das ações dos acontecimentos, trazendo a voz de quem convive estreitamente com os fatos. (Ibidem).

Um dos autores brasileiros cujo registro dos acontecimentos foi feito a partir do palco das ações é Euclides da Cunha, correspondente de

O Estado de São Paulo na Batalha de Canudos, em 1897.

Posteriormente, parte das narrativas, escritas de forma descritiva, expositiva e através de uma apuração acurada, serviu de base ao seu consagrado livro “Os Sertões”.

Avançando nos conceitos e adaptando-os a esta metodologia, Motta9 defende a compreensão dos acontecimentos jornalísticos como

9

Disponível em

http://sbpjor.kamotini.kinghost.net/sbpjor/admjor/arquivos/coord4_luiz_gonzaga_motta.pdf. Acesso em 14 de maio de 2011.

narrativas do presente. Seria também essa uma noção para o jornalismo, entendido como uma narrativa que tece a atualidade. Medina (2003) utiliza a expressão “narrativas da contemporaneidade”. Além disso, é também um esforço de organizar o “caos”. Este, por sua vez, acontece pela quantidade de informações e situações dispersas, as quais o jornalismo assumiu a função de arranjar.

Quando Olinto (2008) notou a notícia, mensagem, reportagem como tudo o que busca uma comunicação, incluiu todo homem, sempre com notícias a transmitir, seja de seus amigos, lugares ou de si mesmo. Porém, ao mesmo tempo atribui um diferencial e uma função especial ao jornalista ou, como delibera, artista:

O importante, para o artista, é colocar na aparente gratuidade dessas notícias, um sentido capaz de permanência, uma mensagem que consiga atingir o ponto em que todos os homens se unem, a essência humana das pessoas, onde o tempo não tem presença. E o importante, para o jornalista, é realizar essa tarefa para um dia determinado e, muitas vezes, para um espaço previsto, sem deixar que a pressão, a que se submete, o leve ao caminho da facilidade de estilo, que corresponde, geralmente, a uma leviandade de sentido. (OLINTO, 2008, p. 16).

Para ele, trata-se de uma contínua luta pela fixação de realidades, uma tentativa de captar, nos acontecimentos cotidianos, algumas verdades particulares e permanentes da vida do homem. No mesmo sentido, Paul Ricoeur pondera as narrativas como um meio de reconfigurar a nossa confusa e difusa experiência temporal: “o tempo torna-se humano na medida em que está articulado de modo narrativo; em compensação, a narrativa é significativa na medida em que esboça os traços da experiência temporal”. (1994, p. 15).

Para o autor, como também arguiu Motta (2007), a força narrativa dos enunciados noticiosos não está nas qualidades narrativas intrínsecas ao texto (estruturas) das notícias e reportagens, nem nos estilos ou gêneros jornalísticos (descrição x narração etc.), mas principalmente na compreensão da comunicação jornalística como uma forma contemporânea de lidar com o tempo, domar o presente, mediar a relação entre um mundo temporal e ético e um mundo refigurado pelo ato de leitura. Portanto, de ordenar compreensivelmente o desenvolvimento caótico do contemporâneo.

Ao mesmo tempo, Motta concorda com Ricoeur e apóia-se na antropologia cultural para argumentar que compreender uma história é entender, ao mesmo tempo, a linguagem do “fazer” e a tradição cultural, da qual procede a tipologia das intrigas. Assim, para analisar as tramas elaboradas pela revista, precisamos conhecer o contexto da sua criação e ter o máximo de informações sobre a construção das narrativas.

2.2 O INTRIGANTE SURGIMENTO DE UM PARAFUSO A MAIS: