4 ANÁLISE DOS DADOS
4.3 RECONHECENDO E DRIBLANDO O PERÍODO DO CLIMATÉRIO
A maioria das entrevistadas refere que passa pelo estado de climatério de maneira desconfortável, como pode ser ilustrado em algumas entrevistas. Vale lembrar, que nem todos os sintomas identificados nas falas das mulheres podem encontrar relação direta com o período do climatério, no entanto caracterizam de modo singular algumas dificuldades dessas mulheres passarem pelo período do climatério durante o encarceramento.
Duas entrevistas chamaram a atenção. A entrevistada E3 referiu “sentir muito calor” e por isso procurava sempre “estar perto do ventilador e se refrescar no chuveiro”. Além disso, essa mesma mulher relatava queda de cabelo, dificuldade para crescimento das unhas, dores na coluna, dor de cabeça, dependência de medicamentos para dormir e hipertensão. Já a entrevistada E4 referia ser hipertensa, sentir cansaço, dores de cabeça e esquecimento.
Segundo a autora Pitombeira et al., (2011) os sinais e sintomas revelados pelo climatério inclui fogachos, insônia, irritabilidade, depressão, sudorese, palpitação, cefaleia, esquecimento, problemas urinários, estresse, além de transtornos como: desajuste conjugais, problemas familiares; e alterações na sexualidades entre outros.
Ainda dialogando com os dados apresentados na categoria temática anterior, sobretudo do Quadro 4, a entrevistada E7 disse ter perdido a visão devido a diabetes e com isso tinha baixa autoestima. A entrevistada E1 relatou aumento cefaleia e presença de insônia. E a entrevistada E6 referiu “sentir dores nas costas e dor de cabeça”.
E continua referindo a autora (PITOMBEIRA et al., p.521 2011) a presença de fogachos e sudoreses noturnas geram insônia, irritabilidade e fadiga no dia posterior. A insônia pode estar atribuída às ondas de calor mais também aos sintomas psicológicos, o que refletiria na associação da depressão. Nas mulheres privadas de liberdade a prevalência de sintomas no climatério foi: insônia, dores de cabeça e no corpo.
E mesmo se tratando de condições específicas relacionadas ao confinamento, pode-se observar que algumas mulheres, de modo contraditório, referiram passar por esse período convivendo bem com a sintomatologia e/ou os problemas de saúde, naturalizando questões relacionadas ao climatério que ocorrem durante o encarceramento.
A entrevistada E1 referiu que “convive bem com esses sintomas...”. A entrevistada E7 disse “ter sentido alívio ao parar de menstruar...” E a entrevistada E5 relatou “... administrar bem os sinais e sintomas referidos...”, sendo que o que mais a incomoda é o barulho do ambiente prisional deixando-a com medo e isolando-a.
No momento da pesquisa as mulheres estavam, por motivos não relatados, impedidas do banho de sol. É possível identificar nas falas de E2 e E3 uma relação direta entre a oportunidade do banho de sol e a sensação de bem estar, no caso, uma forma de driblar os efeitos do climatério. A oportunidade do banho de sol é importante para a mulher nessa fase, pois os raios ultravioletas são excelentes carreadores da vitamina D, tornando-se para a mulher momento aliado na absorção, contribuindo assim, para a diminuição da perda de massa óssea e com isso, promover o retardo das comorbidades ósseas, como osteopenia, osteoporose, dificultando as fraturas ósseas. Fernando, Bacarate e Lima (2004) referem que na pós menopausa a atividade física contribuem decididamente para diminuir a reabsorção óssea.
Foram inúmeras as questões de desconfortos manifestados pelos sinais e sintomas do estado do climatério relatadas pelas mulheres. No entanto, elas não podem resolver tais questões de forma específica e imediata. Assim, uma das maneiras que essas mulheres apontam como forma de enfrentar as situações de dificuldade fazem relação ao apoio “espiritual”.
A frequência das atividades religiosas é comum a todas as mulheres entrevistadas, sendo que E3 refere participação esporádica. Elas referem buscar no culto religioso uma forma de paz interior. Esse processo gera esperança e também pode ser considerado uma oportunidade de esquecer momentos turbulentos que vivenciam no ambiente prisional.
Conforme Moraes e Dalgalarrondo (2006), a religiosidade pode trazer um sentido a vida dos presos de forma que minimize o enfrentamento na vivência em um cárcere.
Outras estratégias para driblar os efeitos do climatério correspondem ao uso da criatividade. As entrevistadas mencionam participar de atividades relacionadas ao estudo e escrita, atividades manuais, canto, lavar roupa, ouvir rádio ou televisão driblando não somente os sintomas do climatério, mas também por um momento para esquecer o fato de estar presa.
Esse movimento, como pode ser vista a partir das falas seguintes, visa preencher o tempo que ficam ociosas e, assim, contribuindo para esquecerem um pouco os males do climatério.
E2: “adoro escrever estou fazendo um livro e assim vou esquecendo” E5: “canto pra espantar os calores”
E7: “escuto rádio e televisão assim esqueço que estou suando”
Ao serem perguntadas a respeito de como driblam os danos causados a saúde mental no confinamento, percebe-se que algumas mulheres referem mudanças de comportamento.
E1: “me tornei mais agressiva aqui”
E2: “acho que mudei meu jeito de pensar, fiquei mais reflexiva “
Conforme a fala da autora a insônia apresenta uma forte relação com as ondas de calor também pontua uma associação com os sintomas psicológicos que se misturam com a depressão (PITOMBERA, 2011 apud PEDRO, 2003). A insônia ou sono irregular é potencializado pelas preocupações externas e dificuldades vivenciadas no cotidiano da prisão ou distanciamento familiar. Algumas entrevistadas relataram os motivos que leva à perda do sono dessas mulheres:
E1: “tô longe de casa, tenho saudades”
E2: “acordo várias vezes durante a madrugada assustada” E3: “durmo a noite toda, tomo remédio”
E4: “minha cabeça pensa nos problemas” E5: “é muito problema, estou envelhecendo”
E6: “me preocupo com minha família isso me atrapalha a dormir” E7: “penso neles (família) todos os dias e o sono não vem”
No que diz respeito ao que as entrevistadas fazem para enfrentar o período do climatério e não adoecer no presídio relatam que ao aparecer os sinais e sintomas do climatério tomam as atitudes como pode ser visto a seguir.
No caso de fogacho, uma das mulheres apela para banhos frios, através dos quais revela ficar mais esperta, animada e relaxada: E1 “vou pro chuveiro e tomo banho frio”.
Outra entrevistada E2 diz que utiliza da política da boa vizinhança referindo que se
“não pode com eles junte-se a eles”; e que o “trabalho em jardinagem ajuda bastante”.
Já a entrevistada E3 busca driblar esses momentos desconfortáveis do climatério na fé e na oração, que é onde ela se sente mais segura e mais encorajada: E3 “não perco um culto,
hoje tem”.
Uma outra entrevistada relatou sentir-se sempre acuada. Com medo ela se retira para um canto e escuta música. A música para ela é um subterfúgio para driblar o climatério: E5
“prefiro ficar no meu cantinho ouvindo música”.
E por último uma delas refere fazer uso de medicamento: E6 “tem remédio tá tudo
qual se busca auto cuidado para minimizar as doenças pré-existentes: E7 “evito alimentos que
aumenta a minha glicemia, pois já sou diabética”.
Outro ponto explorado nas entrevistas diz respeito aos serviços utilizados pelas mulheres em estado de climatério para cuidarem de si mesmas durante o encarceramento. Os serviços pontuados caracterizam atenção a saúde e podem também ser considerados como formas de enfrentar ou driblar o período do climatério.
Percebe-se que neste grupo a maioria busca o serviço de saúde, por doenças pré- existente, e outras comorbidades. Nota-se que elas sentem a necessidade de entender e resolver suas questões de saúde, porém esbarram na dificuldade nesse acesso. As entrevistadas E2, E4, E5, E6 e E7 disseram utilizaram alguns serviços médicos. Notou-se que a maior procura foi direcionada ao profissional da enfermagem, na busca de soluções como:
E1: “precisei fazer teste rápido, nunca fui ao medico, já fui à enfermeira pegar remédio, já fui ao psicólogo, nunca me tratei para esses calores.”
E2: “procurei por dor fui ao medico uma vez, fiz um teste rápido, já fui ao psicólogo, nunca fiz tratamento para diminuir minha vontade de sexo”
E3: “nunca usei, nunca fui ao medico, só vou pegar remédio, queria tratar da minha ansiedade nunca fiz tratamento para isso”
E4: “fui ao médico duas vezes, sinto dores, pego medicamento, nunca fiz tratamento para diminuir minha depressão”
E5: “já fui ao medico, fui fazer teste rápido, já falei com assistente social, nunca me tratei dos meus calores”.
E6: “tenho enfisema pulmonar crônico, já fui ao medico, pego remédio na enfermagem quando tem, nunca fui atendida por outro profissional, queria saber por que tenho tanto suor e nunca fiz tratamento pra isso”
E7: “já fui ao médico, vou a enfermeira buscar meu remédio, nunca fui a outro profissional, sinto muitas dores na mama e isso me deixa triste, nunca me tratei”.
Uma equipe multiprofissional pode e deve incentivar que a saúde seja vista como um recurso para a vida, e não como objetivo de viver. Nesse sentido, os recursos sociais e pessoais podem aumentar o potencial para driblar o que se tem aumentando as capacidades físicas e diminuindo as vulnerabilidades (CZERESNIA, et al., 2013). O enfermeiro ao traçar o plano de cuidados junto à mulher pode enfatizar a participação individual dela na promoção
da saúde focando, principalmente, as condições sanitárias vividas cotidianamente, seus modos de vidas, suas culturas e histórias, de acordo com Freitas (2003).
Estar lá, na prisão, e viver sob condições totalmente adversas e buscar saúde implica na necessidade de acessar possibilidades que lhe apontam melhoria de qualidade de vida. Esse estudo não revelou a deficiência estrogênica com repercussões sobre o sistema ósseo, cardiovascular e urinário como aponta (ROCHA; ROCHA, 2010), mas trouxe a tona inúmeros outros problemas de saúde que se observados precocemente podem prevenir agravos.
5 CONCLUSÃO
O cuidado com a mulher encarcerada, e ainda, as que passam pelo período do climatério deve ser pautado em uma prática individualizada a partir de suas necessidades, respeitando suas especificidades. O profissional enfermeiro é um elemento crucial que ao compreender essas necessidades visa a busca de oportunidades e possibilidades na implementação de ações que favoreçam uma melhor qualidade de vida a essas mulheres nesta fase.
O que se apresentou neste estudo foi oriundo das falas de mulheres encarceradas que demonstraram buscar alternativas que contribuíssem para passarem pelo período do encarceramento com menos sofrimento. Dentre os sinais, sintomas e problemas relacionados à saúde das mulheres que foram identificados nas entrevistas, vale apontar que nem todos encontram-se especificamente ligados ao climatério. No entanto, a partir das inúmeras questões identificadas torna-se possível observar que essas mulheres buscam formas de enfrentarem ou driblarem os desconfortos relacionados ao climatério quando encarceradas.
Essas mulheres encarceradas, ao lidarem com os sintomas e os problemas de saúde no seu dia a dia de confinamento, impõem limites a si mesmas, vencendo barreiras diárias e as imposições institucionais. Ao serem questionadas sobre como vivenciam esse período, pode- se observar que esse grupo feminino reconhece as dificuldades existentes no dia a dia, sobretudo durante o encarceramento.
O enfermeiro ou o profissional de saúde, deve se atentar para a relação existente entre os inúmeros sinais, sintomas e problemas relacionados a saúde das mulheres encarceradas que passam pelo período do climatério, pois ao associar as queixas com a idade conseguem observar a gama de complexidade que envolve o dia a dia dessas mulheres.
O estudo possibilitou identificar questões importantes relativas à saúde da mulher, na esfera física e mental, quando encarceradas. Mesmo não podendo confirmar a existência de relações diretas com o climatério/menopausa, dentre os sinais, sintomas e problemas relacionados à saúde, cefaleia, tristeza profunda, mudança de humor, hipertensão, sobrepeso/obesidade e insônia foram os mais pontuados nas falas das mulheres encarceradas.
A maioria das entrevistadas reconhece o estado de climatério como um período de desconfortos. Algumas mulheres privadas de liberdade sinalizaram o uso de estratégias, como leituras, escritas, músicas e religiosidade, não só para driblarem os desconfortos do período do climatério, mas também para preencherem o tempo ocioso no cárcere.
Mesmo se tratando de condições específicas relacionadas ao confinamento, de modo contraditório, pode-se observar que algumas mulheres, referiram passar por esse período convivendo bem com a sintomatologia e/ou os problemas de saúde, naturalizando questões relacionadas ao climatério que ocorrem durante o encarceramento.
Mesmo assim, entende-se que ações como: acompanhamento terapêutico e emocional através de atendimento multiprofissional, promoção e prevenção de doenças pré-existentes e adquiridas no período de confinamento, realização de exames como citopatológico e mamografia, avaliação do uso de medicações controladas, e o incentivo à atividade física e ao banho de sol, contribuem promover o bem estar físico e mental e melhorar a qualidade de vida dessas mulheres encarceradas que passam pelo período do climatério.
Quanto aos gestores das instituições prisionais, é importante que haja comprometimento com as políticas públicas de saúde tendo em vista que em muitos casos o abandono dessas mulheres caracterizam necessidade de melhor atenção à saúde e respeito à vida.
Valorizar a vivência do climatério a partir do relato das próprias mulheres, suscita a promoção de estratégias que contribuam para o empoderamento e melhoria da qualidade de vida dessas entrevistadas. Deste modo, saber reconhecer essa fase em suas vidas torna-se fundamental. Nesse sentido o enfermeiro como integrante da equipe multiprofissional, capaz de estimular essas mulheres a entender da importância do autocuidado, deve promover ações e estratégias, visando minimizar os efeitos desconfortáveis deste ciclo na vida das mesmas. Assim, o estado do climatério, sobretudo em situações específicas como a prisão, deve ser mais explorado pelas políticas públicas de saúde contribuindo para atender necessidades específicas e melhoria das condições de vida desse grupo vulnerável de mulheres privadas de liberdade, que passam pelo período do climatério num presídio no Estado do Rio de janeiro.