2.1 Legislação
A Covid-19, em razão de sua natureza endêmica, pode-se levar à conclusão de que não poderia sem enquadrada no conceito de doença ocupacional, em face da previsão legal do artigo 20, §° 1, “d”, da Lei n° 8.213/1991, in verbis:
§ 1º Não são consideradas como doença do trabalho:
d) a doença endêmica adquirida por segurado habitante de região em que ela se desenvolva, salvo comprovação de que é resultante de exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho.
Nesse sentido, em 22 de março de 2020, o governo federal editou a Medida Provisória 927/2020, a qual estabeleceu, especificamente em seu artigo 29, a necessidade da comprovação do nexo causal para a caracterização da Covid-19 como doença ocupacional, conforme sua redação abaixo:
Art. 29. Os casos de contaminação pelo coronavírus (covid-19) não serão considerados ocupacionais, exceto mediante comprovação do nexo causal.
Ocorre que, após o Superior Tribunal Federal (STF) manifestar-se por decisões interlocutórias no Julgamento das Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIN’s de nº. 6342, 6344, 6346, 6348, 6349, 6352 e 6354), em razão do
reconhecimento da inconstitucionalidade e a insegurança jurídica causada aos indivíduos, restou decidido pela suspensão da eficácia do Artigo 29 da medida n.º 927.
Após a edição da medida acima, nas atividades laborais executadas que possuem maior risco de contaminação, presume-se que o coronavírus é doença ocupacional, cabendo ao empregador prova em contrário. Nos demais, a doença do trabalho seria caracterizada se estabelecido o nexo causal, ou seja, se comprovada a ligação entre a contaminação e o ambiente de trabalho.
Logo, deve-se analisar a atividade exercida pelo empregado, bem como o seu ambiente de trabalho, de modo analisar se doença adquirida se caracteriza como doença profissional ou doença do trabalho. É importante haver essa distinção, pois a responsabilidade civil do empregador e o ônus da prova dependerá de cada caso.
Em agosto de 2020, com a publicação da Portaria 2.309 pelo Ministério da Saúde, incluiu oficialmente a Covid-19 como doença ocupacional, quase dando por encerrado o debate sobre a Covid-19 ser ou não doença ocupacional. Entretanto, essa normativa perdeu efeito após poucos dias de sua publicação, a partir da divulgação da Portaria 2.345/2020, excluindo a Covid-19 da lista.
Existe, atualmente, um Projeto de Lei 2.406/2020, o qual propõe a caracterização da Covid-19 como doença ocupacional independente da comprovação do nexo causal. Mas, o mencionado projeto, ainda segue em análise pelo Congresso Nacional.
Já a Nota Técnica (NT) SEI nº 56.376/2020 do Ministério da Economia, apesar de não ter força de lei, afirma que a Covid-19 é uma doença comum, e não profissional. Todavia, essa nota possibilita o reconhecimento da Covid-19 como doença ocupacional, equiparando-se a um acidente de trabalho, dependendo de circunstâncias específicas para cada caso, mediante a constatação por perícia médica.
Já a Nota Técnica GT Covid-19 nº 20/2020 do Ministério Público do Trabalho (MPT) trata de medidas de vigilância epidemiológica, ou seja, aborda as medidas necessárias a serem adotadas pelos empregadores para prevenção e controle da doença. Além disso, estabelece que os médicos do trabalho deverão solicitar à empresa a emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), caso seja confirmado o diagnóstico de Covid-19. Isso deve ser feito mesmo em caso de mera suspeita quanto ao nexo causal.
2.2 Formas de contaminação
2.2.1 Contaminação presumida
Cabe mencionar o art. 21-A da citada Lei, o qual trata da presunção quanto ao nexo causal, quando se encontre presente o denominado Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP), sendo o resultado da relação estatística entre a enfermidade e atividade econômica empresarial. Em outras palavras, as elevadas taxas de incidência da doença servirão de parâmetro para constatação do nexo causal ou concausal, estabelecendo a presunção em favor do empregado quanto à origem ocupacional e a consequente inversão do ônus da prova.
Portanto, para as pessoas que atuam diretamente no combate à pandemia, na “linha de frente”, a exposição ao risco torna-se habitual e, nesse sentido, torna a responsabilidade objetiva por parte do empregador, dispensando o empregado da necessidade de comprovação do nexo causal, sendo suficiente demonstrar o trabalho e o local onde era realizado. Dessa forma, aplica-se o previsto no parágrafo único do artigo 927 do Código Civil, de acordo com a tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal, em seu Tema 932, conforme abaixo:
O artigo 927, parágrafo único, do Código Civil é compatível com o artigo 7º, XXVIII, da Constituição Federal, sendo constitucional a responsabilização objetiva do empregador por danos decorrentes de acidentes de trabalho, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida, por sua natureza, apresentar exposição habitual a risco especial, com potencialidade lesiva e implicar ao trabalhador ônus maior do que aos demais membros da coletividade.
Portanto nessa categoria podemos incluir profissionais que atuam diretamente com pacientes portadores do vírus, como por exemplo, médicos, enfermeiros e profissionais da saúde em geral. Bem como, profissionais em que o ambiente de trabalho proporciona risco de contaminação, como motoristas de ambulâncias que transportam os pacientes contaminados, coveiros que sepultam vítimas, trabalhadores da limpeza de estabelecimento de saúde.
2.2.2 Contaminação acidental
Ao analisar a contaminação por Covid-19 no ambiente de trabalho, é importante ressaltar a modalidade prevista no art. 21, III, da Lei de Benefícios da Previdência Social (Lei 8.213/91), o qual prevê a possibilidade de o empregado
adquirir, acidentalmente, infecção ou doença durante a execução de sua atividade laboral.
A partir dessa enfermidade oriunda de uma contaminação ocasional se estabeleceu o conceito de infortúnio do trabalho, o qual representa a situação em que o contágio ou infecção acontece de forma imprevista, casual, fortuita durante a execução de suas tarefas, no local e horário de trabalho, ou em outra circunstância equiparada, como por exemplo, trajeto, durante as refeições, nos intervalos, dentre outros. Hipótese que deve ser relevada, haja vista que infectados assintomáticos continuam transmitindo o vírus sem qualquer interrupção de sua atividade empregatícia. Nesse caso, a responsabilidade do empregador torna-se subjetiva, de modo que é necessário a comprovação do nexo causal entre a contaminação e o ambiente de trabalho.
Esta hipótese de contágio se diferencia da anterior, já que o trabalhador não exerce profissão em que o risco é inerente ou por atuar diretamente no local em que as condições insalubres estão presentes de forma habitual. Nesta situação, ocorro o envolvimento ocasional com os agentes patogênicos. Entretanto, o contágio da Covid-19 apresenta algumas particularidades pois, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 80% dos pacientes podem ser assintomáticos.
2.3 Procedimento
O empregado tenha contraído Covid-19 no ambiente de trabalho, o primeiro passo é o empregado comunicar o ocorrido ao empregador, para que seja emitido da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). Caso o empregador venha a se recusar a emitir o CAT, o próprio empregado, bem como seus dependentes e o sindicato da categoria podem estar fazendo a sua emissão.
Após a emissão do CAT, será necessária que seja feita a perícia médica, etapa em que o perito médico analisará a existência de nexo de casualidade. Ou seja, o trabalhador deve explicar ao médico perito por que considera que pegou Covid-19 no trabalho, como por exemplo, incluir o desrespeito aos protocolos de segurança por parte da empresa (não disponibilizar álcool gel ou EPIs) ou desobediência ao distanciamento social.
Caso seja constatado que o empregado contraiu a doença no ambiente de trabalho, ele deverá permanecer afastado de suas atividades, sendo que até o 15° dia de afastamento caberá a empresa o pagamento do seu salário integral e após esse
período o trabalhador passa a receber o auxílio-acidentário do INSS. Além disso, assim que tiver alta médica, o empregado ganha estabilidade de 12 meses.