2. O ESTUDO DOS DISCURSOS PELAS CONCEPÇÕES
3.2 A CONSTITUIÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA
3.2.1 Reconhecimento do campo de pesquisa e coleta
ocorreu o processo de ensino e aprendizagem de línguas nas escolas de Santa Catarina no século XX, deparamo-nos com a existência de uma escola teuto-brasileira fundada em 1897, na comunidade de Gaspar Alto – município de Gaspar/SC – por imigrantes alemães pertencentes à denominação cristã dos Adventistas do Sétimo Dia. Cheguei ao conhecimento dessa escola por já ter trabalhado no escritório da
mantenedora das Escolas e Colégios Adventistas de Santa Catarina no período de 2003 a 2008, e, portanto, tinha acesso ao registro de todas as unidades de ensino da rede no Estado. Embora essa unidade esteja inativa atualmente, essa escola assumiu um papel de grande importância para a escolarização de imigrantes estrangeiros na região de Brusque, oferecendo aos filhos e descendentes de colonos estrangeiros o ensino elementar e uma educação baseada nos princípios e valores cristãos. Por ser a primeira escola denominacional da Rede Adventista de Ensino, uma rede que hoje conta com mais de 450 unidades de ensino em todo o Brasil – conforme mencionamos anteriormente ao delimitar o tema deste estudo –, optamos então por analisar o processo de ensino e aprendizagem de línguas nessa escola. A partir daí, surgiu a necessidade de se verificar a existência de dados e documentação que pudessem nos auxiliar na realização do estudo e na definição do recorte histórico da pesquisa.
Para isso, marcamos nossa primeira visita exploratória e informal à comunidade, a fim de efetuarmos um reconhecimento da escola, da comunidade e de seus sujeitos. Inicialmente visitamos o museu da escola e da igreja (estabelecida em 1896 pelos mesmos imigrantes fundadores da escola, como veremos no Capítulo 5), onde pudemos registrar através de fotografias alguns materiais antigos utilizados na escola, como as carteiras escolares utilizadas na época, o Tafel – uma lousa pequena usada pelos alunos como caderno para a realização de tarefas de casa – e algumas fotos antigas do primeiro professor da escola e de outros educadores que por ali passaram, deixando sua contribuição para a história daquela unidade escolar. Em seguida, nos dirigimos à unidade escolar, onde se encontravam os documentos e registros antigos da escola, e iniciamos então uma busca intensa por registros que pudessem nos auxiliar na constituição dos dados para a presente pesquisa. Dentre os documentos arquivados na escola foram encontrados: livros de frequência de 1939, 1941 e 1942, livro de matrícula de 1939, livro de registro de 1938 e livro contendo os registro de visitas do inspetor escolar e atas de exames finais de 1939. De acordo com o responsável pelo local e com a secretária da mantenedora da rede de escolas adventistas de Santa Catarina, esses são os documentos mais antigos da escola e não há conhecimento de registros anteriores (desde a sua fundação até 1938). Acreditamos, portanto, que foi somente a partir de 1938, quando houve por parte do Estado um interesse em fiscalizar as escolas de imigração em Santa Catarina que a escola passou a ser legalizada (ou seja, fazer parte dos registros oficiais/governamentais do
Estado de Santa Catarina) e, portanto passou a efetuar os devidos registros de seu funcionamento. Isso se deu porque foi a partir dessa época que o Governo passou a controlar o método e a política de ensino nessas escolas de imigração a fim de promover a assimilação dos imigrantes, conforme destacaremos no Capítulo 4.
Outro local que visitamos a fim de obter documentos referentes à escola, porém sem sucesso, foi o escritório da mantenedora da Rede de Escolas Adventistas em Santa Catarina, localizada no município de São José/SC. De acordo com a secretaria do Departamento de Educação da Instituição, os documentos da Escola Particular Adventista de Gaspar Alto, que passaram a ser arquivados pelo departamento na mantenedora, foram apenas os relatórios finais de datas mais recentes, como 1980, 1990, etc. De anos anteriores, não se tem conhecimento42.
Ainda como parte do reconhecimento do campo de pesquisa, visitamos quatro idosos ex-alunos da escola e estabelecemos, então, nosso primeiro contato com esses sujeitos. Na ocasião explicamos o propósito de nossa pesquisa e instauramos um primeiro diálogo sobre o ensino de línguas naquela escola. Através de conversa informal com esses sujeitos, obtivemos importantes esclarecimentos sobre o processo de ensino e aprendizagem de línguas e também sobre a proibição do uso da língua alemã e sobre os efeitos da campanha de nacionalização do ensino decretada pelo Governo em 1938, no ensino e uso da língua portuguesa. Por fazerem parte de uma comunidade teuto-brasileira, esses sujeitos apontaram indícios de sofrimento e de dificuldades no cumprimento da nova lei governamental, o que nos conduziu a uma ampliação de nosso objeto de pesquisa, de modo que passamos então a analisar não somente o ensino de línguas na escola, mas também os efeitos do discurso nacionalista na constituição desses sujeitos.
A partir dessa primeira visita à comunidade e do primeiro contato com os quatro ex-alunos da escola, definimos então o recorte histórico da pesquisa: de 1931 a 1944, abrangendo assim o período de frequência e permanência desses sujeitos na escola pesquisada. Acrescentamos ainda que, nessa primeira visita, coletamos também alguns materiais antigos da época encontrados nas residências desses sujeitos, como algumas fotografias, materiais de leitura, livros didáticos, boletim
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Talvez seja possível encontrar documentos mais antigos da escola pesquisada no município de Taquari/RS, local para onde o “Colégio Superior” foi transferido em 1903, conforme veremos no Capítulo 5. Contudo, essa busca ficará como incentivo para pesquisa posterior em virtude do tempo limite de que dispomos para a conclusão deste estudo.
escolar e caderno de alfabetização, que serviram como pontes de memória43 para a realização da entrevista temática individual semiestruturada.
Podemos registrar, então, que esta pesquisa constitui-se de dois momentos: esse primeiro momento de reconhecimento da escola e da comunidade e seus sujeitos e o segundo, a realização e gravação das entrevistas elaboradas de acordo com a metodologia da história oral. Assim, tais procedimentos promoveram o estabelecimento de uma relação de confiança entre pesquisador e pesquisado, conforme afirma Tourtier-Bonazzi (2006), pois, segundo a autora, ter um primeiro encontro com o sujeito, preparar a entrevista e voltar posteriormente para a realização da gravação são ações indispensáveis na construção dessa relação. Nas próximas seções veremos com mais detalhes como foram selecionados os sujeitos da pesquisa, o processo de elaboração das entrevistas e sua realização.