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Reconhecimento dos componentes e propriedades da forma

4 IDENTIFICANDO E ANALISANDO OS GESTOS

4.1 O RGANIZANDO OS DADOS

4.2.4 A pirâmide

4.2.4.2 Reconhecimento dos componentes e propriedades da forma

Neste item, analisaremos os gestos usados por nossos participantes em seus discursos que indicam reconhecimento das figuras geométricas além de sua forma, destacando também seus elementos e suas propriedades. Esses gestos podem ser relacionados ao Nível dois da escala de Van Hiele.

No item anterior, vimos Ana que, durante a aplicação, reproduz a montagem de uma barraca de camping. Para isso, executa gestos que descrevem e manuseiam os elementos que a compõem. A participante fez com as duas mãos um simulacro do ato de agarrar algo no ar (semelhantes a varetas) um em cada mão, e os conectar em um ponto ao alto, unindo o que seriam varetas imaginárias (Figura 80A). A seguir, rotaciona o corpo um pouco à direita e repete o gesto, acrescentando, assim, mais duas varetas a sua construção (Figura 80B).

Figura 80 – Varetas imaginárias

Fonte: Arquivo pessoal.

Durante a entrevista, Ana foi inquerida sobre a função do gesto da Figura 80 em sua estratégia. Ela argumenta que mostrava a estrutura metálica que dá suporte a uma barraca de camping e, apesar de ela ter visto a representação

pictórica, nesse momento da entrevista, não faz associação com as arestas da pirâmide.

Voltando à aplicação, na cena seguinte, Ana refez seu discurso e produziu gestos diferentes; desta vez, o fez apenas com os dois indicadores (Figura 81A) que, partindo de um único ponto no espaço, descrevem um movimento simultâneo e descendente, e acrescenta gestos que representam o mesmo movimento, mas com as duas mãos abertas dedos juntos (Figura 81B).

Figura 81 – Representando os elementos

Fonte Arquivo pessoal.

A nosso ver, os gestos executados por Ana (Figura 81), no contexto do seu discurso, destacam os elementos arestas (Figura 81A) e faces (Figura 81B). Durante a entrevista, e depois de rever a sua atuação por algumas vezes, a participante esclarece que os gestos marcavam as arestas e as faces, respectivamente, da figura a ser enunciada. Segundo a escala de Van Hiele, a identificação dos elementos ou de algumas propriedades do elemento geométrico, além de sua aparência, significa que nesse momento do discurso de aplicação Ana trabalha com conceitos compatíveis com o Nível dois dessa escala.

Continuando a refletir sobre os gestos da Figura 81, poderíamos considerar que nos encontramos numa zona de transição do segundo para o terceiro nível de domínio conceitual da escala de Van Hiele, visto que, quando a locutora usa os dedos indicadores para descrever, em movimento síncrono, as arestas (Figura 81A), esse gesto marca a simetria entre esses elementos. O gesto do mesmo discurso, executado usando as mãos abertas e dedos juntos (Figura 81B), sobre as arestas já demarcadas, nos sugere (Figura 81A e Figura 81B) a interação entre os elementos, faces e arestas, como apontado por Gutiérrez e Jaime (1988).

Proposta de exploração dos elementos semelhante foi feita por Bruna, que acessou a representação pictórica. Essa locutora fez gesto usando as duas mãos abertas com os dedos juntos, e descreveu, em movimento síncrono, duas faces da pirâmide (Figura 82A), rotacionando os braços, ela repete a operação (Figura 82B) e, assim, replica as quatro faces, simétricas entre si, da figura geométrica que observara. Completando o gesto, Bruna executa um movimento horizontal de encontro das mãos, com as mãos abertas e os dedos juntos, palmas para baixo, indicando existência de uma base (Figura 82C).

Figura 82 – Descrevendo a pirâmide

Fonte: Arquivo pessoal.

Novamente, temos uma reconstituição da figura observada, com o diferencial de termos destacada a existência de uma base (Figura 82B). Esse gesto da Figura 82 dá suporte para o conceito que o objeto é constituído de superfícies, e não por linhas isoladas.

Apesar de a participante estar reproduzindo a figura vista e de associação a um objeto físico, ela indica explicitamente as faces e a base (Figura 82). Como aponta Roth (2001, p.373), os gestos podem fornecer pistas que nos permitem vislumbrar algumas “verdades escondidas na mente do falante” e que, apesar de não formalizar o conceito matemático, mostram certo grau de domínio conceitual, reconhecendo os elementos e dando a eles algumas inter-relações.

A esse gesto (Figura 82), a locutora acrescenta em sequência, ainda durante a aplicação, a marcação da Figura 83, na qual, usando os dois indicadores em posição de riste, descreve em movimento síncrono um triângulo no espaço. Nesse gesto, Bruna, pela simultaneidade de movimentos, expõe a simetria entre as arestas.

Figura 83 – A simetria entre as arestas

Fonte: Arquivo pessoal.

Durante a entrevista, Bruna atribui ao gesto da Figura 83 a representação dos lados de uma das faces da pirâmide, em oposição ao aqui mostrado na Figura 82 que indicava as quatro faces e a base. Diante da interpretação da locutora, novamente nos encontramos numa zona de transição entre o segundo e terceiro nível da escala de Van Hiele.

Tatiana, que visualizou o objeto por vídeo em Libras, usou estratégia semelhante. O gesto elaborado por essa participante foi feito com as mãos abertas dedos esticados, exceto o dedão, que fica posicionado para dentro da palma, partindo de um ponto ao alto, desce em linha inclinada e depois de um certo tempo passa a movimento horizontal terminando com as duas mãos se tocando (Figura 84). Esse gesto foi executado de um modo amplo, que pode ser evidenciado pela abertura dos braços (Figura 82A).

Figura 84 – Mostrando os planos

Fonte: Arquivo pessoal.

Esse gesto, elaborado com as mãos abertas por Tatiana, permite ao observador ter uma noção da existência das faces e da base sobre a qual essas

superfícies estão assentadas e, ainda, observar que as faces são simétricas. Durante a entrevista, a locutora atribui a esse gesto a descrição do “que é uma pirâmide”. Nesse caso específico, o gesto elaborado por Tatiana foi extremamente eficaz e suscitou uma resposta imediata e acertada de seu interlocutor, Luan. Assim como observado por McNeill (1992, 2000) e Goldin-Meadow (2003), os gestos enriqueceram e melhoram a eficiência da comunicação. Os gestos de Tatiana mostram que a participante explorou a relação entre as faces e a base e a seção transversal da pirâmide, o que pode ser considerado como Nível três da escala de Van Hiele.

Brenda, que observou a forma pictórica, fez um gesto com os dois indicadores descrevendo, em primeiro lugar, um quadrilátero horizontal (Figura 85A) e, em seguida, sobre esse, os lados dos quatro triângulos, todos partindo de um único ponto ao alto e terminando sobre o quadrilátero horizontal já locado (Figura 85B), reproduzindo, assim, a figura que havia visto por suas linhas construtivas.

Figura 85 – Sobreposição das arestas

Fonte: Arquivo pessoal.

Durante a entrevista, a locutora afirma estar reconstituindo a figura vista não como uma peça única, mas como uma sucessão de elementos, triângulos e quadrilátero. Nesses gestos (Figura 85), vemos que a pirâmide não é associada a um objeto, mas é referenciada por seus elementos (arestas e vértices) e por propriedades (simetrias). O que faz com que posicionemos esses gestos no Nível dois da escala de Van Hiele; acrescente-se, ainda, o fato de que tanto a base como cada face tenham sido delimitadas isoladamente, ocorrendo sobreposição entre as arestas dessas. Nos gestos usados por Brenda (Figura 85), podemos

vislumbrar quais são os conceitos foram utilizados para a elaboração do discurso, situação coerente com o que também foi observado por Iverson, Tencer, Lany e Goldin-Meadow, (2000), em seus trabalhos, quando trazem que os gestos fazem parte de uma estratégia do locutor, não sendo algo aleatório, mas, sim, um ato consciente e intencional.

Vimos, nesse item, que gestos distintos foram usados para comunicar aspectos semelhantes do objeto enunciado, bem como gestos semelhantes ressaltaram características diferentes do mesmo. Como destacado por Goldin- Meadow (2003, p.195, nossa tradução), “[...], a maneira que os gestos são produzidos frequentemente varia segundo os locutores [...]”, diferentes locutores gesticulam diferentemente sobre o mesmo tema e um mesmo locutor pode variar sua forma de gesticular durante um discurso. No próximo item, veremos os gestos que indicam que os locutores estabelecem a inter-relação das propriedades da forma geométrica.

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