5 INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO
9.4 REPERCUSSÕES PSICOSSOCIAIS DE UM TRABALHO EM
9.4.2 Reconhecimento e não reconhecimento no trabalho
De acordo com Dejours (2008), o reconhecimento no trabalho é um fator da maior importância para a subjetividade. Há, segundo o autor, duas formas pelas quais a dinâmica do reconhecimento opera: a primeira é através do “julgamento de utilidade”, realizado por superiores ou por usuários do serviço prestado; a segunda é por meio do “julgamento de estética”, proferido, essencialmente, pelos pares, “por aqueles que conhecem as especificidades do trabalho e podem avaliar
o esforço do trabalhador em realizá-lo, independentemente dos resultados alcançados.” (LANCMAN et al, 2007, p. 90)
O reconhecimento envolve uma avaliação acerca do “fazer”, do trabalho realizado; contudo, gera um desdobramento para a esfera do “ser”, à medida que confere uma recompensa simbólica ao trabalhador pelo esforço empenhado na realização do trabalho. Além disso, contribui com os processos identitários que se desenvolvem a partir das relações intersubjetivas mobilizadas pela situação laboral. A presença do reconhecimento confere sentido ao sofrimento advindo dos constrangimentos próprios da situação de trabalho, transformando-o em prazer; faz com que os esforços (físicos, cognitivos, afetivos) tenham valido a pena. De modo oposto, a ausência do reconhecimento dificulta a transformação do sofrimento em prazer, e gera riscos para a saúde mental do trabalhador. (DEJOURS, 2008)
Para os servidores entrevistados, a temática do reconhecimento é controversa. Enquanto alguns têm uma percepção de que seu trabalho na Instituição é reconhecido, outros consideram esse um aspecto falho nas relações de trabalho, podendo, inclusive, explicar a origem de algumas situações de sofrimento.
Entre os participantes que indicaram a presença de reconhecimento pelo trabalho que executam, percebemos que suas falas evidenciam a dinâmica da transformação do sofrimento em prazer, tornando suportável ou mesmo prazeroso trabalhar num setor cheio de desafios, onde muitos “não gostariam de trabalhar”, como expressou um servidor:
[...] eles [chefias] reconhecem, principalmente no nosso setor, que eles têm esse reconhecimento... Como eu te falei, é um setor que muitas pessoas não gostariam de trabalhar, mas é bom, muito bom trabalhar, entendeu. Eh, há esse reconhecimento por parte da direção [...] (P13 – grifo nosso)
O reconhecimento, por parte dos usuários ou das chefias, da capacidade que tem o servidor de resolver os problemas postos pelo trabalho, parece contribuir para a atribuição de sentido ao trabalhar. Em sua fala, o P08 parece indicar que, a despeito das dificuldades, o reconhecimento favorece seu empenho, e evidencia a contribuição particular dada por ele:
[...] pelo menos, as pessoas sabem que se alguém precisar de alguma coisa e tiver que recorrer a mim, não vai ficar frustrado nem insatisfeito,
eu, mesmo sentindo qualquer coisa interiormente, eu,
profissionalmente, eu falo, eu tenho que resolver isso, e resolvo, e faço [...] (P08 – grifos nossos).
Outros servidores também relataram que se sentem reconhecidos em relação à participação específica que têm no processo de trabalho, o que, como mostra a teoria de Dejours (2008), produz efeitos positivos para a identidade e a autoestima. A fala do P09 ilustra esse aspecto:
[...] às vezes, por eu estar resolvendo alguns problemas, que faz com que eles deem continuidade à atividade deles, então, eles sabem que no negócio de [tal atividade] é o [Fulano]. Então, eu acho que querendo ou não, isso é um reconhecimento... (P09).
O P15 considera que, em alguns pontos seu trabalho é reconhecido, mais propriamente, em relação à habilidade pela qual ele se destaca: “Em alguns pontos, em termos de/ de/ falem com [Fulano] que [Fulano] tem mais paciência, por exemplo” (P15).
O reconhecimento alimenta o desejo de perseverar no trabalho e traz alívio psicológico para as dificuldades diárias encontradas no mesmo, como aponta um servidor: “[...] eu acho que é isso que dá um fôlego até, né, pra continuar, tanto a chefia imediata quanto acima, vamos supor colegas de sala, então, isso que motiva continuar.” (P16)
Alguns participantes, contrariamente às falas apresentadas acima, consideram que a utilidade de seu trabalho não é reconhecida. Compreendem que, embora tenham formação acadêmica na área de educação (inclusive em nível de pós- graduação stricto senso), e ocupem cargos especificamente ligados à área de ensino – um dos principais focos da Instituição (ao lado da pesquisa e da extensão) – não são devidamente valorizados. A fala abaixo ilustra essa percepção:
[...] não que a gente quisesse ser o supra-sumo, mas, respeitado no sentido de profissional, ah, esse profissional ele/ ele é necessário dentro da escola/ até engraçado falar isso né, porque, eh, falo assim que eh::... a/ a educação é [nossa] praia, mas parece que estão jogando a gente pra fora da praia, a gente ficou no meio só observando né, então eu vejo que não há infelizmente, esse reconhecimento, não (P21).
Nesse aspecto, um participante localiza a falta de reconhecimento especificamente em relação à administração:
Pelos professores e alunos, sim... não sinto que seja reconhecido pela administração, né, acho que a administração sempre busca é... é... sei lá, minimizar o trabalho pedagógico, mas sinto que os professores valorizam, os alunos valorizam, principalmente os alunos, valorizam bastante. (P04).
O P18 destaca a falta de reconhecimento pelo trabalho de alguns servidores que estão há muito tempo na Instituição:
[...] o que a gente sente, assim, que as pessoas que trabalham aqui elas têm muito conhecimento da dinâmica da escola, tem [o fulano] que trabalha aqui tem vários/ tem trinta e [tantos]; [o cicrano], que já tem trinta anos, e essas pessoas, assim, têm/ dão uma contribuição imensa pra escola, porque qualquer problema que tem, eles sempre pedem orientação, conselho, porque elas já viveram coisas né, que ninguém viveu aqui na escola né, então elas têm um know-how muito grande de conhecimento e/ e/ e eu acredito assim, que falta um pouco de... de valorização dessas pessoas (P18).
A relação entre ausência de reconhecimento e sofrimento foi explicitada por um participante:
[...] o nosso trabalho de técnico, eu acho que ele é um trabalho muito invisível, as pessoas não valoram isso como deveriam... a própria Instituição né! [...] eu acho que o sofrimento da maioria das pessoas hoje, é essa falta de reconhecimento, ou se fez ou se deixou de fazer, ninguém valora [...] (P23).
As representações sociais do serviço público, e por extensão, dos servidores públicos, como relatamos na seção de revisão de literatura, são permeadas por valores negativos. Essa ausência de reconhecimento social pelo trabalho do servidor público é também apontada por Chanlat (2002) em referência ao que ocorre na maioria dos países industrializados:
No decorrer dos últimos vinte anos, os empregados do setor público e notadamente os funcionários sofreram mais ou menos fortemente o discurso sobre sua suposta ineficiência, sua fraca produtividade, até sua verdadeira utilidade. [...] É preciso entender que o discurso de certos políticos, até de ministros em certos casos, somados às críticas recorrentes da imprensa e do meio dos negócios, afetaram profundamente a imagem que os funcionários tinham de si mesmos. (CHANLAT, 2002, p.5)
Esse é um ponto importante, uma vez que está estreitamente relacionado à consolidação da identidade profissional desses trabalhadores. Trataremos desse aspecto no próximo item.
9.4.3 Mudanças institucionais e desdobramentos para a identidade do