Os estatutos da “Liga Operária Bahiana” foram enviados ao Governo da Província para que se procedesse à aprovação dos seus estatutos. Esse procedimento fazia parte das estratégias de controle que o Estado Imperial vinha tomando em relação às sociedades, como já foi abordado anteriormente. Este costume era um tanto comum no papel do Estado. Como essas sociedades eram compostas em sua grande maioria por “homens de cor”, parecia que mais uma vez o controle deveria ser exercido, tendo em vista o “perigo” que poderiam trazer para a sociedade.
A vigilância constante sempre pautou o papel do Estado em torno daqueles que eram vistos como membros das “classes perigosas”. As Irmandades Católicas, por exemplo, que eram formadas pelos “homens de cor” deveria informar “em que dias e horas se reuniam e se constava que elas tinham alguma tendência sediciosa ou com fins políticos, que pudesses ser perigosos à sociedade276”. Era o Estado interferindo mais
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LEAL, Maria das Graças de Andrade. Manuel Querino entre letras e lutas Bahia: 1851-1923. São Paulo: Annablume, 2009, p.235.
275 Diário da Bahia, 12/03/1876, BPEB. 276
REIS, João José. GOMES, Flávio dos Santos. CARVALHO. Marcus J. M. de. O alufá
109 uma vez no âmbito privado, tanto em relação às Irmandades quanto às associações, ou seja, promovendo o controle de espaços que poderiam ser usados por negros e camadas populares para insubordinação. Porém, em uma cidade com as dimensões de Salvador, era provável que muitos mecanismos utilizados por esses indivíduos fugissem da fiscalização do Governo.
Por mais que algumas associações tivessem interesses “de classe”, o que era uma grande possibilidade, em virtude dos debates políticos que vinham ocorrendo no contexto da sua criação, elas poderiam omitir do Estado o seu verdadeiro interesse. Como as fontes não nos trazem as apreensões, desejos e expectativas dos membros, cabe conjecturar com base nas nuances presentesna documentação. Nem todas as decisões coletivas de um grupo eram reveladas para indivíduos alheios aos seus interesses. Isso, de certo modo, poderia frustrar seus verdadeiros intentos, pois tinham consciência de que deveriam cumprir as formalidades devidas, mesmo que suas inclinações fossem contrárias ao que era estabelecido.
Nos exames dos estatutos enviados para aprovação, era comum que ao analisá- los, os membros do conselho pudessem questionar os termos, mandar suprimi-los ou até mesmo, caso achassem que a associação ultrapassava os limites delimitados em lei, não autorizassem o seu funcionamento. Ao apresentar os seus Estatutos, a Liga teve que fazer alguns ajustes apontados pelo Presidente da Província.
O Dr. Luiz Antônio da Silva Nunes, Presidente da Província, analisou minuciosamente e fez alguns comentários sobre o estatuto da Liga Operária Bahiana, que designou como “regular”, em virtude de alguns pontos que não foram por ele compreendidos. A primeira faz referência aos membros do Diretório, - um Presidente do Diretório e o outro da Assembleia Geral -, que segundo os estatutos enviados, deveriam ser compostos por pessoas “estranhas” a sociedade, ou seja, que não fizessem parte daquela, relatou, portanto, que isso não era possível. A outra observação era sobre a presença de Engenheiros. Contestava que como definido no próprio estatuto que a sociedade era uma congregação composta por “artistas, carapinas, pedreiros, canteiros,
das Letras, 2010, p.88. Verificar qual a lei citada e, se possível, citar (mesmo que seja por emio destes autores citados).
110 pintores e ferreiros nacionais ou estrangeiros, residentes nessa Província”, questionou a presençade um Engenheiro no corpo da sociedade277.
No projeto do estatuto enviado pelos membros da Liga, os sócios efetivos eram os únicos que poderiam ser eleitos para os cargos de Presidente e Vice-Presidente da Associação. Esse ponto também foi questionado pelo Dr. Nunes. Segundo ele, se os sócios correspondentes, honorários e beneméritos faziam parte do corpo da sociedade juntamente com os efetivos, não fazia sentido a exclusividade dos sócios efetivos, que possuíam “voto ativo na sociedade”. Isso demonstrava que aqueles, por mais qualificados que fossem, não teriam oportunidades de votação no Diretório. Em virtude disso, o Presidente, Dr. Nunes, inclui mais um parágrafo no estatuto estendendo aos sócios honorários e beneméritos a possibilidade de serem eleitos Presidente e Vice- Presidente, além de Secretários da Assembleia Geral.
Indagou também sobre a confusão feita pelos elaboradores do estatuto sobre a duração do Diretório. Nunes não entendia como “o Diretório haverá ser eleito anualmente, conforme o citado art.13, qual a razão que no § 1º do mesmo art. 1º o Diretório durará 3 anos, fazendo-se logo uma exceção aquele principio?”. Mas parece que o Presidente não entendeu a sistemática, tanto que ela foi mantida. Pois, o primeiro Diretório, votado em Assembleia Geral que teria duração de três anos, já que a sociedade estava se constituindo, possivelmente deveria se manter durante um tempo alguns membros nesse cargo para dar uma estabilidade e apreender os meandros das relações que teriam que estabelecer com terceiros. Passado esse período de três anos, o Diretório seria eleito anualmente.
O Presidente concluiu sua análise fazendo uma crítica. Relata que segundo os estatutos “parece” que nenhum cidadão, por mais qualificado que fosse não poderia fazer parte do “Governo” da associação, uma vez que não fossem sócios efetivos. Aqui mais uma vez, deveria estar se referindo ao que pontuou anteriormente sobre os sócios honorários e beneméritos. Ainda se refere a alguns erros de concordância que encontrou nos estatutos e solicita que se fizessem as mudanças indicadas. Finaliza, portanto, que ressalvados os problemas que tinha apontado, os estatutos estavam de acordo com o decreto que regia a organização das sociedades.
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APEBA, Seção de arquivo colônia e provincial – Presidência da Província: Registro de cartas de aprovação de estatutos de sociedades (1861-1884), maço 1578.
111 O ofício com as observações sobre os estatutos foi respondido por Manuel Pinto de Souza Dantas, no dia 19 de Agosto de 1876, quase dois meses depois. Afirma que os estatutos foram “reformados” em conformidade do que foi requerido pelo Presidente da Província. Acataram a solicitação de suprimir o artigo “em que mandava que fosse o Presidente do Diretório uma pessoa de distinção, não pertencente à classe dos artistas”, mantendo apenas a eleição de “pessoas estranhas à sociedade” aos cargos o Presidente e o Vice-Presidente da Assembleia Geral, como apontava o esboço dos estatutos enviados para análise.
Porém, em relação ao Engenheiro, os membros da sociedade discordaram quanto a sua exclusão como membro do Diretório. Argumentou, portanto, “para bem da sociedade deviam fazer parte do Diretório, para isso que lhe estão incumbido o levantamento das plantas e direção principal de todas as obras ou empresas que obtiver a Liga Operária”. Solicitava, então a manutenção do dispositivo que mantinham os Engenheiros como sócios efetivos, sendo também membros do Diretório.
A “Liga Operária Bahiana” foi autorizada por ato número 30 de 1876, produzido pelo Presidente da Província Luís Antônio da Silva Nunes. O funcionamento de uma sociedade só era permitido quando fossem enviados ao Presidente da Província os estatutos e a ata produzida na Assembleia Geral de Constituição, a partir daí seriam analisados quais seriam os fins a que se destinavam e se o seu funcionamento seria aprovado.
Luiz Antônio da Silva Nunes, Presidente da província da Bahia. Tendo em vista o ato de 30 de Agosto último, pelo quem foram aprovados os estatutos da sociedade “Liga Operária Bahiana” estabelecida nesta cidade, resolvo conferir a presente carta na forma do art. 11º do Decreto 11.2711 de 19 de Dezembro de 1860, a qual será publicada com os ditos estatutos e o referido ato de acordo com o disposto no §13º do citado Decreto. – Esta que vai sobre o selo das Armas do Império, se registrará na Secretaria da Presidência e Administração. Palácio da Presidência da Bahia, 12 de Setembro de 1876278.
De acordo com Leal, algumas mutuárias na Bahia “nasceram com o propósito de disputar obras de construção civil com empreiteiros capitalistas apadrinhados pelos poderes políticos locais que emergiram no contexto de organização técnica e produtiva
278Carta de aprovação da Sociedade “Liga Operária Bahiana”. APEBA, Seção de arquivo colônia
e provincial – Presidência da Província: Registro de cartas de aprovação de estatutos de sociedades (1861-1884), maço 1578.
112 voltada especificamente ao ramo da construção civil279”. A Liga Operária foi uma delas. Ainda nas palavras do Querino, obras públicas eram entregues aos cuidados da Liga“sem formalidades de concorrência, sem contrato, bastando o orçamento feito pela repartição competente280”. Certamente a Liga foi responsável por algumas obras na sua curta existência, porém, há um exagero na fala do autor, formalmente só a encontramos em duas obras públicas da cidade.