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RECONSTRUIR IMAGINÁRIOS COMO PARTE DA LUTA PELO PODER.

POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCATIVAS COM PARTICIPAÇÃO SOCIAL: UM MEIO PARA

2. RECONSTRUIR IMAGINÁRIOS COMO PARTE DA LUTA PELO PODER.

Uma luta fundamental é aquela que se expressa no imaginário coletivo, ou no plano das mentes. A capacidade de criar uma nova bagagem cultural que desmonte a ordem social vigente e que desestruture as “verdades” sobre as quais se alicerçam as formas contemporâneos do poder é parte de nossa luta política e educativa.

Vejamos alguns exemplos de como o poder dominante, a força de repetir fatos e idéias, objetiva construir imaginários coletivos sobre a relação entre educação e políticas públicas. O poder tradicional geralmente nos afirma que:

• A Política é o usufruto do poder gerado no “voto cidadão”. A extrema

formalização da democracia substitui outras formas de construção e exercício do poder, o que deriva para novas formas ditatoriais, a ditadura da monocultura, o rosto ditatorial da democracia. Nesse horizonte, a especialização resultou na monopolização da política pelos políticos profissionais, “a chamada classe política”, e pelos

partidos políticos, desnaturalizando a noção de serviço. Assim, a política já não é um bem social, mas converte-se em um mecanismo de diferenciação social e de exercício do poder para minorias locais e interesses de monopólios transnacionais: já não se vive para a políti- ca, mas da política.

• Sobre a compreensão do político, “a política pública é monopólio dos políti-

cos e dos que se chamam servidores públicos”, quer dizer, dos atores governa-

mentais ou dos dirigentes dos partidos políticos. Os discursos de par- ticipação têm ficado tão somente nisso, são simplesmente discursos. Aliena-se a política pública da sociedade. As burocracias têm substi- tuído a voz, o sentimento e o pensamento do povo e, geralmente, têm sido canais para discursos gerados nos centros dos monopólios. • “A educação é um fato pedagógico, restrito às escolas e às aulas. Portanto,

reservada somente para determinados atores, por exemplo: professores, técni- cos, Ministérios de Educação.” Dessa forma, a educação aliena-se tam-

bém do desenvolvimento, da dinâmica social, econômica, política e cultural. Por isso, os discursos interculturais também só ficam nisso: discursos. Assim, a possibilidade de articular a educação com a trans- formação social está vedada.

• A participação social é formal e restrita, por isso, geralmente se resume à transferência de informação e à operacionalização das ações defini- das nas esferas do poder. A participação social formal e restrita não tem conseguido exercer efetivamente o poder, e ainda se exige que a sociedade seja propositiva e criativa.

O pior é que não somente os atores governamentais e políticos tradici- onais repetem esta bagagem discursiva, mas muitos – incluídos os setores que consideramos progressistas ou construtores da transformação da socie- dade – assumimos tudo isso como um fato natural que temos de cumprir e, assim, transitamos por esse cenário. Não somos capazes de construir um cenário alternativo e estruturar discursos e estratégias que articulem edu- cação com sociedade, cultura, economia e política em uma perspectiva de empoderamento real da sociedade civil.

Trata-se de lutar por uma compreensão, uma construção conceitual, que organize de maneira diferente o cenário, assim como o conteúdo. Deveria

interessar-nos desenvolver compreensões contra-hegemônicas do político, da política pública, da educação e da participação social como princípios básicos iniciais para construir políticas públicas com enfoque popular.

Desta maneira, a política deveria ser assumida como um bem social, autenticamente democrático (antimonopólio) e que permitisse o acesso ao poder a todos os atores sociais. Como um bem que precavê os direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de todos os atores da sociedade e que estrutura cenários de consenso, privilegiando os atores que foram tra- dicionalmente marginalizados,excluídos, explorados. Como um bem multicultural, que se funda na diversidade e que está direcionado ao empoderamento da diversidade. Como um bem que canaliza o exercício do poder nas estruturas estatais e na sociedade civil.

A Política Pública, como a articulação sinérgica de paradigmas, finali- dades e enfoques destinados a mobilizar as estruturas estatais e a socieda- de civil em torno de horizontes projetivos; como produto de um processo de participação amplo e real; como mecanismo que orienta o acionar dos atores estatais e do controle social, com o propósito de gerar capacidade real na sociedade civil, fortalecendo suas possibilidades autogestionárias e de exercício do poder.

A propósito, segundo Manuel Canto Chac (1994), haveria de se consi- derar que

“sem dúvida o governo e o Estado estão na esfera pública porém esta não se

limita a eles; a esfera pública, no final das contas, é de interesse de toda a sociedade (...) é também o que interessa às maiorias, aos diferentes setores que integram a sociedade e, então, parte também da luta política é definir o que é público (...) conseqüentemente, decidir sobre o público implica, se vocês me per- mitem a expressão, governar desde a sociedade e, sendo ainda mais impruden- tes na expressão, hoje, a esfera pública também é governar desde a oposição.”

A Educação teria de ser assumida como um direito e uma responsabili- dade de todos e todas, não somente no plano das inovações educativas, ou como o direto de receber serviços educativos, mas também na formulação, acompanhamento e execução de políticas públicas na educação. Portanto, na essência, é um fato político e público. A educação também deveria ser entendida como um fato integral, interdependente e intercultural e como

um processo de empoderamento e de disputa do poder, principalmente o do conhecimento e da informação.

A participação social, como um autêntico processo de tomada de deci- sões entre as estruturas estatais e a sociedade civil. Como um autêntico processo de exercício de poder pela sociedade civil, e desencadeador de seu empoderamento. Como um processo integral – que articula a esfera educativa com a social, econômica, política e cultural -, criativo e dignificante. Como um processo que articula a dimensão técnica com a dimensão política, com as diferentes territorialidades, ou melhor, vai des- de o local até o nacional, passando pelas diversas formas do regional. Como um processo vinculador, que tem efeito direto na reformulação das políti- cas públicas.

Emitir discursos e desenvolver práticas contra-hegemônicas nos permi- tirão seguir refundamentando a educação popular a partir dos nossos prin- cípios e reconstruir nossas formas de intervenção.

3. NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO POPULAR, O QUE