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Recordando a Casa dos Estudantes do Império

MANUEL DOS SANTOS LIMA*

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ssiste-se, com tristeza e indignação, à agonia do velho edifício da Av. Duque d’Ávila que, du- rante mais de vinte anos, foi ponto de encontro dos estudantes africanos, além dos oriundos de Goa, Macau e Timor.

Os governos dos PALOP e do Portugal pós-25 de Abril têm demonstrado um confrangedor desin- teresse por esse património que alberga algo da nossa memória colectiva, pois na CEI germinaram sementes da nossa liberdade. Ela marcou, indele- velmente, toda uma plêiade de intelectuais e futu- ros líderes, tendo superado em importância e lon- gevidade outras organizações associativas de africanos, tais como a pioneira Casa da África Portuguesa ou o Clube Marítimo, todas empenha- das em estimular o convívio entre africanos e afir- mar o seu direito à diferença, enquanto minoria vi- sível.

A CEI existiu e afirmou-se num período histó- rico exultante porque coincidente com o movi- mento libertário que agitou o Terceiro Mundo imediatamente após a 2.aGuerra Mundial. Foi

uma época de homens e factos determinantes, constituindo balizas paradigmáticas: a consagração de Mao Tsé Tung (1949), Diên Biên Phu (1954, triunfo militar de colonizados), a rebelião argelina (1954), a Conferência de Bandung (1955, ou a de- terminação política dos colonizados), o advento do Ghana (1957) de Kwame N’Krumah, o “Não” (1958) da Guiné de Sekou Touré à França e a en- trada triunfal de Fidel de Castro em Havana. E co- mo pano de fundo, em Portugal, a luta antifascista dos democratas com o general Humberto Delgado

a dirigir a Oposição e o capitão Henrique Galvão a escrever nos jornais do mundo novas páginas da epopeia marítima portuguesa, a bordo do “Santa Maria”.

Ponto de encontro por excelência da comuni- dade académica africana, a CEI foi igualmente palco da reconstrução metafórica das sociedades coloniais de origem e cenário do mimetismo cul- tural resultante de uma estadia mais ou menos prolongada em Lisboa e com algumas escapade- las ao estrangeiro, sobretudo a Paris, a grande re- ferência cultural e política dos anos cinquenta e sessenta.

Pelo n.o23 da Duque d’Ávila passaram várias

gerações de “ultramarinos” (veteranos, indepen- dentistas, bossa-nova) cada uma imprimindo à Ca- sa um cunho particular e às vezes pitoresco, pelo seu maior ou menor grau de fantasia, consciência social, militância poético-política e resistência às autoridades que nela viam um foco de rebeldia e conspiração a soldo do PC.

Dada a heterogeneidade dos seus membros a CEI teve mil e uma facetas, constituindo isso o seu mérito maior e fonte de todas as ambiguida- des. A insurreição angolana, em 1961, terá os seus reflexos na “malta”, marcará uma etapa decisiva na existência da associação, confirmando as cape- linhas, os núcleos elitistas económico-sociais, os prócolonialistas, os revolucionários independentis- tas, “Nós” e “Eles”; surgem clivagens raciais e po- líticas: os estudantes dividem-se entre os que pre- ferem ficar em Portugal e os que optam por sair, clandestinamente, numa operação organizada do

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exterior e que surpreenderá totalmente as autorida- des portuguesas e a sua polícia política. Alguns dos trânsfugas iriam integrar os quadros dos movi- mentos de libertação e depois os governos marxis- tas que assegurariam regimes repressivos e engen- drariam o falhanço das independências.

E por tudo e apesar de tudo a Casa dos Estu-

dantes do Império valeu a pena e é-me grato re- cordá-la enquanto espaço de luta e de sonho e imagem de uma geração que ao envelhecer con- clui, com alguma amargura, que tal como a Terra a Utopia é redonda.

A Editorial*

FERNANDO COSTA ANDRADE**

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u poderia não dizer nada mais e poderia pro- vavelmente resumir num nome o que foi o movi- mento editorial da Casa dos Estudantes do Impé- rio: e esse nome é o nome saudoso de um querido amigo que se chama Carlos Manuel do Nascimen- to Ervedosa. Sem Carlos Ervedosa possivelmente não teríamos chegado a tanto.

Lembro-me que, chegado de Angola, jovem estudante, candidato a algo que não cheguei a ser, a arquitecto, conheci Carlos Ervedosa que então se interessava por uma ideia vinda de Luanda, de amigos comuns, de António Jacinto, no sentido de divulgarmos de qualquer maneira, ainda que clan- destinamente, a produção poética, literária dos nossos autores que, depois do célebre e histórico caderno, de Mário de Andrade e Francisco José Tenreiro, se não conhecia em Portugal ou pouco se conhecia. Existia o boletim Mensagem da Casa dos Estudantes do Império, em que colaboravam já alguns estudantes e alguns presentes aqui (entre eles recordo o Tomás Medeiros) mas não tínhamos efectivamente nada produzido em forma de livro; os meios eram muito parcos.

Foi nessa altura que Carlos Ervedosa me con- vida a colaborar com ele e foi de facto uma tarefa gratificante que nos ocupou muitas noites, que nos fez faltar a algumas aulas, para organizarmos a primeira Antologia de Poetas Angolanos. Foi a primeira edição da chamada Secção Editorial da Casa dos Estudantes do Império. Nessa altura, em que os meios eram poucos, contactámos o Dr. Sá Machado, aqui na Gulbenkian, que nos forneceu

uma prestimosa ajuda com a qual comprámos as primeiras resmas de papel para que, na velha má- quina policopiadora a stencil, tivéssemos editado a primeira capa e o primeiro volume da Antologia de Poetas Angolanos. Para essa convidámos Mário António Fernandes de Oliveira a escrever o prefá- cio. Ele nessa altura encontrava-se em Luanda, ti- vemos que lhe mandar o texto e nas noites da Ca- sa dos Estudantes do Império policopiámos — a máquina era manual — o primeiro volume, cuja capa improvisei nesses dias. Lembro-me que de- mos à manivela da máquina o Carlos Ervedosa, o Tomás Medeiros, eu e o Carlos Pestana Heine- ken, hoje oficial superior das Forças Armadas An- golanas, médico, conhecido por General Katiana.

O sucesso desta primeira Antologia foi tão grande que nos sentimos encorajados a produzir outras, uma mais ampliada, mais completa; socor- remo-nos então do apoio em Luanda do António Cardoso, do Luandino Vieira e do António Jacinto e também do Mário António, para que nos forne- cessem materiais. Os materiais demoraram e os textos de que dispúnhamos foram aqueles que ser- viram de base à segunda Antologia, já com prefá- cio de Alfredo Margarido e a colaboração também do Rui Carvalho, médico, que faleceu na Holanda, para a policopiagem; e nessa altura também cola- borou, embora mais esporadicamente, o Manuel Lima.

Esta evocação que eu estou aqui a fazer, prefi- ro apresentá-la como depoimento emocionado, em vez de proferir uma palestra para a qual me não

* Alocução proferida na sessão de lançamento das Antologias de Poesia da CEI.

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preparei, mas pensando ser dever de alguns de nós escrevê-la para um texto, quem sabe, de uma pró- xima Mensagem da Associação Casa dos Estudan- tes do Império. É uma homenagem que devemos prestar a todos os membros da Casa dos Estudan- tes do Império, em particular a Carlos Ervedosa, e à colaboração de tantos, tantos amigos. Que fi- que aqui dito.

Nessa altura tivemos também a agressão cons- tante e permanente de alguns críticos, então críti- cos do regime, cujo nome não citarei, mas que apareceram nas páginas do Diário da Manhã. Por- que elogios tivemo-los, sim, em pequenas colunas, no Diário de Lisboa e aí, por Álvaro Salema e mais alguns críticos.

Depois de publicarmos o segundo volume da Antologia de Poetas Angolanos, decidimos publicar os Contos. Depois dos Contos organizámos a Anto- logia de Poetas de Moçambique, os dois, e socorre- mo-nos, já em fase final, de Pollanah para a capa e para algumas opiniões. Tivemos a ajuda prestimo- sa de Fernando Ganhão, que foi até há pouco tem- po Reitor da Universidade de Moçambique.

Entretanto achámos que os volumes policopia- dos limitavam-se àqueles 300 exemplares que conseguíamos produzir e quisemos então imprimir

em pequenos volumes o material disponível em volumes individuais. Discutimos muito o título da Colecção. Não podia ser Autores Angolanos por- que, embora nós fôssemos angolanos, não eram só angolanos que pretendíamos editar. Embora eu na altura, um pouco mais agressivo, tivesse querido o título de Poetas do Império, prevaleceu um título mais brando, pelo receio da PIDE e da Censura.

O primeiro volume foi de Mário António. De- pois a Direcção da Casa decidiu apoiar-nos com algum dinheiro para mais dois volumes e o restan- tes dos volumes até ao número 10, que foi o últi- mo em que participei, foram novamente com fun- dos do Ervedosa, meus e de mais alguns amigos.

Não vos ocuparei por muito tempo para esta longa história mas gostaria, ao terminar, de dizer que os 500 pequenos volumes saíam da tipografia na Rua da Alegria, a maior parte era embrulhada e entregue aos marítimos, a Zito Van Dúnem para que os levasse para Angola, e outra pequena série era vendida nas Faculdades, tendo tido a Livraria Barata e o nosso querido amigo João Sá da Costa a coragem de os colocar brevemente nas montras das suas livrarias. Foram os únicos.

A Casa e eu

ARNALDO SANTOS*

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ão foi difícil aceitar depor neste número es- pecial do Boletim Mensagem, alusivo ao Cinquen- tenário da Fundação da CEI — Casa dos Estudan- tes do Império, porque depressa encontrei resposta para uma pergunta definitiva que, a mim mesmo, me coloquei.

Terei eu sido, também, um homem da Casa? Foram tão rápidas quanto fugazes as minhas pas- sagens pela Casa que receio poder parecer presu- mido. Porque, indubitavelmente, me orgulho de ter passado pela Casa e de ter pago as quotas.

Mas não tive dúvidas em responder afirmati- vamente à minha própria pergunta. A minha con- vicção decorre de uma verificação simples. Teria eu sido outro homem, se não tivesse passado pela Casa? Seguramente.

A verificação dessa influência, hoje, trinta e tal anos depois, torna-se fácil. No entanto, mesmo na época em que passei pela Casa (no período de 1959 a 1965) já eu podia pressenti-la. Porque quem nessa época tivesse decidido entrar na Casa, tinha que se elucidar, no mais íntimo de si mesmo, sobre algumas questões cruciais.

Não lhe seria possível ignorar, por muito tem- po, o que, no ambiente da Casa e através de um convívio múltiplo e fraterno, tinha germinado, qui- çá, espontaneamente. Um espírito de confidencia- lidade.

Porque depressa se apercebia, e depois de um tempo muito breve, que para além da CEI — Casa dos Estudantes do Império, havia a... Casa.

O que a CEI podia oferecer aos estudantes que provinham de todos os pontos desse Império por-

tuguês, era conhecido. O que a Casa passou a ofe- recer, pertencia ao domínio do FUTURO.

Eu mesmo, entrei na Casa com a sensação de que teria que enfrentar um dilema, para alguns, porventura, angustiante. Ser um Homem do Impé- rio ou um filho da Casa.

A maioria dos estudantes, ou sócios da CEI — Associação dos Estudantes do Império, não esca- pou a esse dilema. Nunca a História tinha ofereci- do tão abertamente e de maneira tão inequívoca, a uma juventude ávida e inteligente, a oportunida- de de fazer parte dela, como um agente activo da autodeterminação, progresso e bem-estar dos seus povos. Era assim que a questão se apresentava.

E foram muitos os que a aceitaram. Conscien- temente.

Lembro-me que nessa época, em que imperava esse espírito de confidencialidade, e que provavel- mente a PIDE — Polícia Internacional e de Defesa do Estado, classificava de espírito de conspiração, (sempre nos separaram graves diferenças de inter- pretação da história...). Contava que, nessa época em que predominava esse espírito de clandestini- dade, se criavam muitas situações inusitadas, que nem sempre se podiam reclamar de dramáticas.

E a entrevista que, aí por volta de 1959, con- cedi ao Boletim da CEI, por ocasião da publicação do meu curto livrinho de poemas, “FUGA”, na Colecção Autores Ultramarinos, é, lamentavel- mente, um dos exemplos mais caricatos. Foi um autêntico desastre.

Nessa entrevista tranquei-me resoluto, evasivo, perante o Costa Andrade — até hoje, um amigo

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dos mais fiéis e que foi na ocasião o inglorioso en- trevistador — como se já me preparasse para en- frentar um interrogatório policial.

Foi, indubitavelmente, uma bem sucedida pro- va de resistência (o entrevistador quase nada con- seguiu arrancar de mim), de que não me posso or- gulhar. Nem o Costa Andrade, nem o Tomás Medeiros, que tinha passado a dirigir o Boletim

Mensagem, mereciam isso.

Era, enfim, uma época marcada pela assump- ção de um porvir, do qual nós mesmos queríamos ciosamente definir os contornos.

De tal maneira que uma viagem a Paris era an- tecedida de secretos preparativos, contactos, con- ciliábulos e da obediência a praxes de significado um pouco ambíguo, mas que eram interpretadas como senhas.

Assim, antes de iniciar a viagem, havia que passar pelo Castro Soromenho, nosso notável escri- tor angolano-moçambicano (na altura já bastante doente), havia que ouvir o Amílcar Cabral, era a in- vestidura necessária, comprar uma garrafa de vinho do Porto para o Mário Pinto de Andrade que seria o nosso contacto em Paris, enfim um sem número de pequenas práticas, que se desfrutaria saborosa- mente, se não as levássemos tão a sério.

E nisso tudo o Fernando Mourão (hoje, cate- drático na Universidade de São Paulo — Brasil), era o personagem misterioso que urdia a maioria desses actos sigilosos que, na altura, suspeitei co- mo absolutamente essenciais para essas missões.

Estes, os casos narrados, não são, obviamente, os casos exemplares. Mas foram muitos os que naquela época optaram por viver perigosamente como filhos da Casa, a serem Homens do Império. São hoje, alguns deles, Homens da História dos seus países.

É, no entanto, para mim, particularmente dolo- roso pensar, que entre esses Homens, alguns não

possam estar aqui, agora, para deporem sobre as suas vidas na Casa.

Estou a lembrar-me de Agostinho Neto; estou a recordar-me do Carlos Ervedosa, que com o Costa Andrade, foram os responsáveis pelo mo- vimento editorial da Casa. Mas comove-me muito mais pensar no David Bernardino, assassinado no Huambo. Teria ele sido assassinado no Huambo, sua terra acrisolada, se ele não tivesse sido um fi- lho marcado pela Casa? David Bernardino nosso kamba, aiué!

Hoje, indago-me ainda com alguma comoção, mas já sem grandes ilusões, até onde o espírito da Casa nos acompanhará e se ainda poderá influen- ciar as nossas vidas.

Penso nisso com a curiosidade de quem se ha- bituou a fazer balanços, autocríticas, ou exames de consciência, como queiram, isto é, sem grande so- bressalto, e também, se eu não teria sido por de- mais arrogante quando em 1965, no momento em que selaram a Casa, me atrevi a audaciosas con- jecturas.

Nessa altura tinha ficado retida na Casa a qua- se totalidade da edição do último livro da Colec- ção Autores Ultramarinos, e que por desgraça mi- nha, era o meu livro de contos “KINAXIXE”.

Pensei nessa ocasião, um tanto ressabiado, co- mo será fácil de entender, se aquele selo, com que a PIDE tinha lacrado as portas da Casa, não teria sido um acto gratuito?

Se não teria sido demasiado tardio, porque an- tes dele, um certo espírito, o da Casa, já se tinha apoderado de grande parte das gerações que ti- nham passado por ela, e que outros selos já tinham validado nossos outros compromissos futuros?

E ainda hoje, penso nisso. Mas já sem grandes ilusões.