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37 que recorre indevidamente ao processo apenas para beneficiar de certos procedimentos

instituídos para o auxiliar numa situação de grave crise, como a exoneração do passivo restante (art.º 235º e ss.) que servirá, eventualmente, para se livrar das dívidas.

III. De fora da previsão do art.º 22º ficam, contudo, um sem número de situações em que o requerente, agindo sem o grau de diligência exigível a quem pretende desencadear um processo com uma amplitude de consequências tão assinalável, decide abrir o processo, não obstante o requerido não estar insolvente e fosse possível sabê-lo com facilidade.

Destacam-se os casos em que o requerente possui informação suficiente acerca da solvência do devedor ou pode facilmente obtê-la e não procede à sua análise ou obtenção antes de solicitar a declaração de insolvência 130. Nestas situações estão os requerentes que têm acesso a um manancial informativo que lhes permite facilmente chegar à conclusão que o devedor não está efectivamente impossibilitado de solver as suas obrigações vencidas, como por exemplo as instituições bancárias que, como forma de se precaverem na concessão de empréstimos, podem aceder com facilidade à central de riscos de crédito e à “lista negra” de incumpridores de empréstimos junto do Banco de Portugal 131.

E mesmo os credores que não têm tanta facilidade de acesso à informação financeira do devedor, certamente não seriam excessivamente conscienciosos se, antes de recorrer ao pedido falimentar, consultassem, designadamente, a publicação na net dos maiores devedores ao fisco ou à segurança social 132, a lista pública de execuções 133, a Base de Dados das Contas Anuais da empresa 134 ou os factos relativos ao devedor e aos seus bens sujeitos a registo 135. De uma forma geral, tendemos a considerar que todas as vezes em que os credores, de forma temerária ou, no mínimo, leviana e imprudente, optem por abrir o processo executivo universal sem o mínimo de certezas quanto ao estado de insolvência do devedor, estarão a

130 Vd. MANUEL REQUICHA FERREIRA, “Estado de insolvência”, cit., p. 344. 131 Op. cit., p. 341 e 342.

132 Teve início com o disposto nos n.ºs 5 e 6 do art.º 64º da Lei Geral Tributária, com a redacção dada pelo art.º

57º da Lei n.º 60-A/2005, de 30 de Dezembro (Orçamento do Estado para 2006). Se o nome do devedor constar das listas de débitos ao fisco ou à segurança social, que começam no patamar dos 7.500€, é bem provável que os interessados possam requerer fundadamente a insolvência com base no facto-índice do art.º 20º/1/g).

133 Pode ser consultada no portal Citius e identifica os executados relativamente aos quais não foi possível

identificar bens penhoráveis suficientes para pagar as dívidas (vd. a Portaria n.º 313/2009, de 30 de Março, e a Portaria n.º 279/2013, de 26 de Agosto). Fazendo esta consulta prévia - e ainda que se possa questionar a utilidade da acção falimentar, devido à insusceptibilidade da satisfação dos credores - o requerente poderá eventualmente abrir o processo de insolvência com base no facto-índice do art.º 20º/1/e).

134 A BDCA está prevista no art.º 10º do D. L. n.º 8/2007, de 17 de Janeiro, e pode ser consultada na internet

através da aquisição de uma assinatura anual (vd. www.ies.gov.pt/site_IES/site/servicos.htm).

135 Vd., nomeadamente, o art.º 73º/1 do Código do Registo Comercial e o art.º 104º do Código do Registo

Predial, dos quais resulta que “Qualquer pessoa pode pedir certidões dos atos de registo e dos documentos arquivados, bem como obter informações verbais ou escritas sobre o conteúdo de uns e de outros.” Ora, de entre os actos de registo que podem ser livremente consultados estão, no caso das empresas, as prestações de contas (arts.º 3º/1/n) e 42º do Código do Registo Comercial).

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agir com negligência grave e deverão ser responsabilizados. Seguramente que tal deveria estar contemplado no art.º 22º, mas, pelo menos expressamente, não está 136.

Por outro lado, os outros graus de culpa negligente, mormente a culpa leve (relativa à omissão do grau de diligência normal - art.º 487º/2 do CC) ou mesmo a culpa levíssima (relativa à omissão de cuidados especiais que só as pessoas muito prudentes e escrupulosas observam), atendendo à solução intencionalmente restritiva do art.º 22º, dificilmente poderão nesta sede ser tidos em conta para responsabilizar o requerente.

IV. Para além da prova do dolo do requerente falimentar ser tremendamente difícil e da existência de inúmeros casos de grave incúria que deveriam ser considerados, há um outro factor que aponta para a inadequação do tipo subjectivo do art.º 22º.

De facto, se for censurada somente a dedução dolosa, o requerente que consiga demonstrar a verificação de facto-índice do art.º 20º/1 até pode causar um efeito devastador ao requerido que a sua responsabilização ficará praticamente afastada, nomeadamente e no que aqui interessa 137, porque o grau máximo de culpa parece ficar excluído.

MENEZES LEITÃO aparenta mesmo descortinar nos factos indiciadores elencados no art.º 20º/1 causas de exclusão da culpa, ao sustentar que “Já não parece, no entanto, justificar- se a responsabilização do requerente por pedido infundado nos casos em que este consegue provar algum facto-índice da insolvência, entre os referidos no art.º 20º/1, tendo sido o devedor que, na sua oposição, elide a presunção de insolvência nos termos do art.º 30º/4. Efectivamente, nesta situação não existe dolo, nem sequer negligência grosseira.” 138

Concordamos até certo ponto com esta posição. Na verdade, sendo alegado um facto- índice será realmente muito difícil imputar o tipo doloso do art.º 22º, já que a própria lei consagra aqueles factos como revelações normais do estado de quebra. Não podemos, todavia, ir ao ponto de considerar aqueles factos causas de exclusão da culpa. Pense-se que se o requerente sabe que o devedor está solvente, não é a verificação de uma ocorrência elencada no art.º 20º/1 que o habilita a pedir a declaração judicial de um estado que não existe 139. Se o fizer, agirá dolosamente e poderá ser responsabilizado até nos apertados termos do art.º 22º.

136 Ainda que a literalidade do art.º 22º não pareça consenti-lo, a relevância nesta sede deste grau elevado de

culpa, conforme veremos infra em II. 5., é defendida por grande parte da doutrina.

137 Seguindo a communis opinio, a alegação de um facto-índice será igualmente determinante para se saber se o

pedido de insolvência tem fundamento, se é um acto lícito. Nesta orientação, tais factos podem constituir, eventualmente, causas de exclusão da ilicitude (vd. supra II. 1., p. 22 a 25).

138 Cfr. Direito da insolvência, cit., p. 145, e Código da insolvência…, cit., anotação art.º 22º, p. 71.

139 Com este entendimento, vd. MANUEL REQUICHA FERREIRA, “Estado de insolvência”, cit., p. 342 e 343. A

posição deste autor acerca do valor dos factos-índice no processo falimentar contraria o entendimento maioritário, uma vez que a articulação deles com a legitimidade para requerer a insolvência ou com a responsabilidade por pedido infundado não seria decisiva (op. cit., p. 334 a 343). Neste sentido, os factos indiciadores não seriam, a priori, condição necessária para se poder requerer com legitimidade e fundamento a

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