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Estamos no início de março de 2015. Chego ao Paranoá. São 18h45 do dia 6 de março. São 20 minutos pensando nesse retorno. O que me espera? O que mudou? Onde essa minha chegada me levará? Dúvidas e inseguranças que se fazem presentes, principalmente pelo caminho da pesquisa escolhido, a pesquisa-ação. Segundo Barbier (2007, p. 54), na pesquisa-ação, não levamos o problema pronto, mas o constatamos junto com os sujeitos do contexto vivido: “[...] o problema nasce, num contexto preciso, de um grupo em crise. O pesquisador não o provoca, mas constata-o, e seu papel consiste em ajudar a coletividade a determinar todos os detalhes mais cruciais ligados ao problema, por uma tomada de consciência dos atores do problema numa ação coletiva”.

Da conversa inicial com o orientador, prof. Dr. Renato Hilário dos Reis10, ainda no mês de fevereiro de 2015, discutimos a possibilidade de investigar o processo de transição dos egressos da alfabetização de jovens e adultos do Movimento Popular para a Rede Pública de Ensino. Mas seria isso mesmo? Esse seria o recorte do tecido? Esse caminho teria sentido para o Movimento Popular? Inquieta com essas perguntas, marco um encontro com as lideranças e educadoras populares do Paranoá-Itapoã.

Dia 6 de março de 2015. Chego ao Paranoá, dirijo-me ao Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá – Cedep. É o meu primeiro encontro com integrantes do Movimento Popular do Paranoá-Itapoã, após a seleção no doutorado. São quase 19h. Sou a primeira a chegar. As crianças brincam na rua. O grupo de capoeira chega e o som do berimbau começa a embalar o Cedep. A noite está estrelada e fresca. Esqueço o casaco. Acabo de me recordar como o Paranoá é mais frio que o Plano Piloto. Enquanto espero, o cheiro das mangueiras e o berimbau me fazem companhia.

Vão chegando Maria de Lourdes Pereira dos Santos (Coordenadora da frente de Educação do Cedep), Francinete Sousa da Silva (à época, Coordenadora de turmas da Educação Popular), Eliane (Educadora Popular), Eliana Costa (Educadora Popular) e Leila Maria de Jesus (Presidente do Cedep). A conversa inicia-se em clima muito aconchegante. Sinto-me em casa e à vontade. Como pesquisadora, coloco-me à

10 Renato Hilário dos Reis, Doutor em Educação pela Universidade de Campinas. Pesquisador em educação de jovens, adultos, idosos, do Grupo de Ensino, Pesquisa, Extensão em Educação Popular e Estudos Filosóficos e Histórico-Culturais -Genpex/Faculdade de Educação/Universidade de Brasília. Autor do livro: A Constituição do Ser Humano: amor, poder, saber na educação/alfabetização de jovens e adultos. Autores Associados, Campinas, 2011. Fundamenta-se na metodologia da pesquisa-ação de base marxista. Após sua aposentadoria, em 2016, credencia-se até janeiro de 2019 como Professor-Pesquisador da Universidade de Brasília.

disposição do Movimento Popular do Paranoá-Itapoã. Compartilho algumas ideias iniciais da pesquisa, mas deixo clara a minha abertura para aquilo que o coletivo do Movimento entende como necessidade. O grupo presente faz uma análise sobre a realidade do que estão vivendo:

[...] porque antes estava na 17 (quadra 17). Porque nós temos turmas na 14, na 17 e na 21, aqui no Paranoá. Aí todos esses alunos que estavam no DF Alfabetizado11 [Educação Popular] ao longo desses quatro anos

formaram as turmas de EJA [em uma única escola classe da rede pública de ensino]. E esse último ano, todos esses alunos que completaram oito meses, eles foram encaminhados para a EJA. Então, eu quero ver quantos vão voltar. A gente não sabe quantos desses alunos que nós encaminhamos vão estar realmente lá na sala. E eles vão estar em uma escola só agora. (Fala de Lourdes, reunião coletiva realizada em 6 de março de 2015, grifo meu)

Compreendo, a partir dessa situação, que o acompanhamento, na Rede Pública, do educando e da educanda egressos da Educação Popular do Paranoá-Itapoã é um desafio, um recorte do tecido relevante na conquista da permanência e continuidade de estudos dos educandos e educandas. É um espaço de transição e encontro com uma nova organização político-pedagógica, que possui concepções, estruturas, horários, avaliações e educadores diferentes. Assim, estar com os educandos e as educandas na Rede Pública revela-se como uma necessidade premente para a continuidade do processo iniciado junto ao Movimento Popular do Paranoá-Itapoã/Cedep.

Importante salientar que essa demanda do Movimento Popular estar na Escola Pública não é nova. É uma demanda histórica que aparece no relato de nossa querida Lourdes na tese de doutorado de Reis (2000). Lourdes nos conta que, no final da década de 1980, o Movimento Popular busca estabelecer uma parceria com a Rede Pública para Alfabetização de Jovens e Adultos: “Era um grande avanço. Já pensou? Ter pessoas da comunidade junto com professores da rede oficial e alunos da UnB fazendo essa discussão com os alfabetizandos, que já estão inseridos na Rede Pública.” (REIS, 2011, p. 33).

Esse é o sonho do Movimento Popular do Paranoá, ou seja, estar na Rede Pública, contribuindo para a construção de uma proposta político-pedagógica que discuta e encaminhe as situações-problemas-desafios da comunidade. Lourdes destaca, porém, que na década de 1980 isso não se concretiza. Os professores da rede oficial se negam a fazer um trabalho que discuta os problemas da comunidade. Para Lourdes, isso ocorre

11 Importante esclarecer que em 2015 as turmas de alfabetização de jovens e adultos da Educação Popular estão com financiamento do programa governamental do DF Alfabetizado. Programa que aprofundo no Capítulo 4.9 da Tese.

porque os professores da rede oficial não são do Paranoá, não vivem na pele os problemas da comunidade. Dão suas aulas e voltam para suas casas. Não têm participação na vida da população local. Com isso, barreiras começam a surgir frente à proposta do Movimento Popular. De barreiras em barreiras, chegam a um impasse:

Houve o impasse com os professores da rede oficial. Tivemos muitas discussões e eles não aceitaram muito bem a proposta. Depois de muita conversa, a gente viu que não ia dar certo. Resolvemos então deixar a estrutura que tínhamos montada de um trabalho todo diferente. [...] Com isso, resolvemos de novo, já tínhamos saído do Mobral, deixar o espaço institucional e continuar nos espaços comunitários. Eles continuaram lá com a política tradicional. Fizemos um recuo tático, mas, hoje, eu entendo que, se tivéssemos aprofundado e levado avante essa discussão, poderia ter sido o grande gancho para uma transformação muito mais geral e profunda do como fazer educação no Paranoá. (REIS, 2011, p.33-34, grifo meu)

A partir desse impasse, um recuo tático. Recuo tático por compreender que o melhor a fazer é ir para espaços comunitários e desenvolver a proposta político- pedagógica do Movimento Popular. Para mim, esse registro histórico de Lourdes fundamenta todo o sentido desta pesquisa-ação: e se tivéssemos aprofundado e levado avante essa discussão na Rede Pública de ensino? Que Rede Pública teríamos hoje no Paranoá? É claro que essas são conjecturas do nosso imaginário. O recuo tático traz também muitas possibilidades. Trinta anos depois, retomamos essa proposta, hoje, com uma experiência mais sedimentada e, talvez, com mais maturidade para trabalhar os impasses que continuam existindo.

A conversa sobre os impasses da caminhada me interessa muito. Parece que os impasses não ocorrem na primeira vez. Segundo Lourdes, as barreiras vão sendo erguidas, o diálogo vai ficando difícil, as dificuldades tornam-se maiores que os sonhos, a jornada começa a se tornar insustentável. Não aguentamos. Tentamos. Lutamos. Sofremos. Adoecemos. Mas as barreiras constituídas vão sendo de difícil escalada. Recuamos.

Entretanto, os recuos são parte de um processo estratégico de conquista e salto qualitativo. O perder, momentâneo, pode ser uma conquista futura. Nem sempre nos damos conta desse processo histórico e dialético, de avanços e recuos. Diante dos primeiros problemas e barreiras, desistimos. No caso do Paranoá, é um recuo; o sonho do Movimento Popular do Paranoá-Itapoã de estar na Rede Pública permanece até hoje.

Contribuir para esse processo de aproximação da perspectiva de Educação Popular, historicamente construída pelo Movimento Popular do Paranoá-Itapoã e Universidade de Brasília, com a Educação de Jovens e Adultos da Rede Pública de ensino

do Paranoá é a principal situação-problema-desafio (REIS,2000;2011) desta Tese. Situações-problemas-desafios que se referem às “necessidades econômicas, financeiras, sociais, culturais e afetivas que caracterizam o cotidiano vivido/enfrentado pelos moradores do Paranoá, como decorrência da lógica excludente inerente à distribuição da riqueza econômica e cultural produzida do modo de produção dominante no país” (REIS, 2011, p.161). Compreendo que a singularidade do meu trabalho só tem sentido se vinculada ao processo histórico de luta e conquista do Movimento Popular do Paranoá- Itapoã. Assim, esse “recorte de tecido” não me desvincula do todo; ao contrário, me implica mais nele: “o singular só pode ser entendido em toda sua riqueza quando visto como parte das relações que compõem o todo” (DUARTE, 2000, p. 92).

Pensando nisso e na contribuição que quero dar com esta pesquisa-ação, elaboro minhas perguntas e objetivos: Como essa pesquisa-ação, que tem como principal referência o processo formativo na educação popular, pode dialogar com a formação dos jovens, adultos e idosos trabalhadores que estão na Rede Pública de ensino, mais especificamente, os educandos e educandas do 1º Segmento12 (1ª a 4ª Etapas) do Ensino Fundamental da Educação de Jovens, Adultos e Idosos Trabalhadores? Como estar dialogando vozes e sentidos da Educação Popular com as vozes e sentidos da Educação de Jovens, Adultos e Idosos Trabalhadores da Rede Pública de ensino do Distrito Federal? Como continuar contribuindo com esse processo de resistência e teimosia esperançosa, estando processual-organicamente (REIS, 1996, p. 41) na Rede Pública? Com essas indagações em mente, delineio meus objetivos geral e específicos:

Objetivo geral

• Analisar e contribuir para o processo de dialogia-dialética entre a Educação Popular, constituída historicamente entre a Universidade de Brasília e o Movimento Popular do Paranoá-Itapoã, e a Educação de Jovens, Adultos e Idosos Trabalhadores de uma Escola Classe da Rede Pública de ensino do Paranoá- Distrito Federal.

12 No Distrito Federal, a Educação de Jovens e Adultos utiliza a terminologia de Segmentos para distinguir as fases da Educação de Jovens e Adultos. O 1º segmento corresponde às 1ª a 4ª etapas do Ensino Fundamental. O 2º segmento, às 5ª a 8ª etapas do Ensino Fundamental. E, o 3º segmento, às 1ª a 3 etapas do Ensino Médio. Na EJA, cada etapa corresponde a um semestre letivo. Já o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP, instituição brasileira responsável pelo Censo Escolar, utiliza-se da terminologia Anos Iniciais do Ensino Fundamental, Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Neste trabalho, opto pela terminologia do Distrito Federal, locus da minha pesquisa.

Objetivos específicos

• Problematizar as vozes e sentidos que constituem o campo da Educação Popular e da Educação de Jovens, Adultos e Idosos Trabalhadores na história da educação brasileira;

• Investigar as vozes e sentidos da Educação Popular, constituída historicamente entre a Universidade de Brasília e o Movimento Popular do Paranoá-Itapoã, que têm como marca a perspectiva histórico-cultural marxista de desenvolvimento humano;

• Contribuir para o processo de dialogia-dialética entre a Educação Popular e a Educação de Jovens, Adultos e Idosos Trabalhadores que vem ocorrendo desde 2015, a partir da parceria Universidade de Brasília, Movimento Popular do Paranoá-Itapoã/Centro de Cultura e Desenvolvimento do Paranoá – Cedep e uma Escola Classe da rede pública de ensino do Paranoá-DF.

Ao tecer esses objetivos, sinto a necessidade de aprofundá-los ponto a ponto, embora todos estejam entrelaçados: dialogia-dialética, desenvolvimento humano na perspectiva histórico-cultural marxista, vozes e sentidos.

Em relação à dialogia-dialética, concordo com Bakhtin quando diz que “a única forma adequada de expressão verbal da autêntica vida do homem é o diálogo inconcluso. A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo” (BAKHTIN, 2010, p. 349). No fundo, é isso que procuro com essa pesquisa: viver. A vida só é possível se participamos do diálogo. Se somos considerados, ouvidos, acolhidos (REIS, 2000; 2011). E Bakhtin continua, “[...] Neste diálogo o homem [a mulher] participa por inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana.” (BAKHTIN, 2010, p. 349)

Compreendo, assim, que o sentido da vida nasce dessa relação eu-outro, o espaço da liberdade humana: “o sentido nasce do encontro de dois sujeitos, e esse encontro recomeça eternamente.” (BAKHTIN, 2010, p. XXXII). Sobre a relação eu-outro, sublinho que me refiro às relações sociais, “tal como é proposta de Marx e Engels e Vigotski” (PINO, 2000, p. 64), que dizem respeito a dois planos diferentes e interligados: “o plano estrutural da organização social, com suas dimensões políticas e econômicas, e

o das relações pessoais entre indivíduos concretos” (PINO, 2000, p.64). Esse destaque de Pino é importante, pois fortalece a dimensão de que a relação social dialógica-dialética perseguida nesta Tese assume a natureza constituidora do conflito de classe.

É reconhecendo esse embate, que se galga, com vitórias-derrotas, resultantes como síntese de caminhos e aprendizados novos em que todos os lados são transformados. Para que isso ocorra, é preciso abertura, escuta, uma relação social dialógica-dialética. Relação social dialógica-dialética que se contrapõe a uma relação monológica, como desvela Bakhtin:

O monologismo nega ao extremo, fora de si, a existência de outra consciência isônoma e isônoma-responsiva, de outro eu (tu) isônomo. No enfoque monológico (em forma extrema ou pura), o outro permanece inteiramente apenas objeto da consciência e não outra consciência. Dele não se espera uma resposta que possa modificar tudo no mundo da minha consciência. O monólogo é concluído e surdo à resposta do outro, não o reconhece nele força decisiva. Passa sem o outro e por isso, em certa medida, reifica toda a realidade. Pretende ser a última palavra. Fecha o mundo representado e os homens representados. (BAKHTIN 2010, p. 348, grifo meu) As ponderações de Bakhtin são precisas e gostaria de analisar cada detalhe. Primeiro, o monologismo como relação social que nega a isonomia, a igualdade entre os seres humanos. Nessa relação, já existe a premissa que não somos iguais ou temos direitos iguais. Com isso, minha voz não vale o mesmo que a do outro, porque não temos os mesmos direitos. O outro permanece como objeto da consciência e não como outra consciência. Há um sentimento de desigualdade presente, sendo um superior. O outro torna-se uma coisa, um depositório de informações, um objeto, sem possibilidade e capacidade de pensar-agir. Não é outra consciência; é, apenas, objeto. Não existe abertura para a dialeticidade da relação eu-outro como possibilidade de afetar e ser afetado, transformando mutuamente as consciências. No monologismo, apenas um lado tem força decisiva. O outro, obedece e é silenciado (REIS, 2011, p.71). Atribui-se a alguém a última palavra.

Em contraponto, na dialogia-dialética, busca-se a igualdade entre os seres humanos, uma relação entre sujeitos, o poder decisório não está na mão de uma única pessoa, mas é compartilhado e realizado por todos que fazem parte da relação. O poder decisório não é de um, é de todos. É o que denomino de vez, voz e decisão individual e coletiva. Relação que é de acolhida, convergências-divergências, encontros-confrontos,

avanços-recuos, como tem se constituído a relação entre Genpex/FE/UnB e o Movimento Popular do Paranoá-Itapoã.

Nessa parceria, um espaço fundamental de exercitação da dialogia-dialética é o Encontro de Convivência e Aprendizagem Coletiva (Fórum): “O fórum é uma reunião geral, uma aula coletiva, com a participação de todos os alfabetizandos, alfabetizadores, dirigentes da organização popular, professores, alunos e técnicos da UnB. Há também a ocorrência da participação dos já alfabetizados [...]” (REIS, 2011, p. 55). Espaço de exercitação e aprendizado de uma relação social em que “cada ideia é a ideia de alguém, situa-se em relação a uma voz que a carrega e a um horizonte a que visa. No lugar do absoluto, uma multiplicidade de pontos de vista: os das personagens e o do autor que lhes é assimilado; e eles não conhecem privilégios, nem hierarquias” (BAKHTIN, 2010, p. XX-XXI).

No percurso dessa exercitação dialógica-dialética do “Encontro de Convivência e Aprendizagem Coletiva (Fórum)” aprendo algo fundamental: no fórum, entramos de um jeito e saímos de outro. Chego carregada de minhas posições e certezas. Outras palavras circulam na roda. Escuto. Concordo com algumas, discordo de outras. Novas vozes circulam. Novos pontos de vista. Espera um pouco: não havia pensado nisso! Enxergo um novo horizonte ainda não visto. Concordo. Nesse contexto, não tem mais sentido as posições trazidas. Algo mudou, a partir do horizonte do outro. Como não tinha pensado nisso ainda? Caminho novo nascendo, nem só meu, nem só seu, meu-seu. Uma festa de renovação, como me diz Bakhtin (2010, p. 410).

Essa relação social dialógica-dialética remete-me à relação dialética ser humano- natureza pelo trabalho vivo:

O fio que não se emprega na produção de tecido ou de malha é algodão que se perde. O trabalho vivo tem de apoderar-se dessas coisas, de arrancá-las de sua inércia, de transformá-las de valores de uso possíveis em valores de uso reais e efetivos. O trabalho, com sua chama, dela se apropria, como se fossem partes do seu organismo, e de acordo com a finalidade que o move, lhe empresta vida para cumprirem suas funções; elas são consumidas, mas com um propósito que as torna elementos constitutivos de novos valores de uso, de novos produtos que podem servir ao consumo individual como meios de subsistência ou a novo processo de trabalho como meio de produção. (MARX, 2016, p. 217)

Assim, metaforicamente, na relação social dialógica-dialética, existe um fio solto que vai se perder. Uma divergência. Algo está fora da costura. O que fazer? Ignorar? Abandonar? Excluir? Silenciar? Ou acolher? O trabalho vivo acolhe esse fio, dá valor a

esse fio, lhe empresta vida e o modifica. O fio deixa de ser fio e é consumido pelo trabalho humano vivo. Transforma-se. Torna-se linha da costura. Não mais um fio solto, mas uma linha que é parte da costura. Uma resultante dialética em que o ser humano se aplica, dedica-se, abre-se ao novo, transforma-se. Uma resultante possível, fruto de um processo real-concreto de dialogia-dialética, em que na relação eu-outro modifico e me modifico, me torno humana.

Relação eu-outro que é central na perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano marxista, que ancora esta Tese. Sobre isso, Bakhtin me presenteia com uma passagem sobre a relação mãe-filho:

De fato, mal a pessoa começa a vivenciar a si mesma de dentro, depara imediatamente com atos de reconhecimento e amor de pessoas íntimas, da mãe, que partem de fora ao encontro dela: dos lábios da mãe e de pessoas íntimas a criança recebe todas as definições iniciais de si mesma. Dos lábios delas, no tom volitivo- emocional do seu amor, a criança ouve e começa a reconhecer o seu nome, a denominação de todos os elementos relacionados ao seu corpo e às vivências e estados interiores; são palavras de pessoas que ama as primeiras palavras sobre ela, as mais autorizadas, que pela primeira vez lhe determinam de fora a personalidade e vão ao encontro da sua própria e obscura auto-sensação interior, dando- lhe forma e nome em que pela primeira vez ela toma consciência de si e se localiza como algo. (BAKHTIN, 2010, p. 46-47, grifo meu)

Bakhtin inicia o texto afirmando que a criança recebe todas as definições de si dos lábios da mãe. Desenvolvimento humano que se inicia ainda no ventre materno. Da boca da mãe, o filho ouve todas as suas definições iniciais. Esse é exatamente o desafio que começo a vivenciar no dia 2 de dezembro de 2015, data do nascimento de meu filho, Domício Lemes Sobral. Pego-o no colo pela primeira vez e uma alegria inexplicável toca meu coração. Uma alegria e um medo desse outro tão desconhecido. Outro totalmente dependente de mim. Outro que preciso amar, alimentar, ninar, cuidar, tocar, conversar.

Já na amamentação, vejo-me diante de um ser humano tão pequeno que trabalha muito. Trabalha para produzir sua própria vida (ENGEL, 1979, p. 215). Fome, sede, carinho, tudo ali, entre o meu olhar, meus braços, meu peito e o corpo pequeno e frágil dele. Queremos vida e essa relação é o caminho para a sobrevivência e existência. Aprendemos juntos. Trabalhamos noites e noites a fio. Talvez um dos trabalhos mais duros e belos que existem. O dar-se ao outro em meio ao caos do totalmente novo. Novo para mim, novo para ele. Ele vai nascendo como filho e eu vou nascendo como mãe.

Relação dialética primeira. Vamos, juntos, nos localizando no mundo, eu, como mãe, ele, como filho.

À medida que Domício se desenvolve, percebo com mais clareza esse processo. Seu olhar atento me busca a todo momento. A necessidade da minha presença constante reflete o seu desejo infinito de aprender a enxergar, sentir, cheirar, tocar o mundo. Estar