Nível Terciário - Hospitais Nacionais (Centrais)
C. Da Governabilidade
A.1. Recursos Humanos em Saúde
A alocação, desenvolvimento e distribuição dos Recursos Humanos para a Saúde apresentam sérias deficiências ao nível de todo o país sendo o problema muito mais complicado no interior e particularmente nas zonas remotas (ANGOLA, 2005d). Esta constatação motivou o Ministério da Saúde a iniciar em 1997 a implementação de um plano de desenvolvimento de recursos humanos (para a década 1997-2007), para corrigir distorções no perfil do pessoal. O objetivo principal do plano era deter as tendências de degradação dos recursos humanos de saúde, e encaminhá-las para uma visão partilhada para o ano 2007.
Desde a independência, em 1975, o MINSA foi obrigado a recorrer à força de trabalho estrangeira para superar as carências de técnicos especializados em determinados serviços de saúde bem como para fazer chegar, em certos pontos distantes do país, uma saúde de qualidade às populações (ANGOLA, 1999b).
Com a reforma administrativa em curso e com o processo de descentralização, a admissão do pessoal de saúde, segundo documentação do XX Conselho Consultivo do MINSA de 2009, deixou de ser unicamente através de contratos e acordos bilaterais, passando a existir os seguintes mecanismos de recrutamento: 1) Concurso público anual (para preenchimento de vagas e reposição); 2) Contrato de provimento (em caso de disponibilidade financeira na instituição e necessidade imperiosa do referido quadro, sendo necessária autorização das instâncias superiores); 3) Contrato de trabalhador estrangeiro não residente e 4) Contrato bilateral entre Angola e outros países (acordos bilaterais).
Os concursos públicos anuais para recrutamento de pessoal para os serviços provinciais e municipais são conduzidos fundamentalmente pelos governos provinciais não
tendo, com a descentralização, a Direção Nacional de Recursos Humanos do MINSA papel relevante no processo, considerando a extinção nas Direções Provinciais da Saúde, dos Departamentos/Direções Provinciais dos Recursos Humanos.
Os dados disponíveis indicam que majoritariamente os médicos estrangeiros alocados na rede são não residentes (expatriados) de nacionalidade Cubana, Vietnamita, Egípcia, Coreana e Russa, entre outras.
Para atender a demanda dos serviços de saúde, Angola tem segundo dados estatísticos de 2006 do MINSA, 1.601 médicos, sendo 892 angolanos e 709 estrangeiros (gráfico 5) perfazendo uma razão de 0,56 médicos nacional para cada 10.000 habitantes, sendo que uma parte do total dos médicos nacionais exerce cargos de direção e chefia e outra se encontra regularmente no exterior do país em cursos de pós-graduação inclusive com o patrocínio de algumas direções hospitalares.
Gráfico 5 – Porcentagem de Médicos Angolanos e Expatriados no SNS em 2006
Médicos Nacionais ;
892; 56%
Médicos Estrangeiros;
709; 44%
Fonte: Angola (2006)
O número de médicos em geral alocados no SNS registrou um crescimento razoável de 759 médicos em 2000 para 1601 em 2006 fundamentalmente devido à contratação nos últimos anos da série histórica de médicos estrangeiros (tabela 10 e gráfico 6). A razão médico angolano/habitante oscilou muito pouco de 0,49 médicos para 10.000 habitantes em 2000, atingido o nível mais alto em 2005, de 0,64 médicos para 10.000 habitantes em 2005.
Tabela 10 - Médicos alocados no Serviço Nacional de Saúde (2000 – 2006)
Anos 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
Nº de médicos angolanos 654 652 *652 704 769 995 892 Nº de médicos Estrangeiros 105 197 *197 *197 396 463 709 Total de médicos 759 849 *849 901 1.165 1.458 1601 Médico Nacional/10.000 hab. 0,49 0,47 0,47 0,49 0,51 0,64 0,56
Fonte: Angola (2000a, 2001, 2002a, 2003b, 2004, 2005c, 2006, 2007g). * Dados do ano anterior, por inexistência de dados do ano.
Gráfico 6 - Número de Médicos alocados no SNS de 2000 a 2006.
654
105 652
197 652
197 704
197 769
396 995
463 892
709
0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1000
Número de Médicos
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
Série Histórica Médicos angolanos Médicos Estrangeiros Fonte: Angola (2000a, 2001, 2002a, 2003b, 2004, 2005c, 2006).
Quando se observa a sua alocação no geral (tabela 11 e gráfico 7), se constata que, a sua grande maioria, cerca de 70%, se concentra na cidade capital do país e seus arredores, que possui cerca de 5.000.000 habitantes, 1/3 da população angolana, tendo esta província a média de 2,36 médicos para cada 10.000 habitantes, havendo províncias, como Bié, Malange e Uíge com a média de 0,08 médicos para 10.000 habitantes para a primeira e de 0,09 médicos para cada 10.000 habitantes para a segunda e terceira.
Da análise dos dados da série histórica e particularmente de 2005 e 2006 e focalizando a atenção na distribuição de médicos pelas províncias do país se depreende que 85% dos médicos Angolanos que exercem a atividade médica em Angola estão concentrados em Luanda e em quatro províncias do litoral do país, Benguela, Kwanza-Sul, Namibe e Cabinda, com apenas 1/3 do total da população Angolana (dados do MINSA de 2005) como demonstra o gráfico nº 5. Isto se deve provavelmente ao fato destas províncias terem vivido menos as atrocidades da guerra reunindo assim melhores condições sociais.
Tabela 11 - Comparação dos Profissionais Alocados em Luanda com as demais Províncias (2005 e 2006)
Ano 2005
Províncias Médicos nacionais e estrangeiros Enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica Quantidade e porcentagem Quantidade Porcentagem
Nac. % Estrang. Total %
Província
de Luanda 680 68,3% 122 802 55% 9287 40,8%
Restantes províncias
315 31,7% 341 656 45% 13474 59,2%
Total 995 100,00% 463 1458 100,00% 22761 100, 00%
Ano 2006
Províncias Médicos nacionais e estrangeiros Enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica
Quantidade e porcentagem Quantidade Porcentagem
Nac. % Estrang. Total %
Província de Luanda
642 71,9% 104 746 46,6% 9287 30,4%
Restantes províncias
250 28,1% 605 855 53,4% 21172 69,6%
Total 892 100% 709 1.601 100,00% 30.459 100, 00%
Fonte: Angola (2005c e 2006)
Gráfico 7 - Comparativo de Médicos alocados em Luanda e Províncias do Litoral com as Demais Províncias. Ano - 2005
4.972.000
85%
10.592.000
15%
Luanda e 4 provincias do litoral 13 Províncias do interior
13 Províncias do interior 10.592.000 15%
Luanda e 4 provincias do litoral
4.972.000 85%
Número de Habitantes Porcentagem de Médicos
Fonte: Angola (2005c)
O mesmo se verifica quando se analisa os dados referentes aos enfermeiros que oscilaram de 11,03 para 10.000 habitantes em 2000, para 17,46 profissionais para 10.000 habitantes em 2007 (tabela 12 e gráfico 8), registrando-se no período estudado a média proporcional de 12.95 enfermeiros para cada 10.000 habitantes com uma grande variação entre as províncias, tendo a maioria das províncias do litoral, acima de 20 profissionais para 10.000 habitantes, enquanto que as províncias do interior têm um número muito abaixo desta cifra.
Tabela 12 – Número de Enfermeiros e Razão Enfermeiro/habitante (2000-2007)
Anos 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Nº de enfermeiros 14783 a)14783 16037 16459 18975 18975 26.475 28.848
Enfermeiro/10.000 Habitantes
11,03 a) 11,03 11,27 11,57 12,56 12,19 16,51 17,46
Fonte: Angola (2000a, 2001, 2002a, 2003b, 2004, 2005c, 2006 e 2007g). Legenda: a) - Dados do ano anterior
Gráfico 8 - Enfermeiros alocados no SNS, de 2000 a 2007
28.848
26.475 18975
18975 16459
16037 14783
14783
0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007
Série Histórica
N úm er o de E nf er m ei ro s
Fonte: Angola (2000a, 2001, 2002a, 2003b, 2004, 2005c, 2006, 2007g).
Analisando de forma geral os quadros de enfermeiros e de técnicos de diagnóstico do setor da saúde observa-se que, a província de Luanda concentra cerca da metade deste segmento profissional (tabela 11).
Portanto, da análise dos dados e da observação feita pode-se afirmar que são bastante acentuadas as distorções de distribuição do pessoal o que dificulta a intensificação de intervenções prioritárias de saúde que respondam às necessidades das comunidades locais, particularmente nas zonas mais recônditas.
Para além da má distribuição e da insuficiência de quadros, fenômeno que se registra não só em todas capitais provinciais, mas também e, sobretudo, nos seus municípios, existem outros fatores agravantes da situação.
Constatou-se, por exemplo, da observação direta (diário de campo), que boa parte do pessoal qualificado do subsistema privado nas cidades é o mesmo que trabalha no subsistema público (SNS), com evidentes prejuízos para ambos os lados e com reflexos diretos na qualidade de atendimento aos usuários.
Verifica-se o aumento progressivo dos salários (Gráfico nºs 9 e 10) e esforços para a melhoria das condições de trabalho, com a construção, reabilitação e reequipamento de Unidades Sanitárias inclusive nos municípios do interior visitados. O salário máximo dos médicos variou de menos de USD 100,00 em 2000 para cerca de USD 2.300,00 em 2007 tendo o salário mínimo desta categoria profissional atingido cerca de USD 1.200,00 em Agosto de 2007 (ANGOLA, 2009c)
Os salários dos enfermeiros e dos técnicos de diagnóstico e terapêutica também aumentaram consideravelmente no período 2000-2007 oscilando o salário máximo de menos de 50,00 dólares para USD 2.000,00 (ANGOLA, 2009c)
Apesar disso, os salários da maioria de categorias profissionais são ainda baixos considerando o elevado custo de vida verificando-se também atrasos no seu pagamento. Os diretores de hospitais e diretores clínicos têm os mesmos salários que os médicos, ao passo que os responsáveis das secções municipais de saúde têm salários um pouco mais baixos avaliados em 2005, em USD 866,00 (ANGOLA, 2005f). Vale referir que, as diferentes categorias profissionais recebem diferentes tipos de subsídios de acordo com a responsabilidade e desempenho o que acaba sendo um razoável incentivo mensal.
As deficientes condições, sobretudo, no interior e a falta de incentivos condizentes faz que os médicos se concentrem nos hospitais gerais de referência, unidades com melhores condições, com formação on job e com possibilidade de troca de experiência entre os profissionais das mais diversas especialidades.
Como observado na província de Cabinda (OLIVEIRA e ARTMANN, 2009a), a indefinição de fluxos de capacitação e formação nos distintos níveis é um problema nacional.
Mesmo com iniciativa local, considerando a falta ou a insuficiência do orçamento, os cursos de curta duração nas unidades sanitárias, no exterior e também os de pós – graduação não são extensivos aos profissionais colocados nas regiões do interior.
Gráfico 9 - Evolução Salarial dos Médicos, de 1999 a 2007
Fonte: Angola (2009c)
Gráfico 10 - Evolução Salarial dos Enfermeiros e Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica
Fonte: Angola (2009c)
Constatam-se também dificuldades no tocante aos cursos de graduação em medicina, pois o país dispõe apenas de 2 (duas) faculdades de medicina em funcionamento, ambas localizadas em Luanda, sendo uma pública, a Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto (FMUAN), e a outra privada, a Universidade Jean Piaget de Angola
0,00 500,00 1.000,00 1.500,00 2.000,00 2.500,00
Ago-99 Fev-00
Ago-00 Fev-01
Ago-01 Fev-02
Ago-02 Fev-03
Ago-03 Fev-04
Ago-04 Fev-05
Ago-05 Fev-06
Ago-06 Fev-07
Ago-07
Minímo Maximo
0,00 500,00 1.000,00 1.500,00 2.000,00 2.500,00
Ago-99 Fev-00 Ago-00 Fev-01 Ago-01 Fev-02 Ago-02 Fev-03 Ago-03 Fev-04 Ago-04 Fev-05 Ago-05 Fev-06 Ago-06 Fev-07 Ago-07
Minímo Maximo
(UNIPIAGET), fundada no inicio da década de 2000. A faculdade de medicina do Huambo (pública) encontrava-se ainda fechada durante o período do estudo.
Tabela 13 - Número de Concluintes/egressos de Graduação em Medicina em Angola (2001-2007)
Instituição de Ensino
Ano letivo
2001/02 2002/03 2003/04 2004/05 2005/06 2006/07 2007/08
FMUAN 63 46 57 63 54 78 98
UNIPIAGET N/E N/E N/E N/E N/E 16 33
Fonte: Angola (2009d)
Legenda: FMUAN - Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho; N/E - Não Existia.
UNIPIAGET – Universidade Jean Piaget de Angola
______________________________________________________________
A pública (FMUAN), forma anualmente, em média, cerca de 70 médicos (tabela 13), número manifestamente insuficiente para atender a demanda do País (ANGOLA, 2009d). A UNIPIAGET formou os primeiros profissionais médicos no ano acadêmico 2006/2007.
Considerando esta localização dos estabelecimentos de ensino médico, todos os interessados eram obrigados a recorrer à capital do país (Luanda), com recursos financeiros próprios considerando ainda a incipiência da política de bolsas internas.
Nas províncias visitadas constata-se a quase inexistência de profissionais formados em saúde pública, gestão hospitalar e de sistemas de saúde, bem como de eletrotécnicos para equipamentos hospitalares o que inviabiliza em grande medida a implementação de programas estratégicos de prevenção e controlo de endemias, o reforço das redes locais de saúde e a durabilidade dos equipamentos hospitalares.
As conclusões do Plano Nacional de Desenvolvimento Sanitário de 2006 a 2008 (ANGOLA, 2005d) quanto ao sub-setor dos Recursos Humanos aponta, dentre outros aspectos, que a gestão do pessoal da saúde no SNS é caracterizada por:
• Ausência de uma política de emprego que assegura uma adequada relação entre a formação e as necessidades: daí advém os vazios entre os perfis de postos e daqueles dos titulares.
• Ausência de descrição apropriada dos postos em todos os níveis;
• Ausência de planos de carreiras rigorosamente seguidos com os procedimentos racionais de promoção, de sanções, e de recompensa.
• Baixa motivação do pessoal tendo em conta os baixos salários em termos reais, a carência de formação contínua e de supervisão e as deficientes condições de trabalho;
• A distribuição desequilibrada do pessoal entre as zonas rurais e urbanas, entre as diferentes regiões geográficas e entre as diferentes categorias das instituições de saúde.
Esta distribuição desequilibrada consubstancia-se, como observado (Diário de Campo), na existência de unidades de saúde, particularmente no nível municipal e comunal, cujo funcionamento é assegurado por técnicos básicos e auxiliares de enfermagem.
Em vários municípios, os responsáveis de saúde (nomeados ou indicados) acumulam diversas funções, por exemplo, de chefe de secção municipal e de diretor do hospital municipal. Em uma das províncias visitadas encontrou-se uma enfermeira básica que acumulava, para além das duas funções já mencionadas, as de diretor clínico do hospital municipal e de diretora de enfermagem. Isto devido, segundo informações recolhidas, a falta de quadros e/ou combinada com a necessidade de orçamento do hospital municipal atender também as preocupações das demais unidades sanitárias do município.
O grupo de promotores de saúde que desempenharam um grande papel junto das comunidades no passado foi extinto com a sua re-qualificação (conversão em técnicos auxiliares, técnicos básicos de enfermagem) (ANGOLA, 2005g), mantendo-se atuante ainda, no nível comunitário, o grupo de parteiras tradicionais, não dependentes do MINSA a quem apenas reportam os dados estatísticos sobre as suas atividades.