2 METODOLOGIA PARA O ESTUDO DO RECRUTAMENTO E CARREIRAS DOS
2.6 Estratégia para análise do recrutamento em ASN
2.6.3 Recursos sociais e perfil sócio-profissional
No decorrer do presente trabalho, observa-se o predomínio de recrutamento partidário. O acesso à elite de nomeados é oferecido a indivíduos sem qualquer experiência política em cargos eletivos ou na administração pública. Em decorrência da criação de novos municípios verifica-se a inexistência de uma elite política articulada, esta somente será encontrada em localidades com emancipação anterior a 1950. Assim a equação para o recrutamento promovida pelas agências dos selectorate: nem sempre valorizaram indivíduos “competitivos”, pois estes não precisariam enfrentar eleições. Como resultado, tem-se um recrutamento com padrão exógeno ao grupo da Arena. Isso quer dizer que buscavam no grupo de “governados” os indivíduos com qualidades “superiores”, afim de legitimar e até justificar o predomínio dos “governantes”.
O quebra-cabeças é compreender como os recursos sociais e de posição podem auxiliar na explicação do recrutamento em uma sociedade de colonização recente, que sofre um processo de redefinição geográfica (emancipação), desprovida de uma classe política, sem uma hierarquização social muito definida e submetida a um sistema de escolha fechado, mas que conta com a presença de partidos.
Da análise dos recursos sociais dos nomeados, pode-se extrair padrões, quais, por sua vez, atuarão como fonte de distinção (Bourdieu, 2001), ou seja, a posse de determinados atributos e qualidades socialmente reconhecidas pelos integrantes das agências dos selectorate, acabam por legitimar o domínio (Bourdieu, 2004; Mosca, 1923). O selectorate deveria procurar indivíduos com uma “ficha limpa” e sem máculas. Na fase local deveria recrutar os melhores quadros, que posteriormente passariam pelo aval do governo estadual (segundo etapa). Para estas escolhas os critérios de seleção eram variados, como os recursos sociais, nome de família, integrante dos quadros da Arena.
Mosca comenta que a “superioridade” das minorias não reside apenas na sua organização, mas na forma como se diferenciam da massa por “certe qualità”: (i.e) “qualquer atributo, verdadeiro ou aparente, que seja fortemente apreciado e de muito valor na sociedade que vivem”135. Evitando a tendência de explicar a hierarquia social com base a teoria darwinista. Para compreender a minoria que governa, é preciso considerar seus recursos
135 Però, oltre al vantaggio grandissimo che viene dall'organizzazione, le minoranze governanti ordinariamente sono costituite in maniera che gl'individui che le compongono, si distinguono dalla massa dei governati per certe qualità, che danno loro una certa superiorità materiale ed intellettuale od anche morale, oppure sono gli eredi di coloro che queste qualità possedevano: essi in altre parole devono avere qualche requisito, vero od apparente, che è fortemente apprezzato e molto si fa valere nella società nella quale vivono. (Mosca, 1923, p. 96–97) A tradução livre e o destaque em itálico é nosso.
(intelectuais e econômicos), o princípio de constituição de autoridade (se autocrático ou liberal) e sua tendência à formação (aristocrática ou democrática)136. Nas ASN o princípio será autocrático e o recrutamento se dá de maneira fechada, sendo um sistema autoritário, centrado em grupos restritos e com poder para definir, na maior parte das vezes, quem governará.
Da mesma forma que Mosca não reconhece o “darwinismo social” como a fonte explicativa para hierarquização social137, Bourdieu, como já citado no capítulo introdutório, tece críticas ao método posicional, dizendo que é mais fácil observar “grupos, indivíduos que pensar relações” (2004, p. 27-29). Entretanto, Bourdieu reconhecera a dificuldade em se “apreender os espaços sociais de outra forma que não seja a de distribuições de propriedades entre indivíduos” (2004a, p. 29). Surgindo a noção de que os capitais seriam o resultado das posições ocupadas pelos indivíduos em determinado campo.
Para Mosca certos “atributos”, aqueles “valorizados socialmente”, atuam como elementos de distinção entre uma sociedade dividida em governantes e governados. “Mas a verdade é que a posição social, a tradição de família, os hábitos da classe do qual vivemos, contribuem para um maior o menor desenvolvimento das qualidades mencionadas, mas não é o que comumente se crê”138 (1923, p. 112). Pensando nisso, é possível verificar estas diferenças entre os nomeados, através da comparação dos recursos sociais no tempo e espaço geográfico.
O método posicional, ou das posições, empregado por diversos autores139, possibilitará a verificação destes atributos (membro de família política tradicional, posse de diploma universitário, profissão). Ser professor, militar, comerciante e agropecuarista, constituem a base sócio-profissional considerada, pelo selectorate ou a “minoria governante”, como elementos que capacitavam estes indivíduos para a atividade política. Para analisar estes recursos, utiliza-se a noção de capital empregada na teoria bourdiesiana.
136 (Perissinotto, 2003, p. 21)
137 Mosca comenta o seguinte sobre o darwinismo social: Dopo ciò diremo come le aristocrazie ereditarie spesso hanno vantato una origine soprannaturale o almeno diversa e superiore a quella delle classi governate; tale pretesa si spiega con un fatto sociale importantissimo, del quale dovremo lungamente parlare nel seguente capitolo, e che fa sì che ogni classe governante tende a giustificare il suo potere di fatto appoggiandolo ad un principio morale d'ordine generale. Recentemente però la stessa pretesa si è presentata con l'appoggio di un corredo scientifico. Qualche scrittore, sviluppando ed ampliando le teorie del Darwin, crede che le classi superiori rappresentino un grado più elevato dell'evoluzione sociale e che esse quindi siano per costituzione organica migliori di quelle inferiori; il Grumplowicz, già citato, va più avanti e sostiene nettamente il concetto che la divisione dei popoli in classi professionali è fondata, nei paesi di moderna civiltà, sopra una eterogeneità etnica. (Mosca, 1923, p. 111) O destaque é nosso.
138 “Ma la verità è che la posizione sociale, le tradizioni di famiglia, le abitudini della classe in cui viviamo, contribuiscono al maggiore o minore sviluppo delle qualità accennate più di quanto comunemente si crede (...)”. 139 (Bottomore, 1993; Bourdieu, 2004a, 2007b; CHARLE, 1987, 2008; Dahl, 1970; Mills, 1981; Putnam, 1976)
2.7 ESTRATÉGIA PARA ANÁLISE DAS CARREIRAS DE NOMEADOS APÓS