*Com base em Michaelis (1996)
Cada espaço que serve de input para a estrutura geral da mesclagem apresenta uma estrutura própria: há um determinado tempo t e há a configuração de um evento x (ou de um estado), que é mantida através dos espaços. No espaço mescla, no qual está realizada a compressão, apenas tn é o tempo relevante a ser projetado para o espaço mescla, visto que, como aponta Michaelis (1996), o ponto temporal de ainda coincide com o tempo de referência da asserção.
Consideram Traugott e König (1982, p.178) que a relação entre o significado temporal e o concessivo de ainda é evidência para a “forte relação entre ‘continuidade’ e ‘concessividade’29 ”. Com base na proposição desses autores, afirma Michaelis (1996, p.194) que o esquema geral para a concessividade é a continuidade de uma configuração- x (veja-se a fórmula em [26]) de um dado estado de coisas apesar de, contextualmente, haver uma situação “militante” contra a continuidade dessa configuração. A essa continuidade a autora chama de persistência. Michaelis (1996) destaca, portanto, nesse modelo, dois componentes esquemáticos do significado de still que, segundo ela, compõem o “cenário concessivo”: a persistência e a escalaridade30. Explica a autora que a persistência é um modelo que faz parte do esquema (mais genérico) da escalaridade.
29
Texto original: “strong relationship between ‘continutation’ and ‘concessiveness’ ”.
30
Há ainda um terceiro componente do cenário concessivo, o contraste, que será discutido mais adiante.
A análise de Michaelis (1996) do advérbio still, bem como as outras nas quais a autora se fundamenta, resume-se à verificação da funcionalidade desse advérbio em diferentes contextos, sem considerá-lo como parte integrante de uma conjunção, até mesmo porque, em inglês, não se verifica um conectivo concessivo cuja base lexical seja o advérbio still, ou seja, um conectivo exatamente correspondente a ainda que. Esse fato não invalida e não descarta a possibilidade de verificar as mesmas propriedades semântico-pragmáticas na sua contraparte portuguesa ainda, na forma do conectivo concessivo ainda que. O mesmo se pode apontar para o item juntivo mesmo que, que será analisado a seguir.
6.3.2 A base lexical de mesmo que: focalização e escalaridade
Enquanto o advérbio ainda, apesar de polissêmico, pertence apenas à classe dos advérbios, o item lexical mesmo pode funcionar tanto como advérbio quanto como pronome. Em sua função pronominal (demonstrativo), mesmo indica que entidades comparadas são idênticas, e opera como um reforçador de identidade (29) ou como um indicador de identidade idêntica (30) (NEVES, 2000, p.492; CASTILHO, 2008, p.126, 2010, p.499). Em sua função adverbial, mesmo é focalizador, expressando uma verificação de coincidência com um protótipo31 (31) (ILARI, 2002; CASTILHO, 2010).
(29) Boa parte desta postura pode ser explicada com a chegada definitiva da maturidade e de um novo olhar para si mesmo.
(CDP:19N:Br:Bahia)
(30) Era um edifício doente, contaminado, quase terminal. Mas continuava no mesmo lugar, ainda não tinha desmoronado.
(CDP:19:Fic:Br:Abreu:Onde)
(31) Eu não quero o bem só para mim, mesmo porque, as coisas só estão boas quando são generalizadas. Eu faço o que posso.
(CDP:19Or:Br:Intrv:Cid)
Tanto nas ocorrências (29) e (30), nas quais o item mesmo funciona como pronome, quanto na ocorrência (31), na qual o item funciona como advérbio, percebe-se que o traço
31
Explica Castilho (2010, p.572,) que essa verificação de coincidência com um protótipo diz respeito aos “usos que podem indicar que uma propriedade ou relação se realiza de maneira ‘prototípica’ ou ‘exemplar’ ”.
de identificação de “identidade” é o que perpassa os usos do item lexical mesmo. Com base em Castilho (2010, p.499), pode-se dizer que esse item é em si comparativo, ainda que essa comparação seja de uma entidade com si mesma. O grau de identificação das entidades expresso por mesmo é total, ou pleno. Assim, o esquema semântico desse item lexical implica o que se pode considerar como “a permanência da identidade total” de uma determinada identidade.
O modelo escalar está implicado no esquema semântico do item mesmo; contudo, diferentemente da escalaridade temporal de ainda, a escalaridade de mesmo diz respeito à identidade, ou projeção identitária32. Semelhante à escala de ainda, que tem a referência temporal do enunciado como ponto máximo da escala, a escala de mesmo tem como ponto máximo a identificação total (ou plena) de uma entidade. Importante é destacar que o item lexical mesmo, funcionando como um pronome de identidade idêntica, atua também como operador de foco, visto que o âmbito de incidência desse operador é ou um sintagma pronominal (29) ou um sintagma nominal (30).
Na ocorrência (32), percebe-se que a asserção sobre a qual o item mesmo incide (a
possibilidade da recuperação de Edmundo) é posta em foco. Dessa focalização, emerge
um contraste entre os segmentos em destaque.
(32) Mesmo com a possibilidade da recuperação de Edmundo, o Bahia ainda ficará desfalcado de Eduardo, que cumpre suspensão pelo terceiro cartão amarelo, e do lateral-esquerdo Vanderlei, entregue ao departamento médico por causa de uma contusão na virilha.
(CDP:19N:Br:Bahia)
O que se faz nesta análise quanto à constituição do juntivo concessivo mesmo que, e quanto ao caso de ainda que, é incorporar as propriedades semântico-pragmáticas das bases lexicais quase de maneira “automática” à construção concessiva global. Isto é, o significado de persistência de ainda e o significado de focalização de mesmo, ambos
32
Para Mark Turner (comunicação pessoal) ainda é necessário desenvolver um modelo, com base na teoria dos espaços mentais, que trate da escalaridade de modo genérico. A indicação feita por ele é de que esse modelo deva envolver os mecanismos de compressão e descompressão de espaços mentais. Como não é objetivo principal desta pesquisa percorrer tal caminho, não serão apresentados diagramas que tratem especificamente de escalas, com exceção da representação apresentada no Diagrama 6.1, que é uma adaptação das representações encontradas em Michaelis (1996).
advérbios que compartilham de um esquema semântico mais básico, o de escalaridade, “contribuem” para o significado global da construção concessiva. Nesse sentido, notam- se semelhanças e diferenças quanto ao uso desses itens juntivos. A semelhança está, principalmente, na função pragmática do segmento concessivo em relação ao segmento nuclear, a de preterir. A diferença está, principalmente, na organização da informação e do comprometimento do falante com a veracidade daquilo que é apresentado na construção.
Em ambas as construções, a proposição do segmento concessivo pretere a proposição asseverada no segmento nuclear, isto é, o obstáculo aparente, apresentado no segmento concessivo, é ignorado, e a situação do segmento nuclear se sustenta. Esse esquema remonta à noção básica de concessividade, segundo a qual uma circunstância desfavorável, incluída na configuração da prótase, relaciona-se à apódose (HASPELMATH, KÖNIG, 1998, p.567), que pode ser ilustrada nas construções concessivas a seguir:
(33) Ainda que se trate de pura ficção, sua literatura remete o leitor diretamente à realidade brasileira.
(CDP:19Or:Br:Intrv:ISP)
(34) Também, na policia, não consegui informação sobre o paradeiro do investigador Max. Este é um homem precioso para nós. Além de judeu, ainda que seja conhecido na delegacia como Alemão, é um profissional competente, um verdadeiro Sherlock.
(CDP:19:Fic:Br:Beltrao:Greve)
(35) A PM só tem condição de fazer o trabalho que faz porque é militarizada. É esta condição que impede o soldado de recusar uma ordem, mesmo que ponha em risco a vida.
(CDP:19:Or:Br:Intr:ISP)
(36) Eu não sinto, até agora, que haja uma redução na magnitude de crescimento das importações. Mas mesmo que ela ocorresse e baixasse para 8% a 10% ao ano – significativamente menos do que vinha crescendo até aqui – as exportações continuam crescendo menos.
(CDP:19Or:Br:Br:Intrv:ISP)
A diferença notável entre as construções concessivas com ainda que e as construções com mesmo que diz respeito à factualidade das proposições que constituem
os segmentos da construção concessiva. As construções concessivas com ainda que apresentam sempre um traço mais factual, ao passo que as construções concessivas com
mesmo que apresentam um traço mais eventual. No esquema concessivo, lembram
Haspelmath e König (1998, p.567), tanto o segmento concessivo quanto o segmento nuclear são acarretados, isto é, entre esses segmentos se sustenta uma relação de consequência lógica, nos termos de Levinson (1983, p.174). Dessa forma, em uma construção como
(37) Even though it was pouring down, John went for a walk. [Embora estivesse chovendo muito, John saiu para caminhar].
(HASPELMATH; KÖNIG, 1998, p. 567)
o falante se compromete tanto com a verdade de “Estava chovendo” quanto com a verdade de “John saiu para caminhar”. Nesse esquema, portanto, são tomados como factuais tanto o segmento concessivo quanto o nuclear. Se aplicado este esquema à ocorrência (33), tem-se que “a literatura é pura ficção” e que “a literatura remete o leitor à realidade brasileira”. O mesmo pode ser dito sobre a ocorrência (34), na qual se admite tanto que “ele é conhecido como Alemão” quanto que “ele é judeu”.
Esse esquema de acarretamento e factualidade funciona perfeitamente para as construções com ainda que, mas, para as construções com mesmo que, a organização do esquema é diferente.
Em primeiro lugar, na análise do item juntivo mesmo que, deve-se considerar que ele preserva um vínculo com o item condicional-concessiva mesmo se . Ambos têm sido considerados como marcadores prototípicos das construções concessivas hipotéticas, cujo sentido invoca, simultaneamente, o significado contrastivo e o significado condicional (MATEUS et al, 1989, p.308), como se vê na ocorrência (38), a seguir:
(38) O banqueiro Roberto Setúbal, do Itaú, disse não ter mais certeza de que comprar o Banerj seja um negócio tão bom. Ele não confirma a participação do Itaú no leilão do Banerj, adiado novamente. Mesmo se o Congresso aprovar o empréstimo da CEF, o presidente do Itaú não se sente seguro do ponto de vista jurídico. Ele quer ter mais garantias de que, no futuro, o banco que comprar o Banerj não terá de pagar passivos trabalhistas.
Consideram Dancygier e Sweeter (2005, p.155) que a interpretação básica das construções condicional-concessivas é esta: independentemente do que vem dito na prótase, o está dito na apódose se sustenta. Nesse sentido, na ocorrência (38) lê-se que “com ou sem a aprovação do congresso, o presidente do Itaú não se sente seguro”. Nesse modelo de interpretação, há a implicação de uma cadeia causal “normal”, na qual, a partir do segmento concessivo-condicional (p), espera-se a contraparte negativa do segmento nuclear (não-q); em outras palavras, a situação da apódose q se sustenta cumprindo-se ou não a condição apresentada na prótase p. Há também que se lembrar que as construções concessivo-condicionais são escalares por natureza, (KÖNIG 1986; HASPELMATH; KÖNIG, 1998). A escala estabelecida nessas construções é formada por uma série de condições (C), cujo ponto máximo escalar é aquele apresentado no segmento concessivo-condicional.
Tanto a cadeia de causalidades quanto a escalaridade de condições são traços semântico-pragmáticos dessas construções que determinam a estrutura da rede de espaços mentais por elas evocada. Seguindo-se os mesmos princípios da análise de Dancygier e Sweetser (2005), representa-se, no Diagrama 6.2 a seguir, a rede de espaços mentais de uma construção concessivo-condicional como (38):