3 NO MEIO DO CAMINHO HAVIA UMA REDE
3.2 A REDE DE REDES
EF01
A REBEA é formada pelas multi-relações entre instituições e pessoas de diversos setores: organizações sociais, universidade, governo, empresas, entre outros.
A malha das relações constitui um ambiente multi-setorial de comunicação, com objetivos compartilhados para a construção da
sustentabilidade local e global, e o aprimoramento da educação
ambiental. (...)
Constituindo-se como uma rede de redes, a REBEA desenvolveu-se no ciberespaço, podendo ser considerada uma rede virtual e tem na participação em sua lista aberta, que congrega todos os membros cadastrados, o espaço maior de participação. (...)
Vale salientar que as dinâmicas internas da REBEA estão focadas nas
pessoas e não nas instituições, as quais são reconhecidas como
estratégicas no processo de sustentação, mas não tem peso ou espaço maior que as pessoas nas deliberações e rotinas da rede. Essa característica faz com que participar e operar na Rede, atendendo aos processos de horizontalização e aos movimentos da auto-organização seja uma experiência de aprendizagem permanente de novo fazer político, tendo como habilidades a serem aprendidas e desenvolvidas: a
colaboração, o compartilhamento, o respeito à diversidade, a autonomia, a insubordinação (AMARAL & OLIVATO, 2004:2-3, grifos
meus).
O sentido de rede expresso em EF1 é uma concepção à priori de redes – solidária -, idealizada, “baseada apenas na sua forma aparente” (SANCHEZ, 2008:100) e desconsidera a “lógica de produção de dinâmicas de relacionamento, afastamentos e aproximações, tensões e contradições entre os nós” (idem) característica da rede real. Para Sanchez é
mais importante “observar os processos que levam à articulação em rede que descrever a sua estrutura em si” (ibidem).
A REBEA, para além da idealização, mostra que existe uma distância entre o dizer e o fazer e tem problemas que tornam evidente que a rede solidária só realiza-se discursivamente porque na prática os enredados - no I Encontro com o OG em 2005, com a participação de 43 pessoas e 23 redes-elos - mapearam uma rede caracterizada pela:
• Falta de iniciativa individual e coletiva;
• Ausência do exercício de autonomia;
• Responsabilidade de alguns elos das redes;
• Fragilidade nas estruturas físicas,planejamento estratégico das redes, nos planos objetivos para recursos financeiros;
• Fragilidade na integração entre as redes;
• Não reconhecimento do saber acumulado dos educadores ambientais integrados às redes;
• Necessidade de profissionalização;
• Dificuldades de disseminação das informações;
• Dificuldade de integração de setores;
• Dificuldade na articulação entre as CIEAs e redes;
• Centralidade e fragilidade na capilarização das redes (REBEA, 2008:22).
Em 2008, em nova edição deste encontro – que contou com 67 participantes, de 30 redes locais e diversos membros do OG, o “diagnóstico” atualizado da REBEA é o seguinte:
• Falta apropriação da cultura de redes;
• Falta horizontalidade;
• Falta de informação para atuação em redes e engajamento de elos;
• Ausência de perspectiva de rede;
• Ausência de cultura de rede;
• Falta de participação com comprometimento com a gestão das redes;
• Falta de cultura de redes;
• Falta de unidade na formação política (redes, EA, juventude);
• Falta de reconhecimento das redes por outras instituições e organizações (público e privado);
• Falta articulação entre os vários programas/projetos;
• Falta compromisso articulado das Universidades com a EA ou ambientalização institucional;
• Falta conhecimento das ações;
• Falta entendimento sobre o que é a educomunicação socioambiental;
• Dificuldade de comunicação – poder – descentralização;
• Falta de articulação das redes (REBEA, 2008:72).
3.2.1 O discurso pedagógico da REBEA: a repetição do mesmo
Orlandi em O discurso pedagógico: a circularidade (1996:15-23), caracteriza o discurso pedagógico (DP) como um discurso autoritário. Por discurso autoritário, entende-se aquele em que não há interlocutores, mas um agente exclusivo (ORLANDI, 1996:15). Ou seja, não é um lugar onde haja diálogo, no sentido de existir um sujeito que fala e outro que ouve e esta situação poder ser revertida: aquele que falou, agora ouve e assim por diante. E não é possível a troca, pois os papéis sociais estão cristalizados. É importante destacar que
a análise sugere que o discurso da REBEA em seu espaço de formulação caracteriza-se como um discurso pedagógico – porque reproduz um certo saber institucionalizado sobre o funcionamento da rede – e autoritário – na medida em que este discurso é referendado como matriz de sentido e não esteja disponível para a problematização, pois já está posto.
Esta matriz de sentidos estabilizados vai sendo incorporada e repetida de várias formas diferentes inclusive ao referir outras redes, inscrevendo-se na configuração típica dos discursos pedagógicos que é a circularidade: discursos que se auto-alimentam, repetindo o mesmo sem deixar espaço para a reflexão (ORLANDI,1996: 15). A repetição de um enunciado discursivo e a regularização de seu sentido passa a constituir a memória discursiva (ACHARD, 1983:238-9 apud INDURSKY, 1997:43). Vejamos como isso ocorre na REBEA, a partir de uma rede de formulação:
EF02
A Rede Brasileira de Educação Ambiental é hoje uma rede de redes de educadores. Faz a articulação nacional das redes estaduais e locais. Todos seus facilitadores participam de redes locais ou de núcleos de formação de novas redes (AMARAL, 2004:1).
EF03
A Rede Brasileira de Educação Ambiental é hoje uma rede de redes de educadores. Faz a articulação nacional das redes estaduais e locais. (...) Neste sentido, a experiência de implementar a cultura organizacional de rede revela-se uma experiência política transformadora. É claro que a rede simbiótica, ideal, na qual todos colaboram de forma permanente não existe, é ilusória. O que há é um esforço individual e coletivo para a superação da cultura autoritária, um aprendizado permanente querendo construir novas relações humanas (SANCHEZ, 2008: 120).
EF04
Assim, juntas, as redes de EA nacionais, tecem a rede das redes que articulam e fortalecem a atuação de educadores e educadoras ambientais (GUERRA 2004 apud GUERRA et alii, 2007).
EI08
A rede é muito mais que uma lista de discussão ou "ajuntamento" de pessoas. A rede é uma forma de entendermos que é possível um outro modelo de organização social. A horizontalidade, multi-referencialidade, autonomia, co-gestão, participação, organização e auto-organização, etc. são elementos que proporcionam a uma organização em rede trabalhar de forma diferenciada.
É esse movimento de repetir o mesmo, modificando-o ligeiramente, que permite organizar-se as redes de formulações parafrásicas que regulam a retomada e a circulação do discurso constituindo a memória discursiva. A constituição da memória pode ser produzida a partir de 3 formas de repetição do saber discursivo:
a. A repetição empírica, b. a repetição formal e c. a repetição histórica.
Na primeira há mero exercício mnemônico. Na segunda, já temos uma elaboração, mas que não produz transferência de sentidos. É na terceira forma de repetição, a histórica, que o homem integra o discurso outro em seu discurso. E o faz fazer sentido (ORLANDI, 1996).
Entendo a repetição de esquemas argumentativos característica do trabalho parafrásico da REBEA entre a repetição empírica e a formal, pois em muitos textos há o simples decalque: “recorta-se” o conceito e o “cola” em outro texto sem nenhum tipo de posicionamento. Retomo aqui a idéia de texto como uma heterogeneidade provisoriamente estruturada. Ou seja, considero que o sujeito na posição-autor organizou recortes dispersos em diferentes textos e produziu um efeito-texto. Esse é o sentido de autoria em AD e é nesse sentido que utilizo o termo “original”, porque entendo que esse efeito-texto é por sua vez retomado e atualizado em outros efeitos-texto e aí inicia um trabalho de produção de memória discursiva. Assim, o enunciado EF01 é uma matriz de sentido, a elaboração “original” e é principalmente a partir dessa formulação que se organiza o trabalho de repetição empírica e formal. Neste sentido, EF02 a atualiza. No recorte discursivo EF03 apaga-se inclusive a referência a autoria, evidenciando o trabalho da memória discursiva.
Courtine vai dizer que quando um enunciado retoma um saber, repetindo-o e reformulando-o, atualiza um acontecimento, pois uma formulação origem é re-atualizada e é esse movimento que constitui a memória inscrita na história (COURTINE, 1981 apud INDURSKY, 1997:43-4). Em EI08 e EF04, o imaginário da REBEA sobre a concepção de rede e seu funcionamento é repetido e assumido como matriz de sentido, mostrando como funciona na prática a constituição da memória discursiva. A repetição histórica não está presente no discurso parafrásico da REBEA porque esta pressupõe um trabalho de interpretação e de tomada de posição, a partir da re-contextualização do conceito a partir de novas condições de produção que relacione história e política.