CAPÍTULO I – ENVELHECIMENTO E POLÍTICAS SOCIAS
1.4. Tipos de cuidadores: formais versus informais
1.4.1. Rede de suporte e tipo de cuidados realizado
As atividades básicas de vida diária (ABVD) englobam as tarefas que permitem o autocuidado das pessoas como: “alimentação, vestir, banho, higiene corporal, uso da casa de banho, controlo intestinal, controlo vesical, transferência cadeira-cama, deambulação” (Sequeira, 2010, p. 46-47). Já as atividades instrumentais de vida diária (AIVD) permitem que a pessoa faça, uma gestão das tarefas básicas de vida diária e das tarefas mais completas (instrumentais) com que se depara no dia a dia. Assim, as atividades instrumentais de vida diária englobam as seguintes atividades: “cuidar da casa, lavar a roupa, preparar refeições; fazer compras; usar um telefone; usar transportes, usar dinheiro, responsabilizar por medicamentos” (Sequeira, 2010, p. 54).
Assim, neste âmbito, as redes de suporte ganham uma importância diferente ao englobarem os cuidados prestados às pessoas mais velhas, sobretudo às pessoas mais velhas com demência, devido às carências sociais e emocionais destas últimas.
O cuidado informal e também o formal só tem vindo a ser desenvolvido porque existe uma rede social que vai ganhando uma dimensão, por vezes, considerável que permite auxiliar as pessoas mais velhas. O conceito de rede foi utilizado pela primeira vez nas Ciências Sociais por Barnes (1954, Cit. por Esteves, 2011, p. 38) para fazer referência à importância do vínculo relacional. Para Guadalupe (2001), o conceito de rede social tornou-se importante, para explicar a pertença e consequente identificação dos indivíduos com outros indivíduos e/ou instituições.
As pessoas mais velhas com demência necessitam de cuidados redobrados, quer ao nível das atividades básicas de vida diária quer ao nível das atividades instrumentais de vida diária, comparativamente a uma pessoa de mais idade que não se encontra demenciada. Desta forma, o desenvolvimento destas redes de cuidados implica que haja uma imbricação entre os processos de interação e de socialização e as necessidades reais de cuidados que são imprescindíveis para estas pessoas.
Entre os demais cuidados recebidos é fundamental saber se os cuidados efetivamente recebidos vão ao encontro dos cuidados/“apoios percebidos”, pois para
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Krause (2001, Cit. por Paúl, 2005, p. 278) este tipo de cuidado corresponde para a pessoa que necessita de cuidados “à crença de que os outros significativos podem ajudar em caso de necessidade, sendo que a experiência passada nesse sentido, reforça, ou não essa crença. Segundo, Norris e Kaniasty (1996, Cit. por Paúl, 2005, p. 278) é no “apoio percebido” que se verificam maiores benefícios/ganhos para as pessoas mais velhas.
Em consonância, quando os cuidadores informais são os cônjuges os cuidados prestados evidenciam maiores ganhos, pois aqueles têm para Jani-Le Bris (1994, Cit. por Figueiredo, 2007, p. 71), “uma motivação intrínseca: a solidariedade conjugal vitalícia, uma vez que se casam para o melhor e para o pior, na saúde e na doença. Outra justificação que merece algum destaque são os valores cristãos de amor ao próximo e ajuda aos outros. O amor, a ternura, o afeto ou a comiseração são sentimentos que fazem parte das motivações, mas que não representam uma condição para a prestação de cuidados. (…) Outras motivações prendem-se com a criação de laços fortes e de solidariedade familiar, gratidão sincera em relação aos pais, sem implicação da noção de dever de troca”. Neste âmbito, pode referir-se que nos casamentos, legalmente assumidos, o vínculo do cuidar é assegurado tanto pelo homem, como pela mulher.
Contudo, Litwak (1981, Cit. por Paúl, 2005, p. 278-279) refere que os cuidados prestados pela rede informal, nomeadamente pelos familiares apresentam menos benefícios, em termos de saúde, para as pessoas mais velhas. Tal ocorre, pois os idosos veem e/ou sentem que dão mais trabalho aos demais membros da família. Em contrapartida, há mais ganhos para os doentes no caso da rede de apoio informal ser constituída pelos amigos e/ou vizinhos. Sendo que existem variações ao nível da dimensão e quantidade de apoio prestado quando se situa esta problemática na dualidade rural-urbano. Para Paúl (2005) a qualidade dos “cuidados percebidos” será, por norma, menos significativos no meio rural do que no meio urbano. No meio urbano as pessoas mais velhas têm a possibilidade de recorrer a mais pessoas para suprirem as suas necessidades.
Nesta analogia, nos meios rurais há maiores dificuldades em obter os cuidados de saúde necessários, sobretudo no caso das pessoas mais velhas que apresentem demências. A desertificação, emigração, imigração de familiares e demais comunidade, as comorbilidades e morte das pessoas que próximas, estes idosos têm cada vez menos pessoas que disponíveis para a prestação de cuidados e para interagirem com eles. Porém, esta problemática não fica plenamente resolvida quando as pessoas mais velhas vêm viver
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para os meios urbanos com os filhos e/ou netos, pois mantêm algumas dificuldades em desenvolver laços sociais.
Contudo, para Paúl (2005) a convivência intergeracional, sobretudo, entre avôs e netos parece trazer grandes benefícios não só para as pessoas mais velhas, como para os filhos e netos. Quando as pessoas mais velhas ainda não apresentam défices cognitivos e/ou funcionais auxiliam os filhos e netos nas tarefas domésticas, acompanham o dia-a- dia escolar e/ou lúdico dos netos. Decorrente do seu papel social, estes idosos, constroem ganhos em termos de autonomia, independência, autoestima e até da própria satisfação; sentem-se recompensados por poder ajudar aqueles que lhe são mais queridos. Em muitos casos, o(s) cuidado(s) que os filhos e netos têm para com os mais idosos, como fazer-lhes companhia e/ou recordar-lhe da hora da toma da medicação, são vistos pelos idosos como recompensas e/ou ganhos, inerentes, à própria fase de vida.
No caso das pessoas mais velhas que apresentam demências, seja num estadio ligeiro, grave ou moderado, a presença dos filhos e netos, sobretudo, nos estadios ligeiros pode ajudar a retardar o processo de degeneração cognitiva e funcional. O próprio convívio e interação, como o brincar com um neto ou escutá-lo, pode, mesmo nos estadios mais graves e/ou moderados, ter um papel fundamental na manutenção da memória. Assiste-se assim, a uma renovação do significado de ser avô e avó na nossa sociedade, principalmente, ao longo dos últimos anos. De acordo com Paúl (2005), “as crianças aprendem a olhar os velhos através dos olhares dos pais, dos seus professores, dos seus pares, dos media que distraidamente consomem e aprendem eles próprios a envelhecer com base nessas imagens que os rodeiam que se entranham neles que se transformam em comportamentos e vivências do presente e do futuro” (p. 282).