• Nenhum resultado encontrado

Lucas Trajano

Eixo 1 Rede global para megaeventos no lugar

Atualmente, encontra-se em curso no Rio de Janeiro uma política urbana voltada para a promoção de megaeventos, como a recém- encerrada Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de 2016. Essa modalidade de política urbana é o resultado da ação de uma rede de atores globais, que associa comitês esportivos, grandes corporações nacionais e internacionais, diferentes instâncias de governo, agentes financeiros, e também organizações sociais. Essa rede objetiva atrair milhões de turistas para a cidade, sendo capaz de concretizar a estrutura móvel da globalização (EGLER, 2011). A investigação está focada no destino dos investimentos realizados pelos diferentes atores que participam da rede e na análise das transformações sobre a estrutura econômica, bem como na ação política, para permitir a análise dos seus resultados sobre o espaço e sobre a vida dos moradores da cidade.

A fim de participar da rede de cidades globais, o governo do Rio de Janeiro passou a promover políticas urbanas capazes de colocar a cidade na competitividade do sistema global. Constitui-se, então, uma rede de mega

Tamara T

ania Cohen Egler

, F

abiana Mabel de Oliv

eira e L

ucas T

rajano

corporações dedicada ao desenvolvimento de grandes eventos imateriais, de forte conotação simbólica, dentre os quais os jogos esportivos.

O discurso oficial valoriza o desenvolvimento econômico. Sua argumen- tação está associada à capacidade de ampliar as operações de turismo, impactar a economia, ampliar a capacidade de valorização do capital e promover a ampliação do número de empregos. A preocupação central é, mediante a divulgação nacional e internacional da marca Rio de Janeiro, gerar impactos positivos no desenvolvimento social, na arrecadação muni- cipal e na formação de uma opinião pública favorável à visitação da cidade. Mas, quais são os atores que participam da rede da globalização das cidades? Como eles se associam? E quais são seus interesses? Para responder a essas perguntas, devemos examinar as relações que se estabelecem entre política, economia e território, para encontrar na sua análise a compreensão associada à enunciação política do discurso até a valorização imobiliária. Para tanto, podemos dividir a estratégia global em dois eixos principais: o primeiro dedica-se à transformação física do espaço da cidade do Rio de Janeiro, e o segundo amplia a mobilidade global. No primeiro, a “tecnoesfera”, é preciso identificar os atores que participam das redes globais (como, por exemplo, as corporações, as estratégias da política urbana em diferentes níveis de governo, a valo- rização da construção de equipamentos para grandes eventos, a imple- mentação do sistema de transportes para viabilizar a mobilidade global). No segundo eixo, a “psicoesfera”, observamos a formação de “atratores”, como os megaeventos esportivos, que deverão atrair milhões de turistas e proporcionar a valorização do capital das empresas associadas à mobi- lidade global – empresas aéreas, rede hoteleira e agências de turismo –, além de um grande número de pessoas que acompanham os turistas em seus passeios pela cidade. Esse é o caso das amigas de aluguel, que cobram para passear com os turistas pelas ruas do Rio de Janeiro.

É preciso, em suma, identificar, localizar e analisar os equipamentos destinados à realização dos jogos esportivos e compreender os sistemas de transportes que articulam os equipamentos destinados a eles. Resulta em uma totalidade espacial fragmentada, que exige um alto nível de mobilidade para o acesso aos seus equipamentos. Quando o plano dos jogos começou, existia um debate na cidade. De um lado, os arquitetos defendiam uma loca- lização central e, do outro, os políticos, que apostavam na fragmentação, o que resultava na descentralização.

Era preciso um plano para produzir a alta mobilidade espacial e garantir o processo de valorização imobiliária contido na estratégia.

Rede no Rio: dominação e indignação

Ganhou a proposta descentralizada. Podemos imaginar os custos associados aos imensos investimentos realizados na estrutura física do sistema de transporte e os lucros obtidos com a mobilidade resul- tante desses investimentos. Em outras palavras, produz-se uma necessidade socialmente inútil para ampliar o investimento estatal, pago pelos moradores do Rio de Janeiro, para propiciar um lucro extraordinário para os atores da “tecnoesfera” e da “psicoesfera”, como afirma Milton Santos (1994).

Há também que se construir um cluster em torno dos equipamentos, a fim de evitar a proximidade da violência nos territórios conquistados pelos atores globais. Para chegar a esse objetivo, no Rio de Janeiro as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) cumprem o papel de manter e reiterar o apartheid dos moradores. Foram instaladas mais de 50 delas nos arredores dos equipamentos para garantir a pacificação dos territó- rios da globalização, conforme apresenta o mapa abaixo.

Tamara T

ania Cohen Egler

, F

abiana Mabel de Oliv

eira e L

ucas T

rajano

Todos esses processos acarretam importantes efeitos sobre a cidade e a vida dos seus habitantes. É extremamente grave o que está acontecendo. Está em curso um processo de expulsão de moradores, comerciantes não globalizados e tradicionais na cidade. Basta um passeio pelo Rio para observar os efeitos perversos do processo de destruição/construção do espaço urbano. A cidade foi transformada em um gigantesco canteiro de obras. Tratores passam quase que literal- mente por cima das pessoas e de seus negócios, em prol de interesses alheios ao lugar. Assiste-se à destruição do espaço do lugar em bene- fício da formação de um não lugar. E as consequências não se fizeram esperar. O tempo de deslocamento em transporte urbano para todos os grupos sociais aumentou de forma expressiva, habitações foram remo- vidas à revelia dos moradores, um número elevado de estabelecimentos comerciais não globalizados foi fechado, escolas encerraram temporaria- mente suas atividades.

Outline

Documentos relacionados