Considerações finais
3. rede de Política Pública de Turismo no Polo marajó
O Fórum Regional de Turismo do Marajó (FOREMAR) é uma instância de governança de turismo regional, criada no ano de 2006, em consequência da (re) organização política ins- taurada pelo Governo Federal. Foi constituída a partir da realização da oficina de Institucio- nalização da Instância de Governança Regional do Programa de Regionalização de Turismo-Roteiros do Brasil, tornando-se um “órgão colegiado consultivo, propositivo e mo- bilizador, destinado a participar interativamente da implementação da Política de Turismo do Polo Marajó” (PARÁ, [2006?], p.3).
A criação do Fórum foi significativa para o turismo no Estado do Pará e, por certo, no Polo Marajó, pois como destaca Gohn (2004), a instância, seja no âmbito municipal, distrital ou regional, possui a capacidade de tornar público as ações em seus respectivos níveis de atuação, por estarem ao alcance dos seus cidadãos, bem como assegurar maior participação dos agentes do turismo nas tomadas de decisões. Assim, considerando esse aspecto e ana- lisando os registros de reuniões do Fórum de Desenvolvimento Turístico do Estado do Pará (FOMENTUR), no período de 2014 a 2017, observa-se que alguns assuntos obtiveram mais relevância do que outros nas discussões sobre o turismo no Polo Marajó, como assuntos re-
35 lacionados ao transporte para o Marajó, à questão relacionada ao atrativo, à demanda e à divulgação turística.
Constata-se que arranjos institucionais, como o FOREMAR, que integram a organização civil, representado pela iniciativa privada, poder público e sociedade civil, têm a possibilidade de: 1) interferir na criação das agendas de políticas públicas; 2) envolver os diferentes agentes da atividade turística do Marajó, para compartilhamento de informações e estabelecimento de decisões; e 3) estimular o papel do cidadão, enquanto um agente político e social.
A questão fundamental é entender: como essa participação é alcançada e dinamizada? Quais os agentes, de fato, participam? E como são realizadas as escolhas dos assuntos trata- dos nas reuniões? Isto é, a participação tem sido realizada sob diferentes enfoques. Umas reuniões, por exemplo, conseguem provocar e estimular a participação de diferentes agentes na tomada de decisão, enquanto que em outras poucos agentes participam, mas conseguem ter um peso político forte para a tomada de decisões.
No que se refere ao Polo Marajó, por um longo período tentou-se resolver o grande im- passe que dificultou o turismo na região, que é a questão do transporte de qualidade para os municípios. Notou-se que, somente no final de 2015 e início de 2016, algumas soluções começaram a dar início, sobretudo com a inserção das lanchas rápidas para os municípios de Soure e Salvaterra
é notório que a dificuldade do transporte para o Marajó é bastante evidenciada nas reuniões do FOMENTUR, porém cabe salientar que no planejamento do turismo, precisa-se compreender a importância de outras questões inerentes ao seu desenvolvimento, como: a preocupação e gestão dos recursos naturais e ambientais; a valorização das tradições cultu- rais e dos patrimônios materiais e imateriais; a necessidade de inclusão das comunidades locais no desenvolvimento do turismo; a divulgação dos produtos/atrativos turísticos ofere- cidos pelas empresas locais e regionais; formação de mão de obra, capacitação e incentivos financeiros para as empresas. Portanto, inúmeras questões devem ser consideradas no pla- nejamento da atividade, pois viabilizam de maneira prática, as ações propostas nas políticas públicas de turismo.
A falta de organização e envolvimento dos que estão diretamente ligados à atividade turística no Marajó, como empresas, poder público e, em alguns casos, organizações da so- ciedade civil, foi o grande fator para que a atenção das políticas públicas de turismo fossem direcionadas somente para alguns municípios em detrimento do restante. Porém, outras questões também são evidenciadas, mas que precisam ser analisadas com mais critério nos municípios do Marajó, como as interferências políticas, pontuadas nas seções anteriores.
Dentre as dificuldades destacadas pelo então presidente do FOREMAR, está a expecta- tiva dos agentes envolvidos com a dinâmica do turismo na participação da instância, pois “[...] as pessoas acham como você vai ter uma associação representando...as coisas vão acon- tecer do dia para a noite e não é bem assim que as coisas acontecem [...] pode acontecer daqui a três, quatro, cinco e até antes mesmo, sabe?5”. E complementa, afirmando que o tu- rismo é uma atividade complexa, por envolver diferentes setores econômicos e órgãos pú- blicos para a sua realização, bem como diversos órgãos do governo, o que pressupõe que o 5Entrevistado 3- Representante do FOREMAR. Informação concedida em janeiros de 2018. Trecho da resposta re- ferente a segunda pergunta: 2) Como tem sido dinamizada a participação de diferentes agentes sociais no Fórum/Conselho? Quais os participantes?
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seu planejamento, assim como o processo de discussão deve ser cauteloso, pontuando as necessidades e possibilidades para a concretização de suas ações.
A comunicação entre os agentes da rede de política pública de turismo é um dos prin- cipais instrumentos para a ampliação da participação que, no Marajó, foi em grande medida falha. Poucos deliberavam os rumos das políticas de turismo, tanto de Soure quanto de Sal- vaterra, sem contar com outros municípios do Arquipélago do Marajó, dos quais alguns se destacaram no recebimento de verbas do Ministério do Turismo (MTUR), como Breves, São Sebastião da Boa Vista e Chaves, sem tampouco estarem presentes nas discussões políticas de turismo tanto no FOREMAR quanto no FOMENTUR. Isto é, ainda que tenham sido priori- zados, politicamente, com esses repasses, o FOREMAR é a instância regional, na qual as de- mandas e a representação dos municípios devem ser consideradas para a formulação da Política Regional de Turismo do Polo Marajó e, principalmente, para que haja uma rede sólida de Políticas Públicas de Turismo.
Considera-se que os resultados da dinâmica de descentralização das políticas de turismo estão diretamente relacionados à influência de participação dos agentes envolvidos com a atividade. Assim, poucos resultados são percebidos quando o envolvimento e a comunicação estão comprometidos. Por certo, a não participação dos agentes inviabiliza os objetivos de descentralização, pois não há como descentralizar as ações e políticas se não há quem par- ticipe. Por maior empenho que um representante possa ter, para a realização dos objetivos dos Fóruns ou Conselhos, as demandas dos municípios e dos seus cidadãos só poderão ser compreendidas e levadas para as agendas de políticas públicas se antes de tudo houver co- municação/conhecimento.
Compreende-se que a relação/interação entre os agentes em uma determinada rede é essencial para entendê-la enquanto um processo social, isto é, “as relações que se estabe- lecem dentro de uma unidade são fundamentais para a compreensão das redes sociais” (WASSERMAN; FAUST, 1994, tradução nossa). Portanto, não se pode compreender as Redes de Políticas Públicas sem, contudo, entender o processo de relação estabelecida entre os agentes do turismo e, isto é, principalmente, por meio da utilização da comunicação. Tais apreensões são ainda mais compreendidas quando o fortalecimento de comunicações locais são destacadas nas políticas públicas. Porém, ainda com dimensões geográficas menores que as instâncias regionais, os Conselhos municipais ainda são compreendidos pelos gestores como um mecanismo de desenvolvimento da atividade turística local. No Caso do Arquipé- lago do Marajó, mesmo sendo municípios prioritários da Política Estadual, Soure, Salvaterra e Ponta de Pedras, ainda não conseguiram implementar/criar essa importante concepção de participação, salvo Soure, que, com dificuldades, criou o Conselho, mas pouco foi imple- mentado de forma prática.
Considerações finais
A análise pôde evidenciar que a participação e/ou a realização de cooperação e parceria não devem se restringir somente a esses mecanismos institucionais como Fóruns e Conse- lhos, ainda que seja reconhecida a sua finalidade em constituir canais descentralizados. Tendo em vista que, a exemplo do Polo Marajó, poucos municípios conseguiram criar canais de des- centralização, tal como o Conselho Municipal de Turismo. E, dos três municípios do Arqui-
37 pélago do Marajó, o Conselho de Turismo foi apenas instituído, não significando, porém, que seus objetivos foram efetivados. Considera-se que muitas questões ainda inviabilizam a cria- ção e efetivação desses canais de redes. Questões políticas são cruciais para a inviabilização desse processo pois, alguns gestores não querem debater sobre o turismo em seus municí- pios e muito menos repassar recursos para subsidiar as instâncias, como Fundos Municipais. Além disso, questões culturais e sociais têm significativa importância nesse aspecto pois, o envolvimento dos agentes na Rede de Políticas Públicas de Turismo é incipiente, ou até ine- xistente, no Marajó, o que imobiliza ações que se direcionem para a ampliação de processos participativo-democráticos.
Mesmo sendo canais horizontais que permitem, teoricamente, maior flexibilidade e participação de diferentes agentes na tomada de decisão, muitas instituições que represen- tam a sociedade civil, como as associações empresariais e comunitárias, limitam-se em par- ticipar das instâncias de governança locais e regionais, por entender que existem formalidades para participar. Seja por não terem sido convidados ou porque é constituído por pessoas e entidades que têm uma representação política e econômica superior. Por essa e outras motivações, a descentralização fica limitada aos agentes que detêm maior poder de comunicação e até de influência política.
Considera-se que, mesmo com a criação de medidas para a descentralização das políti- cas públicas as ações políticas de turismo, ainda se mantêm centralizadas em poucos agentes que detêm o conhecimento da sua existência. Como se observou nos municípios de Soure e Salvaterra, muitos agentes do turismo e da sociedade civil desconhecem a existência desses canais participativos de turismo, seja por não manifestarem o interesse em participar desses mecanismos, por apatia política, seja por nunca receberem convite para participarem das reuniões.
Sabe-se que a governança reside na capacidade de criar canais institucionalizados legí- timos, que cooperem para o envolvimento dos agentes sociais e políticos no processo de elaboração e implementação de políticas públicas (AZEVEDO; ANASTASIA, 2002). O desafio, para a consolidação de canais democráticos, está no aperfeiçoamento e aprofundamento das instituições democráticas, com vista a assegurar a sua continuidade para além das in- fluências políticas/partidárias e dos interstícios eleitoreiros.
As instituições observadas nos municípios de Soure e Salvaterra estão muito afinadas aos debates trazidos nesse trabalho sobre cidadania, participação e governança. Porém, a maior dificuldade encontrada é a ineficiência da comunicação entre essas instituições. Con- sidera-se que a comunicação entre os agentes/instituições é extremamente importante para a criação/manutenção das redes de turismo. A não comunicação reflete na incapacidade de decidir em conjunto, como propõe o Programa de Regionalização do Turismo. Sem a comu- nicação entre as diferentes instituições formadas no seio da sociedade civil, qual seria, então, a funcionalidade das instâncias, como os Conselhos Municipais de Turismo e Fóruns de Tu- rismo? O município, aqui, considera-se a sociedade que o envolve, e seus gestores devem compreender a potencialidade da atividade turística não apenas como fator econômico, mas como uma atividade que possibilita, por exemplo, a funcionalidade do “ser cidadão” e do “participar”, sobretudo numa região como o Arquipélago do Marajó, que é marcada por pro- cessos intensos de exclusão socioeconômica, o que reitera a necessidade de ampliar as dis- cussões sobre o turismo na região.
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jUVENTUDE, rEsIsTêNCIA E FATorEs DE ProTEção Ao
CoNsUmo DE DrogAs
Derick Tinôco1 Liana Romera2 Núria Codina3 resumo
A ocupação do tempo livre da juventude contemporânea é marcada pelo uso de drogas principalmente durante as noites dos finais de semana. Optar pelo não uso destas substâncias pode se configurar, para o jovem que vive nesse contexto, como uma forma de resistência à cultura consumista e efêmera em que ele está inserido. Assim, o objetivo deste estudo foi: conhecer e analisar os fatores que contribuem para não utilização de substâncias psicoativas, conhecidas popularmente como drogas. Trata-se de uma pesquisa quantitativa descritiva que utilizou como técnica para a coleta de dados um questionário on- line auto-aplicável. A amostra do estudo foi composta por jovens universitários dos cursos de Educação Física da Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil. A coleta de dados buscou levantar os padrões de consumo desses jovens e verificar se elementos apontados pela literatura como protetivos estão presentes na vida dos indivíduos que relataram menores usos. A análise dos dados foi feita relacionando os percentuais de consumo de álcool e outras drogas com os percentuais de participação em atividades tidas como protetoras pela literatura, com ênfase para as atividades extraescolares. Indivíduos que de- clararam ser evangélicos apresentaram menores índices de consumo do que não religiosos ou adeptos de outras religiões. A prática de esporte como atividade extraescolar e a participação em projetos de prevenção não se mostraram de fato protetores ao uso de psicoativos. A idade do início do consumo foi relevante para predizer padrões futuros de uso, mostrando ser importante retardar as primeiras experiências com drogas. Assim como o esporte, outras atividades extraescolares analisadas separa- damente não mostraram resultados expressivos. Contudo, participar de diferentes tipos de atividade concomitantemente serviu como proteção para a amostra em questão. Os resultados apresentados indicam atividades e fatores que podem ser estimulados e que são capazes de trazer benefícios para juventude na prevenção de problemas relacionados ao uso de drogas.
PALAVrAs-CHAVE
Juventude; Drogas; Fatores de Proteção; Atividades Extraescolares; Lazer.
Introdução
Hiperconsumo e hedonismo são características presentes na sociedade contemporânea, que contribuem para a busca incessante de novas experiências e sensações (LIPOVETSKY, 2007). Nesse cenário, os momentos de lazer são valorizados pela capacidade de aliar a busca do prazer e da liberdade, que, combinada com o uso de drogas, possibilita novas sensações, alteração de percepções e sociabilidade. O consumo de substâncias psicoativas (SPA), ou drogas, aqui entendidas como quaisquer substâncias que atuem no Sistema Nervoso Central e sejam capazes de causar alterações na psique humana e produzir dependência (BERGERON, 1Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil. E-mail: [email protected]. 2Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil. E-mail: [email protected]
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2012), encaixa-se nesse contexto, funcionando como uma espécie de atalho ou fórmula para o “bem-estar” momentâneo.
O estado atual de consumismo extrapolou a ideia de acúmulo de bens, objetos e valores, e se voltou primordialmente para o consumo de signos e imagens, contribuindo para a for- mação de uma espécie de mundo irreal, onde é cada vez mais difícil distinguir o concreto do imaginário. Esse processo, conhecido como estetização da vida, prioriza o estilo, com a busca constante de novas modas, sensações e experiências, promovendo mudanças nos conceitos de vida e nas culturas urbanas, alterando também estruturas e relações sociais, com maior propagação dos estilos de vida atrelados a momentos de lazer (FEATHERSTONE, 1995).
A transformação das cidades em centros de consumo, com popularizadas atividades de lazer, muda a lógica das transações de compra e venda, antes pautadas por um racionalismo mais claro, e as converte em atividades culturais de lazer. Isso significa que um bem ou serviço não visa mais sanar uma necessidade objetiva real (FEATHERSTONE, 1995).
Entre os jovens o uso de psicoativos, majoritariamente efetivado em espaços de lazer noturno e de finais de semana, é uma tendência percebida sobretudo em países industriali- zados, num panorama de popularização e banalização que justifica a criação de uma cate- goria de classificação de uso intitulada recreativa. A prática de diversão noturna aliada ao consumo de drogas se tornou uma forma de lazer praticamente hegemônica para a juven- tude, e as substâncias não são importantes apenas pelos efeitos orgânicos e psíquicos, mas também por contribuírem para a lógica consumista de diversão de fim de semana. (CALAFAT; JUAN, 2003).
O lazer noturno, entendido como fenômeno social, consolidou-se na década de 1980 e se difundiu rapidamente entre o público jovem, acrescido do interesse de por meio do con- sumo atingir estados mais elevados de bem-estar, melhorar a capacidade de comunicação e quebrar inibições (HENRIQUES, 2003). O uso de álcool e outras drogas seguiu a nova forma de ocupação do tempo livre, ocorrendo principalmente nos finais de semana e associados a momentos de diversão (GONZÁLEZ; BUENO, 2003). O consumo de apenas uma única subs- tância praticamente desapareceu e o policonsumo, ligado muito mais à sociabilidade e à re- creação, ganhou destaque, sendo notável também o uso em excesso durante estes curtos períodos de tempo.
Para o jovem inserido neste contexto, optar pelo não uso de substâncias psicoativas pode se configurar como uma forma de resistência à cultura consumista e efêmera em que se encontra. Dessa forma, entender quais fatores contribuem para o não desenvolvimento de usos excessivos destas substâncias pode contribuir no fortalecimento do indivíduo e na prevenção a comportamentos de risco. Estes fatores, chamados de fatores de proteção, serão entendidos no texto como sendo o conjunto de condições que favorecem o desenvolvimento e fortalecimento dos sujeitos, observando-se, além de fatores sociais, quais atividades são mais praticadas por indivíduos que não fazem uso de drogas ou o fazem de maneira come- dida (SCHENKER; MINAYO, 2005).
À luz da literatura da área, as principais estruturas sociais que moldam os comporta- mentos ao longo da vida são a família, os amigos, a religião e a forma de ocupação do tempo de lazer. Tais estruturas podem se tornar fatores protetivos ou de risco, de acordo com as características desses ambientes e das relações ali desenvolvidas.
41 O lazer, apesar de estar atrelado ao consumo de drogas, quando pensado como prática de liberdade traz pressupostos que indicam que atividades praticadas junto aos diferentes grupos sociais e planejadas com intencionalidade educativa possibilitam o desenvolvimento pessoal e, consequentemente, comunitário. A prática do lazer configura-se, nessa perspec- tiva, como possivel contribuição para a construção de sujeitos coparticipantes do processo educativo, capazes de transformar as próprias condições de vida, hábitos e costumes (MAS- CARENHAS, 2000).
Partindo do pressuposto de que atividades de lazer sistematizadas e planejadas guar-