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financiamento/bolsa Brasil 2009-

REDE PRIVADA

Matrícula na Rede Privada, por Tipo de

Financiamento/Bolsa -2009-201 7

Percentual de matrículas na rede privada com algum tipo de

financiamento/bolsa - Brasil 2009-2017

Distribuição da matrícula na rede privada por tipo de

financiamento/bolsa - Brasil 2009-17

22,6 27,2 30,5 34,6 40,9 46,1 44,4 45,7 46,3 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 40,0 45,0 50,0 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 13,2 11,7 14,5 24,3 37,0 48,1 49,4 44,3 37,1 33,6 26,0 24,0 22,4 17,5 16,2 17,9 19,5 21,1 53,2 62,3 61,5 53,3 45,5 35,7 32,7 36,2 41,8 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017

FIES PROUNI Outros

133.089 151.035 220.603 434.000 817.081 1.303.202 1.332.369 1.226.352 1.070.460 337.727 337.185 365.782 399.507 385.427 437.786 483.336 538.708 609.434 535.204 806.667 937.135 951.739 1.003.755 966.342 883.363 1.003.387 1.207.874 - 200.000 400.000 600.000 800.000 1.000.000 1.200.000 1.400.000 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017

FIES PROUNI Outros

* Outros: Cebas, Proies, financiamentos próprios das IES, financiamentos estaduais e municipais, etc

O volume de recursos aportados pelo Prouni e o Fies cresceu, entre 2003 e 2014, num ritmo superior ao total de gastos com educação realizado pelo governo federal, fazendo com que a participação desses programas no orçamento do MEC saltasse de 3,42% para 12,32% nesse período. Enquanto o total de gastos federal com a educação aumentou 172,22%, os gastos com o Fies aumentaram 833,84% (REIS, 2015, p. 188). Quando somamos os gastos com o Fies com as insenções do Prouni, temos um crescimento de 880,42% (REIS, 2015, p. 187) o que fez com que a participação relativa desses dois programas no total dos gastos federais em educação tivesse um aumento bastante acentuado, como podemos ver no gráfico abaixo:

Gráfico 45 - Gastos tributários com o Prouni e despesas da União com o Fies como percentual do gasto federal total em educação (2003-2014) - (em %)

Fonte: Senado Federal (Portal Orçamento). Demonstrativo da Execução Orçamentária por Órgãos e Unidades Orçamentárias (2003-2014) . (REIS, 2015, p. 188)43

Esse crescimento acentuado, entre 2011 e 2014, se explica pelo fato de que os valores liquidados para o Fies foram maiores que os valores da dotação orçamentária inicial

b) Prouni (ano 2014): Secretaria da Receita Federal. Demonstrativo dos Gastos

43

Governamentais Indiretos de Natureza Tributária - (Gastos Tributários) – PLOA 2014; Prouni (ano 2013): Secretaria da Receita Federal. Demonstrativo dos Gastos Governamentais Indiretos de Natureza Tributária - (Gastos Tributários) – 2013; Prouni (anos 2006-2012): Secretaria da Receita Federal. Demonstrativo dos Gastos Governamentais Indiretos de Natureza Tributária - (Gastos Tributários) - Estimativas Bases Efetivas Ano Calendário 2008-2012; Prouni (ano 2005): IPEA. Boletim de Políticas Sociais. Acompanhamento e Análise, no16, nov. 2008.

2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

3,42 3,17 3,66 3,88 3,84 4,04 3,87 3,69 4,07

5,55

9,53

enquanto o MEC experimentava cortes em seu orçamento. Assim, enquanto a diferença entre o valor liquidado e a dotação orçamentária inicial do MEC tiveram uma média de 10,41% de redução, os valores liquidados no Fies foram, em média, 244,95% maiores que a dotação orçamentária inicial (REIS, 2015, p. 189), o que mostra a absoluta prioridade dada pelo governo ao Fies, mesmo num contexto de cortes orçamentários.

Como nos mostra Luiz Fernando Reis,

as novas regras permitiram, a partir de 2010, uma forte transferência de recursos públicos para grandes grupos educacionais privados. Doze mantenedoras, vinculadas à Kroton-Anhanguera, receberam juntas mais de R$ 2 bilhões, o dobro, por exemplo, da Embraer que fabrica aviões militares. Outros grupos receberam vultosas quantias: a Estácio recebeu R$ 683 milhões e a Unip R$ 390 milhões (REIS, 2015, p. 190).

O balanço financeiro da Kroton nos mostra que a participação do Fies foi, no período estudado, responsável por mais da metade de suas matrículas presenciais e mais de 25% das matrículas totais (presencial + a distância) e o Prouni lhes dá anualmente isenções milionárias, chegando a quase R$ 885 milhões em 2015, segundo release de resultados publicado.

No release de resultados do quarto trimestre de 2011, publicado pela empresa Kroton pouco mais de um ano após a mudança no Fies, podemos ler:

Analisando somente o segmento de graduação presencial, o crescimento foi de 43% no número de entrantes. Temos convicção de que um dos grandes responsáveis por esse desempenho é a evolução do Fundo de Financiamento Estudantil do Ensino Superior (Fies), já que somos reconhecidos como um dos principais operadores do programa desde o seu início. Em março, 33,2% da nossa base (37 mil alunos) assinaram contratos do Fies, sendo que sua relevância, durante os processos de captação vem apresentando um crescimento contínuo

chegando a 43% neste início de ano, em comparação com 14% no mesmo período de 2011 (KROTON, 4T11, p. 2).

Algo bastante parecido pode ser encontrado no Relatório de sustentabilidade da Estácio:

Encerramos o ano de 2013 com uma base total de 315,7 mil alunos, 16,3% acima de 2012, sendo 255 mil alunos matriculados nos cursos presenciais e 60,7 mil alunos nos cursos a distância. Cabe destacar que o número de alunos que utilizam o FIES também aumentou significativamente, chegando a 76 mil. Hoje, cerca de 32% dos nossos alunos de graduação presencial utilizam o sistema de financiamento (ESTÁCIO, 2013, p. 52).

Além da participação geral no número de matrículas, podemos perceber também como o financiamento estatal teve outro efeito importante para o faturamento dessas empresas, sendo fator de aumento do valor médio das matrículas.

Novamente tomando a Kroton como exemplo, podemos ver que o “ticket” dos estudantes que contam com o Fies é significativamente maior do que os que pagam suas mensalidades diretamente. Segundo o “release de resultados do primeiro trimestre de 2018”, divulgado pela Kroton, o "ticket" pago pelos aderentes aos Fies é de R$ 1.235,80, enquanto os alunos diretamente pagantes têm um "ticket" médio de R$ 805,50, o que ajuda a entender o movimento de aumento médio das mensalidades no ensino superior como vimos anteriormente. O “ticket" pago pelos estudantes aderentes do Fies só não foi mais alto que dos estudantes que fizeram o financiamento direto com a Kroton (R$ 1.271,00), que passa a acumular as funções de empresa de ensino com as de financeira (KROTON, 1T18, p. 13). Não é à toa que, segundo a própria Kroton, "desde o início do programa, as ações de marketing, comunicação e vendas da Companhia foram orientadas para divulgação do Fies" já que "os resultados estão sendo bastante significativos” (KROTON, 4T11, p. 10).

Assim,

o apoio do governo federal aos grandes grupos educacionais privados, por meio da transferência de recursos públicos, foi convertido,

eufemisticamente, em indutor do acesso dos pobres à educação superior, em democratização das oportunidades educacionais. Na prática, os grandes grupos educacionais têm seus lucros garantidos pelo governo federal, por meio do repasse de recursos públicos. Os alunos ficam endividados e o governo federal assume plenamente os riscos da inadimplência. O governo federal, em nome da democratização do acesso dos pobres à educação superior, converte-se em fiador dos negócios lucrativos, do “capitalismo sem riscos”, dos grandes grupos educacionais privados (REIS, 2015, p. 191).

É interessante notar que, diante da queda do Prouni e do Fies, houve um incremento no número de matrículas que utilizavam “outros tipos de financiamento/ou bolsas”, o que nos faz levantar a hipótese de que os grandes monopólios privados do ensino superior cada vez mais desenvolvem uma função de financiadores das mensalidades dos alunos para própria expansão, o que faz com que elas articulem ainda mais sua dimensão financeira com a de vendedora de serviços educacionais, ganhando tanto com a venda de vagas no ensino superior (que vimos que é sensivelmente mais caras para os estudantes que utilizam o financiamento da própria instituição) como com a cobrança de juros pelo “crédito estudantil”.

4.9 - A educação a distância

As transformações tecnológicas, a ampliação do acesso aos modernos meios de comunicação e informação, como a internet, e um conjunto normativo e regulamentações feitas a partir de 2005, com o Decreto 5.622 , de 19 de dezembro de 2005, o Decreto 5.773 , 44 45

de 09 de maio de 2006 e o Decreto 6.303 , de 12 de dezembro de 2007, foram fatores 46

importantes para a expansão da modalidade de educação a distância.

Nesse processo, a regulamentação dessa modalidade teve um peso decisivo por normatizar as disputas e a incertezas sobre a validade formal dessa formação, estabelecendo a validade nacional e a equivalência com a formação presencial. Dessa forma, entre 2006 e 2016, houve uma expressiva ampliação da EaD no ensino superior no país. Se em 2006, as matrículas em cursos de EaD representavam 4,2% do total, em 2016, elas passaram a corresponder a 18,6%, como podemos observar no gráfico a seguir:

DECRETO Nº 5.622, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2005. Regulamenta o art. 80 da Lei nº 9.394, de

44

20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

DECRETO Nº 5.773, DE 9 DE MAIO DE 2006. Dispõe sobre o exercício das funções de

45

regulação, supervisão e avaliação de instituições de educação superior e cursos superiores de graduação e seqüenciais no sistema federal de ensino.

DECRETO Nº 6.303, DE 12 DE DEZEMBRO DE 2007. Altera dispositivos dos Decretos nos 46

5.622, de 19 de dezembro de 2005, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e 5.773, de 9 de maio de 2006, que dispõe sobre o exercício das funções de regulação, supervisão e avaliação de instituições de educação superior e cursos superiores de graduação e seqüenciais no sistema federal de ensino.

Gráfico 46 - Matrículas ensino superior - presencial X EaD (2006-2016)

Fonte: Censo da Educação Superior - INEP (2016)

Temos que notar também que esse avanço fez mudar a composição da EaD por categoria administrativa: pública ou privada. Como nos mostra Valdemar Sguissardi, entre 2002 e 2012,

Para um aumento de 1.768% (40 mil para 1.113 mil) das matrículas de EaD no período, as públicas aumentaram 404% e as privadas, 2.946%. Em 2002, a proporção era de 84% de matrículas públicas e 16% privadas; em 2012, 16% eram matrículas públicas e 84% privadas (SGUISSARDI, 2015, p. 885).

Essa tendência se acentuou no período imediatamente posterior ao investigado por Sguissardi, e, em 2015, das 1,39 milhão de matrículas em EaD no Brasil, 1,26 milhão são em instituições privadas (TOKARNIA, 2017), ou seja, mais de 90% das vagas em EaD foram em instituições privadas.

Mesmo a iniciativa governamental, com a instituição da Universidade Aberta do Brasil (UAB), instituída pelo Decreto 5.800 , de 08 de junho de 2006, não foi capaz de 47

contrabalancear essa tendência. Aliás, as matrículas em EaD em instituições públicas não só se mantiveram relativamente baixas no período como vêm apresentando uma forte tendência à redução.

Gráfico 47 - Matrículas EaD em IES públicas (2003-2016)

Fonte: elaborado com dados do Censo da Educação Superior - INEP

Desse modo, podemos ver que, a despeito do discurso de inclusão democrática que servia de sustentação para a ampliação da EaD e, sobretudo, da EaD em instituições públicas, via Universidade Aberta do Brasil, essa modalidade de ensino tem sido quase que inteiramente entregue à iniciativa privada. Isso não apenas pelo crescimento mais acentuado dessa modalidade nessas instituições, mas também pelo recuo absoluto das matrículas da EaD nas instituições públicas. Em 2016, das 1.494.418 matrículas de graduação em EaD, apenas 122.601 foram em instituições públicas, ou seja, apenas 8% das matrículas foram nessas instituições.

O marco regulatório da EaD, articulado com programas de incentivo às IES privadas, como o Prouni e o Fies, fez com que a EaD fosse quase que inteiramente privatizado

DECRETO Nº 5.800, DE 8 DE JUNHO DE 2006. Dispõe sobre o Sistema Universidade

47

Aberta do Brasil  -  UAB. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2006/decreto/d5800.htm 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 122.601 128.393 139.373 154.553 181.624 177.924 181.602 172.696 278.988 94.209 42.061 54.515 35.989 39.804

no país. Dessa forma, podemos ver novamente o mecanismo de privatização e dualidade agindo na educação superior no país nos anos de governo do PT, embora no caso da EaD a expansão no número de matrículas em instituições privadas de ensino permanece, tanto no número absoluto das matrículas, como na participação relativa no conjunto das matrículas de graduação.

4.10 - Cursos de graduação tecnológicos

Outra tendência de diferenciação que podemos observar no período é o crescimento no número de matrículas em cursos superiores tecnológicos. Segundo a LDBEN, os cursos de graduação tecnológicos "organizar-se-ão, no que concerne a objetivos, características e duração, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação” (LDBEN, art. 39 §3) (Incluído pela Lei nº 11.741, de 2008). Segundo o Catálogo Nacional de Cursos Superiores de Tecnologia (SETEC/MEC, 2010), esses cursos têm a carga horária mínima que variam de 1600 até 2400 horas, ou seja, respeitando as normativas constantes na LDBEN, que estabelece 200 dias letivos de 4 horas para um ano letivo, esses cursos teriam duração de 2 ou 3 anos, ou seja, são cursos mais curtos que os de licenciatura e bacharelado, que deverão ter, no mínimo, 3 anos de duração.

Como podemos ver, apesar do predomínio dos cursos de bacharelado e de licenciatura, os cursos tecnológicos tiveram uma grande expansão no período, com um crescimento de 190,3% entre 2006 e 2016. Assim, se em 2006, as matrículas nos cursos de graduação tecnológicos representavam 7,2% do total das matrículas em cursos de graduação, eles passaram a representar 11,8% em 2016.

Gráfico 48 - Número de matrículas em cursos de graduação, por grau acadêmico (2006-2016)

Fonte: Censo da Educação Superior - INEP (2016)