• Nenhum resultado encontrado

3 OBJETIVOS

6.3 Camada 2: rede social e comunitária

6.3.1 Rede social e comunitária

Os usuários e familiares deste estudo foram questionados sobre quais lugares eles costumam frequentar além do CAPS e suas respostas originaram a presente categoria.

Para Barbosa et al.108, a rede social envolve aspectos relacionados aos sujeitos, de

forma institucional ou estrutural, nas suas diversas relações sociais atuando como recursos de apoio, como as igrejas e as instituições de saúde. Por rede de apoio compreende, a interação entre os sujeitos ou grupos, através da criação de vínculos de proximidade, recebendo apoio afetivo e material, contribuindo para o bem-estar e a manutenção da saúde, como os amigos, familiares, vizinhos e outros108.

No Modelo Calgary de Avaliação de Família, as autoras Wrigth e Leahey29 enfatizam

na Teoria dos Sistemas, a importância de compreender a família como sistemas, buscando identificar os problemas de saúde, os recursos necessários para supera-los e o apoio disponível da comunidade. Elas ainda colaboram com a discussão de que o sistema familiar faz parte de um supra-sistema mais amplo, como as relações de convivência com grupos religiosos, associações, vizinhos, serviços de saúde e a comunidade no geral.

Para Wrigth e Leahey29 é necessário que se compreenda o funcionamento da família

por meio das relações internas e externas, tanto no subsistema quanto no macrossistema, permitindo a identificação das relações com aqueles considerados como família, e destes para a comunidade, sendo, portanto, reconhecidos como elementos fundamentais da rede de apoio e no tratamento da saúde mental109.

As ações direcionadas a saúde mental não devem ser realizadas exclusivamente intramuros, mas devem desvendar os demais espaços territoriais significativos para o sujeito em sofrimento psíquico, considerando como dispositivos de intervenção e articulação de recursos terapêuticos a serem utilizados em conjunto com o usuário e a família, vislumbrando outras formas de convívio, de estar junto e de viver em sociedade110.

Wrigth e Leahey29 sugerem a utilizam do genograma e ecomapa para melhor

compreensão da composição e vínculos familiares, e destes com o meio externo, sendo possível conhecer os sistemas mais significativos entre os sujeitos e a família, e a sua rede de relações sociais. Estes instrumentos também permitem aos profissionais da atenção em saúde mental criar estratégias de promoção e reabilitação da saúde.

Diferentes locais da comunidade foram mencionados como parte da rede social dos participantes desta pesquisa, como as praças, bancos, serviços de saúde, além das instituições religiosas.

No genograma e ecomapa de F4 percebe-se a construção de vínculo forte com a Unidade Básica de Saúde, já que utiliza para consultas de pré-natal, atendimento com os demais profissionais da unidade e recebimento de medicações, pois está grávida e faz uso constante deste serviço. Já com o hospital possui um vínculo moderado, indo apenas quando vai realizar algum exame ou quando sente dores.

Ela também mantém vínculo de superficialidade com as agências bancárias, frequentando apenas quando precisa resolver algo de sua mãe, e com a igreja mantém um vínculo forte: Vou em hospital para fazer exames. Para o banco e caixa com minha mãe e a

igreja sempre (F4). Para U4 ir à casa da irmã em outro município lhe proporciona momentos de

interação com seus familiares, construindo um vínculo forte: Eu gosto de ir para granja da

minha irmã que fica perto de Bom Jesus. O carro da prefeitura me leva. Passo uns 4 dias e sinto a paz do campo (U4).

A F8 se considera católica, mas não frequenta a igreja regularmente, mantendo um vínculo de superficialidade, e ir à praça com sua filha torna-se um momento de distração e de lazer, sendo um dos lugares para onde costuma ir, construindo um vínculo moderado: Eu vou

as vezes para igreja. Às vezes na praça com minha filha (F8). Já para F5 ir à casa de seus pais

é algo que faz frequentemente, sendo, portanto, um vínculo forte, assim como a igreja. Relata ainda participar de “atividades e palestras interessantes” na associação de pescadores, sendo possível observar através do ecomapa uma relação moderada: Eu só vou para casa da minha

mãe mesmo com ele [filho]. Às vezes vou na associação de pescadores, quando tem reunião. Vou na igreja toda terça, quinta e domingo (F5).

Observando o ecomapa de U5 percebe-se a construção de vínculos superficiais quando confrontado sobre os lugares que frequenta, relatando apenas idas a casa da avó e de um amigo: Vou na casa da minha avó. Moramos no sítio, e às vezes em outro sítio na casa de um amigo (U5).

A rede social configura-se como o grau de relação entre duas ou mais pessoas, e contribui para o reconhecimento enquanto sujeito na construção da sua identidade para o sentimento de bem-estar, pertença e autonomia111. Os sujeitos da rede social, num contexto

comunitário, desempenham funções importantes na vida dos indivíduos com transtorno mental, auxiliando nas soluções de problemas, oferecendo orientações e companhia112.

Siqueira et al.113 aponta a importância das redes sociais de apoio para sujeitos em

sofrimento psíquico, visto que elas funcionam como suporte, já que ativam outras formas de convívio, no incentivo a utilização dos serviços de saúde e consequentemente no tratamento de doenças.

Nesta pesquisa foram relatados outros espaços, fora o CAPS, em que os sujeitos entrevistados podem ampliar a sua rede psicossocial. Destacaram-se as idas a igreja, associações, casa de amigos e familiares, e de acordo com alguns estudos há uma forte relação entre uma rede social estável, forte e solidária e a proteção da pessoa contra doenças, além de acelerar o processo de cura. A partir destas informações se percebe a necessidade de maior incentivo a inserção desses sujeitos em espaços públicos, colaborando na reabilitação psicossocial111.

Destaca-se a importância da inserção ou vinculação dos serviços de saúde mental com os elementos que permeiam as redes sociais do indivíduo em sofrimento psíquico. Para isso a compreensão da realidade vivenciada pelos usuários e as informações sobre as possibilidades de redes de apoio dentro do território são deveras importantes, até mesmo para ampliar as possibilidades de interações sociais e diminuição do isolamento verificado no presente estudo. Esse esforço torna-se mais uma demanda entre as diversas diligências dos profissionais que atuam nesses serviços, sendo necessária maior permeabilidade desses serviços com a comunidade bem como a compreensão, por parte dos profissionais, de sua fundamentalidade. Destacam-se ainda as particularidades de cada profissional, ou mesmo comprometimento, na busca por informações acerca dos elementos, que poderiam ser rede de apoio extramuros, disponíveis onde o serviço de saúde mental é oferecido ou nas proximidades da residência dos usuários.

Documentos relacionados