Capítulo III. Apresentação dos resultados
A. Entrevistas aos reclusos
4. Rede Social e Recursos
Esta categoria encerra em si vários aspetos encontrados nas narrativas acerca das perceções do apoio externo, mais concretamente do apoio familiar e do grupo de amigos. Muito deste apoio é percecionado através das visitas, telefonemas e outros tipos de contacto mantido como, por exemplo, os amigos questionarem os familiares mais próximos sobre o recluso. Dentro desta categoria podemos encontrar duas diferentes categorias, sendo elas a Relação com a Família e Perceção do Apoio Familiar e o Grupo de Amigos e Perceção do seu Apoio.
4.1. Relação com a Família e Perceção do Apoio Familiar
A subcategoria Relação com a Família e Perceção do Apoio Familiar foca-se nos relatos que todos os participantes tiveram acerca das suas famílias e de como é a relação que os liga. Torna-se pertinente que, inicialmente, seja analisado o tipo de relação familiar existente para que, depois, seja melhor compreendido o apoio prestado pela mesma. A maioria dos reclusos afirma que a sua ligação à família é positiva, sendo possível notar nos seus discursos a importância que esse facto tem. Veja-se, neste sentido, o caso de Ivo que
28 afirma que a sua relação é “muito boa, graças a Deus. É a única coisa que eu tenho. Quando falo em família, falo da minha mulher e o meu lado da família. A minha tia, a minha mãe, não me falta nada, graças a Deus.”
No caso de Rui, a relação familiar é retratada como uma ligação forte, tendo a família um papel importante na vida deste recluso. Contudo, mostra-se imperativo referir que Rui é de etnia cigana o que, a seu ver, explica a coesão do núcleo familiar. Este revela que “a nossa relação é boa, mesmo forte. Somos uma família unida, muito junta para o bom e para o mau. O facto de ser cigano também nos torna mais coesos. E quando se têm filhos ainda nos tornamos mais unidos para nos protegermos.”
Contudo, existem dois dos participantes cuja relação familiar não é relatada de forma tão positiva como as anteriores, sendo que um deles – Luís – refere mesmo que a ligação com a sua família não existe desde que mudou do estabelecimento prisional de Custóias para o de Santa Cruz do Bispo, contando que “desde que vim para esta cadeira, a relação é zero. Só tenho a minha mulher e as minhas filhas.”
Relativamente à perceção do apoio familiar, os testemunhos conduzem a uma divisão entre os dois reclusos cuja relação familiar é relatada como fraca e os restantes quatro que afirmam terem uma ligação positiva às suas famílias. Assim, nos casos em que a relação não é boa, o apoio percecionado pelos participantes é igualmente pobre. No caso de Luís, este afirma que não pode contar com o apoio da sua família, referindo apenas que tem um tio a trabalhar no estrangeiro que pode ser uma mais-valia na procura de emprego pós- reclusão e os sogros que tomam conta das suas filhas quando a companheira vai trabalhar. Este refere ainda que a sua companheira tem sido o seu grande apoio. Já Abel relata que, apesar de a relação com a sua família não ser a melhor, esta ajuda a sua filha e conta ainda com o apoio da família aquando da procura de emprego pós-reclusão.
No que concerne aos casos em que a relação familiar é descrita como boa, os quatro participantes percecionam o apoio da família como algo positivo. De estes, todos referem as visitas, tanto as normais com os familiares, filhos e companheiras, as íntimas com a companheira e as VIP com os filhos e companheiras, como uma fonte importante de apoio, assim como os telefonemas. Do apoio prestado, maioritariamente pelas companheiras, filhos e pais, este é tanto psicológico como financeiro. Mais, também estes reclusos percecionam a apoio familiar como uma mais-valia na procura de emprego pós-reclusão. Veja-se, a este propósito, o exemplo de Ivo.
Em tudo. Em tudo o que eu preciso. Estou preso há 17 meses e não me posso queixar da minha família. Tenho sempre visitas com a família, tenho visitas VIP com a minha filha e mulher e visitas íntimas com
29 a minha mulher, que ainda tive ontem. Já tive umas 4 ou 5 visitas íntimas e ajudam um bocadinho na relação. E assim também sobra mais tempo para as visitas com a minha mãe e com a minha filha que às vezes é complicado.
Os advogados é sempre a minha família que paga, tenho sempre à volta de 50 ou 60 euros por semana, por isso não me falta nada.
(Ivo)
4.2. Grupo de amigos e Perceção do seu Apoio
No que diz respeito ao grupo de amigos, apenas dois reclusos afirmam que alguns dos seus amigos se afastaram a partir do momento em que foram presos, podendo apenas contar, no caso de Luís com um amigo, ao qual chama compadre e o qual acredita que o vá ajudar na procura de emprego e, no caso de Ivo, com um amigo que é dono de um cabeleireiro no qual conta a vir a ser empregado futuramente. Contudo, os restantes participantes referem que nenhum dos seus amigos se afastou deles devido à reclusão, havendo, inclusivamente, um que afirma que a experiência da reclusão os aproximou mais.
Relativamente ao apoio sentido, este resulta, sobretudo, do contacto com os familiares mais próximos, que são questionados acerca do amigo recluso. Contudo, os participantes afirmam compreender que os amigos não os visitem na prisão, uma vez que para isso teriam que perder a visita dos seus familiares, da qual não querem abdicar. Estes amigos apresentam-se, segundo a perceção dos reclusos, como uma mais-valia no apoio que podem prestar aquando do término da pena, tanto com apoio psicológico, como no auxílio na procura de emprego. No entanto, no caso de Tomé, este refere que apenas vai querer dos amigos o convívio e a amizade.
Sinceramente, eu não vou procurar muito apoio dos meus amigos quando sair daqui, vou procurar mais apoio na minha família e procurar mais em mim (…) o único apoio que eu vou querer deles é o convívio e a amizade. Quando digo apoio que não vou procurar é apoio financeiro ou ajudar-me a tentar arranjar trabalho, acho que não vou por ai porque me sinto-me mais apoiado pela minha família e tem mais hipóteses de dar certo por aí. Mas claro que precisamos de amigos.
(Tomé)