2 REDES DE PESQUISA, INTERLOCUÇÕES, DESCRITORES DE
2.1 INVENTANDO E ANALISANDO DESCRITORES DE
2.1.3 Redes e aprendizagens ,
As pesquisas envolvendo o terceiro descritor – redes e aprendizagens – apresentam problematizações que atravessam o campo da Comunicação, da Educação, da Psicologia e da Saúde e se esparramam por entre redes de relações que se conectam por narrativas fotográficas e corpos (des)montados e que evanescem no facebook como espaço de aprendizagem e invenção de subjetividades contemporâneas (TEIXEIRA, 2014). Redes também de socialização de saberes e percursos formativos de jovens a partir de suas incursões na educação superior (BORGHI, 2013). Dizem, ainda, de corpos infames que se desenham coletivamente ao habitarem territórios pedagógicos analisados a partir de um Centro de Atendimento Psicossocial para Usuário de Álcool e Outras Drogas e suas redes de (re)existência (VASCONCELOS, 2013).
Assim, Teixeira (2014) conecta-se ao facebook para discutir a construção e as representações de subjetividades dos sujeitos em suas evidências corpóreas, observando como eles discorrem sobre suas singularidades por meio das narrativas fotográficas compartilhadas no facebook, entendendo esse espaço como processo de construção simbólica do corpo, um território de possibilidades de tessituras e representações corporais juvenis, em que as subjetividades são projetadas e configuradas em Eus fluidos e performáticos, tendo o corpo como inventário aberto
de códigos culturais construídos na instantaneidade que a cibercultura imprime nos sujeitos juvenis.
Aponta, em seu trabalho, que esses sujeitos se movimentam interativamente e trocam experiências, tecem redes de confiança, redes de amizades, redes de colaboração num processo de compartilhamentos e aprendizagens que se converge e se legitima na exibi(ação) do fazer criativo das narrativas fotográficas, à medida que promove interfaces entre diferentes maneiras de ver, compreender, recriar e compartilhar ideias e propostas de sociabilidades e alianças, por meio de intercâmbios que fazem circular reflexões, ações, conhecimentos e saberes.
A pesquisadora nos diz, ainda, que, para os sujeitos juvenis, os corpos são canais tecnodigitais de comunicação e, ao serem publicizados no facebook, são tecnologias descentralizadas de produção de verdades, de conceitos, numa perspectiva de discursos polifônicos de todos que compõem o processo, nas ações do curtir, comentar e compartilhar caminhos da liberdade da expressão do ver, do sentir, do estar inventando rotas pedagógicas na construção dos saberes, a partir de seus repertórios de obras livres e criativas.
Rotas pedagógicas que tomam o território do facebook como um espaço permissivo às suas orgias visuais a exibir e a exercitar corpos fluidos, em uma liberdade criativa, que dançam em redes de significações, seduzem, evanescem, compartilham seus estranhamentos e instauram o que pensam sobre o mundo, rabiscando subjetividades por meio dos corpos narrados fotograficamente e transformados em suportes plásticos cheios de sentimentos e atitudes: corpos em ação que ficam à deriva nas nuvens, com a sensação de existirem em algum lugar.
As narrativas fotográficas juvenis, publicizadas no facebook, constituem-se, desse modo, em inventários abertos, promotores de conhecimentos, numa perspectiva anárquica livres dos modelos e das convenções educacionais. Com isso, esses sujeitos estão indicando outras rotas de ensinar e aprender: críticas e autônomas. Um fazer pedagógico inspirado na práxis libertária, construído a partir dos diálogos e compartilhamentos de desejos, quereres, inquietações, em forma de imagens que os auto-orientam e os autoeducam e promovem novas educações (TEIXEIRA, 2014).
Por fim, o trabalho enfatiza a emergência na implementação de processos
educativos mais coerentes com outras rotas de aprendizagens, fomenta a
cooperação e a colaboração nas dinâmicas sociais que os sujeitos juvenis estão traçando, em um movimento coletivo de (re)invenções para que a educação possa
ser curtida, comentada e compartilhada pelos sujeitos de seus tempos e espaços.
Pensando também em redes e aprendizagens a partir de teorias, olhares e mergulhos outros, Borghi (2013) nos convida a pensar na metáfora da rede em companhia de Nobert Elias (1994, apud BORGHI, 2013), quando este nos diz que a compreensão da rede só é possível se considerarmos a maneira como seus fios se ligam e se conectam uns aos outros, em suas relações recíprocas.
Em busca dessas reciprocidades, a pesquisadora mergulha para investigar a maneira como as famílias dos jovens que acessam o ensino superior, sobretudo por meio do ProUni, socializam saberes e lidam com as relações de poder, criam mecanismos de socialização de saberes que fortalecem os estudantes em suas trajetórias escolares e que, por serem continuamente alimentados, lançam mão da criatividade, constroem uma relação com o conhecimento escolarizado e com as aprendizagens possíveis de provocar rupturas no pensamento.
Alimenta esses argumentos por meio das contribuições de Freire (2006a, 1983) e Brandão (1985), uma vez que esses pensadores reconhecem os espaços da vida cotidiana como ambientes educativos e produtores de expressões culturais. Dialoga ainda com Boaventura de Souza Santos (2005, 2010), quando trata das epistemologias do Sul como propostas epistemológicas insurgentes, contra a perspectiva monocultural do conhecimento hegemônico, para dar visibilidade às outras maneiras de conceber a construção do conhecimento, tornando visíveis diversas experiências de grupos sociais que vêm sofrendo injustiças ao longo do tempo (BORGHI, 2013).
A pesquisadora aposta que, na dinâmica cotidiana em que os estudantes do ProUni se encontram, apesar das dificuldades, dos desvios de perspectivas que o programa assume em suas atualizações, esses estudantes criam redes e elos de saberes que vão se conectando a outros elos e compondo os mapas formativos desses sujeitos
em que as redes de socialização de saberes vão se configurando no diálogo com diversos níveis do vivido.
A ideia de rede, portanto, precisa ser entendida, considerando o modo como os fios se interconectam por meio de redes de cooperação que não podem ser compreendidas como um todo homogêneo, sem considerar o papel dos fios interligados, os quais tecem a rede de cooperação com as particularidades dos sujeitos que intercambiam seus recursos colaborativos, sejam eles sociais, sejam materiais e imateriais, os quais se conectam como os fios que confeccionam as redes mais sofisticadas e se interligam para compor a história de formação dos estudantes em destaque.
Por meio das redes de cooperação, esses sujeitos alteram os contornos definidos para o programa de política pública ProUni, pois o descompasso entre as condições oferecidas pelo programa em discussão e a realidade socioeconômica dos bolsistas teria inviabilizado a permanência dos jovem na academia, não fossem os ajustes gerados pela criatividade e solidariedade dos estudantes em suas redes de cooperação social, tantas vezes configuradas como redes de relações subterrâneas. Isso nos desafia a pensar numa proposta formativa conectada com as experiências produzidas nas redes de socialização de saberes dos grupos populares, alinhada a uma perspectiva de educação que dialogue com os conhecimentos dos estudantes, que crie condições de aprendizagens que considerem esses sujeitos como protagonistas de um novo jeito de fazer educação, pertencentes ao universo dos que constroem conhecimentos para novas formas de significação e edificação da vida. Pensando, ainda, a partir de outras formas de significação da vida, Vasconcelos (2013) percorre rastros de construção de corpos em um Centro de Atendimento Psicossocial para Álcool e Outras Drogas para pesquisar como são montados os arranjos de masculinidade dos corpos de profissionais, corpos dos usuários, corpo da instituição e dos cuidados que aí habitam.
Denuncia o quanto tem sido difícil para os corpos que circulam nessas instituições superar o legado da compreensão desses espaços como cárceres e manicômios e como se insiste em circunscrever a diferença em quadros moralizantes, em que o
cuidado perpassa por possíveis enquadramentos e produção do asilamento daquilo que se quer escapar no cerne da sociedade de controle.
Salienta a fragilidade da rede de atenção à saúde mental que não consegue se articular com os variados serviços, os diferentes sujeitos e coletivos que fazem parte dessas redes que tendem a possuir porta de entrada, mas, muitas vezes, não têm porta de saída. Desse modo, o espaço de experimentação que possibilitaria a produção de outras saúdes e subjetividades, que não as tutelares, se encurta e se encurrala.
Ainda segundo a pesquisadora, pode-se pensar a modulação das condutas na perspectiva da sociedade biopolítica como um problema pedagógico que se desenvolve ao acionar investimentos e procedimentos educacionais que formam sujeitos governáveis por meio de uma pedagogia das condutas que se traveste em projetos terapêuticos: gestos são inscritos nos corpos, processos de ensino- aprendizagem ali se tecem, organizando corpos, formando profissionais e usuários. Entretanto, esses corpos sempre maleáveis e disponíveis aos poderes são, ao mesmo tempo, lugar de disputa e de afrontamento, pois, para arranjos políticos diferentes, corpos diferentes, resistências diferentes, ilimitados modos de produção de corpos. Em outros termos, bem ali onde territórios de ensino organizam os corpos de profissionais e usuários, ali mesmo, aprendizagens escapam ao governo das condutas, criando possibilidades de singularização que aprendem a desaprender e produzem outras rotas, outras formas de corpo, de sexualidade.