Capítulo 2 – A coevolução de trajetórias tecnológicas concorrentes no setor de E&P offshore e a
5.2 Patentes
5.2.5 Redes de cotitularidade de patentes em processamento submarino
A Figura 5.8 apresenta três estruturas de redes de cooperação tecnológica que representam o compartilhamento da titularidade das patentes em processamento submarino entre os atores que colaboraram no desenvolvimento conjunto da tecnologia entre 1990 e 2019. Ao contrário das redes de colaboração em pesquisa (ver Seção 5.1.7), as colaborações, na dimensão de patentes, são menos frequentes. A ausência de uma estrutura de redes densa evidencia assimetrias existentes nas capacidades de apropriabilidade das bases de conhecimento de distintos atores que colaboram nas dimensões de pesquisa e projetos demonstrativos. Nas três estruturas de rede analisadas, as interações entre os atores são caracterizadas, em sua maioria, por relações diádicas e triádicas. Na indústria do petróleo, muitos conhecimentos tecnológicos não são patenteados, mas protegidos na modalidade de segredo, devido seu alto valor estratégico. Sendo assim, os padrões de cooperação tecnológica, em nível de patentes, refletem aspectos particulares das estratégias de inovação das empresas desse setor específico.
Através da análise da rede 5.8a, se observa uma estrutura de rede de cotitularidade, constituída por usuários (companhias de petróleo) e fornecedores, no período entre 1990 e 1999. A Resource Technology, uma empresa fornecedora de soluções em tecnologias marítimas é o principal ator nessa rede. Na rede 5.8b, as fornecedoras ABB e Vetco Gray (atualmente, subsidiária da ABB) constituem uma única estrutura de rede.
Na rede 5.8c, é possível observar a existência de quatro redes distintas. A primeira representa as interações da Schlumberger e Cameron refletidas em sua joint venture, a Onesubsea. A segunda estrutura de rede apresenta as interações da Halliburton com outras empresas fornecedoras de equipamentos de bombas elétricas, em especial, a Summit ESP. A terceira estrutura de rede tem como principal ator, a companhia de petróleo chinesa CNOOC. Nessa rede, a CNOOC interage com fornecedoras e universidades chinesas no desenvolvimento de tecnologias associadas ao processamento submarino. A última rede é caracterizada por um maior número de colaborações entre companhias de petróleo, fornecedoras e universidades chinesas. A Daqing Oilfield, Petrochina e Sinopec são os principais atores na rede.
A análise dessas redes indica que as companhias de petróleo chinesas vêm estabelecendo uma estratégia de inovação marcadamente colaborativa com fornecedores e universidades locais. Essa estratégia reflete os interesses da China em desenvolver capacidades
tecnológicas endógenas, visando identificar e se apropriar dos conhecimentos em tecnologias emergentes no setor do petróleo offshore.
A ausência de redes de cotitularidade envolvendo a Petrobrás reflete a política de patenteamento da empresa. Essa política caracteriza-se pela prioridade da companhia de petróleo brasileira como depositante titular das patentes na proteção da propriedade intelectual resultante de esforços colaborativos. Desse modo, ainda que nas patentes da Petrobrás constem apenas um depositante titular, a proteção da propriedade intelectual pode corresponder a um resultado de uma colaboração com outras empresas, ou, universidades. Ainda que não tratada no escopo desta dissertação, sugere-se um estudo mais aprofundado nas patentes em coinvenção a fim de capturar as colaborações implícitas nas patentes em cotitulardade.
Figura 5.8 - Redes de cooperação tecnológica em processamento submarino de petróleo e gás natural (1990-2019)
5.3 Considerações
O presente capítulo buscou caracterizar a base de conhecimento sobre o processamento submarino de petróleo e gás natural, através de duas investigações. A análise de publicações se debruçou sobre os indicadores de cumulatividade de conhecimentos, enquanto a análise das patentes, indicadores de apropriabilidade. Em primeiro lugar, o ritmo de desenvolvimento da tecnologia tem se acelerado à cada período analisado. A produção de conhecimentos sobre o processamento submarino, tanto na dimensão das publicações, quanto na dimensão das patentes, reforça o argumento da diversificação das trajetórias de desenvolvimento dessas tecnologias em direção aos conceitos de AA; CSG; ES; SS e TRI.
Os principais atores associados à produção de novos conhecimentos em tecnologias de processamento submarino são companhias de petróleo e empresas fornecedoras de equipamentos e serviços. As primeiras são responsáveis pela maior cumulatividade do conhecimento, enquanto as últimas detenham maior parte do conhecimento apropriável dessas tecnologias. Entretanto, isso não significa que as companhias de petróleo “perdem” no jogo da inovação, ou recebem o movimento inverso da inovação. Em verdade, a análise empírica sugere que as companhias de petróleo compartilham informações e conhecimento comercialmente não-apropriável de suas respectivas bases de conhecimento, fundamental para a emergência da nova tecnologia, em publicações. Por sua vez, as empresas fornecedoras tendem a produzir conhecimento comercialmente apropriável que está codificado nas patentes.
As redes de colaboração científica (publicações) e cooperação tecnológica (patentes) apresentam características distintas. Ao longo do tempo, as ligações existentes nas primeiras se adensam o ponto de estabelecer uma rede complexa, em que os principais atores são compostos por companhias de petróleo, empresas fornecedoras e organizações de pesquisa (por exemplo, universidades). Essas redes sugerem que a complexidade envolvida nas atividades de P&D relacionadas ao processamento submarino exige um esforço coordenado por múltiplos atores para produzir novos conhecimentos sobre essas tecnologias emergentes. As companhias de petróleo são os atores responsáveis pela governança desse esforço inovativo. A cooperação tecnológica, por sua vez, carece de estruturas de rede densas. Sendo assim, a análise de patentes em cotitularidade revela que os atores que compartilham os títulos de uma mesma patente associada ao processamento submarino estabelecem ligações diádicas, ou triádicas. Essas patentes podem ser um tipo de resultado tecnológico de alguma aliança estratégica entre esses atores.
A posição dos clusters nas redes de colaboração científica também sugerem a robustez do sistema de inovação do setor de petróleo e gás natural de diferentes países. À guisa de exemplo, o cluster de atores brasileiros, em que a Petrobrás desponta como principal ator possui ligações fortes com diversos clusters de atores estrangeiros em posições periféricas. Essa relação reflete, por um lado, a sofisticação da base de conhecimento da indústria brasileira de petróleo em atividades de E&P, bem como para sua importância para o avanço da fronteira do conhecimento no setor. Por outro lado, a colaboração internacional pode engendrar um processo emparelhamento dos sistemas de inovação de países periféricos, através do aprendizado tecnológico e desenvolvimento de capacidades.
Capítulo 6 – Análise funcional do sistema tecnológico de inovação em processamento